… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

SALMO 30


C. H. Spurgeon
O Tesouro de David
SALMO 30
Título: “Salmo e canção na dedicação da Casa. Salmo de David”, ou noutra leitura dos originais, “Salmo da coleção de David. Cântico para a consagração do templo”, ou um cântico de fé, posto que a casa de Jeová, no seu projeto, foi algo que David nunca viu realizado. Um Salmo de louvor, posto que tinha sido parado um penoso juízo e perdoado um grande pecado.

Vers. 1. Exaltar-Te-ei, ó Senhor, ou noutra leitura dos originais, Louvarei a Tua grandeza, Senhor. Terei uma alta e honrosa conceção de Ti, e expressá-la-ei com a minha melhor música. Outros podem esquecer-Te, murmurar de Ti, desprezar-Te, blasfemar o Teu nome, mas eu “Exaltar-Te-ei”, “Louvarei a Tua grandeza, Senhor” porque fui favorecido acima dos demais.

Vers. 1. Porque Tu me exaltaste, ou noutra leitura dos originais, Porque tu me salvaste. Aqui há uma antítese. “Exaltar-Te-ei, ó Senhor, porque Tu me exaltaste.” A graça nos tirou do fosso do inferno, da sarjeta do pecado, do pântano do abatimento, do leito da enfermidade, da escravidão das dúvidas e dos temores; não temos um cântico para oferecer por tudo isto? Até onde nos tem exaltado o nosso Senhor? Tem-nos exaltado para o lugar de filhos, para nos adotar na Sua família; exaltou-nos numa união com Cristo, “para estarmos juntamente com Ele nos lugares celestiais.” Exaltai o Nome do nosso Deus, porque Ele nos exaltou por cima das estrelas. C. H. S.

Vers. 2. Senhor, meu Deus, clamei a Ti, e Tu me saraste, ou noutra leitura dos originais, Ó SENHOR, meu Deus, eu pedi-Te ajuda e Tu curaste-me. Se o relógio pára nós levamo-lo ao relojoeiro; se o nosso corpo ou a nossa alma estão numa situação difícil, recorremos Àquele que os criou, e à Sua habilidade infalível, para os pôr de novo em condições. Quanto às nossas enfermidades espirituais, não há nada que as sare exceto o toque do Senhor Jesus Cristo; se tocarmos a orla da Sua túnica seremos curados, enquanto que se nos socorremos de outros médicos, estes não nos vão ser muito úteis.

Vers. 2. E Tu me saraste, ou E Tu curaste-me. O verbo usado no original “wnakdt denota “movimento recíproco de alcatruzes num poço, um que desce e outro que sobe, e vice-versa; e é aplicado aqui com propriedade admirável para indicar a reciprocidade e mudança nas fortunas de David conforme se descrevem neste Salmo, como a prosperidade e a adversidade. Samuel Chandler.

Vers. 3. Senhor, fizeste subir a minha alma da sepultura: conservaste-me a vida, para que não descesse ao abismo, ou noutra leitura dos originais, SENHOR, tu tiraste-me da morte; restituíste-me a vida, quando já descia à sepultura. Nota bem, não é “Espero que”, mas tiraste (hás tirado), restituíste (hás restituído) e descia (hás descido), Tu hás”, três vezes. David está seguro, sem a menor dúvida, que Deus tem feito (fez) grandes coisas para ele, por isso está sobremaneira contente.

Vers. 4. Cantai ao Senhor, vós que sois Seus santos, ou noutra leitura dos originais, Cantem louvores ao SENHOR, todos os Seus fiéis. David não queria encher o seu coro de réprobos, mas sim de pessoas santificadas que cantassem de coração. Oh povo de Deus, sois chamados, porque vós sois santos; e só os pecadores estão silenciosos na sua maldade, porque a vossa santidade vos constranje a cantar. Sois Seus santos, escolhidos, comprados com sangue, chamados e postos à parte para Deus; santificados para que ofereçais o sacrifício diário do louvor. Sede abundantes no cumprimento deste dever celestial. C. H. S.

