… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Salmo 35

C. H. Spurgeon
O Tesouro de David
SALMO 35
TÍTULO: “Salmo de David” ou “Salmo da coleção de David.” Isto é tudo o que sabemos sobre o Salmo, mas a evidência interna parece estabelecer a data da composição nos tempos turbulentos em que Saul perseguia a David por montes e vales, e quando os que adulavam ao rei cruel caluniavam o objecto inocente da sua ira; ou pode referir-se aos dias desassossegados das insurreições frequentes que tiveram lugar na ancianidade de David. Todo o Salmo é uma apelação ao Céu feita por um coração ousado e uma consciência clara, irritada desmesuradamente pela opressão e malícia. Sem a menor dúvida, o SENHOR de David pode ver aqui com o olho espiritual. —C. H. S.

TODO O SALMO. Bonar intitula este Salmo de “A terrível declaração do Justo com respeito aos que O aborrecem sem causa”, e faz os seguintes comentários: “Naquele dia, quando as nossas ideias de justiça serão muito mais claras e plenas do que agora, entenderemos como pôde Samuel esquartejar a Agag, e os exércitos piedosos puderam exterminar a homens, mulheres e crianças pelas ordens de Deus, em Canaan. Poderemos, não só estar de acordo plenamente com a sentença: “Sejam confundidos”, etc., mas ainda até cantar: “Ámen, Aleluia” sobre a fumo da tortura (Ap 19:1, 2) Deveríamos ser capazes, em alguma medida, de aplicar a nós mesmos cada versículo deste Salmo no espírito em que fala o Juiz, sentindo-nos seus assessores na ação de julgar o mundo (1Co 6:2), pois, de todos os modos, é algo que teremos de fazer quando o que aqui está escrito tenha o seu cumprimento. —Andrew A. Bonar

Versículo 1. Pleiteia, SENHOR, com aqueles que pleiteiam comigo, ou, Ó SENHOR, condena aqueles que me acusam, ou, Julga, SENHOR, aqueles que me acusam, ou ainda noutra leitura dos originais, SENHOR, peço-te que acuses esses mesmos que me estão a acusar. Condena-te o mundo pelo teu zelo no serviço de Deus? Amontoa recriminação e desprezo sobre ti, pelo teu cuidado, em continuar obrando o bem? Não se ruboriza ele, ao te imputar toda a classe de falsidades, com hipocrisia farisaica? Oh!, mas se a tua consciência não te condena em nada, se te sentes confirmado pela santa Palavra de Deus, se o teu objetivo é a Sua glória ao prosseguires na tua própria salvação, e não te associas com os que perturbam a igreja, segue adiante, bom Cristão, na prática da piedade, não te desanimes nos teus louváveis esforços, mas recorda com consolo que o SENHOR é o teu Juiz (1Co 4:4). —Isaac Craven’s Sermon at Paul’s Cross, 1630.

Versículo 3. Tira da lança e obstrui o caminho aos que me perseguem, ou, Empunha a lança e o machado contra os que me perseguem, ou, Empunha a lança e a espada contra os que me perseguem, ou ainda noutra leitura dos originais, Levanta-te e esbarra o caminho aos meus perseguidores. O deter o tumulto é um verdadeiro ato de bondade. É o mesmo como um guerreiro valente que com a sua lança detém uma hoste até que o seu irmão mais fraco possa escapar, assim o SENHOR a miúdo detém os inimigos do crente até que o homem bom tenha recuperado alento e escape da mão dos seus inimigos. —C. H. S.

Versículo 3. Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação, ou ainda noutra leitura dos originais, Repete-me, para eu ficar descansado, que és a minha salvação. Observa que a salvação pode ser assegurada ao homem. David nunca orava por aquilo que era impossível, nem Pedro nos encomenda um dever que não tem a possibilidade de ser executado. “Procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2Pe 1:10, ARC, Pt). E para deter os uivos e vociferação dos adversários, Paulo o demonstra diretamente: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis, quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” (2Co 13:5, ARC, Pt). Portanto, podemos saber se Cristo está em nós. Se Cristo está em nós, nós estamos em Cristo; se estamos em Cristo, não podemos ser condenados, pois lemos em Rm 8:1: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” —Thomas Adams

Versículo 3. Dize à minha alma. Se Deus nos dá consolo, ruge de horrores o inferno. Não há aflição como a aflição da alma; nem consolação como a consolação da alma... Que isto nos ensine a tirar muito deste “minha.” A segurança de que Deus vai salvar a alguns, a têm bem clara, os demónios. Os mesmos reprovados podem crer que há um livro de eleição; mas Deus nunca lhes há dito que nomes estão escritos ali. O mendigo faminto, na casa do festim, cheira desde a porta, mas o dono não lhe diz: “Isto está provido para ti.” A formosura desta excelente cidade de Jerusalém, edificada de safiras, esmeraldas, crisólitos e outras pedras preciosas, cujos fundamentos e paredes são de ouro puro (Ap 21), não dá consolo à alma, a menos que ela possa dizer: “Eu tenho uma mansão nela.” Os méritos suficientes de Cristo não têm valor para ti, a menos que Ele seja o teu Salvador. O mundo falha, a carne falha, o diabo mata. Só o SENHOR salva. Como? Salvação. Algo especial; todo homem a deseja. “Dar-te-ei um senhorio” disse Deus a Esaú. “Dar-te-ei um reino” disse Deus a Saul.” “Dar-te-ei um apostolado” disse Deus a Judas. Mas “Serei a Tua salvação” diz Ele a David, e a ninguém senão aos santos. —Condensed from Thomas Adams.

Versículo 4. Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida, ou, Sejam envergonhados os que querem matar-me, ou, Lança a confusão e a vergonha no meio dos que procuram matar-me, ou ainda noutra leitura dos originais, Sejam confundidos e envergonhados os que procuram tirar-me a vida. Não há malícia aqui; o caluniado simplesmente anela justiça, e a petição é natural e justificada. Guiado pelo bom Espírito de Deus, o Salmista prediz a confusão eterna de todos os que aborrecem os justos. Um desengano terrível será a porção dos inimigos do Evangelho, e o Cristão de coração mais terno não pode desejar outra coisa, olhando aos pecadores como homens, amamo-los e queremos o seu bem, mas considerando-os como inimigos de Deus, não podemos pensar neles a não ser detestando-os e desejando lealmente que sejam confundidos na sua habilidade para o mal. Nenhum cidadão leal pode desejar bem aos rebeldes. A sentimentalidade doentia pode objetar à linguagem firme que se usa aqui, mas em seus corações todos os homens de bem desejam a confusão dos iníquos. —C. H. S.

Versículo 4, 8, 26. Como podemos considerar estas orações como tendo por objetivo a vingança? Achamo-las principalmente em quatro Salmos: o sete, o trinta e cinco, o sessenta e nove e o cento e nove, e as imprecações neles formam um clímax terrível. No último há não menos de trinta anátemas. São estes anátemas só acessos de sentimento ou de paixão não santificada, ou são a expressão legítima de uma indignação justa? Uma comiseração mal informada sabemos bem que tem levado muitas pessoas a abster-se de ler estes Salmos absolutamente. Pois bem, a fonte real da dificuldade acha-se em que não observamos nem distinguimos a diferença essencial entre o Antigo e o Novo Testamento. A antiga dispensação era em todo o sentido mais severa que a nova. O espírito de Elias, ainda que não era um espírito mau, não era o espírito de Cristo. “O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:56). —J. J. Stewart Perowne.

Versículo 4, 8, 26. David sentia o mesmo desejo de vingança que toda a personagem pública típica que possa ser nomeada. A sua conduta em relação ao Saul, desde o começo ao fim, mostrou um espírito singularmente nobre, muito afastado do desejo carnal de vingança; e a mansidão com que suportou as recriminações azedas de Simei, dá testemunho do mesmo espírito depois de seu acesso ao trono... Pode afirmar com respeito aos seus inimigos implacáveis: “SENHOR, meu Deus, se eu fiz isto, se há perversidade nas minhas mãos, Se paguei com o mal àquele que tinha paz comigo (antes livrei ao que me oprimia sem causa); Persiga o inimigo a minha alma e alcance-a; calque aos pés a minha vida sobre a terra, e reduza a pó a minha glória (Selah)” (Sl 7:3-5, ARC, Pt). Sem dúvida, temos de pensar duas vezes antes de interpretar estas imprecações em formas totalmente incompatíveis com estas apelações, pronunciadas quase juntamente com elas. —William Binnie, D.D.

Versículo 7. Porque, sem causa, encobriram de mim a rede na cova, que, sem razão, cavaram para a minha alma, ou, Porque, sem razão, me armaram ciladas; sem motivo cavaram um fosso para eu nele cair, ou, Porque, sem motivo, puseram armadilhas contra mim; sem razão, cavaram um fosso para eu nele cair, ou ainda noutra leitura dos originais, Porque, sem eu lhes ter feito mal algum, prepararam-me uma armadilha, cavaram um fosso no meu caminho, para me apanharem. David afirma duas vezes no versículo que os seus adversários tramaram contra ele sem causa. O cavar fossos e estender redes requer tempo e trabalho, e as duas coisas as fazem os iníquos, contentes por ver derrubado o povo de Deus. —C. H. S.

