… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 15 de abril de 2017

SALMO 31





C. H. Spurgeon

O Tesouro de David

SALMO 31
ASSUNTO. Alguns têm pensado que a ocasião na afligida vida de David que o levou a este Salmo foi a traição dos homens de Queila, e sentimo-nos muito inclinados a esta conjetura; mas, depois de refletir, pareceu-nos que o tom dolente e a alusão à sua iniquidade requer uma data posterior, e poderia ser mais satisfatório dizer que ilustra o período em que Absalão se rebelou e os seus próprios partidários o abandonaram, e lábios mentirosos espalharam milhares de rumores maliciosos contra ele.

Vers. 1. Em Ti, Senhor, confio; nunca me deixes confundido, ou noutra leitura dos originais, SENHOR, confio em Ti; nunca me deixes ficar desiludido.” Como pode o Senhor permitir que seja envergonhado de modo definitivo o homem que depende e confia exclusivamente nEle? Isto não seria como relacionarmo-nos com um Deus de verdade e de graça. Traria desonra sobre o próprio Deus se a fé não fosse no final recompensada. Seria verdadeiramente um dia triste para a religião se Deus não trouxesse consolação e ajuda. C. H. S.


Vers. 2. Inclina para mim os Teus ouvidos, ou noutra leitura dos originais, Ouve-me com atenção. Escuta a minha queixa. Põe o Teu ouvido junto aos meus lábios, para que possas escutar o que a minha debilidade é capaz de pronunciar. Geralmente pomos os ouvidos perto dos lábios dos doentes e dos moribundos para poder escutar o que dizem. A isto parece que se refere o texto. Adam Clarke.

Vers. 2. Sê a minha firme rocha, uma casa fortíssima que me salve, ou noutra leitura dos originais, Sê Tu a minha rocha protectora; sê Tu o meu castelo de refúgio e salvação! Uma cidadela para me salvar na qual eu possa habitar em segurança, e não apenas correr para o seu abrigo temporário, mas que permanece em Ti para a salvação eterna. Quão simples e singela é a oração do justo e, não obstante, quão substancial e profunda! Ele não usa floreios ornamentais; o seu espírito é muito sincero e profundo para o fazer de outra forma; quanto melhor não seria se todos quando oramos em público tivéssemos sempre em conta esta regra.

Vers. 3. Porque Tu és a minha rocha e a minha fortaleza, ou noutra leitura dos originais, Tu és a minha rocha e o meu castelo! As duas promessas pessoais são como pregos firmes sobre os quais podemos pendurar a fidelidade ao Senhor. Oh, se tivéssemos graça para que o nosso coração estivesse fixo na crença imperturbável e firme em Deus!


Vers. 3. Por amor do Teu nome, guia-me e encaminha-me, ou noutra leitura dos originais, Guia-me e protege-me, honrando o Teu bom nome. Não é possível que o Senhor permita que a Sua honra seja manchada, pois isto implicaria que os que confiam nEle hão de perecer. Este foi o rogo do Josué. “E então, que farás ao Teu grande Nome? C. H. S.

Vers. 3. Por amor do Teu nome. Se a mera honra da criatura, o crédito dos ministros ou a glória dos anjos fosse comprometida, a salvação do homem seria, sem dúvida, incerta. Mas cada passo dela implica a honra de Deus. Rogamos por amor do Teu nome. William S. Plumer.

Vers. 4. Tira-me da rede que para mim esconderam, pois Tu és a minha força, ou noutra leitura dos originais, Tira-me da armadilha que prepararam contra mim, pois Tu és o meu refúgio! O Omnipotente corta a rede que as conveniências tecem. Ainda que nós, pobres criaturas, estejamos na rede, Deus não está. Na antiga fábula o raro põe em liberdade o leão; aqui o leão liberta o rato.


Vers. 5. Nas tuas mãos encomendo o meu espírito, ou noutra leitura dos originais, Coloco-me inteiramente nas tuas mãos. Estas palavras vivas de David foram as palavras que nosso Senhor pronunciou ao morrer, e foram usadas com frequência pelos santos na hora de sua partida. Podemos estar seguros que são boas, sábias e solenes; podemos usá-las agora e na nossa última hora. C. H. S.

