… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

27 de dezembro de 1603 • Thomas Cartwright, um Campeão puritano


27 de dezembro de 1603  Thomas Cartwright, um Campeão puritano
 
Thomas Cartwright pintado por Gustavus Ellinthorpe Sintzenich, Mansfield College

Thomas Cartwright nasceu em Hertfordshire em 1535 e pôde matricular-se em Claire Hall em novembro de 1547, em troca de fazer certos serviços nessa instituição de ensino, e posteriormente matriculou-se no St. John’s College de Cambridge em 5 de novembro de 1550.


Sendo protestante e resolvido a não voltar para a Igreja Católica Thomas Cartwright foi expulso da Universidade durante o reinado da rainha Maria Tudor (1553-59).



Em 1560 Thomas Cartwright era membro da academia do Trinity College e em 6 de abril desse mesmo ano era membro da academia do St. John’s College; em abril de 1562 era membro superior da academia do Trinity College.



Em 1567 obteve o grau de bacharel, sendo por isso escolhido em 1569 para professor de teologia de Lady Margaret, começando a dar lições sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos. As suas lições alcançaram uma grande fama e difusão, provocando um profundo impacto a favor dos seus conceitos puritanos, embora criassem uma enorme oposição dos adeptos de John Whitgift, arcebispo de Canterbury,(1530-1604). Este conflito entre estes dois grandes competidores: Thomas Cartwright e John Whitgift, continuou a crescer e a ampliar-se, sendo continuado pelos seus apoiantes e seguidores no seio da Igreja anglicana.



Thomas Cartwright foi proibido de ensinar em 11 de dezembro de 1570 e expulso como membro superior da academia do Trinity College em setembro de 1571, pelo que Cartwright foi para o Continente Europeu, indo para Genebra, onde conheceu e criou amizade fraterna com Beza e com outros irmãos das igrejas reformadas daquela cidade suíça. Ali foi persuadido pelos seus amigos a voltar para Inglaterra em novembro de 1572, o que facto veio acontecer.



Em Inglaterra torna-se professor de Hebreu em Cambrige. Entretanto os seus amigos John Field e Thomas Wilcox publicam “Uma Admonition to Parliament for the Reformation of Church Discipline” e são presos. Cartwright publica no mesmo ano de 1572 “The Second Admonition with an Humble Petition to Both Houses of Parliament for Relief Against Subscription,” à Whitgift replica logo de seguida com “An Answere to ao Certen Libell, Intituled An Admonition to the Parliament”, à qual lhe responde Cartwright no ano seguinte de 1573, com “A Replye to an Answere Made of M. Doutor Whitegifte Againste the Admonition to the Parliament”. Toda esta disputa era uma renovação da antiga, mas numa escala mais ampla, indo às raízes das suas diferenças; Cartwright e os puritanos afirmavam que o governo da igreja e a disciplina, assim como a doutrina, deviam ser reformados, conforme às Escrituras. A discussão alargou-se depois à norma do governo da igreja, à eleição de ministros, aos ofícios na igreja, aos hábitos clericais, aos bispos, aos arcebispos, à autoridade do príncipes em assuntos eclesiásticos, à confirmação, etc. Finalmente Whitgift respondeu a Thomas Cartwright com “A Defense of the Ecclesiasticall Regiment in Englande Defaced by T. C. in his Replie againste D. Whitgifte”, em 1574, e, também no mesmo ano, ainda com “The Defense of the Answere to the Admonition, against the Replye of T. C.”



Após este terçar de argumentos entre Thomas Cartwright e o arcebispo de Canterbury John Whitgift, é dada ordem de prisão a Thomas Cartwright em 11 de dezembro de 1574, mas ele escapa e foge de novo para o Continente Europeu, tornando-se ministro da congregação dos mercadores ingleses de Antuérpia e Midelburgo.



Em 1576 Thomas Cartwright foi às Ilhas do Canal, aos dois bailiados de Guernsey e Jersey, para ajudar os puritanos a implantar a disciplina nas suas igrejas, voltando logo de seguida para Antuérpia onde comtinou a pregar o Evangelho durante vários anos.



Enquanto aí estava no exílio escreveu, “Second Replie of Thomas Cartwright Agaynst Maister Doutor Whitgiftes Second Answer Touching the Churche Discipline”, e também “The Rest of the Second Replie”, em 1577.



Preparou em 1574 um prefácio para a obra latina de William Travers, traduzindo-a com o título de “A Full and Plaine Declaration of Ecclesiasticall Discipline owt off the Word off God and off the Declininge off the Churche off England from the Same”, o que espicaçou e irritou ainda mais os seus inimigos.