Versículo 8. Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que ocultou; caia ele nessa mesma destruição, ou, Venha sobre eles uma ruína nunca vista! Sejam apanhados na armadilha que prepararam!, ou, Venha sobre eles uma ruína imprevista! Sejam apanhados na rede que me prepararam e caiam no fosso que me abriram!, ou ainda noutra leitura dos originais, Que sejam pois destruídos, inesperadamente, e apanhados na própria rede que esconderam para mim, presos na mesma armadilha com que queriam liquidar-me. Aqui vemos uma lex talionis de Deus que com muita frequência obra surpresas. Os homens põem armadilhas, e os seus dedos ficam agarrados nelas. Atiram pedras, e estas caem sobre as suas cabeças. Com que frequência Satã se equivoca e queima os seus dedos nos seus próprios carvões! Esta, sem dúvida, será uma circunstância agravante do inferno, que os homens se atormentarão a si mesmos com o que um dia costumavam maquinar nas suas mentes rebeldes. Amaldiçoam, e são amaldiçoados; atiram coices contra o aguilhão, e rasgam as sua próprias carnes; deixam cair dilúvios de fogo, e eles são os que se queimam a si mesmo por dentro e por fora. —C. H. S.

Versículo 8. Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que ocultou; caia ele nessa mesma destruição. Ao dar bastante corda a Aquitofel, o SENHOR preservou David de perecer. Quem não se admira que Golias fosse morto com a sua própria espada, e que o orgulhoso Haman sustivesse o estribo de Mardoqueu e fosse o arauto da sua honra? O malvado será derrotado em seus próprios atos; todas as flechas que dispara contra o justo cairão sobre a sua própria cabeça. Maxêncio construiu uma ponte falsa para que Constantino se afogasse nele, mas foi ele quem pereceu afogado. Henrique III, de França, foi apunhalado na mesma câmara em que colaborou para organizar a cruel matança dos protestantes franceses. E seu irmão, Carlos IX, que se deleitava no sangue dos santos, teve de beber sangue até não poder mais. —Condensado de Thomas Brooks

Versículo 11. Falsas testemunhas se levantaram, ou, Levantaram-se contra mim falsas testemunhas. Esta é uma das argúcias dos ímpios, e não temos de nos maravilhar de que a tenham usado contra o nosso SENHOR e contra nós. Para agradar a Saul, sempre havia homens que eram bastante ruins para caluniar a David. —C. H. S.

Versículo 11. Depuseram contra mim coisas que eu não sabia, ou, E interrogaram-me sobre coisas que eu ignorava, ou, e pediram-me contas de coisas que eu ignorava, ou, que me acusaram de coisas de que eu até nunca tinha ouvido falar antes, ou ainda noutra leitura dos originais, Acusam-me de coisas que nem sei. Não tinha a menor ideia da sedição; era leal, mais do que devia, e o acusavam de conspirar contra o ungido do SENHOR. Não só era inocente, mas que também, nem mesmo, tinha ideia da acusação. É bom que as nossas mãos sejam tão limpas que não haja nelas rasto de sujidade. —C. H. S.

Versículo 11. Depuseram contra mim coisas que eu não sabia Dirás: “Por que permite Deus que os malvados acusem os fiéis de tais coisas quando ele são inocentes? Se Deus quisesse poderia impedi-lo, e fechar a boca dos malvados para que não pudessem falar contra os Seus filhos.” A resposta: Como todas as coisas obram para bem dos que amam a Deus, também resulta isto para o bem do povo de Deus. Deus o permite para o bem do Seu povo, e, desta maneira, frustra as esperanças dos maus: eles tentam mal contra os bons, e Deus o dispõe para bem. Como disse José a seus irmãos: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem.” Há um bem quádruplo que Deus tira disso para o Seu povo. Primeiro: por este meio Deus os humilha, e faz que examinem o que há mau neles. Segundo: Por este meio Deus põe-os de joelhos com mais frequência, para que O busquem para advogar a sua causa e para clarificar a sua inocência. Quantas vezes falou o profeta a Deus, quando os malvados acusavam falsamente! Terceiro: Deus usa a recriminação dos maus como uma medicina preventiva contra o crime de que os maus os acusam. Os fiéis têm uma natureza não renovada, assim como a renovada, e se Deus os deixasse sempre a si mesmos, eles não são seus guardadores apropriados para que não caíssem no pecado do qual os maus os acusam; e todo homem ou mulher piedoso pode dizer quando o acusam falsamente: “É pela misericórdia de Deus que não tenho caído neste pecado de que me acusam.” Quarto: Deus, por este meio, ensina-nos a como julgar os outros quando nos acusam falsamente. No futuro não escuteis os falsos informes sobre os vossos próximos; assegurai-vos da verdade antes de a acreditar, e sabereis como consolar a outros que se achem em condições semelhantes. —Zephaniah Smyth’s Sermon, “The Malignant’s Plot,” 1647.

Versículo 12. Tornaram-me o mal pelo bem, ou, Pagaram-me o bem com o mal, ou ainda noutra leitura dos originais, Pagaram-me com o mal, o bem que lhes fiz. Pelo bem que David havia feito ao matar a Golias, ao matar os seus dez mil filisteus, e com isso o salvar o seu rei e o seu país, Saul e os seus seguidores lhe tinham inveja e tentavam matá-lo; assim nosso SENHOR Jesus Cristo, por todo o bem que havia feito aos judeus, curando os seus corpos e enfermidades e pregando o Evangelho para benefício das suas almas, foi premiado com recriminações e perseguições, e, no fim, com a morte de opróbrio na Cruz; e o mesmo acontece ao Seu povo; mas este é um mal que não ficará sem castigo (ver Provérbios 17:13). —John Gill.

Versículo 12. E a minha oração voltava para o meu seio, ou, E recolhia-me em oração, ou, E a minha oração era contínua, ou ainda noutra leitura dos originais, E estava sempre, no meu íntimo, fazendo oração a Deus. A oração nunca se perde; se não abençoar aqueles por quem temos intercedido, pelo menos, abençoa aos intercessores. As nuvens nem sempre deixam cair a chuva sobre o mesmo lugar de onde ascende o vapor, mas regam outro lugar; e, mesmo assim, as súplicas de um ou doutro lugar produzem chuvas de misericórdia. Se a nossa pomba não acha descanso para o seu pé entre os nossos inimigos, voará para o nosso peito e trará consigo um raminho de paz no seu bico. —C. H. S.

Versículo 14. Sua mãe. Quando perguntaram a Maomé que relação tinha mais força para o seu afeto e respeito, ele respondeu: “A mãe, a mãe, a mãe.” —C. H. S.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam, ou, Mas quando eu tropecei, juntaram-se para se rirem de mim, ou, E agora, que estou em dificuldades, põem-se todos contentes, ou ainda noutra leitura dos originais, Mas eles alegravam-se da minha desgraça; reuniam-se em conluios contra mim. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam. Alegraram-se quando eu coxeava. O meu coxear era divertido para eles. O perigo estava perto, e eles cantavam sobre a minha derrota iminente. Que contentes estão os malvados ao ver um bom homem que coxeia! —C. H. S.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam. Não te glories na desgraça do teu próximo. Muitos se regozijam nos sofrimentos dos demais. Os que se regozijam nos sofrimentos dos outros estão doentes da enfermidade do diabo; que o SENHOR livre as nossas almas desta enfermidade. Não temos de orar para que chovam calamidades nem dizer com Clemente, o agnóstico: “Dá-me calamidades para que me glorie nelas.” Não pode haver maior evidência de um coração malvado do que o que se alegra da desgraça de outros. “O que se alegra das calamidades (isto é, das calamidades dos outros) não ficará sem castigo” (ver Pv 17:5). —Thomas Brooks.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam. Maravilhosa é esta profecia da Cruz! Só excedida, se o é, pelo Salmo vinte e dois. Ainda mais perto da história se lermos a Vulgata: “Os açoites foram todos recolhidos sobre mim.” Inclusivamente assim, oh SENHOR Jesus, os que aravam as Tuas costas fizeram profundos sulcos nela; preciosos sulcos para nós, que são semeados com paciência para a vida presente e glória para a vindoura; em que está semeada a esperança que não envergonha e amor que as muitas águas não podem apagar. Luis de Granada (1504 – 1588)

Versículo 15. Juntou-se contra mim gente desprezível, ou, os abjetos se congregavam contra mim, ou, juntaram-se contra mim os agressores, ou, e reúnem-se, esses miseráveis, reúnem-se para juntarem as suas forças contra mim, ou ainda noutra leitura dos originais, E reuniam-se em conluios contra mim. Que unânimes são os poderes do mal; com que bom grado os homens servem ao diabo e nenhum renuncia ao seu serviço porque não estão dotados de suficiente capacidade! —C. H. S.