Vers. 5. Nas Tuas mãos encomendo o meu espírito. Estas foram as últimas palavras de Policarpo, de Bernardo, de Huss, de Jerónimo de Praga, de Lutero, de Melâncton e de muitos outros. “Bem-aventurados são”, disse Lutero, “os que morrem não só pelo Senhor como mártires, não só no Senhor, como todos os crentes, mas também com o Senhor, exalando as suas vidas nas Suas mãos: “Nas Tuas mãos encomendo o meu espírito.” J. J. Stewart Perowne.

Vers. 5. Nas Tuas mãos encomendo o meu espírito. Encomendo e ponho nas Tuas sagradas mãos, oh meu Deus, o que sou, que Tu conheces muito melhor que eu, débil, desgraçado, ferido, volúvel, cego, surdo, mudo, pobre, desprovido de tudo, sim, menos que nada, por causa dos meus pecados, e mais miserável do que posso saber ou expressar. Recebe-me, Senhor Deus, e faz de mim o que Ele, o Cordeiro divino, quer que eu seja. Encomendo-te e ofereço e entrego em Tuas mãos todos os meus assuntos, cuidados, afetos, consolos e trabalhos, tudo o que Tu sabes que vem sobre mim. Frei Tomé de Jesus (1529-1583)

Vers. 5. Nas Tuas mãos encomendo o meu espírito. Com grande voz Ele exclamou estas palavras ante o mundo, que para sempre irá afundando-se na apreensão pagã da morte, do temor da morte, da desesperança da imortalidade e da ressurreição, porque está sempre permitindo que a presença e a consciência da personalidade de Deus, e da união pessoal com Ele, fiquem obscurecidas e desfiguradas. J. P. Lange, D.D., in “The Life of the Lord Jesus Christ.” 1864.

Vers. 5. Tu me remiste, Senhor, Deus da verdade, ou noutra leitura dos originais, salva-me, ó Senhor, Deus fiel! A redenção é uma base sólida para a confiança. David não conheceu o Calvário como o conhecemos nós, mas a redenção temporária o animava; e não nos consolará a nós, mais docemente, a redenção eterna?

Vers. 6. Aborreço aqueles que se entregam a vaidades enganosas, ou noutra leitura dos originais, Detesto os que adoram falsos deuses. Os que não se apoiam no verdadeiro braço da fortaleza, vão pôr a confiança vã em si mesmos. Muitos têm de ter um deus, e se não adoram ao Deus vivo, verdadeiro e único, fazem um eles mesmos, e prestam-lhe uma atenção supersticiosa, e esperam com esperança ansiosa, baseada numa ilusão. Os homens que fazem deuses das suas riquezas, das suas pessoas, dos seus entendimentos ou de qualquer outra coisa, têm de ser evitados por aqueles cuja fé descansa sobre Deus em Jesus Cristo; e, longe de ser invejados, hão de ser compadecidos por dependerem destas vaidades. C. H. S.

Vers. 6. Aqueles que se entregam a vaidades enganosas, ou noutra leitura dos originais, os que adoram falsos deuses. Os papistas fingem milagres dos santos, para fazê-los, segundo crêem, mais gloriosos. Dizem que a casa em que a Virgem Maria se achava quando a visitou o anjo Gabriel, muitas centenas de anos depois, foi transportada da Galileia para a Dalmácia, a umas duas mil milhas, e dali, por mar, para a Itália, para onde foi levada de um sítio para o outro, até que se achou um lugar apropriado; e por ela foram realizadas muitas curas maravilhosas, e que as próprias árvores, quando chegou, inclinaram-se ante ela. Há infinitas histórias desta natureza, especialmente na lenda dos santos, a que chamam “A lenda áurea”, um livro cheio de erros tão imensos que Juan Luis Vives, um católico, mas homem inteligente e erudito, disse dele com grande indignação: “O que pode haver mais abominável que este livro?”; e se maravilhou de que lhe chamassem “áureo”, pois “o que se escreveu nele tem ferro por boca e chumbo por coração.” “Por toda a parte podeis achar”, diz Erasmo, “oferecido para obter ganho, o leite de Maria, que honram quase como o corpo de Cristo consagrado; azeite prodigioso; muitos fragmentos da cruz, que se forssem recolhidos, não caberiam num grande navio. Aqui há o capuz de Francisco (de Assis); ali as roupas interiores da Virgem; noutro lugar o pente de Ana; noutro, uma meia de José; noutro, o sapato de Tomás Becket; noutro, o prepúcio de Cristo, que, até sendo algo incerto, adoram com mais ardor que à pessoa de Cristo. “E não dizem que estas coisas têm de ser meramente toleradas, para ajudar as pessoas simples, mas, sim que toda a religião está quase colocada nelas.” (Erasmus, sobre Mt 23:5) Christopher Cartwright.