Vers. 5. A Sua ira. Oh, admirai-vos e maravilhai-vos para sempre ante a soberana graça de Deus. Sois vós os que possuis uma melhor abundância do que muitos do Seu povo que agora são lançados no forno de fogo? Tendes menos escória que eles? Pecaram eles com maior frequência que vós? Ele está irado com eles pela tibieza deles, porque eles tornaram atrás; ardem os vossos corações sempre de amor? Guardaram os vossos pés sempre os Seus caminhos, sem vacilar? Haveis saído do caminho? Haveis-vos desviado para a direita ou para a esquerda? Sem dúvida o haveis feito; e, portanto, que misericórdia é que Ele não esteja tão irado convosco como o está com eles. Timothy Rogers.

Vers. 5. No Seu favor está a vida, ou noutra leitura dos originais, A Sua bondade dá a vida. Se uma alma condenada fosse admitida a gozar dos prazeres da vida eterna sem o favor de Deus, o Céu seria um inferno para ela. Não é o lugar horrendo e tenebroso de sofrimento o que faz desgraçada a alma no inferno, mas o desagrado de Deus. Se uma alma escolhida fosse aí arremessada e retivesse o favor de Deus, o inferno seria um Céu para ela, e o seu gozo não lho poderiam tirar todos os demónios do inferno; a noite para ela seria transformada em dia. Edward Marbury.

Vers. 5. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã, ou noutra leitura dos originais, À noite deitamo-nos a chorar, e de manhã soltamos gritos de alegria. Quando vem o Sol de justiça, enxugamo-nos os olhos, e a alegria lança fora a pena. Quem não está gozoso conhecendo a Jesus? Os primeiros raios da manhã trazem-nos consolo quando Jesus vem com a alva, e todos os crentes sabem. O choro só dura até à manhã; quando a noite se vai, desvanece-se a tristeza. Isto é aduzido como uma razão para se cantar santamente, e é de peso; as noites curtas e os dias alegres chamam o saltério e a harpa. C. H. S.

Vers. 5. Que peso tem uma tribulação durante a noite! Os nossos nervos e cérebro, cansados, parece que não podem resistir à pressão. O pulso lateja furioso, e o corpo, febril, inquieto, recusa ajudar na tarefa da resistência. Depois de uma noite assim de luta, e do sonho pesado do esgotamento, despertamos com um sentimento vago de alteração. Por que nos sentíamos tão abatidos? As coisas não se vêem iguais agora: tristes, certamente, mas passíveis; duras, mas já não impossíveis; possivelmente ainda mais, mas já não nos desesperamos. O pranto visita-nos de noite, mas pela manhã vem a alegria. E assim, quando a vida, com as suas lutas e problemas e pecados, nos traz um conflito perpétuo, termina no fim nas lutas agónicas da morte, então Deus “dá o sono aos Seus amados.” Dormem em Jesus e despertam no gozo de uma manhã que não se desvanecerá nem diminuirá: a manhã do gozo. O Sol da justiça brilha sobre eles. Há luz por toda parte. E só se podem maravilhar quando não recordam o desespero, as trevas e a violência da vida terrestre, e dizem, como haviam dito várias vezes sobre a terra: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” E as nossas penas, as nossas dúvidas, as nossas dificuldades, os nossos desejos para o futuro, desesperando por ter força para resistir a uma noite de tribulação tão prolongada, onde estão eles, então? Não nos sentiremos como nos descrevem as formosas palavras de um dos nossos hinos:

Quando nos reunirmos na pátria melhor,
Veremos aos nossos outra vez,
Então nos será difícil compreender
Por que antes tínhamos que chorar e causar-nos pena.
—Mary B. M. Duncan, 1825-1865.

Vers. 5. O choro pode durar uma noite. Deus vai transformar a noite invernal num dia de verão, os seus suspiros em cantos, a sua pena em alegria, a sua dor em música, a sua amargura em doçura, a sua solidão num paraíso.

O melhor para a saúde da alma é que o vento do meio-dia da misericórdia, e o vento do norte da adversidade, soprem sobre ela; e, embora cada vento que sopra trará bem aos santos, certamente os seus pecados minguam e as suas graças prosperam quando se acham sob o vento seco, gelado e feridor da calamidade, tanto como sob o vento quente e acariciador da misericórdia e da prosperidade. Thomas Brooks.

Vers. 6. Na minha prosperidade. Quando todos os inimigos de David estavam sossegados e o seu filho rebelde tinha morrido, então foi o momento do perigo. Muitos navios se afundam na bonança. Nenhuma tentação é pior que a tranquilidade. C. H. S.