Versículo 15. Rasgavam-me e não cessavam, ou, desconhecidos maltrataram-me sem parar, até me despedaçarem, ou, rasgavam já, antecipadamente e sem descanso, a minha vida, ou, agredindo-me à traição, dilaceravam-me sem parar, ou ainda noutra leitura dos originais, Despedaçavam-me sem descanso. É tal a afeição dos malvados a rasgar e a fazer em migalhas a reputação de um bom homem que, quando se ocupam nisso, resistem a abandonar a tarefa. Uma matilha de cães despedaçando a sua presa não é nada comparado com um grupo de caluniadores maculando a reputação de um homem digno. Que aqueles que amam o Evangelho nestes dias não sejam esquartejados como nos antigos tempos da rainha Maria, de Inglaterra, isso tem de ser atribuído, certamente, à providência de Deus do que à bondade dos homens. —C. H. S.

Versículo 16. Rodeavam-me e zombavam de mim; rangiam os dentes contra mim, ou, Como hipócritas zombadores, nas festas, rangiam os dentes contra mim, ou Quando havia festas, juntavam-se, cheios de hipocrisia e de desprezo, rangendo os dentes de raiva contra mim, ou ainda noutra leitura dos originais, Rodeavam-me e escarneciam; rangiam os dentes contra mim. Nosso SENHOR poderia ter usado as palavras destes versículos! Não nos esqueçamos de ver aqui ao Desprezado, e o mais Indigno entre os homens num retrato de tamanho natural. O Calvário e a turba iníqua ao redor da Cruz parecem achar-se diante de nossos olhos. —C. H. S.

Versículo 16. Como hipócritas zombadores, nas festas. Alguns não podem ser felizes (ou divertir-se) já que isso só se consegue à custa das Escrituras; se eles querem ter um pouco diversão, o tema das suas conversas tem de ser os santos! O seu anelo é fazer burlas profanas sobre a Palavra de Deus; o seu passatempo preferido é este enquanto vão bebendo cerveja na taberna. Que bem preparadas têm as suas reflexões rebeldes; aprenderam esta linguagem de seus pais, são acusadores dos irmãos; as suas palavras dão evidência de que pertencem ao inferno! —Oliver Heftwood.

Versículo 17. SENHOR, até quando verás isto?, ou, Por quanto tempo, SENHOR, contemplarás tudo isto?, ou ainda noutra leitura dos originais, SENHOR, até quando verás isto, sem fazer nada? Por que és um mero espectador? Por que Te descuidas do Teu servo? És indiferente? Não Te afeta que pereçamos? Assim podemos aduzir com o SENHOR. Ele permite-nos esta familiaridade. —C. H. S.

Versículo 18. Louvar-Te-ei na grande congregação (ou, na grande assembleia), ou, Eu Te agradecerei publicamente, perante todo o ajuntamento do Teu povo, ou ainda noutra leitura dos originais, Eu Te darei graças na solene assembleia. A maioria dos homens publica as suas ofensas; os bons proclamam as suas misericórdias. —C. H. S.

Versículo 19. Não se alegrem de mim os meus inimigos, sem razão, nem pisquem os olhos aqueles que me aborrecem sem causa. A Tua causa aborrecida é o alvo dos iníquos; o sofrimento sem causa é a porção dos justos. —C. H. S.

Versículo 21. Bradam que me têm visto fazendo o mal, e dizem: Ah! Ah! Vimo-lo com os nossos próprios olhos. Contentes de achar uma falta ou um infortúnio ou de jurar que viram o mal, ali onde não o havia! A malícia só tem um olho; é cega para a virtude do seu inimigo. Os olhos geralmente podem ver o que o coração deseja ver. Um homem com um argueiro no olho vê nele uma mancha. São semelhantes a um asno que zurra sobre o infortúnio de outro! São como o diabo quando ri como uma hiena pela escorregadela súbita de um homem bom! —C. H. S.

Versículo 23. Meu Deus e meu SENHOR! A exclamação de Tomé quando viu as feridas de Jesus. Se é que não considerava que o nosso SENHOR era Divino, então, tampouco aqui atribui David divindade a Jeová, porque não há diferença nas expressões, exceto na ordem das palavras e da língua em que foram pronunciadas; o significado é idêntico. Que palavras são estas! Dois olhos que vêem a Jeová em dois aspetos, mas, sendo o Único, O captam com as duas mãos num duplo “meu” para o coração; porque a palavra é uma e a mesma, pela qual se inclinam e ajoelham para O adorar com a mais humilde reverência. Bem podia Nouet, na sua exposição das palavras como as usa Tomé, exclamar: Oh doce palavra, di-la-ei durante toda a minha vida; di-la-ei na hora da morte; di-la-ei na eternidade! —C. H. S.

Versículo 27. Mas que se alegrem e exultem os que me consideram inocente; digam sem cessar: «O SENHOR é grande! O SENHOR quer o bem-estar do seu servo!», ou, Seja exaltado Jeová, que sente prazer na paz do seu servo. Vede como os corações dos santos têm sido arrancados pelos seus perseguidores! As orações são os braços a que os santos ainda podem recorrer em busca de auxílio, em tempos de perseguição. Os romanos, quando estavam num grande apuro, não tinham inconveniente em tirar as armas do templo dos seus deuses para lutar contra os seus inimigos e vencê-los. Assim, quando o povo de Deus está em grande apuro por causa das aflições e perseguições, as armas que empregaram foram orações e lágrimas, e com elas vencem aos seus perseguidores. —Thomas Brooks.

Versículo 28. E assim a minha língua falará da Tua justiça e do Teu louvor, todo o dia. Vejo que tenho feito um discurso algo comprido; estais cansados. Quem pode resistir a louvar a Deus todo o dia? Vou sugerir um remédio para que possais louvar a Deus todo o dia, se o quiserdes. Seja o que for que façais, fazei-o bem e, com isso, louvareis a Deus. —Agostinho de Hipona

TÍTULO: “Salmo de David” ou “Salmo da coleção de David.” Isto é tudo o que sabemos sobre o Salmo, mas a evidência interna parece estabelecer a data da composição nos tempos turbulentos em que Saul perseguia a David por montes e vales, e quando os que adulavam ao rei cruel caluniavam o objecto inocente da sua ira; ou pode referir-se aos dias desassossegados das insurreições frequentes que tiveram lugar na ancianidade de David. Todo o Salmo é uma apelação ao Céu feita por um coração ousado e uma consciência clara, irritada desmesuradamente pela opressão e malícia. Sem a menor dúvida, o SENHOR de David pode ver aqui com o olho espiritual. —C. H. S.

TODO O SALMO. Bonar intitula este Salmo de “A terrível declaração do Justo com respeito aos que O aborrecem sem causa”, e faz os seguintes comentários: “Naquele dia, quando as nossas ideias de justiça serão muito mais claras e plenas do que agora, entenderemos como pôde Samuel esquartejar a Agag, e os exércitos piedosos puderam exterminar a homens, mulheres e crianças pelas ordens de Deus, em Canaan. Poderemos, não só estar de acordo plenamente com a sentença: “Sejam confundidos”, etc., mas ainda até cantar: “Ámen, Aleluia” sobre a fumo da tortura (Ap 19:1, 2) Deveríamos ser capazes, em alguma medida, de aplicar a nós mesmos cada versículo deste Salmo no espírito em que fala o Juiz, sentindo-nos seus assessores na ação de julgar o mundo (1Co 6:2), pois, de todos os modos, é algo que teremos de fazer quando o que aqui está escrito tenha o seu cumprimento. —Andrew A. Bonar

Versículo 1. Pleiteia, SENHOR, com aqueles que pleiteiam comigo, ou, Ó SENHOR, condena aqueles que me acusam, ou, Julga, SENHOR, aqueles que me acusam, ou ainda noutra leitura dos originais, SENHOR, peço-te que acuses esses mesmos que me estão a acusar. Condena-te o mundo pelo teu zelo no serviço de Deus? Amontoa recriminação e desprezo sobre ti, pelo teu cuidado, em continuar obrando o bem? Não se ruboriza ele, ao te imputar toda a classe de falsidades, com hipocrisia farisaica? Oh!, mas se a tua consciência não te condena em nada, se te sentes confirmado pela santa Palavra de Deus, se o teu objetivo é a Sua glória ao prosseguires na tua própria salvação, e não te associas com os que perturbam a igreja, segue adiante, bom Cristão, na prática da piedade, não te desanimes nos teus louváveis esforços, mas recorda com consolo que o SENHOR é o teu Juiz (1Co 4:4). —Isaac Craven’s Sermon at Paul’s Cross, 1630.