Vers. 6. Eu, porém, confio no Senhor, ou noutra leitura dos originais, e ponho a minha confiança no SENHOR. Isto pode não estar na moda, mas o Salmista atreve-se a ser distinto. Os maus exemplos não nos devem desviar da verdade, mas sim, até no meio de uma defeção geral, deveríamos fazer-nos mais ousados. Esta aderência à confiança no SENHOR é o ponto sobre o qual se insiste: o que está turbado acolhe-se aos braços do seu Deus e atreve-se a tudo na fidelidade divina.

Vers. 7. Eu me alegrarei e regozijarei na Tua benignidade, ou noutra leitura dos originais, Eu me alegrarei e regozijarei pelo teu amor. Estas duas palavras, alegrarei e regozijarei, são uma reduplicação instrutiva. Não temos de ser mesquinhos no nosso triunfo santo. Este vinho nós podemos bebê-lo em jarros, sem temor de nos excedermos.

Vers. 7. Pois consideraste a minha aflição, ou noutra leitura dos originais, Tu olhaste para os meus sofrimentos. Deus reconhece os seus santos quando outros estão envergonhados de os reconhecer; nunca Se recusa a reconhecer aos Seus amigos. Não pensa pouco neles pelo facto de que vão cobertos de farrapos. Não os julga em falso e os deixa quando as suas caras estão demarcadas pela enfermidade, ou os seus corações pesados pelo abatimento. C. H. S.


Vers. 7. Conheceste a minha alma nas angústias, ou noutra leitura dos originais, conheces as minhas aflições. Sim, ainda que tenhamos perdido o nosso rico vestido e vamos a Ele em farrapos; ainda que a nossa carne esteja debilitada pela dor ou pela velhice (Sl 6:7); ainda que a enfermidade e a pena tenham consumido a nossa formosura como a traça (Sl 39:11); ainda que o rubor, as lágrimas e o pó se estendam pelo nosso rosto (Sl 69:7), Ele reconhece-nos ainda e não Se envergonha de nós. Consola-te com isto, porque que dano te vai fazer que os homens te desprezem, se Deus o Senhor não te tem esquecido? Christian Scriver.


Vers. 8. Puseste os meus pés num lugar espaçoso, ou noutra leitura dos originais, deste aos meus pés caminho aberto! Bendito seja Deus pela liberdade: a liberdade civil é valiosa, a liberdade religiosa é preciosa, a liberdade espiritual não tem preço.

Vers. 9. Tem misericórdia de mim, ó Senhor, porque estou angustiado, ou noutra leitura dos originais, Tem compaixão de mim, SENHOR, porque estou angustiado. Esta primeira frase abrange tudo o que segue: é o texto de seu discurso lamuriento. A miséria move a misericórdia –não se necessitam de mais raciocínios–. “Tem misericórdia” é a oração; o argumento prevalece, posto que é singelo e pessoal: “Estou angustiado”, aflito.


Vers. 9. Consumidos estão de tristeza os meus olhos, ou noutra leitura dos originais, os meus olhos consomem-se de tristeza. As lágrimas tiram o seu sal da nossa força, e quando elas emanam em abundância podem consumir a fonte da qual procedem. Os olhos afundados e olheirentos são uma indicação clara de má saúde. Deus quer que Lhe digamos os sintomas da nossa enfermidade, não para Sua informação, mas para mostrar o nosso sentimento de necessidade.

Vers. 9. A minha alma e o meu corpo, ou noutra leitura dos originais, bem como a alma e as entranhas. A alma e o corpo estão tão intimamente unidos que um não pode declinar sem que o outro o sinta. Nestes dias não são estranhos estes duplos decaimentos como os descritos por David; havemos sentido que nos deprimimos pelo sofrimento físico, e temos sido afligidos pela enfermidade mental; quando as duas coincidem, é bom que o piloto esteja frente ao leme, no meio da borrasca, e faça que a tempestade se transforme num triunfo da sua arte.


