… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

26 de janeiro de 1931 . Major Santos Ferreira, o soldado eleito de Cristo


26 de janeiro de 1931 Major Santos Ferreira,
 o soldado eleito de Cristo
Guilherme Luís dos Santos Ferreira, filho de Anastácio dos Santos (Ferreira) e de Angélica Rosa dos Santos (Ferreira) nasce, apesar de haver várias datas aventadas, provavelmente, no dia 10 de janeiro de 1849, na freguesia de Santo André, no concelho de Mafra. Seu pai, um militar de carreira, atinge o posto de Coronel, participa na Guerra Civil Portuguesa, luta do lado dos vencedores, os Liberais. Guilherme Luís dos Santos Ferreira além da instrução primária que ao que parece incluiu a aprendizagem do francês, não tem grande educação formal. Foi toda a vida um autodidata.

Talvez, por influência paterna, Santos Ferreira decide ingressar na carreira militar logo que completa os 16 anos. Assim, a 22 de abril de 1865 assenta praça como voluntário no Batalhão de Caçadores n.º 11 e vai subindo degrau a degrau na hierarquia do exército, até que a 12 de junho de 1901 sai para a reserva com o posto de major. Devido ao seu carácter e cultura ímpares, Santos Ferreira foi chamado a exercer funções de elevada responsabilidade na instituição castrense. É por várias vezes agraciado com louvores e medalhas de Portugal e Espanha, de tal maneira que é preciso um grande museu para as expor!

Guilherme Luís dos Santos Ferreira foi um Homem das Letras e da Cultura. A sua paixão pelos livros e pela cultura destaca-o como bibliotecário do Ministério da Guerra, função que exerce com brio e distinção durante vários anos. É, aliás, devido à presença de Santos Ferreira nesta função que a Biblioteca do Exército Português, em Lisboa, ainda hoje detém uma impressionante coleção de Bíblias de grande valor.

É dito dele que era portador de “palavra fluente e vigorosa” o que faz dele um conferencista em numerosas ocasiões. As suas áreas de interesse são tantas que a sua apresentação terá sempre de passar necessariamente por uma listagem fastidiosa das suas atividades.

Também muito lhe deve a Cruz Vermelha Portuguesa. Foram várias as condecorações que esta grande Instituição lhe concede em justo reconhecimento pelo seu denodo, esforço e dedicação.

Santos Ferreira é de facto um Homem extraordinário! Mas o melhor é o vou dizer: ERA UM CRISTÃO GENUÍNO! Sobressai a sua devotada e íntegra vida de Cristão protestante com incontável colaboração ao nível de direção de instituições religiosas, bem como de produção literária prolífica no campo do ensaio, do jornalismo, mas também da poesia e da hinologia.

Não é muito provável que na sua infância e adolescência Santos Ferreira tenha sido exposto às doutrinas protestantes, as quais eram nessa época ainda ignoradas pela vasta maioria da população portuguesa. Das várias fontes consultadas, apenas Eduardo Moreira nos conta como o jovem alferes teria ficado exposto aos ventos da Reforma lusitana. Diz Moreira: “Santos Ferreira fora atraído pelo testemunho, bem singelo, dum recruta de nome António Laurentino Tavares, que lhe pedira dispensa de missa por motivo de consciência, e satisfez a curiosidade do seu superior indicando-lhe a igreja que frequentava” Deve-se ter dado este episódio entre 1876 e 1880, já que sabemos que Santos Ferreira fora promovido a alferes no final de 1875 e que começou por frequentar a Igreja Presbiteriana de Lisboa, que então se reunia no extinto Convento dos Marianos, na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa. É aqui que Santos Ferreira faz publicamente a sua profissão de fé e é batizado segundo o rito presbiteriano. Nas palavras de Cardoso, “em 1879, a Igreja Presbiteriana vende o seu templo das Janelas Verdes à Igreja Lusitana, passando os crentes presbiterianos a reunir-se provisoriamente na Rua Vasco da Gama, 60,” em Lisboa. No seu proverbial pragmatismo, pouco dado a questiúnculas denominacionais, Santos Ferreira decide permanecer no local em que se tinha habituado a louvar a Deus e, paulatinamente, acaba por aderir à Igreja Lusitana, na qual permanece até à sua morte.