Versículo 3. Tira da lança e obstrui o caminho aos que me perseguem, ou, Empunha a lança e o machado contra os que me perseguem, ou, Empunha a lança e a espada contra os que me perseguem, ou ainda noutra leitura dos originais, Levanta-te e esbarra o caminho aos meus perseguidores. O deter o tumulto é um verdadeiro ato de bondade. É o mesmo como um guerreiro valente que com a sua lança detém uma hoste até que o seu irmão mais fraco possa escapar, assim o SENHOR a miúdo detém os inimigos do crente até que o homem bom tenha recuperado alento e escape da mão dos seus inimigos. —C. H. S.

Versículo 3. Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação, ou ainda noutra leitura dos originais, Repete-me, para eu ficar descansado, que és a minha salvação. Observa que a salvação pode ser assegurada ao homem. David nunca orava por aquilo que era impossível, nem Pedro nos encomenda um dever que não tem a possibilidade de ser executado. “Procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2Pe 1:10, ARC, Pt). E para deter os uivos e vociferação dos adversários, Paulo o demonstra diretamente: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis, quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” (2Co 13:5, ARC, Pt). Portanto, podemos saber se Cristo está em nós. Se Cristo está em nós, nós estamos em Cristo; se estamos em Cristo, não podemos ser condenados, pois lemos em Rm 8:1: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” —Thomas Adams

Versículo 3. Dize à minha alma. Se Deus nos dá consolo, ruge de horrores o inferno. Não há aflição como a aflição da alma; nem consolação como a consolação da alma... Que isto nos ensine a tirar muito deste “minha.” A segurança de que Deus vai salvar a alguns, a têm bem clara, os demónios. Os mesmos reprovados podem crer que há um livro de eleição; mas Deus nunca lhes há dito que nomes estão escritos ali. O mendigo faminto, na casa do festim, cheira desde a porta, mas o dono não lhe diz: “Isto está provido para ti.” A formosura desta excelente cidade de Jerusalém, edificada de safiras, esmeraldas, crisólitos e outras pedras preciosas, cujos fundamentos e paredes são de ouro puro (Ap 21), não dá consolo à alma, a menos que ela possa dizer: “Eu tenho uma mansão nela.” Os méritos suficientes de Cristo não têm valor para ti, a menos que Ele seja o teu Salvador. O mundo falha, a carne falha, o diabo mata. Só o SENHOR salva. Como? Salvação. Algo especial; todo homem a deseja. “Dar-te-ei um senhorio” disse Deus a Esaú. “Dar-te-ei um reino” disse Deus a Saul.” “Dar-te-ei um apostolado” disse Deus a Judas. Mas “Serei a Tua salvação” diz Ele a David, e a ninguém senão aos santos. —Condensed from Thomas Adams.

Versículo 4. Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida, ou, Sejam envergonhados os que querem matar-me, ou, Lança a confusão e a vergonha no meio dos que procuram matar-me, ou ainda noutra leitura dos originais, Sejam confundidos e envergonhados os que procuram tirar-me a vida. Não há malícia aqui; o caluniado simplesmente anela justiça, e a petição é natural e justificada. Guiado pelo bom Espírito de Deus, o Salmista prediz a confusão eterna de todos os que aborrecem os justos. Um desengano terrível será a porção dos inimigos do Evangelho, e o Cristão de coração mais terno não pode desejar outra coisa, olhando aos pecadores como homens, amamo-los e queremos o seu bem, mas considerando-os como inimigos de Deus, não podemos pensar neles a não ser detestando-os e desejando lealmente que sejam confundidos na sua habilidade para o mal. Nenhum cidadão leal pode desejar bem aos rebeldes. A sentimentalidade doentia pode objetar à linguagem firme que se usa aqui, mas em seus corações todos os homens de bem desejam a confusão dos iníquos. —C. H. S.

Versículo 4, 8, 26. Como podemos considerar estas orações como tendo por objetivo a vingança? Achamo-las principalmente em quatro Salmos: o sete, o trinta e cinco, o sessenta e nove e o cento e nove, e as imprecações neles formam um clímax terrível. No último há não menos de trinta anátemas. São estes anátemas só acessos de sentimento ou de paixão não santificada, ou são a expressão legítima de uma indignação justa? Uma comiseração mal informada sabemos bem que tem levado muitas pessoas a abster-se de ler estes Salmos absolutamente. Pois bem, a fonte real da dificuldade acha-se em que não observamos nem distinguimos a diferença essencial entre o Antigo e o Novo Testamento. A antiga dispensação era em todo o sentido mais severa que a nova. O espírito de Elias, ainda que não era um espírito mau, não era o espírito de Cristo. “O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:56). —J. J. Stewart Perowne.

Versículo 4, 8, 26. David sentia o mesmo desejo de vingança que toda a personagem pública típica que possa ser nomeada. A sua conduta em relação ao Saul, desde o começo ao fim, mostrou um espírito singularmente nobre, muito afastado do desejo carnal de vingança; e a mansidão com que suportou as recriminações azedas de Simei, dá testemunho do mesmo espírito depois de seu acesso ao trono... Pode afirmar com respeito aos seus inimigos implacáveis: “SENHOR, meu Deus, se eu fiz isto, se há perversidade nas minhas mãos, Se paguei com o mal àquele que tinha paz comigo (antes livrei ao que me oprimia sem causa); Persiga o inimigo a minha alma e alcance-a; calque aos pés a minha vida sobre a terra, e reduza a pó a minha glória (Selah)” (Sl 7:3-5, ARC, Pt). Sem dúvida, temos de pensar duas vezes antes de interpretar estas imprecações em formas totalmente incompatíveis com estas apelações, pronunciadas quase juntamente com elas. —William Binnie, D.D.

Versículo 7. Porque, sem causa, encobriram de mim a rede na cova, que, sem razão, cavaram para a minha alma, ou, Porque, sem razão, me armaram ciladas; sem motivo cavaram um fosso para eu nele cair, ou, Porque, sem motivo, puseram armadilhas contra mim; sem razão, cavaram um fosso para eu nele cair, ou ainda noutra leitura dos originais, Porque, sem eu lhes ter feito mal algum, prepararam-me uma armadilha, cavaram um fosso no meu caminho, para me apanharem. David afirma duas vezes no versículo que os seus adversários tramaram contra ele sem causa. O cavar fossos e estender redes requer tempo e trabalho, e as duas coisas as fazem os iníquos, contentes por ver derrubado o povo de Deus. —C. H. S.

Versículo 8. Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que ocultou; caia ele nessa mesma destruição, ou, Venha sobre eles uma ruína nunca vista! Sejam apanhados na armadilha que prepararam!, ou, Venha sobre eles uma ruína imprevista! Sejam apanhados na rede que me prepararam e caiam no fosso que me abriram!, ou ainda noutra leitura dos originais, Que sejam pois destruídos, inesperadamente, e apanhados na própria rede que esconderam para mim, presos na mesma armadilha com que queriam liquidar-me. Aqui vemos uma lex talionis de Deus que com muita frequência obra surpresas. Os homens põem armadilhas, e os seus dedos ficam agarrados nelas. Atiram pedras, e estas caem sobre as suas cabeças. Com que frequência Satã se equivoca e queima os seus dedos nos seus próprios carvões! Esta, sem dúvida, será uma circunstância agravante do inferno, que os homens se atormentarão a si mesmos com o que um dia costumavam maquinar nas suas mentes rebeldes. Amaldiçoam, e são amaldiçoados; atiram coices contra o aguilhão, e rasgam as sua próprias carnes; deixam cair dilúvios de fogo, e eles são os que se queimam a si mesmo por dentro e por fora. —C. H. S.

Versículo 8. Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que ocultou; caia ele nessa mesma destruição. Ao dar bastante corda a Aquitofel, o SENHOR preservou David de perecer. Quem não se admira que Golias fosse morto com a sua própria espada, e que o orgulhoso Haman sustivesse o estribo de Mardoqueu e fosse o arauto da sua honra? O malvado será derrotado em seus próprios atos; todas as flechas que dispara contra o justo cairão sobre a sua própria cabeça. Maxêncio construiu uma ponte falsa para que Constantino se afogasse nele, mas foi ele quem pereceu afogado. Henrique III, de França, foi apunhalado na mesma câmara em que colaborou para organizar a cruel matança dos protestantes franceses. E seu irmão, Carlos IX, que se deleitava no sangue dos santos, teve de beber sangue até não poder mais. —Condensado de Thomas Brooks

Versículo 11. Falsas testemunhas se levantaram, ou, Levantaram-se contra mim falsas testemunhas. Esta é uma das argúcias dos ímpios, e não temos de nos maravilhar de que a tenham usado contra o nosso SENHOR e contra nós. Para agradar a Saul, sempre havia homens que eram bastante ruins para caluniar a David. —C. H. S.

Versículo 11. Depuseram contra mim coisas que eu não sabia, ou, E interrogaram-me sobre coisas que eu ignorava, ou, e pediram-me contas de coisas que eu ignorava, ou, que me acusaram de coisas de que eu até nunca tinha ouvido falar antes, ou ainda noutra leitura dos originais, Acusam-me de coisas que nem sei. Não tinha a menor ideia da sedição; era leal, mais do que devia, e o acusavam de conspirar contra o ungido do SENHOR. Não só era inocente, mas que também, nem mesmo, tinha ideia da acusação. É bom que as nossas mãos sejam tão limpas que não haja nelas rasto de sujidade. —C. H. S.

Versículo 11. Depuseram contra mim coisas que eu não sabia Dirás: “Por que permite Deus que os malvados acusem os fiéis de tais coisas quando ele são inocentes? Se Deus quisesse poderia impedi-lo, e fechar a boca dos malvados para que não pudessem falar contra os Seus filhos.” A resposta: Como todas as coisas obram para bem dos que amam a Deus, também resulta isto para o bem do povo de Deus. Deus o permite para o bem do Seu povo, e, desta maneira, frustra as esperanças dos maus: eles tentam mal contra os bons, e Deus o dispõe para bem. Como disse José a seus irmãos: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem.” Há um bem quádruplo que Deus tira disso para o Seu povo. Primeiro: por este meio Deus os humilha, e faz que examinem o que há mau neles. Segundo: Por este meio Deus põe-os de joelhos com mais frequência, para que O busquem para advogar a sua causa e para clarificar a sua inocência. Quantas vezes falou o profeta a Deus, quando os malvados acusavam falsamente! Terceiro: Deus usa a recriminação dos maus como uma medicina preventiva contra o crime de que os maus os acusam. Os fiéis têm uma natureza não renovada, assim como a renovada, e se Deus os deixasse sempre a si mesmos, eles não são seus guardadores apropriados para que não caíssem no pecado do qual os maus os acusam; e todo homem ou mulher piedoso pode dizer quando o acusam falsamente: “É pela misericórdia de Deus que não tenho caído neste pecado de que me acusam.” Quarto: Deus, por este meio, ensina-nos a como julgar os outros quando nos acusam falsamente. No futuro não escuteis os falsos informes sobre os vossos próximos; assegurai-vos da verdade antes de a acreditar, e sabereis como consolar a outros que se achem em condições semelhantes. —Zephaniah Smyth’s Sermon, “The Malignant’s Plot,” 1647.

Versículo 12. Tornaram-me o mal pelo bem, ou, Pagaram-me o bem com o mal, ou ainda noutra leitura dos originais, Pagaram-me com o mal, o bem que lhes fiz. Pelo bem que David havia feito ao matar a Golias, ao matar os seus dez mil filisteus, e com isso o salvar o seu rei e o seu país, Saul e os seus seguidores lhe tinham inveja e tentavam matá-lo; assim nosso SENHOR Jesus Cristo, por todo o bem que havia feito aos judeus, curando os seus corpos e enfermidades e pregando o Evangelho para benefício das suas almas, foi premiado com recriminações e perseguições, e, no fim, com a morte de opróbrio na Cruz; e o mesmo acontece ao Seu povo; mas este é um mal que não ficará sem castigo (ver Provérbios 17:13). —John Gill.

Versículo 12. E a minha oração voltava para o meu seio, ou, E recolhia-me em oração, ou, E a minha oração era contínua, ou ainda noutra leitura dos originais, E estava sempre, no meu íntimo, fazendo oração a Deus. A oração nunca se perde; se não abençoar aqueles por quem temos intercedido, pelo menos, abençoa aos intercessores. As nuvens nem sempre deixam cair a chuva sobre o mesmo lugar de onde ascende o vapor, mas regam outro lugar; e, mesmo assim, as súplicas de um ou doutro lugar produzem chuvas de misericórdia. Se a nossa pomba não acha descanso para o seu pé entre os nossos inimigos, voará para o nosso peito e trará consigo um raminho de paz no seu bico. —C. H. S.

Versículo 14. Sua mãe. Quando perguntaram a Maomé que relação tinha mais força para o seu afeto e respeito, ele respondeu: “A mãe, a mãe, a mãe.” —C. H. S.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam, ou, Mas quando eu tropecei, juntaram-se para se rirem de mim, ou, E agora, que estou em dificuldades, põem-se todos contentes, ou ainda noutra leitura dos originais, Mas eles alegravam-se da minha desgraça; reuniam-se em conluios contra mim. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam. Alegraram-se quando eu coxeava. O meu coxear era divertido para eles. O perigo estava perto, e eles cantavam sobre a minha derrota iminente. Que contentes estão os malvados ao ver um bom homem que coxeia! —C. H. S.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam. Não te glories na desgraça do teu próximo. Muitos se regozijam nos sofrimentos dos demais. Os que se regozijam nos sofrimentos dos outros estão doentes da enfermidade do diabo; que o SENHOR livre as nossas almas desta enfermidade. Não temos de orar para que chovam calamidades nem dizer com Clemente, o agnóstico: “Dá-me calamidades para que me glorie nelas.” Não pode haver maior evidência de um coração malvado do que o que se alegra da desgraça de outros. “O que se alegra das calamidades (isto é, das calamidades dos outros) não ficará sem castigo” (ver Pv 17:5). —Thomas Brooks.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam. Maravilhosa é esta profecia da Cruz! Só excedida, se o é, pelo Salmo vinte e dois. Ainda mais perto da história se lermos a Vulgata: “Os açoites foram todos recolhidos sobre mim.” Inclusivamente assim, oh SENHOR Jesus, os que aravam as Tuas costas fizeram profundos sulcos nela; preciosos sulcos para nós, que são semeados com paciência para a vida presente e glória para a vindoura; em que está semeada a esperança que não envergonha e amor que as muitas águas não podem apagar. Luis de Granada (1504 – 1588)

Versículo 15. Juntou-se contra mim gente desprezível, ou, os abjetos se congregavam contra mim, ou, juntaram-se contra mim os agressores, ou, e reúnem-se, esses miseráveis, reúnem-se para juntarem as suas forças contra mim, ou ainda noutra leitura dos originais, E reuniam-se em conluios contra mim. Que unânimes são os poderes do mal; com que bom grado os homens servem ao diabo e nenhum renuncia ao seu serviço porque não estão dotados de suficiente capacidade! —C. H. S.

Versículo 15. Rasgavam-me e não cessavam, ou, desconhecidos maltrataram-me sem parar, até me despedaçarem, ou, rasgavam já, antecipadamente e sem descanso, a minha vida, ou, agredindo-me à traição, dilaceravam-me sem parar, ou ainda noutra leitura dos originais, Despedaçavam-me sem descanso. É tal a afeição dos malvados a rasgar e a fazer em migalhas a reputação de um bom homem que, quando se ocupam nisso, resistem a abandonar a tarefa. Uma matilha de cães despedaçando a sua presa não é nada comparado com um grupo de caluniadores maculando a reputação de um homem digno. Que aqueles que amam o Evangelho nestes dias não sejam esquartejados como nos antigos tempos da rainha Maria, de Inglaterra, isso tem de ser atribuído, certamente, à providência de Deus do que à bondade dos homens. —C. H. S.

Versículo 16. Rodeavam-me e zombavam de mim; rangiam os dentes contra mim, ou, Como hipócritas zombadores, nas festas, rangiam os dentes contra mim, ou Quando havia festas, juntavam-se, cheios de hipocrisia e de desprezo, rangendo os dentes de raiva contra mim, ou ainda noutra leitura dos originais, Rodeavam-me e escarneciam; rangiam os dentes contra mim. Nosso SENHOR poderia ter usado as palavras destes versículos! Não nos esqueçamos de ver aqui ao Desprezado, e o mais Indigno entre os homens num retrato de tamanho natural. O Calvário e a turba iníqua ao redor da Cruz parecem achar-se diante de nossos olhos. —C. H. S.

Versículo 16. Como hipócritas zombadores, nas festas. Alguns não podem ser felizes (ou divertir-se) já que isso só se consegue à custa das Escrituras; se eles querem ter um pouco diversão, o tema das suas conversas tem de ser os santos! O seu anelo é fazer burlas profanas sobre a Palavra de Deus; o seu passatempo preferido é este enquanto vão bebendo cerveja na taberna. Que bem preparadas têm as suas reflexões rebeldes; aprenderam esta linguagem de seus pais, são acusadores dos irmãos; as suas palavras dão evidência de que pertencem ao inferno! —Oliver Heftwood.

Versículo 17. SENHOR, até quando verás isto?, ou, Por quanto tempo, SENHOR, contemplarás tudo isto?, ou ainda noutra leitura dos originais, SENHOR, até quando verás isto, sem fazer nada? Por que és um mero espectador? Por que Te descuidas do Teu servo? És indiferente? Não Te afeta que pereçamos? Assim podemos aduzir com o SENHOR. Ele permite-nos esta familiaridade. —C. H. S.

Versículo 18. Louvar-Te-ei na grande congregação (ou, na grande assembleia), ou, Eu Te agradecerei publicamente, perante todo o ajuntamento do Teu povo, ou ainda noutra leitura dos originais, Eu Te darei graças na solene assembleia. A maioria dos homens publica as suas ofensas; os bons proclamam as suas misericórdias. —C. H. S.