Vers. 10. Porque a minha vida está gasta de tristeza, e os meus anos de suspiros, ou noutra leitura dos originais, A minha vida consome-se na tristeza e os meus anos passam-se em lamentos. A dor é um mercado muito triste para gastar nele toda a riqueza da nossa vida, mas um negócio muito mais proveitoso que ele se faz na Feira da Vaidade; é melhor ir à casa do luto do que à do festim. O negro é uma cor que cai bem. O sal das lágrimas é um remédio saudável. É melhor passar os anos suspirando do que pecando.


Vers. 10. A minha força descai, por causa da minha iniquidade, ou noutra leitura dos originais, A aflição acaba com as minhas forças. Esgotam-se as minhas forças por causa de minha aflição. É uma aflição proveitosa a que nos leva a ver as nossas falhas. Tratava-se do pior pecado que o Salmista cometeu e que roía o seu coração e devorava a sua energia? É muito provável que o fosse. C. H. S.


Vers. 10. Acho que quando os santos estão afligidos e muito humilhados, os pecados pequenos gritam desaforadamente na sua consciência; mas, na prosperidade, a consciência é um papa que dá dispensações e grande liberdade aos nossos corações. A cruz é, portanto, necessária, como a coroa é gloriosa. Samuel Rutherford.

Vers. 11. Por causa de todos os meus inimigos, fui o opróbrio dos meus vizinhos, ou noutra leitura dos originais, Sou objecto de escárnio para os meus inimigos. De todos os meus inimigos sou o objeto de opróbrio. Divertiam-se em me jogar algo em cara; o meu estado lastimoso era música para eles, porque interpretavam maliciosamente que era um julgamento do Céu sobre mim. Os que não são chamados a suportá-las não dão muita importância às reproches, mas o que se acha sob o seu látego conhece a profundidade das suas feridas. Os melhores homens podem ter os inimigos mais acerbos e ver-se submetidos às repreensões mais cruéis. C. H. S.

Vers. 11. Por causa de todos os meus inimigos, fui o opróbrio dos meus vizinhos, Se alguém procura ser paciente e humilde, diz-se que é um hipócrita. Se se permitir a alguns dos prazeres deste mundo, que é um glutão; se busca a justiça, impaciente; se não a busca, um néscio. Se é prudente, chama-se-lhe avaro; se quer fazer felizes aos outros, dissoluto. Se se der à oração, vaidoso. E esta é a grande perda da igreja, que por estes meios muitos se abstêm de obrar bem!, do qual o Salmista se lamenta dizendo: “Por causa de todos os meus inimigos, fui o opróbrio dos meus vizinhos.” Crisóstomo, citado por J.M. Neale.

Vers. 11. O opróbrio dos meus vizinhos. Os que estão mais perto de nós são os que pior nos apunhalam. Sentimos mais os desprezos dos que nos deveriam mostrar simpatia.


Vers. 11. Um horror para os meus conhecidos. Quanto mais íntimos, mais se separam de nós. Nosso Senhor foi negado por Pedro, traído por Judas e abandonado por todos na hora da máxima necessidade. Todo o rebanho se volta contra o cervo ferido. O leite da bondade humana se volve azedo quando um crente desprezado é vítima de acusações caluniosas.


Vers. 11. Os que me viam na rua fugiam de mim, ou noutra leitura dos originais, Os que me vêem na rua fogem de mim. Que coisa mais monstruosa e vilã é a calúnia, capaz de transformar ao mais eminente dos santos, ao homem que fora a admiração de todos, num desprezado, convertendo-o no alvo das cornadas de todos e no objeto da aversão geral!

Vers. 12. Estou esquecido no coração deles, como um morto, ou noutra leitura dos originais, Esqueceram-se de mim por completo, como se eu já tivesse morrido. Melhor é ao homem a morte do que o ver-se asfixiado na calúnia e no escândalo. Dos mortos não se dizem mais que virtudes e louvores, mas no caso do Salmista não diziam dele mais do que o mal.

Vers. 12. Sou como um vaso quebrado, ou noutra leitura dos originais, Sou como um vaso feito em pedaços. Vejamos aqui o retrato do Rei de reis na Sua humilhação, quando renunciou a todo o bom nome e tomou sobre Si forma de servo.