Vers. 6. Na minha prosperidade. Nunca estamos em maior perigo do que sob a carícia do sol da prosperidade. O ser mimado por Deus e não provar nunca a tribulação é uma amostra de que Deus nos tem por descuidados, em vez recebermos do Seu terno amor. William Struther.

Vers. 6. Eu dizia: Não vacilarei jamais, ou noutra leitura dos originais, Pensava comigo: “Nunca serei derrotado.” Ah!, David, disseste mais do que era prudente, ou inclusivamente apenas o tenhas pensado, porque Deus fundou o mundo sobre as águas para mostrar quão débil, mutável e inconstante ele é. Desgraçado aquele que edifica sobre ele! Está construindo uma masmorra para as suas esperanças.

Vers. 7. Tu, Senhor, pelo Teu favor fizeste forte a minha montanha, ou noutra leitura dos originais, Tu foste bom para mim, Senhor, e deste-me segurança. Ele compara o seu estado ao de uma montanha, embora um montão de areia teria sido melhor; nunca pensamos muito pouco de nós.

Vers. 7. Tu, Senhor, pelo teu favor fizeste forte a minha montanha. David gaba-se da sua montanha que é firme, e, contudo, antes, no Salmo XXIX, falava do Líbano e Sirion saltando como bezerros.

Era o estado do David mais firme do que o Líbano? Ah, presunção vã, comum a todos! Quando ao povo de Deus lhe sobe este orgulho à cabeça e pensa que vai gozar da imutabilidade sob as estrelas e constância na orbe circundante logo lhe vai estalar esta bolha.

Vers. 7. Tu encobriste o Teu rosto, e fiquei perturbado. Que comovedora e instrutiva é a forma como Deus corrigiu o equívoco de seu servo! Tu encobriste o Teu rosto, e fiquei perturbado, ou noutra leitura dos originais, Se desvias de mim o teu olhar, fico cheio de medo. Não houve necessidade de lhe aplicar golpe algum, bastou que Deus encobrisse ou desviasse o rosto. Isto prova, primeiro, que David era um santo genuíno, porque assim que Deus esconda o rosto, na Terra, isso não perturba o pecador; e segundo, que o gozo do santo depende da presença do seu Senhor. C. H. S.

Vers. 7. Tu, Senhor, pelo Teu favor fizeste forte a minha montanha: Tu encobriste o Teu rosto, e fiquei perturbado. Os gozos engendram confiança; a confiança dá lugar ao descuido; o descuido faz com que Deus Se retire e dá oportunidade para que Satã obre às escondidas. E assim como os exércitos depois da vitória se sentem seguros, e então é quando somos surpreendidos, nós, com frequências, depois dos progressos espirituais somos derrubados. Richard Gilpin.

Vers. 7. Tu, Senhor, pelo Teu favor fizeste forte a minha montanha: Tu encobriste o teu rosto, e fiquei perturbado. Nenhum versículo pode ensinamos mais claramente esta verdade gloriosa e consoladora, sobre a qual os escritores medievais gostam de insistir, de que Deus olhe ou não olhe para as Suas criaturas é causa da felicidade ou desgraça das mesmas. John Mason Neale.

Vers. 7. Tu foste bom para mim, Senhor, e deste-me segurança, mas, se desvias de mim o Teu olhar, fico cheio de medo. Se Deus é a tua porção, então não há perda em todo mundo que seja tão dura e pesada como a perda de Deus. A palavra hebraica bahal significa muitíssimo perturbado ou aterrorizado, como se pode ver em 1Sm 28:21: “Então veio a mulher a Saul, e, vendo que estava tão perturbado.” Aqui temos a mesma palavra hebraica, bahal. Thomas Brooks.

Vers. 8. A ti, Senhor, clamei A ti, Senhor, ou noutra leitura dos originais, A ti, Senhor, eu clamo. A oração é o recurso infalível do povo de Deus. Mesmo que se vejam encurralados e sem saber para onde voltar-se, ainda podem ir ao propiciatório. Quando um terremoto faz tremer a nossa montanha, o trono da graça segue firme e podemos ir a ele. Não nos esqueçamos nunca de orar, não duvidemos nunca do bom resultado da oração. A mão que fere pode curar; vamos Ao que nos dá o golpe, porque Ele quer ouvir-nos.

A oração é melhor distração do que a edificação de uma cidade por Caim ou do que procurar-se a música de Saúl. A alegria, a diversão e os deleites da carne são uma receita lamentável para a mente afligida e abatida; a oração triunfa onde todo o resto falha. C. H. S.