Versículo 19. Não se alegrem de mim os meus inimigos, sem razão, nem pisquem os olhos aqueles que me aborrecem sem causa. A Tua causa aborrecida é o alvo dos iníquos; o sofrimento sem causa é a porção dos justos. —C. H. S.

Versículo 21. Bradam que me têm visto fazendo o mal, e dizem: Ah! Ah! Vimo-lo com os nossos próprios olhos. Contentes de achar uma falta ou um infortúnio ou de jurar que viram o mal, ali onde não o havia! A malícia só tem um olho; é cega para a virtude do seu inimigo. Os olhos geralmente podem ver o que o coração deseja ver. Um homem com um argueiro no olho vê nele uma mancha. São semelhantes a um asno que zurra sobre o infortúnio de outro! São como o diabo quando ri como uma hiena pela escorregadela súbita de um homem bom! —C. H. S.

Versículo 23. Meu Deus e meu SENHOR! A exclamação de Tomé quando viu as feridas de Jesus. Se é que não considerava que o nosso SENHOR era Divino, então, tampouco aqui atribui David divindade a Jeová, porque não há diferença nas expressões, exceto na ordem das palavras e da língua em que foram pronunciadas; o significado é idêntico. Que palavras são estas! Dois olhos que vêem a Jeová em dois aspetos, mas, sendo o Único, O captam com as duas mãos num duplo “meu” para o coração; porque a palavra é uma e a mesma, pela qual se inclinam e ajoelham para O adorar com a mais humilde reverência. Bem podia Nouet, na sua exposição das palavras como as usa Tomé, exclamar: Oh doce palavra, di-la-ei durante toda a minha vida; di-la-ei na hora da morte; di-la-ei na eternidade! —C. H. S.

Versículo 27. Mas que se alegrem e exultem os que me consideram inocente; digam sem cessar: «O SENHOR é grande! O SENHOR quer o bem-estar do seu servo!», ou, Seja exaltado Jeová, que sente prazer na paz do seu servo. Vede como os corações dos santos têm sido arrancados pelos seus perseguidores! As orações são os braços a que os santos ainda podem recorrer em busca de auxílio, em tempos de perseguição. Os romanos, quando estavam num grande apuro, não tinham inconveniente em tirar as armas do templo dos seus deuses para lutar contra os seus inimigos e vencê-los. Assim, quando o povo de Deus está em grande apuro por causa das aflições e perseguições, as armas que empregaram foram orações e lágrimas, e com elas vencem aos seus perseguidores. —Thomas Brooks.

Versículo 28. E assim a minha língua falará da Tua justiça e do Teu louvor, todo o dia. Vejo que tenho feito um discurso algo comprido; estais cansados. Quem pode resistir a louvar a Deus todo o dia? Vou sugerir um remédio para que possais louvar a Deus todo o dia, se o quiserdes. Seja o que for que façais, fazei-o bem e, com isso, louvareis a Deus. —Agostinho de Hipona


TÍTULO: “Salmo de David” ou “Salmo da coleção de David.” Isto é tudo o que sabemos sobre o Salmo, mas a evidência interna parece estabelecer a data da composição nos tempos turbulentos em que Saul perseguia a David por montes e vales, e quando os que adulavam ao rei cruel caluniavam o objecto inocente da sua ira; ou pode referir-se aos dias desassossegados das insurreições frequentes que tiveram lugar na ancianidade de David. Todo o Salmo é uma apelação ao Céu feita por um coração ousado e uma consciência clara, irritada desmesuradamente pela opressão e malícia. Sem a menor dúvida, o SENHOR de David pode ver aqui com o olho espiritual. —C. H. S.

TODO O SALMO. Bonar intitula este Salmo de “A terrível declaração do Justo com respeito aos que O aborrecem sem causa”, e faz os seguintes comentários: “Naquele dia, quando as nossas ideias de justiça serão muito mais claras e plenas do que agora, entenderemos como pôde Samuel esquartejar a Agag, e os exércitos piedosos puderam exterminar a homens, mulheres e crianças pelas ordens de Deus, em Canaan. Poderemos, não só estar de acordo plenamente com a sentença: “Sejam confundidos”, etc., mas ainda até cantar: “Ámen, Aleluia” sobre a fumo da tortura (Ap 19:1, 2) Deveríamos ser capazes, em alguma medida, de aplicar a nós mesmos cada versículo deste Salmo no espírito em que fala o Juiz, sentindo-nos seus assessores na ação de julgar o mundo (1Co 6:2), pois, de todos os modos, é algo que teremos de fazer quando o que aqui está escrito tenha o seu cumprimento. —Andrew A. Bonar

Versículo 1. Pleiteia, SENHOR, com aqueles que pleiteiam comigo, ou, Ó SENHOR, condena aqueles que me acusam, ou, Julga, SENHOR, aqueles que me acusam, ou ainda noutra leitura dos originais, SENHOR, peço-te que acuses esses mesmos que me estão a acusar. Condena-te o mundo pelo teu zelo no serviço de Deus? Amontoa recriminação e desprezo sobre ti, pelo teu cuidado, em continuar obrando o bem? Não se ruboriza ele, ao te imputar toda a classe de falsidades, com hipocrisia farisaica? Oh!, mas se a tua consciência não te condena em nada, se te sentes confirmado pela santa Palavra de Deus, se o teu objetivo é a Sua glória ao prosseguires na tua própria salvação, e não te associas com os que perturbam a igreja, segue adiante, bom Cristão, na prática da piedade, não te desanimes nos teus louváveis esforços, mas recorda com consolo que o SENHOR é o teu Juiz (1Co 4:4). —Isaac Craven’s Sermon at Paul’s Cross, 1630.

Versículo 3. Tira da lança e obstrui o caminho aos que me perseguem, ou, Empunha a lança e o machado contra os que me perseguem, ou, Empunha a lança e a espada contra os que me perseguem, ou ainda noutra leitura dos originais, Levanta-te e esbarra o caminho aos meus perseguidores. O deter o tumulto é um verdadeiro ato de bondade. É o mesmo como um guerreiro valente que com a sua lança detém uma hoste até que o seu irmão mais fraco possa escapar, assim o SENHOR a miúdo detém os inimigos do crente até que o homem bom tenha recuperado alento e escape da mão dos seus inimigos. —C. H. S.

Versículo 3. Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação, ou ainda noutra leitura dos originais, Repete-me, para eu ficar descansado, que és a minha salvação. Observa que a salvação pode ser assegurada ao homem. David nunca orava por aquilo que era impossível, nem Pedro nos encomenda um dever que não tem a possibilidade de ser executado. “Procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição” (2Pe 1:10, ARC, Pt). E para deter os uivos e vociferação dos adversários, Paulo o demonstra diretamente: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis, quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” (2Co 13:5, ARC, Pt). Portanto, podemos saber se Cristo está em nós. Se Cristo está em nós, nós estamos em Cristo; se estamos em Cristo, não podemos ser condenados, pois lemos em Rm 8:1: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” —Thomas Adams

Versículo 3. Dize à minha alma. Se Deus nos dá consolo, ruge de horrores o inferno. Não há aflição como a aflição da alma; nem consolação como a consolação da alma... Que isto nos ensine a tirar muito deste “minha.” A segurança de que Deus vai salvar a alguns, a têm bem clara, os demónios. Os mesmos reprovados podem crer que há um livro de eleição; mas Deus nunca lhes há dito que nomes estão escritos ali. O mendigo faminto, na casa do festim, cheira desde a porta, mas o dono não lhe diz: “Isto está provido para ti.” A formosura desta excelente cidade de Jerusalém, edificada de safiras, esmeraldas, crisólitos e outras pedras preciosas, cujos fundamentos e paredes são de ouro puro (Ap 21), não dá consolo à alma, a menos que ela possa dizer: “Eu tenho uma mansão nela.” Os méritos suficientes de Cristo não têm valor para ti, a menos que Ele seja o teu Salvador. O mundo falha, a carne falha, o diabo mata. Só o SENHOR salva. Como? Salvação. Algo especial; todo homem a deseja. “Dar-te-ei um senhorio” disse Deus a Esaú. “Dar-te-ei um reino” disse Deus a Saul.” “Dar-te-ei um apostolado” disse Deus a Judas. Mas “Serei a Tua salvação” diz Ele a David, e a ninguém senão aos santos. —Condensed from Thomas Adams.

Versículo 4. Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida, ou, Sejam envergonhados os que querem matar-me, ou, Lança a confusão e a vergonha no meio dos que procuram matar-me, ou ainda noutra leitura dos originais, Sejam confundidos e envergonhados os que procuram tirar-me a vida. Não há malícia aqui; o caluniado simplesmente anela justiça, e a petição é natural e justificada. Guiado pelo bom Espírito de Deus, o Salmista prediz a confusão eterna de todos os que aborrecem os justos. Um desengano terrível será a porção dos inimigos do Evangelho, e o Cristão de coração mais terno não pode desejar outra coisa, olhando aos pecadores como homens, amamo-los e queremos o seu bem, mas considerando-os como inimigos de Deus, não podemos pensar neles a não ser detestando-os e desejando lealmente que sejam confundidos na sua habilidade para o mal. Nenhum cidadão leal pode desejar bem aos rebeldes. A sentimentalidade doentia pode objetar à linguagem firme que se usa aqui, mas em seus corações todos os homens de bem desejam a confusão dos iníquos. —C. H. S.