Em 1583 a pedido do conde de Leicester, Lorde Treasurer Burleigh e de um grande número de amigos puritanos escreveu uma refutação à versão “The Rhemish Bible”, isto é: a versão inglesa do Novo Testamento publicada em Reims em 1582, a “Answere to the Preface of the Rhemish Testament” trabalho que lhe ocupou muitos anos, havendo-o ele publicado um ano antes da sua morte em 1602.



Contudo esta obra só seria publicada complemente em 1618 em Leiden, com o título “A Confutation of the Rhemists Translation, Glosses, and Annotations on the New Testament, so farre as they containe Manifest Impieties, Heresies, Idolatries, etc., fol., pp. lviii, 761, xviii”.



Entretanto no ano de 1584 Thomas Cartwright foi convidado a ocupar a cadeira de teologia em St. Andrews, na Escócia, mas recusou.



Mas em 1585 regressa a Inglaterra sem permissão régia, sendo preso pelo bispo de Londres, John Aylmer (Elmer) (1521-1594) e encarcerado, onde permaneceu de abril até junho, quando foi liberado pela influência dos seus poderosos amigos, pondo-o o conde de Leicester à frente do hospital que ele tinha fundado em Warwick.



À sua pregação se opuseram os seus inimigos mas sem êxito, até 1590. Durante esse tempo ele pregou sobre uma grande parte de Provérbios e Eclesiastes. Destas pregações surgem duas obras. A primeira foi publicada em 1604 com o título “Metaphrasis et homiliæ in librum Solomonis, qui inscribitur Ecclesiastes, 4to; e a segunda, “Commentarii succincti et delucidi in Proverbia Solomonis, 4to foi pubicada em 1617.



Afirma-se que Thomas Cartwright foi o primeiro pregador na Inglaterra que praticou a oração improvisada antes do sermão, embora normalmente empregasse formas estabelecidas de oração.



Durante este período os conflitos eclesiásticos se inflamaram cada vez mais. Os puritanos foram fazendo rápidos progressos. O primeiro presbitério organizou-se em Wandsworth intestinamente na Igreja anglicana em 1572, organizando-se classes por toda parte da Inglaterra, embora secretamente.



Em 1583 um rascunho sobre um “Livro de disciplina” foi esboçado por Thomas Cartwright e Walter Travers, sendo aprovado por uma assembleia reunida em Londres ou Cambridge. Foi depois revisado em 1584 num sínodo nacional em Londres e entregue a Travers para ser corrigido e organizado por ele. Logo entraria em uso. Finalmente este seria aprovado e adotado por uma assembleia reunindo todas as classes de Warwickshire em 1588, e depois por um sínodo provincial em Cambridge. Em 1590 já o Diretório tinha-o difundido por toda a Inglaterra, sendo subscrito por cerca de quinhentos ministros. Perante isto o grupo episcopal estava alarmado e determinou prender Cartwright com outros líderes, e destruir o maior número possível de exemplares do manual de disciplina. Não obstante, ainda se preservaram alguns exemplares, entre eles dois manuscritos em latim intitulados “Disciplina ecclesiæ sacra”, das quais um está no Museu Britânico e outra no palácio de Lambeth. Uma edição deste “Livro de disciplina” foi editada em inglês, com ligeiras modificações, em 1644 por ordem do Baixo Parlamento, intitulada “A Directory of Church Government anciently contended for, and as farre as the Times would suffer, practised by the first Non-Conformists in the Daies of Queen Elizabeth. Found in the study of the most accomplished Divine, Mr. Thomas Cartwright, after his decease; and reserved to be published for such a time as this.”



Em maio de 1590 Thomas Cartwright foi chamado perante a Alta Comissão, sendo confrontado com trinta e uma acusações. Ele ainda esteve disposto a responder a todas as acusações, mas pensando que punha em perigo a vida de outros crentes, recusou fazê-lo. Sendo preso, amigos poderosos trabalhavam a seu favor, sendo liberado finalmente do cárcere, com a saúde arruinada, em 1592, sob a condição de se comportar pacificamente.



De 1595 a 1598 viveu na ilha de Guernsey e passou os seus anos finais em honra e prosperidade em Warwick, onde morreu, neste mesmo dia de 27 de dezembro de 1603.



É muito importante recordar que Cartwright, como aqueles outros anglicanos aos quais acima me fui referindo, não eram separatistas. Ele acreditava, e todos eles acreditavam com ele, que poderiam reformar intestinamente a Igreja da Inglaterra em termos presbiterianos, e que poderiam transformá-la numa Igreja Presbiteriana. Por essa razão eles não eram separatistas. Porem, pouco depois surgiram mesmo os chamados separatistas. E de facto, muito provavelmente, um deles, Richard Fitz organiza em Londres em 1567 a primeira igreja separatista na Inglaterra, a qual teve uma história muito curta e variegada.

****

Fontes Utilizadas:

Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.

Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha



Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: