… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 16 de abril de 2017

SALMO 32






C. H. Spurgeon
O Tesouro de David
SALMO 32

TÍTULO: “Salmo de David. Masquil”, ou noutra leitura dos originais, “Poema da coleção de David.” Que David escreveu este Salmo gloriosamente evangélico é comprovado não só por este título, mas pelas palavras do apóstolo Paulo, em Romanos 4:6-8: “Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras,…” Provavelmente, o seu profundo arrependimento do seu grande pecado foi seguido por uma paz bem-aventurada, que o levou a derramar o seu espírito na música agradável deste cântico escolhido. Na ordem cronológica ele parece seguir ao quinquagésimo primeiro. Masquil é um novo título para nós, e indica que este é um Salmo instrutivo ou didático. A experiência de um crente oferece instrução rica para os outros crentes, revela os passos do rebanho, e assim consola e dirige aos fracos. Talvez fosse importante neste caso prefixar a palavra, que os santos que duvidam não possam imaginar o Salmo como a declaração peculiar de um indivíduo singular, mas podem apropriar-se dela para si mesmos como uma lição do Espírito de Deus. David prometeu no quinquagésimo primeiro Salmo ensinar aos transgressores os caminhos do Senhor, e aqui ele faz isso mais efetivamente. Grotius crê que este Salmo foi feito para ser cantado no dia anual da expiação judaica, quando uma confissão geral de seus pecados era feita. C. H. S.




DIVISÃO. Na nossa leitura nós descobrimos que é conveniente notar a bênção do perdão, Sl 32:1-2; a confissão pessoal de David, Sl 32:3-5; e a aplicação do caso para outros, Sl 32:6-7. A voz de Deus é ouvida pelo perdão em Sl 32:8-9; e o Salmo então conclui com uma porção para cada uma das duas grandes classes de homens, Sl 32:10-11.



TODO O SALMO. Esta é uma marca de um verdadeiro penitente, quando ele tenha sido uma pedra de tropeço para os outros, seja ele o mais cuidadoso em levantá-los com o seu arrependimento como ele lhes foi prejudicial com o seu pecado; e eu nunca pense que o homem verdadeiramente penitente se envergonha de ensinar aos pecadores o arrependimento por sua própria prova particular. A mulher samaritana, quando ela se converteu, deixou o seu balde no poço, entrou na cidade, e disse: “Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito.” (Jo 4:29) E o nosso Salvador diz a São Pedro: “E tu, quando te converteres, confirma os teus irmãos.” (Lc 22:32). São Paulo também depois da sua conversão não se envergonha de se a si mesmo chamar o principal de todos os pecadores, e de ensinar os outros a arrependerem-se dos seus pecados, pelo seu próprio arrependimento. Feliz, e três vezes feliz, é o homem que pode edificar tanto como ele tem derrubado. Archibald Symson.



Todo o Salmo. Conta-se de Lutero de que um dia ao lhe ser perguntado qual de todos os Salmos era o melhor, ele deu como resposta “Psalmi Paulini”, e quando os seus amigos o pressionaram para saber qual destes o podem ser, segundo ele, “O 32, o 51, o 130 e o 143, porque todos eles ensinam que o perdão dos nossos pecados vem sem a lei e sem as obras do homem que crê, e portanto os chamo Salmos Paulinos; e David canta, ‘Mas Contigo está o perdão, para que sejas temido’, (Sl 130:4) isto é apenas o que Paulo diz: ‘Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia.’ (Ro 11:32) Assim, nenhum homem se pode orgulhar da sua própria justiça. Essas palavras, ‘para que sejas temido’, deitam fora todo o mérito, e ensinam-nos a descobrir as nossas cabeças diante de Deus, e a confessar gratia est, non meritum: remissio, non satisfactio, isto é mero perdão, não mérito, de modo algum” Luther’s Table Talk (Lutero, Conversas à mesa).