Vers. 13. Pois ouvi a murmuração de muitos, ou noutra leitura dos originais, Ouvi muitas murmurações a meu respeito. Uma víbora caluniadora é a morte para todo o consolo. Qual será o veneno de toda a ninhada? C. H. S.

Vers. 13. Pois ouvi a murmuração de muitos, ou noutra leitura dos originais, Ouvi muitas murmurações a meu respeito. Desde a minha própria infância, quando me dava conta dos interesses das almas dos homens, entrou-me admiração ao achar que por toda parte os religiosos e os piedosos, que só se preocupavam seriamente com a sua própria salvação e da dos outros, eram objeto de toda a classe de desprezos e calúnias, especialmente pelos homens mais nefandos e viciosos; de modo que os que professavam os mesmos artigos de fé, os mesmos mandamentos como lei de Deus e as mesmas petições do Pai Nosso como seu desejo, e assim professavam a mesma religião, por toda a parte falavam mal dos que se esforçavam em viver sinceramente o que diziam. Se a religião é má e a nossa fé não é verdadeira, então, por que a professam estes homens? Se é verdadeira e boa, por que aborrecer e menosprezar aos que vivem na prática séria da mesma, se eles mesmos não a praticam? Mas não temos de esperar que sejam razoáveis os homens aos que o pecado e a sensualidade têm feito irracionais. Mesmo assim, tenho de admitir que desde que observei o curso do mundo e o acordo entre a Palavra e a providência de Deus, considerei como uma prova notável da queda do homem, da verdade das Escrituras, e da origem sobrenatural da santificação verdadeira, o achar esta inimizade universal entre a semente santa e a da serpente, e achar que o caso de Caim e Abel fica exemplificado com regularidade, e o que é nascido da carne, persegue a aquele que nasceu do Espírito. Creio que no dia de hoje vemos a evidência patente que confirma a nossa fé cristã. Richard Baxter.


Vers. 13. Porquanto todos se conluiavam contra mim; intentam tirar-me a vida, ou noutra leitura dos originais, porque conspiram contra mim; fazem planos para me tirar a vida. É melhor cair nas garras de um leão que sob a vontade de perseguidores maliciosos, porque a fera pode não fazer caso da sua presa se estiver farta, mas a malícia é implacável e cruel como um lobo. De todos os inimigos, o mais cruel é a inveja.


Vers. 14. E disse: Tu és o meu Deus, ou noutra leitura dos originais, e eu proclamo que Tu és o meu Deus! David proclamou em voz alta a sua decisiva fidelidade a Deus. Não era um crente dos que continuam quando tudo vai de vento em popa. Podia fazer uso da sua fé no gélido inverno e envolvê-la ao redor do pescoço para se proteger e evitar as inclemências. Aquele que pode dizer o que disse David, não tem por que invejar a eloquência de Cícero. “Tu és o meu Deus” é mais doce do que todas as demais palavras que possa formular a língua humana. Nota que esta fé mencionada aqui é um argumento que usa para recordar a Deus a Sua promessa de lhe enviar pronta libertação. C. H. S.

Vers. 14. Tu és o meu Deus. De quanto mais valor é, do que possuir dez mil minas de ouro, o poder dizer “Deus é meu!” O servo de Deus está convencido disso, e isto é a felicidade completa para ele, e nela se deleita. Certo servidor do rei Ciro, que gozava do seu favor, estava a ponto de conceder a sua filha em casamento a um homem muito importante, embora ele não possuísse muitas riquezas; por isso, alguém lhe disse: “Oh, como vais tu poder dar um dote à tua filha, proporcionado à sua categoria? Onde estão as tuas riquezas?” Ao que ele respondeu: “Não necessito de nada. Ciro é meu amigo.” Porém, não podemos nós dizer muito mais, sendo nosso amigo o Senhor, que tem todos os atributos excelentes e gloriosos que não podem ficar curtos em nenhuma necessidade e pode fazer-nos felizes, especialmente sendo capaz para isso? John Stoughton's “Righteous Man's Plea to True Happiness,” 1640.