Com esta atitude, Santos Ferreira demonstra também uma enorme vocação para lutar pela unidade de todos os protestantes portugueses, razão pela qual colabora intensamente com a União Cristã da Mocidade, sendo assiduamente convidado como palestrante por esta organização de juventude. É também o primeiro e único presidente da efémera Associação Protestante Portuguesa, criada a 31 de Julho de 1909, que viria a anteceder em muitos anos a Aliança Evangélica Portuguesa, constituída apenas em 1921. No âmbito da sua convição de fé contribui também para a comunidade a que pertence de diversas formas. “Faz boas traduções de literatura sã e evangélica que a antiga Livraria Evangélica edita com grande bênção para centenas de almas”, de acordo com Tucker. Ainda segundo o mesmo: “Nove hinos da sua autoria estão incluídos no livro Salmos e Hinos e nota-se que não há nas composições rima banal ou versos contorcidos. Os seus hinos têm composição poética, unção natural de quem está superiormente inspirado para escrever estâncias repassadas de louvor a Deus, que milhares de corações têm entoado. Os hinos da sua autoria permanecem ainda no agrado do povo evangélico, como: Meu pecado resgatado, Amaste-me Senhor, Inda a luz…, Na cidade de Deus não entra o pecador.”

John T. Tucker na sua obra Heróis da Cruz no capítulo que dedica ao major Guilherme Luís dos Santos Ferreira, ombreia-o com nomes como os de João Ferreira de Almeida (1628-1691), Diogo Cassels (1844-1923), Roberto Reid Kalley (1809-1888), Joaquim dos Santos Figueiredo (1865-1937), José Augusto Santos e Silva (1863-1940), entre outros. A justa homenagem de Tucker a Santos Ferreira coloca-o justamente na galeria dos “heróis da cruz”.

A vertente confessional não era a principal motivação pela qual Santos Ferreira pauta a sua vida. Bem pelo contrário, o que é justo é considerar o ilustre major como um Cristão íntegro e integral que, como tal, faz tudo o que faz por acreditar firmemente ser um salvo e um servo de Deus. Não nos parece que em algum momento da vida de Santos Ferreira se tenha imposto às suas múltiplas atividades algum tipo de separação entre o sagrado e o profano. Em todas elas ele procurou ser o tal “soldado eleito de Cristo” de Tucker.

É também no contexto da fé e da “sua” igreja que Santos Ferreira constitui família. Casa a 4 de janeiro de 1881 com Maria da Conceição Stuart Hainsworth, filha do britânico John Stott Hainsworth que ao tornar-se cidadão português adquire o título nobiliárquico de Barão de Sacavém e que foi proprietário da Fábrica de Loiça de Sacavém. Do consórcio com esta senhora viriam a nascer cinco filhos, dos quais três permaneciam vivos à data de falecimento de Santos Ferreira. Eram eles: Ada Ferreira, que veio a casar com José Pereira Martins, pastor da Igreja Lusitana e professor em Setúbal; Rui Vítor Ferreira, funcionário do Banco de Portugal; e, Frederico Ferreira, que manteve a ligação da família à Fábrica de Loiça de Sacavém. De entre outros membros da família que se destacaram no meio protestante há ainda a referir o seu cunhado João da Silva Canuto e o sobrinho Roberto S. Canuto, que foi agente da Sociedade de Tratados Religiosos. Ainda sobrevivo encontra-se o neto de Santos Ferreira de nome Eliezer Ferreira Martins, “conhecido obreiro entre os evangélicos de Almada.”

Já viúvo, Guilherme Luís dos Santos Ferreira viria a falecer neste dia, 26 de janeiro de 1931, na sua residência na Rua da Beneficência, 81, em Lisboa. Congregava-se então na paróquia de São Pedro, da Igreja Lusitana.

O seu féretro foi depositado no cemitério de Benfica às 14 horas do dia seguinte, tendo uma distinta audiência assistido ao acto. Reza a notícia do Portugal Novo que “o corpo foi conduzido num armão da artilharia, puxado a três parelhas, escoltado por um pelotão militar, fazendo-se representar no préstito o Governo Militar de Lisboa”.