Os Salmos penitenciais. Quando Galileu foi preso pela Inquisição em Roma, por vencer o sistema de Copérnico, foi-lhe imposto, como penitência, que repetisse os Sete Salmos penitenciais cada semana durante três anos. Isso deve ter sido planeado como uma espécie de extrair dele uma espécie de confissão da sua culpa, e o reconhecimento da justiça da sua sentença; e nisso certamente havia alguma habilidade e, deveras, humor, seja como for, acrescentada à iniquidade (ou loucura) do processo. De outro modo, não é fácil entender o conceito de castigo ou de punição que os bons pais poderiam atribuir a um exercício devocional como este, que, de qualquer maneira, poderia ter sido agradável e consolador para o prisioneiro. M. Montague, em “The Seven Penitential Psalms in Verse...with an Appendix and Notes,”(Os Sete Salmos penitenciais em verso ... com um Apêndice e Notas) 1844



Versículo 1. Bem-aventurado, ou noutra leitura dos originais, Feliz. Como o Sermão do Monte, este Salmo começa com bem-aventuranças. Este é o segundo Salmo de bem-aventuranças. O primeiro Salmo descreve o resultado da santa bênção; o trinta e dois pormenoriza a causa da mesma. O primeiro descreve a árvore em pleno crescimento; este mostra quando ela é plantada e regada. C. H. S.



Versículo 1. Bem-aventurado, ou noutra leitura dos originais, Oh homem ditoso!, ou ainda noutra leitura dos originais, Oh a felicidade deste homem! Para denotar a bem-aventurança mais suprema e perfeita. Como o elefante, para denotar sua grande grandeza, é falado no plural, Behemoth. Robert Leighton.



Versículo 1. Nota, este é o primeiro Salmo, com excepção do primeiro de todos eles,que começa com uma “bem-aventurança”. No primeiro Salmo temos a bem-aventurança (a bênção, a graça divina) da inocência, ou seja, daquele que unicamente era inocente; aqui temos a bem-aventurança bem-aventurança (a bênção, a graça divina) do arrependimento, como o estado mais feliz que se aproxima ao estado da ausência de pecado. Lorinus, in Neale’s Commentary.



Versículo 1. Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, ou noutra leitura dos originais, Feliz aquele a quem foram perdoadas as culpas. Bem-aventurado aquele a quem é perdoada a sua transgressão. Um perdão pleno, instantâneo, irreversível da transgressão volta o inferno do pobre pecador num céu e converte-o, de herdeiro da ira, em participante da bênção. A palavra traduzida por “perdoada” no original é “tirar”, como uma carga que é tirada ou uma barreira que é eliminada. Que descanso e alívio! Custou ao nosso Salvador suar sangue o levar a nossa carga. Sim, custou-Lhe a vida o tirá-la. Sansão levou as portas da Gaza nas costas, mas o que era isto comparado com o peso que Jesus levou em nosso favor? C. H. S.



Versículo 1. Perdoado. O santo David, no começo deste Salmo mostra-nos que a verdadeira felicidade consiste: não em formosura, honra, riquezas (a trindade do mundo), mas no perdão do pecado. A palavra hebraica para perdoar, significa levar para fora de vista; que também concorda com isso Jr 50:20. “Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a maldade de Israel, e não será achada, e os pecados de Judá, mas não se acharão.” Esta é uma bênção incompreensível, e nela se põe uma base para todas as outras misericórdias. Eu não devo senão olhar para ela, e declarar estas cinco afirmações sobre o assunto. 1. O perdão é um ato da livre graça de Deus. A palavra grega para perdoar, decifra o original do perdão; não se levanta de qualquer coisa inerente a nós, mas é o puro resultado da livre graça. Is 43:25. “Eu, Eu Mesmo, sou o que apago as tuas transgressões, por amor de Mim, e dos teus pecados Me não lembro.” Quando um credor perdoa um devedor, ele fá-lo livremente. Paulo clama: “Alcancei misericórdia.” (1Tm 1:13). Quando o Senhor perdoa a um pecador, Ele não o faz pagar uma dívida, mas dá-lhe um legado. 2. Deus, ao perdoar o pecado, perdoa a culpa e o castigo. A culpa grita por justiça: mal Adão tinha comido a maçã, logo ele viu a espada flamejante, e ouviu a maldição; mas na remissão, Deus condescende com o pecador; Ele parece dizer-lhe assim: Embora tu tenhas caído nas mãos da Minha justiça, e mereças morrer, apesar disso te vou absolver, e tudo o que está carregado à tua conta fica perdoado. 3. O perdão do pecado é através do sangue de Cristo. A livre graça é a causa impulsiva; O sangue de Cristo é o meritório. “Sem derramamento de sangue, não há remissão.” Hb 9:22. A justiça seria vingada tanto no pecador como no fiador. Cada perdão é o preço de sangue. 4. Antes do pecado ser perdoado, o pecador deve arrepender-se. Portanto, o arrependimento e a remissão estão ligados entre si. “E em Seu nome se pregasse o arrependimento e remissão dos pecados.” Lc 24:47. O sangue de Cristo deve lavar as nossas lágrimas; porém o arrependimento é uma qualificação, mas não uma causa. Aquele que é humilhado pelo pecado é perdoado pela misericórdia. 5. Havendo Deus perdoado o pecado, Ele não o traz mais à lembrança. Jer 31:34 “Porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais Me lembrarei dos seus pecados.” O Senhor vai fazer um ato de indemnização. Ele não vai censurar-nos pelos antigos pecados, ou vai processar-nos por uma dívida cancelada. “Subjugará as nossas iniquidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar.” (Mq 7:19) O pecado não será lançado como uma rolha que se levanta de novo, mas como chumbo, que se deposita no fundo. Como devemos todo o trabalho por esta bênção do pacto! Thomas Watson.