Vers. 9. Que proveito há no meu sangue? Igualmente quando os pobres santos de Deus vão a Ele e Lhe dizem nas suas orações que Ele pode condená-los, ou deixá-los, que pode franzir o cenho sobre eles; negar-lhes estas ou outras petições, por certas causas Justas, que vantagem Lhe reportará? Deus pode conseguir muitos louvores, etc., ao escutá-los e ao ajudá-los; mas, que bem resultará de os ver oprimidos pelos inimigos das suas almas?, ou que deleite haverá para Ele em vê-los afundando-se e desmaiando-se sob a terrível pressão, etc.? Este é um método permissível e útil de súplica. Thomas Cobbet.

Vers. 9. Porventura Te louvará o pó? Pode bastar algum número de almas para Te louvar? Pode haver bastantes bocas que declarem a Tua verdade? E não posso eu ser uma –ainda que pecaminosa–, mais uma no número, se a Ti Te agrada o eximir-me de descer à fossa? Sir Richard Baker.

Vers. 9. Que proveito há no meu sangue, quando desço à cova? Porventura Te louvará o pó? Anunciará Ele a tua verdade? A oração que prevalece ante Deus é, às vezes, uma oração que apresenta argumentos. Deus gosta que oremos raciocinando na nossa petição, porque Ele pode considerar aceitáveis os nossos argumentos. Thomas Watson

Vers. 10. Senhor, sê o meu auxílio, ou noutra leitura dos originais, SENHOR, vem em meu auxílio! Uma forma compacta e apropriada de oração. É útil em centenas de casos para os filhos de Deus; é apropriada para um ministro quando tem de ir pregar, para o que sofre na cama da dor, para o que trabalha no campo do serviço, para o crente sob a tentação, para o homem de Deus sob a adversidade; quando Deus ajuda, as dificuldades desaparecem. C. H. S.

Vers. 11. Tornaste o meu pranto em folguedo; desataste o meu saco, e me cingiste de alegria, ou noutra leitura dos originais, Transforma o meu lamento em dança alegre; tira-me o luto e veste-me de festa. Isto pode ser verdade acerca de David, retirado da sua calamidade; foi verdade acerca de Cristo, ao levantar-Se do sepulcro para não morrer mais; é verdade acerca do penitente, trocando o seu saco pelos vestidos da salvação; e se verificará em nós todos, no último dia, quando  tiraremos os vestidos da desonra da sepultura para brilhar em glória imarcescível. George Horne.

Vers. 12. Para que a minha glória Te cante louvores, e não se cale: Senhor, Deus meu, eu Te louvarei para sempre, ou noutra leitura dos originais, Assim ó SENHOR, meu Deus, hei de cantar-Te sem cessar, hei de louvar-Te para sempre. Para este fim, quer dizer, com este fim e intento –isto é, a minha língua ou a minha alma–, pode cantar-Te louvores a Ti e não estar em silêncio. Seria um crime vergonhoso se, depois de receber as misericórdias de Deus, nos esquecêssemos de Te louvar.

Deus não quer que as nossas línguas estejam ociosas quando há tantos temas de gratidão à disposição. Ele não quer que os Seus filhos estejam mudos na casa. Eles têm de cantar no Céu e, portanto, devem cantar na Terra. Cantemos com o poeta:

Quero começar a música aqui,
E assim a minha alma deve elevar-se;
E com umas quantas notas celestiais,
Levar os meus afetos aos Céus.
C. H. S.

Vers. 12. O profeta deste Salmo começa com a ira de Deus, mas termina com o Seu favor; como nos tempos antigos, quando entravam no tabernáculo viam ao princípio coisas desagradáveis, como as facas dos sacrifícios, o sangue das vítimas, o fogo que ardia sobre o altar e consumia as oferendas, mas quando passavam um pouco mais adiante, achavam o lugar santo, o castiçal de ouro, o pão da proposição e o altar de ouro em que se ofereciam perfumes; e mais dentro estavam o Lugar Santíssimo com a arca do pacto, o propiciatório e os querubins, que velavam o rosto de Deus. Thimoty Rogers.

Vers. 12. Senhor, Deus meu, eu Te louvarei para sempre. O que é louvor? É a renda que pagamos a Deus, e quanto maior é o imóvel, maior deve ser a renda. G. S. Bowes, 1863.



Tradução de Carlos António da Rocha

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