 Estava também representada a Cruz Vermelha. As cerimónias fúnebres foram dirigidas pelo Rev. Josué Ferreira de Sousa, pastor da comunidade que Santos Ferreira frequentava, apesar de estarem presentes outros pastores e muitos fiéis protestantes que assim quiseram manifestar o seu preito a tão ilustre cidadão português e Cristão convicto. De referir ainda a presença dos Revs. Joaquim dos Santos Figueiredo, José Augusto Santos e Silva e Joaquim Rosa Baptista, entre outros.

Guilherme Luís dos Santos Ferreira morre como vive quase toda a sua vida: respeitado por todos. Não são muitos os cidadãos deste mundo a quem se pode atribuir tal padrão de integridade e de fidelidade.

Lista de Algumas Obras Publicadas por Guilherme Luís dos Santos Ferreira:

Electricidade, 1886.
Relatório Apresentado à Comissão Central pelo seu Delegado à Conferência Internacional de Roma, 1892.
Bandeiras Navais Portuguesas desde o XV Século até à Actualidade: Apontamentos Coligidos a Propósito do IV Centenário da Descoberta da Índia, 1896.
“A Bíblia em Portugal”, em Evangelista, n.º 125 e seguintes, 1898.
Almanaque das Famílias Cristãs Protestantes para 1901, 1900.
A Ordem de Malta em Portugal, por um Cavaleiro de Avis, 1900.
“O Brasão de Mafra”, em O Correio de Mafra, n.º 226, 1903.
“As ’Tulhas’ de Mafra”, id., n.º 228, 1903.
“Lápides e Inscrições”, id., n.º 232, 1903.
“Doações e Donatários”, id., n.ºs 235 a 240, 1903.
“Igreja de Santo André”, id., n.ºs 247 a 249, 1903.
Situação Legal das Missões Cristãs, 1905.
A Bíblia em Portugal. Apontamentos para uma Monografia. 1495-1850, 1906.
A Nova Moeda de Prata, 1908.
“Notícias Sobre o Brasão dos Albuquerques”, publicado no volume I do Tombo Histórico e
Genealógico de Portugal, 1909.
A Tenção de D. Duarte no Pórtico de Entrada das Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha, 1910.
Gustavo Moynier, 1911.
“Descrição Metódica dos Brasões de Armas das Famílias Nobres de Portugal”, publicação começada pelo Tombo Histórico e Genealógico de Portugal, que ficou na p. 76, 1912.
Breves Observações acerca do Método Seguido no 2.º Volume das “Religiões da Lusitânia” para a Leitura de Certas Inscrições Latinas, 1913.
Inscrições Hebraicas da Península Ibérica: As letras desconhecidas de Castellon de la Plana e sua interpretação, 1917.
A Cruz Vermelha Portuguesa Durante a Grande Guerra, 1919.
Armorial Português, 1920 (vol. I) e 1923 (vol. II), de cuja edição se fez outra tiragem em
1925, prefaciada por Afonso de Dornelas.
“Escritas Antigas”, em Portugal Evangélico, a partir do n.º 38, 1923.
“Carta Dirigida ao „Portugal Evangélico‟ na Comemoração do seu IV Aniversário”, id., n.ºs 48
e 49, 1924.
Escrita Hierática dos Hebreus, Revelada pela Interpretação das Inscrições Ibéricas, 1926.
Salvador Gonçalves Zarco (Cristóbal Colón), de colaboração com António Ferreira de Serpa
Lisboa, cuja primeira parte intitulada Os Livros de D. Tivisco é da sua autoria, e a segunda,
Confirmações Históricas, do seu colaborador, 1930.

Traduções para português de Guilherme Luís dos Santos Ferreira

A Aurora do Evangelho na Britânia, de Charlotte Maria Tucker.
A Vingança dos Druidas, de Charlotte Maria Tucker.
Gláucia: a Escrava Grega, de Emma Leslie.
Graça e Verdade sob Doze Aspectos, de William Paton Mackay.
Jenny ou Uma Lâmpada Acesa pelo Senhor.
O Peregrino: ou a Viagem do Cristão à Cidade Celestial, debaixo da forma de um sonho, de John Bunyan.
O Velho Manuscrito ou a História de Annesia Robineau: Acção Passada entre os Pequenotes de Vendéa, de Branca Moggridge.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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