Versículo 1. Pecado é coberto, ou noutra leitura dos originais, Desculpados os pecados. Coberto por Deus, como a arca estava coberta pelo propiciatório, como Noé foi coberto pelo dilúvio, como os egípcios foram cobertos pelas profundidades do mar. Que coberta há-de ser a que esconda para sempre da vista do Deus Omnisciente toda a imundície da carne e do espírito! Aquele que viu uma vez o pecado em toda a sua horrível deformidade, pode apreciar a felicidade de não ter de vê-lo mais. C. H. S.



Versículo 1. Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto, ou noutra leitura dos originais, Feliz aquele a quem foram perdoadas as culpas, a quem foram desculpados os pecados. Procura que os teus pecados sejam encobertos. Há uma forma de encobrir o pecado que é uma maldição. Pv 28:13: “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará.” Há um modo de encobri-las, que é não confessá-las, ou o que é pior, negá-las —o encobrimento de Geazi— um encobrimento do pecado com uma mentira; e há também uma cobertura do pecado, justificando-nos nele. “Eu não fiz isso”; ou, “eu fiz nenhum mal nisso.” Tudo isto são formas falsas de encobri-lo: aquele que, assim, encobre o seu pecado nunca prosperará. Mas há uma forma bendita de encobrir o pecado: o perdão do pecado é escondê-lo da vista, e isto é a bem-aventurança. Richard Alleine.



Versículo 1, 2. Nestes versículos se mencionam quatro males: 1) Transgressão, pesha; 2) Pecado, chataah; 3) Iniquidade, avon; 4) Malícia, remiyah. O primeiro significa passar dos limites, fazer o que é proibido. O segundo significa errar o alvo, não cumprir o mandado; mas é com frequência tomado como expressão pecaminosa, ou pecado na natureza, que produz transgressão na vida. O terceiro significa o que se desviou do seu curso ou da situação apropriada; algo moralmente distorcido ou pervertido; iniquidade, que é contrário à equidade ou à justiça. O quarto significa fraude, dolo, engano, etc. Para tirar estes males são mencionados três atos: perdoar, cobrir, não imputar. Adam Clarke.



Versículo 1-2, 6-7. Quem é bem-aventurado? Não o que encobre, esconde ou não confessa o seu pecado. Enquanto David estava neste estado, era muito desgraçado. Havia dobrez no seu espírito (Versículo 2), miséria no seu coração, os seus próprios ossos tinham envelhecido, o seu humor se tornou em sequidão de estio (Versículo 3, 4). Quem é bem-aventurado? Aquele que não tem pecado, que não pecou, aquele que não entristece mais como o seu pecado o peito dAquele sobre o qual se reclina. Esta é uma bem-aventurança superlativa, o seu elemento mais alto de felicidade do céu. O ser como Deus, o render obediência implícita, plena, perfeita, a obediência do coração, do nosso ser inteiro; esta tem de ser a mais bendita de todas as bem-aventuranças. James Harrington Evans, M.A., 1785-1849.



Versículo 2. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, ou noutra leitura dos originais, Feliz o homem em cuja consciência não há maldade. Nota as três palavras usadas com tanta frequência para denotar desobediência: transgressão, pecado e iniquidade, são as três cabeças de Cérbero do inferno, mas o nosso glorioso Senhor tem feito calar os seus latidos contra os Seus que crêem para sempre. A trindade do pecado é vencida pela Trindade doC. C. H. S.



Versículo 2. E em cujo espírito não há engano, ou noutra leitura dos originais, e em quem o Senhor não encontra iniquidade. Livre de culpa, livre de dobrez, do engano, da iniquidade. Os que são justificados da culpa são santificados de falsidade. Um mentiroso não é uma alma perdoada. A traição, o engano, a dissimulação, a mesquinhez, são traços dos filhos do diabo, mas o que foi limpo do pecado é veraz, sincero e simples como um menino. C. H. S.