Vers. 15. Os meus tempos estão nas tuas mãos, ou noutra leitura dos originais, Todos os momentos da minha vida estão nas tuas mãos. Diz-se que a lua controla as marés dos mares; não há um poder dominante das almas? Não é assim, ao que parece, na maioria das vidas são terrestres, mas o é nas celestiais; do mesmo modo como a lua dirige as marés, o mesmo Deus as nossas almas. A mão de Jesus é a mão que rege os nossos tempos. Ele regula o relógio da nossa vida. Cristo por nós e Cristo em nós. Os meus tempos estão na Sua mão. A minha vida não pode ser em vão, como a vida do Salvador não é em vão. E. Paxton Hood, in “Dark Sayings on a Harp,” 1865.


Vers. 15. Livra-me das mãos dos meus inimigos e dos que me perseguem, ou noutra leitura dos originais, livra-me dos meus inimigos, que me perseguem! É legítimo desejar escapar da perseguição se é a vontade do Senhor.

Vers. 16. Faze resplandecer o Teu rosto sobre o Teu servo: salva-me, por Tuas misericórdias, ou noutra leitura dos originais, Olha com bondade para este Teu servo; salva-me, pelo Teu amor. Dá-me a luz do sol do céu em minha alma, e desafiarei as tempestades da terra. Permite-me gozar do sentimento do Teu favor, oh Senhor, e saber o que queres na minha maneira de viver, e não me importa que os homens franzam o cenho e me caluniem.


Vers. 18. Emudeçam os lábios mentirosos que dizem coisas más, com arrogância e desprezo, contra o justo. Os pensamentos próprios orgulhosos com frequência dão como resultado estimativas depreciadoras dos outros. Quanto mais espaço procuramos para nós, menos fica para os nossos vizinhos.


Vers. 18. Emudeçam os lábios mentirosos que dizem coisas más, com arrogância e desprezo, contra o justo. Que iniquidade é que os personagens indesejáveis sempre estejam destrambelhando contra os homens bons! Não têm capacidade para apreciar o valor moral, do qual eles carecem por completo, e têm a desfaçatez de subir ao tribunal e julgar os homens, ao lado dos quais eles não são mais do que escória. C. H. S.


Vers. 18. Emudeçam os lábios mentirosos que dizem coisas más, com arrogância e desprezo, contra o justo. Na venerável obra original e monumental da Igreja Valdense, intitulada “A lição de ouro”, datada de 1100, achamos uma estrofe que foi traduzido da seguinte forma:



Se algum ama e teme a Jesus Cristo,

E não amaldiçoa, jura ou mente,

É casto, não mata, nem furta a outros;

Dizem que é um valdense, e merece castigo.

Antoine Monastier, in “A History of Vaudois Church,” 1859.


Vers. 19. Quão grande é a Tua bondade! Não nos diz quão grande é a bondade de Deus, porque não pode; não há medidas para delimitar a incomensurável bondade do SENHOR, que é a própria bondade. Assombra-se, usa interjeições quando falham os adjetivos. Se não podermos medi-la, podemos assombrar-nos.


Vers. 20. Tu os esconderás, no secreto da Tua presença, das intrigas dos homens, ou noutra leitura dos originais, Com a protecção da Tua presença, os guardas das intrigas dos homens. Os que vivem ao pé da cruz de Cristo tornam-se indiferentes à burla dos poderosos. As feridas de Jesus destilam um bálsamo que cura todas as feridas que infligem as armas do desprezo; de facto, quando tenho a mesma mentalidade que havia em Cristo Jesus, sou invulnerável a todos os dardos do orgulho.

Vers. 21. Bendito seja o SENHOR. Quando o Senhor nos abençoa, nós não podemos, por outro lado, de pelo menos, O bendizer a Ele.


Vers. 22. Pois eu dizia na minha pressa: Estou cortado de diante dos Teus olhos. Geralmente, quando temos pressa balbuciamos o que não devemos. As palavras precipitadas di-las a língua num momento, mas podem permanecer durante muitos anos na consciência. C. H. S.

Vers. 22. Pois eu dizia na minha pressa: Estou cortado de diante dos Teus olhos, etc. Oh, que amor devemos a Cristo, que advogou por nós quando nós não tínhamos nada que dizer! Isto nos tirou do fosso dos leões e das fauces do leão rugiente! Isto é, como afirmou Mrs. Sarah Wright: “Obtive misericórdia, quando eu cria que estava já para além da misericórdia; esperança do céu, quando eu cria que já estava condenada pela minha incredulidade; tinha dito muitas vezes: não há esperança para mim; estava desesperada e não me importava o que haveria de me suceder. Frequentemente achava-me no próprio bordo da morte e do inferno, inclusivamente às próprias portas deles, e então Cristo as fechou. Achava-me como Daniel no fosso dos leões, e Ele deteve estes leões e me deu liberdade. A bondade de Deus é inescrutável; quão imensa é a excelência da Sua majestade para que Se digne olhar para uma pessoa como eu; que me tenha dado paz quando estava cheia de terror e andava continuamente no meio do fogo e do enxofre.” Timothy Rogers.