Versículo 4, 8, 26. Como podemos considerar estas orações como tendo por objetivo a vingança? Achamo-las principalmente em quatro Salmos: o sete, o trinta e cinco, o sessenta e nove e o cento e nove, e as imprecações neles formam um clímax terrível. No último há não menos de trinta anátemas. São estes anátemas só acessos de sentimento ou de paixão não santificada, ou são a expressão legítima de uma indignação justa? Uma comiseração mal informada sabemos bem que tem levado muitas pessoas a abster-se de ler estes Salmos absolutamente. Pois bem, a fonte real da dificuldade acha-se em que não observamos nem distinguimos a diferença essencial entre o Antigo e o Novo Testamento. A antiga dispensação era em todo o sentido mais severa que a nova. O espírito de Elias, ainda que não era um espírito mau, não era o espírito de Cristo. “O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:56). —J. J. Stewart Perowne.

Versículo 4, 8, 26. David sentia o mesmo desejo de vingança que toda a personagem pública típica que possa ser nomeada. A sua conduta em relação ao Saul, desde o começo ao fim, mostrou um espírito singularmente nobre, muito afastado do desejo carnal de vingança; e a mansidão com que suportou as recriminações azedas de Simei, dá testemunho do mesmo espírito depois de seu acesso ao trono... Pode afirmar com respeito aos seus inimigos implacáveis: “SENHOR, meu Deus, se eu fiz isto, se há perversidade nas minhas mãos, Se paguei com o mal àquele que tinha paz comigo (antes livrei ao que me oprimia sem causa); Persiga o inimigo a minha alma e alcance-a; calque aos pés a minha vida sobre a terra, e reduza a pó a minha glória (Selah)” (Sl 7:3-5, ARC, Pt). Sem dúvida, temos de pensar duas vezes antes de interpretar estas imprecações em formas totalmente incompatíveis com estas apelações, pronunciadas quase juntamente com elas. —William Binnie, D.D.

Versículo 7. Porque, sem causa, encobriram de mim a rede na cova, que, sem razão, cavaram para a minha alma, ou, Porque, sem razão, me armaram ciladas; sem motivo cavaram um fosso para eu nele cair, ou, Porque, sem motivo, puseram armadilhas contra mim; sem razão, cavaram um fosso para eu nele cair, ou ainda noutra leitura dos originais, Porque, sem eu lhes ter feito mal algum, prepararam-me uma armadilha, cavaram um fosso no meu caminho, para me apanharem. David afirma duas vezes no versículo que os seus adversários tramaram contra ele sem causa. O cavar fossos e estender redes requer tempo e trabalho, e as duas coisas as fazem os iníquos, contentes por ver derrubado o povo de Deus. —C. H. S.

Versículo 8. Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que ocultou; caia ele nessa mesma destruição, ou, Venha sobre eles uma ruína nunca vista! Sejam apanhados na armadilha que prepararam!, ou, Venha sobre eles uma ruína imprevista! Sejam apanhados na rede que me prepararam e caiam no fosso que me abriram!, ou ainda noutra leitura dos originais, Que sejam pois destruídos, inesperadamente, e apanhados na própria rede que esconderam para mim, presos na mesma armadilha com que queriam liquidar-me. Aqui vemos uma lex talionis de Deus que com muita frequência obra surpresas. Os homens põem armadilhas, e os seus dedos ficam agarrados nelas. Atiram pedras, e estas caem sobre as suas cabeças. Com que frequência Satã se equivoca e queima os seus dedos nos seus próprios carvões! Esta, sem dúvida, será uma circunstância agravante do inferno, que os homens se atormentarão a si mesmos com o que um dia costumavam maquinar nas suas mentes rebeldes. Amaldiçoam, e são amaldiçoados; atiram coices contra o aguilhão, e rasgam as sua próprias carnes; deixam cair dilúvios de fogo, e eles são os que se queimam a si mesmo por dentro e por fora. —C. H. S.

Versículo 8. Sobrevenha-lhe destruição sem o saber, e prenda-o a rede que ocultou; caia ele nessa mesma destruição. Ao dar bastante corda a Aquitofel, o SENHOR preservou David de perecer. Quem não se admira que Golias fosse morto com a sua própria espada, e que o orgulhoso Haman sustivesse o estribo de Mardoqueu e fosse o arauto da sua honra? O malvado será derrotado em seus próprios atos; todas as flechas que dispara contra o justo cairão sobre a sua própria cabeça. Maxêncio construiu uma ponte falsa para que Constantino se afogasse nele, mas foi ele quem pereceu afogado. Henrique III, de França, foi apunhalado na mesma câmara em que colaborou para organizar a cruel matança dos protestantes franceses. E seu irmão, Carlos IX, que se deleitava no sangue dos santos, teve de beber sangue até não poder mais. —Condensado de Thomas Brooks

Versículo 11. Falsas testemunhas se levantaram, ou, Levantaram-se contra mim falsas testemunhas. Esta é uma das argúcias dos ímpios, e não temos de nos maravilhar de que a tenham usado contra o nosso SENHOR e contra nós. Para agradar a Saul, sempre havia homens que eram bastante ruins para caluniar a David. —C. H. S.

Versículo 11. Depuseram contra mim coisas que eu não sabia, ou, E interrogaram-me sobre coisas que eu ignorava, ou, e pediram-me contas de coisas que eu ignorava, ou, que me acusaram de coisas de que eu até nunca tinha ouvido falar antes, ou ainda noutra leitura dos originais, Acusam-me de coisas que nem sei. Não tinha a menor ideia da sedição; era leal, mais do que devia, e o acusavam de conspirar contra o ungido do SENHOR. Não só era inocente, mas que também, nem mesmo, tinha ideia da acusação. É bom que as nossas mãos sejam tão limpas que não haja nelas rasto de sujidade. —C. H. S.

Versículo 11. Depuseram contra mim coisas que eu não sabia Dirás: “Por que permite Deus que os malvados acusem os fiéis de tais coisas quando ele são inocentes? Se Deus quisesse poderia impedi-lo, e fechar a boca dos malvados para que não pudessem falar contra os Seus filhos.” A resposta: Como todas as coisas obram para bem dos que amam a Deus, também resulta isto para o bem do povo de Deus. Deus o permite para o bem do Seu povo, e, desta maneira, frustra as esperanças dos maus: eles tentam mal contra os bons, e Deus o dispõe para bem. Como disse José a seus irmãos: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem.” Há um bem quádruplo que Deus tira disso para o Seu povo. Primeiro: por este meio Deus os humilha, e faz que examinem o que há mau neles. Segundo: Por este meio Deus põe-os de joelhos com mais frequência, para que O busquem para advogar a sua causa e para clarificar a sua inocência. Quantas vezes falou o profeta a Deus, quando os malvados acusavam falsamente! Terceiro: Deus usa a recriminação dos maus como uma medicina preventiva contra o crime de que os maus os acusam. Os fiéis têm uma natureza não renovada, assim como a renovada, e se Deus os deixasse sempre a si mesmos, eles não são seus guardadores apropriados para que não caíssem no pecado do qual os maus os acusam; e todo homem ou mulher piedoso pode dizer quando o acusam falsamente: “É pela misericórdia de Deus que não tenho caído neste pecado de que me acusam.” Quarto: Deus, por este meio, ensina-nos a como julgar os outros quando nos acusam falsamente. No futuro não escuteis os falsos informes sobre os vossos próximos; assegurai-vos da verdade antes de a acreditar, e sabereis como consolar a outros que se achem em condições semelhantes. —Zephaniah Smyth’s Sermon, “The Malignant’s Plot,” 1647.

Versículo 12. Tornaram-me o mal pelo bem, ou, Pagaram-me o bem com o mal, ou ainda noutra leitura dos originais, Pagaram-me com o mal, o bem que lhes fiz. Pelo bem que David havia feito ao matar a Golias, ao matar os seus dez mil filisteus, e com isso o salvar o seu rei e o seu país, Saul e os seus seguidores lhe tinham inveja e tentavam matá-lo; assim nosso SENHOR Jesus Cristo, por todo o bem que havia feito aos judeus, curando os seus corpos e enfermidades e pregando o Evangelho para benefício das suas almas, foi premiado com recriminações e perseguições, e, no fim, com a morte de opróbrio na Cruz; e o mesmo acontece ao Seu povo; mas este é um mal que não ficará sem castigo (ver Provérbios 17:13). —John Gill.