Versículo 2. Em cujo espírito não há engano. Quando foi perdoado, o crente tem o valor de ser veraz ante Deus; pode permitir-se o abandonar a dobrez no espírito. Quem não declara todos os seus débitos quando outro está disposto a pagá-los? Quem não declararia a sua enfermidade se estivesse seguro de ser curado com isso?



A fé verdadeira não só sabe que o engano é impossível diante de Deus, senão também que já não é necessário. O crente não tem nada que esconder; vê-se diante de Deus, aberto e nu; e se tem aprendido a ver-se a si mesmo tal como é, também aprendeu a ver Deus quando Ele Se revela. J. W. Reeve, M.A., in “Lectures on the Thirty-second Psalm,” 1860.



Versículo 2. Não há engano. “Eis aqui água” disse o eunuco, “que impede que eu seja batizado?” (At 8:36). Pois bem, observa a resposta de Filipe, Versículo 37: “É lícito, se crês de todo o coração”; como se dissesse: “Não há nada, exceto um coração hipócrita, que possa impedi-lo. É o coração falso somente o que acha fechadas as portas da misericórdia.” William Gurnall.



Versículo 3. Envelheceram os meus ossos, ou noutra leitura dos originais, o meu corpo definhava, isto é, consumiram-se meus ossos. Que espécie de morte é o pecado! É uma enfermidade pestilenta! Um fogo nos ossos! Enquanto tentamos encobrir o nosso pecado ele ruge por dentro e, como uma ferida infetada, incha horrivelmente e é causa de grande dor. Pelo meu bramido em todo o dia, ou noutra leitura dos originais, chorava todo o dia. Ninguém conhece as dores da convicção do pecado como aquele que passou por elas. O potro, a roda, o feixe chamejante são fáceis de suportar comparados com o Tofeth que é uma consciência culpado inflamada dentro do peito: é melhor sofrer todas as enfermidades que afligem a carne que jazer sob o sentimento do esmagamento da ira do Deus Todo-poderoso. A Inquisição espanhola, com todas suas torturas, não era nada comparada com a averiguação da consciência dentro do coração. C. H. S.



Versículo 4. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim, ou noutra leitura dos originais, Pois dia e noite me castigavas com mão pesada! O dedo de Deus pode esmagar-nos –o que não pode fazer a Sua mão?– e ela está pressionando de modo pesado e contínuo. Sob os terrores da consciência os homens têm pouco descanso, quer de dia quer de noite; porque os tristes pensamentos de todo o dia os acossam nos seus aposentos e os perseguem nos seus sonhos, ou os deixam acordados num suor frio de temor; é melhor levar um mundo no ombro, como Atlas, do que a mão de Deus no coração, como David. C. H. S.



Versículo 4. Sequidão de estio, ou noutra leitura dos originais, calor do Verão. Durante os doze anos de 1846 a 1859 só choveu, escassamente, duas vezes em Jerusalém entre os meses de maio e outubro. Uma vez foi em julho de 1858; a outra em junho de 1859. Dr. Whitty’s “Water Supply of Jerusalem,” quoted in Kitto’s Cyclopaedia.



Versículo 4. Se Deus aflige e castiga com dor àqueles que Lhe são propícios, quão mais duramente não afligirá àqueles que não Lhe são propícios! Gregório I.



Versículo 4, 5. Se as nossas ofensas têm sido, não como mosquitos, mas como camelos, a nossa pena tem de ser, não uma gota, mas um oceano. Os pecados escarlates requerem lágrimas de sangue; e se Pedro pecou vergonhosamente, teve de chorar amargamente. Portanto, se a tua vida antiga tem sido uma enxurrada de iniquidades, uma corda bem trançada, um escrito repleto de borrões, um curso manchado com pecados diversos e sérios, multiplica as tuas confissões e amplia a tua humilhação; dobra os teus jejuns e triplica as tuas orações; derrama as tuas lágrimas e provocar o aparecimento de profundos suspiros. Numa palavra, repete e incrementa o teu reconhecimento, todavia, como diz o apóstolo noutro caso: “Não te aflijas como os que não têm esperança”, que em consequência do teu arrependimento sincero e apropriado a bondade divina vai perdoar te os pecados. Nathanael Hardy.