Vers. 23. Amai ao Senhor, vós todos que sois Seus santos, ou noutra leitura dos originais, Amem o Senhor, todos os que são Seus amigos! Se os santos não amam ao Senhor, quem o fará? O amor é a dívida universal de toda a família salva; quem quer eximir-se de o pagar? Dão-se as razões para amar, porque o amor que crê não é cego. C. H. S.


Vers. 23. E retribui com abundância aos soberbos, ou noutra leitura dos originais, mas castiga severamente os que são rebeldes. O que temos de perguntar seguidamente é: como recompensa Deus ao orgulhoso? 1º) Por meio de represália ou de desforra —porque a Adoni-bezec, que cortava os polegares das mãos e dos pés dos demais, lhe cortaram os seus (Jz 1:7)—. Assim os judeus, que vociferavam: “Crucifica-O, crucifica-O”, foram muitos deles crucificados; porque se havemos de crer em Josefo, não havia bastante madeira para fazer cruzes, nem espaço, no lugar acostumado, para colocar tantas cruzes como as que fizeram. As armadilhas que o orgulhoso cava são para ele mesmo, e disso dá abundante testemunho a Escritura.2º) Mediante desenganos vergonhosos, colhendo raramente do que tinham semeado, ou não comendo o que tinham caçado, o qual se vê claro no estado judeu quando Cristo se achava entre eles. Judas traiu a Jesus por dinheiro, e não viveu para poder gastá-lo. Pilatos, para agradar a César, resiste a todos os conselhos, e cede e acede ao assassinato pelo qual veio a sua ruína e a de César. Hugh Peters.

Vers. 24. Esforçai-vos. O ânimo do Cristão pode ser descrito assim: É a audácia indomável de um coração santificado que se aventura a afrontar dificuldades e a sofrer penalidades por uma boa causa quando Deus o chama a isso. A audácia que há nos brutos é mencionada como semelhante ao valor que Deus concede aos homens (Ezequiel 3:9). Esta é a promessa do Senhor: “Fiz como diamante a tua fronte, mais forte do que a pederneira.” A locução “mais duro” é a mesma no hebraico que se usa neste texto—fortiorem petra—, a rocha que não teme as inclemências do tempo: verão ou inverno, sol ou chuva, calor ou frio, geadas ou neve; não se ruboriza, não se enruga, não muda na sua qualidade; é ainda a mesma. Amado, a coragem pessoal não consiste num olho penetrante, nem num olhar terrível, nem em palavras altissonantes; mas consiste no fervor, no vigor que está dentro do teu peito. A raiz donde vem a coragem é o amor a Deus; todos os santos de Deus que amam ao Senhor são de bom ânimo. O amor de Cristo me constrange a fazer essas aventuras audazes e corajosas, diz o apóstolo (2Co 5:14). A regra pela qual se rege é a Palavra de Deus: o que o Senhor Se agradou em nos deixar registado para guia do Cristão nas páginas sagradas (1Cr 22:12, 13). E o fim, ao qual se refere, é Deus. Porque para todo homem santificado, sendo um homem que se nega a si mesmo e olha para Deus e para os Seus interesses, Deus no seu centro, em que repousam as suas atividades e as suas empresas; e a sua alma não se satisfaz, nem pode fazê-lo, se não for em Deus. Simeon Ash's “Sermon preached before the Commanders of the Military Forces of the renowned Citie of London, 1642.”

Vers. 24. Esforçai-vos. O esquartejar os desejos carnais para um homem, é como esquartejar o seu próprio corpo; é um trabalho doloroso e penoso, como se um homem cortasse os seus próprios pés, cortasse-se as mãos ou como se arrancasse os seus próprios olhos, como expressam Cristo e o apóstolo Paulo. Simeon Ash.

Tradução de Carlos António da Rocha

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