Versículo 12. E a minha oração voltava para o meu seio, ou, E recolhia-me em oração, ou, E a minha oração era contínua, ou ainda noutra leitura dos originais, E estava sempre, no meu íntimo, fazendo oração a Deus. A oração nunca se perde; se não abençoar aqueles por quem temos intercedido, pelo menos, abençoa aos intercessores. As nuvens nem sempre deixam cair a chuva sobre o mesmo lugar de onde ascende o vapor, mas regam outro lugar; e, mesmo assim, as súplicas de um ou doutro lugar produzem chuvas de misericórdia. Se a nossa pomba não acha descanso para o seu pé entre os nossos inimigos, voará para o nosso peito e trará consigo um raminho de paz no seu bico. —C. H. S.

Versículo 14. Sua mãe. Quando perguntaram a Maomé que relação tinha mais força para o seu afeto e respeito, ele respondeu: “A mãe, a mãe, a mãe.” —C. H. S.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam, ou, Mas quando eu tropecei, juntaram-se para se rirem de mim, ou, E agora, que estou em dificuldades, põem-se todos contentes, ou ainda noutra leitura dos originais, Mas eles alegravam-se da minha desgraça; reuniam-se em conluios contra mim. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam. Alegraram-se quando eu coxeava. O meu coxear era divertido para eles. O perigo estava perto, e eles cantavam sobre a minha derrota iminente. Que contentes estão os malvados ao ver um bom homem que coxeia! —C. H. S.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam e se congregavam. Não te glories na desgraça do teu próximo. Muitos se regozijam nos sofrimentos dos demais. Os que se regozijam nos sofrimentos dos outros estão doentes da enfermidade do diabo; que o SENHOR livre as nossas almas desta enfermidade. Não temos de orar para que chovam calamidades nem dizer com Clemente, o agnóstico: “Dá-me calamidades para que me glorie nelas.” Não pode haver maior evidência de um coração malvado do que o que se alegra da desgraça de outros. “O que se alegra das calamidades (isto é, das calamidades dos outros) não ficará sem castigo” (ver Pv 17:5). —Thomas Brooks.

Versículo 15. Mas eles, com a minha adversidade se alegravam. Maravilhosa é esta profecia da Cruz! Só excedida, se o é, pelo Salmo vinte e dois. Ainda mais perto da história se lermos a Vulgata: “Os açoites foram todos recolhidos sobre mim.” Inclusivamente assim, oh SENHOR Jesus, os que aravam as Tuas costas fizeram profundos sulcos nela; preciosos sulcos para nós, que são semeados com paciência para a vida presente e glória para a vindoura; em que está semeada a esperança que não envergonha e amor que as muitas águas não podem apagar. Luis de Granada (1504 – 1588)

Versículo 15. Juntou-se contra mim gente desprezível, ou, os abjetos se congregavam contra mim, ou, juntaram-se contra mim os agressores, ou, e reúnem-se, esses miseráveis, reúnem-se para juntarem as suas forças contra mim, ou ainda noutra leitura dos originais, E reuniam-se em conluios contra mim. Que unânimes são os poderes do mal; com que bom grado os homens servem ao diabo e nenhum renuncia ao seu serviço porque não estão dotados de suficiente capacidade! —C. H. S.

Versículo 15. Rasgavam-me e não cessavam, ou, desconhecidos maltrataram-me sem parar, até me despedaçarem, ou, rasgavam já, antecipadamente e sem descanso, a minha vida, ou, agredindo-me à traição, dilaceravam-me sem parar, ou ainda noutra leitura dos originais, Despedaçavam-me sem descanso. É tal a afeição dos malvados a rasgar e a fazer em migalhas a reputação de um bom homem que, quando se ocupam nisso, resistem a abandonar a tarefa. Uma matilha de cães despedaçando a sua presa não é nada comparado com um grupo de caluniadores maculando a reputação de um homem digno. Que aqueles que amam o Evangelho nestes dias não sejam esquartejados como nos antigos tempos da rainha Maria, de Inglaterra, isso tem de ser atribuído, certamente, à providência de Deus do que à bondade dos homens. —C. H. S.

Versículo 16. Rodeavam-me e zombavam de mim; rangiam os dentes contra mim, ou, Como hipócritas zombadores, nas festas, rangiam os dentes contra mim, ou Quando havia festas, juntavam-se, cheios de hipocrisia e de desprezo, rangendo os dentes de raiva contra mim, ou ainda noutra leitura dos originais, Rodeavam-me e escarneciam; rangiam os dentes contra mim. Nosso SENHOR poderia ter usado as palavras destes versículos! Não nos esqueçamos de ver aqui ao Desprezado, e o mais Indigno entre os homens num retrato de tamanho natural. O Calvário e a turba iníqua ao redor da Cruz parecem achar-se diante de nossos olhos. —C. H. S.

Versículo 16. Como hipócritas zombadores, nas festas. Alguns não podem ser felizes (ou divertir-se) já que isso só se consegue à custa das Escrituras; se eles querem ter um pouco diversão, o tema das suas conversas tem de ser os santos! O seu anelo é fazer burlas profanas sobre a Palavra de Deus; o seu passatempo preferido é este enquanto vão bebendo cerveja na taberna. Que bem preparadas têm as suas reflexões rebeldes; aprenderam esta linguagem de seus pais, são acusadores dos irmãos; as suas palavras dão evidência de que pertencem ao inferno! —Oliver Heftwood.

Versículo 17. SENHOR, até quando verás isto?, ou, Por quanto tempo, SENHOR, contemplarás tudo isto?, ou ainda noutra leitura dos originais, SENHOR, até quando verás isto, sem fazer nada? Por que és um mero espectador? Por que Te descuidas do Teu servo? És indiferente? Não Te afeta que pereçamos? Assim podemos aduzir com o SENHOR. Ele permite-nos esta familiaridade. —C. H. S.

Versículo 18. Louvar-Te-ei na grande congregação (ou, na grande assembleia), ou, Eu Te agradecerei publicamente, perante todo o ajuntamento do Teu povo, ou ainda noutra leitura dos originais, Eu Te darei graças na solene assembleia. A maioria dos homens publica as suas ofensas; os bons proclamam as suas misericórdias. —C. H. S.

Versículo 19. Não se alegrem de mim os meus inimigos, sem razão, nem pisquem os olhos aqueles que me aborrecem sem causa. A Tua causa aborrecida é o alvo dos iníquos; o sofrimento sem causa é a porção dos justos. —C. H. S.

Versículo 21. Bradam que me têm visto fazendo o mal, e dizem: Ah! Ah! Vimo-lo com os nossos próprios olhos. Contentes de achar uma falta ou um infortúnio ou de jurar que viram o mal, ali onde não o havia! A malícia só tem um olho; é cega para a virtude do seu inimigo. Os olhos geralmente podem ver o que o coração deseja ver. Um homem com um argueiro no olho vê nele uma mancha. São semelhantes a um asno que zurra sobre o infortúnio de outro! São como o diabo quando ri como uma hiena pela escorregadela súbita de um homem bom! —C. H. S.

Versículo 23. Meu Deus e meu SENHOR! A exclamação de Tomé quando viu as feridas de Jesus. Se é que não considerava que o nosso SENHOR era Divino, então, tampouco aqui atribui David divindade a Jeová, porque não há diferença nas expressões, exceto na ordem das palavras e da língua em que foram pronunciadas; o significado é idêntico. Que palavras são estas! Dois olhos que vêem a Jeová em dois aspetos, mas, sendo o Único, O captam com as duas mãos num duplo “meu” para o coração; porque a palavra é uma e a mesma, pela qual se inclinam e ajoelham para O adorar com a mais humilde reverência. Bem podia Nouet, na sua exposição das palavras como as usa Tomé, exclamar: Oh doce palavra, di-la-ei durante toda a minha vida; di-la-ei na hora da morte; di-la-ei na eternidade! —C. H. S.

Versículo 27. Mas que se alegrem e exultem os que me consideram inocente; digam sem cessar: «O SENHOR é grande! O SENHOR quer o bem-estar do seu servo!», ou, Seja exaltado Jeová, que sente prazer na paz do seu servo. Vede como os corações dos santos têm sido arrancados pelos seus perseguidores! As orações são os braços a que os santos ainda podem recorrer em busca de auxílio, em tempos de perseguição. Os romanos, quando estavam num grande apuro, não tinham inconveniente em tirar as armas do templo dos seus deuses para lutar contra os seus inimigos e vencê-los. Assim, quando o povo de Deus está em grande apuro por causa das aflições e perseguições, as armas que empregaram foram orações e lágrimas, e com elas vencem aos seus perseguidores. —Thomas Brooks.

Versículo 28. E assim a minha língua falará da Tua justiça e do Teu louvor, todo o dia. Vejo que tenho feito um discurso algo comprido; estais cansados. Quem pode resistir a louvar a Deus todo o dia? Vou sugerir um remédio para que possais louvar a Deus todo o dia, se o quiserdes. Seja o que for que façais, fazei-o bem e, com isso, louvareis a Deus. —Agostinho de Hipona.


Tradução de Carlos António da Rocha

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