Versículo 5. Confessei-Te o meu pecado, e a minha maldade não encobri, ou noutra leitura dos originais, Confessei-Te os meus pecados e não escondi as minhas culpas. Entre os homens, uma confissão franca abre o passo à sentença; mas com Deus, quanto mais lamenta um pecador a sua ofensa mais se atenua a ira do seu Juiz. O pecado chama por justiça, posto que é uma ofensa contra Deus; contudo, uma vez que é uma ferida na alma que o move à misericórdia e à clemência. Portanto, logo que David resolveu confessar os seus pecados, foi reconciliado imediatamente com uma absolvição: assim, Tu agnosce, et Dominus ignoscet (Agostinho) isto é: sincero a confessar, e Deus será fiel a perdoar. 1Jo 1:9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. O reconhecimento do teu pecado é uma obrigação para que o deixes; e, depois, tu podes construir sobre isso. O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Pv 28:13). Isaac Craven’s Sermon at Paul’s Cross, 1630.



Versículo 5. Tu perdoaste a maldade do meu pecado, ou noutra leitura dos originais, tu perdoaste a culpa do meu pecado. Este pecado parece muito provável que fosse o seu adultério com Batseba (filha de Eliam, mulher de Urias) e o assassínio de Urias. Agora David, para dar mais evidência da misericórdia perdoadora de Deus, diz que não só lhe perdoou o seu pecado, mas também a iniquidade do seu pecado; e o que era isto? Sem dúvida, o pior que se pode dizer sobre isto, o seu complicado pecado, é que houvesse tanta hipocrisia nele: David jogou arriscadamente com Deus e o homem ao cometê-lo; isto, sem dúvida, era a iniquidade do seu pecado, e agravou a coisa muito mais do que o sangue que tinha vertido. “Porquanto David tinha feito o que parecia reto aos olhos do Senhor, e não se tinha desviado de tudo o que lhe ordenara em todos os dias da sua vida, senão só no negócio de Urias, o heteu.” (1Rs 15:5) Não tinha dado David nenhum outro passo falso além deste? Declara o Espírito de Deus, excetuando isto, a Sua aprovação de todo o resto que ele tinha feito? Não; sem dúvida o Espírito de Deus regista outros pecados que escaparam a este eminente servo de Deus; mas todos estes ficam incluídos aqui, e este mencionado é a grande mancha de sua vida. Mas, por quê? Sem dúvida porque aqui aparecia menos sinceridade, sim, mais hipocrisia neste que em todos outros juntos; ainda que David nestes tinha obrado mal quanto ao ato cometido, apesar de tudo, o seu coração era menos torcido na forma de cometê-lo. William Gurnall.



Versículo 6. Pelo que, todo aquele que é santo orará a Ti, a tempo de Te poder achar, ou noutra leitura dos originais, Por isso, nos momentos de angústia, todos os fiéis Te invocarão, diz David. Por isto! Por quê? Pelos seus pecados. E quem, não é o iníquo, mas o santo, neste sentido, que tem motivos para orar? E por que há-de orar? Sem dúvida, para que lhe seja renovado o perdão, incrementada a graça e aperfeiçoada a glória. Não podemos dizer que não temos pecado. Oh!, oremos, pois, com David: “Ó SENHOR, não entres em juízo com o Teu servo! (porque à Tua vista não se achará justo nenhum vivente), ou noutra leitura dos originais, Senhor, não chames a contas este Teu servo, (porque diante de Ti ninguém está inocente!” Nathanael Hardy.



Versículo 6. A tempo de te poder achar, ou noutra leitura dos originais, Nos momentos de angústia. Há, sem embargo, um tempo assinalado para a oração, além do qual não serve de nada; entre o tempo do pecado e o dia do castigo a misericórdia tem a palavra, e Deus pode ser achado; mas uma vez que a sentença tenha sido pronunciada, as apelações são inúteis, porque o Senhor não será achado pela alma condenada. C. H. S.



Versículo 6. Até no transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão, ou noutra leitura dos originais, E, mesmo que transbordem águas caudalosas, elas não chegarão junto deles. Isto é, Certamente na inundação de muitas águas estas não chegarão a ele. Os efeitos da oração até então tinham sido maravilhosos. A oração tinha fechado as janelas dos céus para que não chovesse, e de novo tinham sido abertas para que a terra pudesse dar o seu crescimento. A oração tinha detido o rápido curso do sol e feito que retornasse quinze graus. A oração deteve a mão de Deus para que não ferisse o Seu povo quando Ele estava disposto a fazê-lo. A oração, sem nenhuma outra ajuda ou meio, tinha derrubado os sólidos muros de Jericó. A oração dividiu o mar para que as águas não alcancem aos israelitas. Neste lugar, agora, tinha livrado o homem fiel de todos os perigos deste mundo. Thomas Playfere.



Versículo 6. Transbordar de muitas águas, ou noutra leitura dos originais, Transbordem águas caudalosas, ou noutra leitura dos originais, As inundações de grandes águas. As aflições dos fiéis são comparados às águas. O fogo e a água não têm misericórdia, dizemos. Mas, dos dois, a água é o pior. Porquanto qualquer incêndio pode ser extinto com água; mas, a força da água, se ela começa a ser violenta, não pode ser detida por qualquer poder do homem. Mas estas nossas tribulações que são águas são “muitas águas.” O nosso (inglês, já que Spurgeon era britânico) provérbio comum é: “Raramente a aflição vem sozinha”: mas, como as águas se vêm encapelando e agitando muito juntamente, assim também as misérias desta vida. Thomas Playfere.



Versículo 6. (A) ele. Esta palavra não deve, em caso algum, ser omitida; ela auxilia-nos a responder a uma objeção muito forte. Pois podemos dizer, que muitos homens piedosos perderam os seus bens, têm sofrido grandes tormentos no seu corpo, foram também perturbados no espírito; como, então, não chegar eles as “cheias de muitas águas”? A palavra ele ajuda-nos a responder. A mente de um homem é ele mesmo, dizem eles (os filósofos). Por isso, é que Júlio César, quando Amyclas, o piloto, teve muito medo da tempestade, lhe falou assim: “Que tens a temer, companheiro legionário? Não sabes tu que César vai contigo?” Como se ele quisesse dizer, o corpo de César pode muito bem ser afogado, como o corpo de outro homem; mas a sua mente, a sua magnanimidade, a sua coragem, a sua fortaleza, nunca podem ser afogadas. Até agora, isto era a filosofia; porém, a divindade vai um grau além disso. A filosofia define a este “ele”, isto é, um homem, pela sua razão, e pelas virtudes morais da mente; mas a Divindade define um homem Cristão pela sua fé, e ao seu conjunto, desse modo com Cristo. Excelentemente diz Santo Agostinho: “De onde vem isto que a alma morra? Porque a fé não está nela. Daí que o corpo morre? Porque a alma não está nela.” Portanto, a alma d           a tua alma é a fé. De modo que, se quisermos saber o que é um homem crente, é preciso defini-lo, não pela sua alma natural, uma vez que ele é razoável, mas pela alma da sua alma, que é a sua fé. E, então, facilmente respondemos à objeção de que um transbordar de muitas águas pode chegar perto dos bens de um homem fiel, perto do seu corpo, perto da sua alma racional; mas na sua fé, isto é, a ELE, o transbordar de muitas águas nunca lhe pode chegar perto dele. Thomas Playfere .



Versículo 7. Tu és o lugar em que me escondo, ou noutra leitura dos originais, Tu és o meu refúgio. Observa que o mesmo homem que no versículo quatro estava oprimido pela presença de Deus aqui acha refúgio nEle. Vê o que podem fazer a sincera confissão e o pleno perdão. O evangelho na doutrina da substituição faz dEle o nosso refúgio, quando de outro modo Ele seria o nosso Juiz. C. H. S.



Versículo 7. Tu és o meu esconderijo (isto é, o lugar em que me escondo, ou, o meu refúgio). David não diz: “Tu és um esconderijo” meramente, como um entre muitos; ou o “esconderijo”, como o único; mas, “Tu és o meu refúgio.” Aí reside toda a excelência do texto. “Ele é meu, eu tenho abraçado a oferta da Sua salvação, diz David; “Eu tenho reclamado o auxílio dEle para a minha própria pessoa: eu tenho-me, como pecador, abrigado no Seu amor e na Sua compaixão, eu tenho-me colocado sob as Suas asas; eu tenho-me coberto com o manto da Sua justiça, e agora, por isso, estou são e salvo.” “Bem-aventurado o homem cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto.” Isto é ter uma parte e uma porção no assunto, tendo o benefício pessoal e individual da obra de expiação do Salvador. Quão diferente é uma apropriação de uma fé especulativa! Os homens dizem-nos que eles crêem na doutrina, que reconhecem a verdade, que eles concordam com o nosso credo; e eles dizem que, ao declararem para eles o caráter de Cristo como a única ajuda e segurança do pecador, é simplesmente colocar diante deles, o que eles já sabem. Agora, segue-se a ideia sugerida pela figura no nosso texto, e vede a loucura e perigo de agir assim. Suponhamos que um viajante numa charneca desolada e exposta se alarma quando vê avizinhar-se uma tempestade. Procura proteção. Mas se o seu olho discerne um lugar onde esconder-se da tormenta, fica quieto e diz: “Vejo este refúgio, e portanto vou permanecer onde estou?” Não se dirigirá para ele? Não vai correr para escapar da fúria do vento e da tempestade? Já antes era “um” refúgio, mas passa a ser o “seu” refúgio quando o viajante se esconde nele e está seguro. Se não tivesse entrado nele, ainda que poderia ter sido amparo para outros viajantes que se tivessem refugiado nele, para ele teria sido como se não existisse. Quem não se dá conta imediatamente, por esta simples ilustração, de que as bênçãos do evangelho são só para aquele que as apropria à alma? O médico só pode curar ao que o chama; a medicina só pode curar ao que a toma; o dinheiro só enriquece ao que o possui; e o negociante da parábola não teria sido mais rico ao descobrir que havia uma “pérola de grande valor” se não a tivesse adquirido. O mesmo acontece com referência à salvação do evangelho: Se Cristo é o “bálsamo de Gilead”, aplica a ti o remédio; se é o “médico”, vai a Ele; se é “a pérola de grande valor”, vende tudo o que tens e compra-a; e se é o “refúgio”, corre para Ele, põe-te a salvo; não haverão gozo e paz sólidos na tua alma até que Ele seja o teu “esconderijo”. Fountain Elwin, 1842.



Versículo 7. Tu me preservas da angústia, ou noutra leitura dos originais, Tu me salvarás da angústia. A angústia não me causa dano quando o Senhor está comigo; mas antes será causa de muito beneficio para mim, como a lima que tira a ferrugem mas não destrói o metal. Observa os três tempos; temos notado o passado deplorável, a última cláusula era um gozoso presente, esta é um futuro contente. C. H. S.



Versículo 7. Tu me preservas da angústia, ou noutra leitura dos originais, Tu me salvarás da angústia. Deus usa ambos os meios a favor dos Seus servos: às vezes suspende a operação do que tem de obrar como tortura, como quando suspendeu o furor dos leões de Daniel e o calor do fogo do forno quente dos jovens; outras vezes concede insensibilidade ao que sofre; assim Lourenço de Huesca não só foi paciente, mas também se alegou e fez-se faceto quando o assavam; e assim lemos de muitos outros mártires que foram menos afetados pelas torturas que sofreram que pelos verdugos que as infligiam. John Donne.



Versículo 8. Instruir-te-ei e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus olhos, ou noutra leitura dos originais, Vou ensinar-te e mostrar-te o caminho que deves seguir; guiar-te-ei sem te perder de vista. Esta tripla repetição: Instruir-te-ei (Vou ensinar-te), ensinar-te-ei (Vou mostrar-te), guiar-te-ei com os meus olhos (guiar-te-ei sem te perder de vista), mostra três características de um bom professor. Primeiro, fazer com que as pessoas entendam o meio da salvação; segundo, ir adiante deles; terceiro, velar sobre eles e sobre os seus caminhos. Archibald Symson



Versículo 8. Guiar-te-ei com os meus olhos, ou noutra leitura dos originais, Guiar-te-ei sem te perder de vista, ou ainda noutra leitura dos originais, Sobre ti manterei os meus olhos. “Aconselhar-te-ei, os Meus olhos estarão sobre ti.” Este é o sentido do hebraico. O significado literal é: “Aconselhar-te-ei; os Meus olhos estarão sobre ti.” De Wette: “O Meu olho está dirigido para ti.” A ideia é a de um que mostra o caminho a outro que tem de o tomar a fim de chegar a certo ponto; e lhe diz que o observa, ou que mantém o seu olho sobre ele, para se assegurar de que ele não se desvia. Albert Barnes.



Versículo 9. Não sejas como o cavalo, nem como a mula. Segundo a natureza destas duas bestas, os pais e outros expositores deram várias interpretações, ou pelo menos alusões. Consideram que o cavalo e a mula admitem qualquer cavaleiro ou qualquer carga, sem discrição ou diferença, sem debate ou consideração; eles nunca perguntam se o cavaleiro é nobre ou vilão, nem se a carga é de ouro para o tesouro ou de hortaliças para o mercado. E estes expositores acham a mesma indiferença no pecador habitual a qualquer classe de pecado; tanto se é por prazer, ou para benefício, ou para companhia, todos eles são pecados. John Donne.



Versículo 9. Não sejas como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio, para que se não atirem a ti, ou noutra leitura dos originais, Não sejas como o cavalo ou como a mula, que não têm entendimento e precisam de cabresto e freio, para os dominares e te poderes aproximar. Que têm de ser sujeitos com cabresto e com freio, porque senão, não se podem dominar. O freio da aflição mostra quão duros somos de dominar; as bridas da enfermidade e das dolências manifestam a obstinação da nossa vontade. Não deveríamos ser tratados como mulas se não houvesse muito do asno em nós. C. H. S.



Versículo 10. O ímpio tem muitas dores, ou noutra leitura dos originais, Muitas coisas fazem sofrer os maus. Aquele que semeia pecados colherá aflição em molhos pesados. O pesar da consciência, o desengano, o terror, são a herança segura do pecador no tempo, e logo o pesar do remorso e do desespero para sempre. Mas ao que espera no SENHOR, rodeá-lo-á a misericórdia. O malvado tem um enxame de vespas que o rodeiam, isto é, muitos pesares; mas nós temos um enxame de abelhas que produzem mel. C. H. S.



Versículo 10. Mas àquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará, ou noutra leitura dos originais, o amor do SENHOR rodeia os que nEle confiam. Ver-se-á rodeado de misericórdia, como nos rodeia o ar ou a luz do sol. Achará misericórdia e favor por toda parte: em casa, lá fora; de dia, de noite; em sociedade, na solidão; na enfermidade, na saúde; na vida, na morte; no tempo, na eternidade. Andará entre misericórdia, morrerá entre misericórdias; viverá num mundo melhor no meio das misericórdias eternas. Albert Barnes



Versículo 10. “Nota bem este texto” disse Richard Adkins ao seu neto Abel, que lhe estava lendo o Salmo trinta e dois-. “Nota este texto: “Aquele que espera no SENHOR, rodeia-o a misericórdia.” (Mas àquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará, ou noutra leitura dos originais, o amor do SENHOR rodeia os que nele confiam.) Li-o na minha juventude e cri nele; e agora o leio na minha ancianidade, e, graças a Deus, sei que ele é verdadeiro. Oh, é uma grande bênção no meio dos gozos e sofrimentos do mundo, Abel, o confiar no Senhor.” The Christian Treasury ( O Tesouro cristão), 1848.



Versículo 11. Alegrai-vos. A felicidade não é só um privilégio nosso, mas é o nosso dever. Verdadeiramente servimos a um Deus generoso, posto que faz que uma parte da nossa obediência seja o estar contentes. Que pecaminosas são as nossas rebeldes murmurações! Lemos de um que morreu ao pé do patíbulo, da imensa alegria que teve ao receber o perdão do seu monarca; e vamos nós receber o perdão gratuito do Rei de reis e, contudo, vamo-nos entregar a uma dor indesculpável?



Versículo 11. E cantai alegremente, todos vós que sois retos de coração ou noutra leitura dos originais, cantem com alegria (ou, júbilo), todos os que são rectos de coração! É de temer-se que a igreja dos nossos dias, ainda que seja por causa do seu afã de se comportar devidamente, tornou-se muito artificial; assim, os gritos dos penitentes e dos crentes, se alguém tentasse pronunciá-los nas nossas reuniões, seriam calados. Isto pode ser melhor que o fanatismo vociferante, mas há tanto perigo numa direção como na outra. Pela nossa parte, comove-nos o coração um pouco de excesso sagrado, e quando os homens piedosos, no seu gozo, saltam dos limites estreitos do decoro, não os olhamos com espírito crítico, como a filha de Saul, Mical, para David? C. H. S.



Versículo 11. E cantai alegremente, todos vós que sois retos de coração ou noutra leitura dos originais, cantem com alegria (ou, júbilo), todos os que são rectos de coração! Quando o poeta Carpani inquiriu do seu amigo Haydn por que é que a música religiosa dele era tão alegre, o compositor lhe deu uma graciosa resposta: “Não a posso fazer de outra forma. Escrevo segundo os pensamentos que sinto; quando penso em Deus, o meu coração fica tão cheio de gozo que as notas dançam e saltam da minha pluma; e como Deus me deu um coração alegre, Ele perdoar-me-á se O sirvo com um espírito alegre.” John Whitecross’s Anecdotes.

Tradução de Carlos António da Rocha

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