… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Salmo 36



C. H. Spurgeon
O Tesouro de David
SALMO 36

TÍTULO. Para o cantor-mor (ou, noutra leitura dos originais, Ao director do coro), aquele que tinha a liderança do serviço do Templo foi instruído com o uso desta música na adoração pública. O que é um assunto de todos que nunca é feito. Era bom ter uma pessoa especialmente para atender ao serviço de música na casa do SENHOR. De David, o servo do SENHOR. (ou, noutra leitura dos originais, Salmo da colecção de David, servo do SENHOR). Isto parece indicar que o Salmo convém peculiarmente àquele que estima uma honra ser chamado servo de Jeová. É o SALMO DO SERVIÇO DITOSO, ao que se podem juntar todos os que levam sobre si o jugo suave de Jesus. Os ímpios são postos em contraste com os justos, e o grande SENHOR dos fiéis é exaltado de todo coração; assim se insiste na obediência a um SENHOR tão bom, e é claramente condenada a rebelião contra Ele.

Versículo 1. A iniquidade do ímpio lhe diz ao coração: Não há por que temer a Deus nem em a Sua presença, ou, A prevaricação do ímpio diz no íntimo do seu coração: Não há temor de Deus perante os seus olhos, ou, Há um pronúncio de pecado no coração do homem mau; para ele, não há temor de Deus, ou, O ímpio tem a lei do pecado no coração. Para ele não há temor de Deus, ou ainda noutra leitura dos originais, O pecado oculta-se profundamente no coração dos maus. Para eles não há temor de Deus. Os pecados dos homens têm voz para os ouvidos piedosos. São um indicador externo de um mal interior. A maldade é o fruto da raiz ateia. Se Deus está em todas partes e se eu O temo, como posso eu atrever-me a quebrantar as Suas leis na Sua própria presença? —C. H. S.

Versículo 1.Não tendo o temor de Deus perante seus olhos” é algo que tem ficado determinado nos procedimentos dos tribunais de justiça. Quando um homem não teme a Deus, está preparado para qualquer crime. —William S. Plumer

Versículo 2. Porque se lisonjeia, em seus próprios olhos, ou Porque em seus olhos se lisonjeia, ou, Ele lisonjeia-se demasiado a si próprio, ou, Ilude-se a si próprio. Os homens temerosos de Deus vêem os seus pecados e lamentam-nos. Quando é ao reverso, podemos estar seguros de que não há temor de Deus. O desculpar a própria conduta perante a sua própria consciência (que é o que significa no hebraico) é aplanar o próprio caminho para o inferno. —C. H. S.

Versículo 2. Em seus próprios olhos. Aquele que não tem a Deus diante dos seus olhos em santo temor, por esse motivo põe-se a si mesmo em admiração pecaminosa. Aquele que tem (ou, faz pouco de) Deus em pouca consideração, considera-se a si mesmo muito importante. Os que se esquecem da adoração caem na adulação. Os olhos têm de ver alguma coisa, e se eles não admirarem a Deus, adulam-se a si mesmos. —C. H. S.

Versículo 2 Ele lisonjeia-se demasiado a si próprio. Alguns pecadores adulam-se (isto é, louvar em excesso; gabar servilmente; gabar por interesse próprio, lisonjear) de que já se converteram. Eles sentam-se e descansam numa esperança falsa, persuadindo-se de que todos os seus pecados estão perdoados, que Deus os ama, que irão para o Céu quando morrerem, e que não precisam de preocupar-se mais. “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.” (Ap 3:17, ARC, Pt). —Condensado de Jonathan Edwards


Versículo 3. As palavras da sua boca são malícia e engano, ou, As palavras da sua boca são falsas e mentirosas, ou ainda noutra leitura dos originais, Fala com malícia e com mentiras. Este casal de cães do inferno geralmente caçam juntos, e o que um não alcança, consegue-o o outro; se a iniquidade (isto é, a malícia, a falsidade) não pode vencer pela opressão, o engano (isto é, as mentiras) o conseguirá com as suas artimanhas. Quando o coração é tão corrupto que se adula a si mesmo, a língua não vai na retaguarda. O sepulcro aberto da garganta revela a corrupção da natureza interior. —C. H. S.

Versículo 4. Maquina o mal na sua cama, ou, No seu leito maquina a iniquidade, ou ainda noutra leitura dos originais, Quando está deitado, projeta fazer mal. O seu lugar de descanso passa a ser o lugar para maquinar. A sua cama é uma cama (isto é, alfobre) de ervas venenosas. Tem ao diabo como companheiro de cama, que intriga com ele na forma em como ele tem de pecar. Deus está longe dele. —C. H. S.

Versículo 4. Quando está deitado, projeta fazer mal, ou ainda noutra leitura dos originais, Ficam acordados durante a noite a fim de planearem os seus atos perversos. Tal como o homem temente a Deus consulta o seu coração na cama para não pecar, para não pecar, para não pecar não no seu coração, assim também o homem que não teme a Deus maquina a forma como possa executar o seu pecado com prazer. —David Dickson

Versículo 4. Na sua cama. Com toda diligência, Ayguan pesquisou as expressões escriturais referentes a cama e diz-nos que há seis diferentes camas de maldade: a da lascívia, a da avareza, a da ambição, a da cobiça, a da estupidez e a da crueldade, e ilustra-as com exemplos da Escritura. —J. M. Neale

Versículo 5-9. Da baixeza dos ímpios o Salmista volta-se para a contemplação da glória de Deus. Os contrastes são impressionantes. —C. H. S.

Versículo 5. A Tua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens, ou, A Tua fidelidade vai mesmo até além das altas nuvens, ou ainda noutra leitura dos originais, A Tua fidelidade alcança o infinito. Quando podemos medir os céus, vemos que estamos circundados pela misericórdia do SENHOR. Para os Seus próprios servos, em especial, na salvação do SENHOR Jesus, Ele apresentou graça com maior elevação do que os céus dos céus e mais larga do que o universo. Oh, se o ateu pudesse ver isto, com que assiduidade anelaria para chegar a ser um servo de Jeová! —C. H. S.

Versículo 5. A Tua misericórdia, SENHOR, está nos céus. Quando os homens pecam de modo descarado, quem não se admira da longanimidade divina? —Sebastian Munster, 1489-1552.

Versículo 5. A Tua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens, ou, A Tua fidelidade vai mesmo até além das altas nuvens, ou ainda noutra leitura dos originais, A Tua fidelidade alcança o infinito. Mais alta, muito mais alta do que toda a compreensão é a verdade da fidelidade de Deus. Ele nunca falha, nem Se esquece, nem deixa em falso a Sua Palavra. —C. H. S.

Versículo 6. A Tua justiça é como as grandes montanhas, ou, A Tua justiça é grande como as montanhas. Firmes e imóveis, elevadas e sublimes. Como os ventos e os furacões não fazem estremecer os Alpes, tampouco a justiça de Deus é afetada no grau mais mínimo pelas circunstâncias; Ele sempre é justo. Quem pode subornar ao Juiz de toda a Terra, ou quem pode, com ameaças, conseguir que transtorne o juízo? Nem mesmo para salvar os Seus escolhidos, permitiria o SENHOR que a Sua justiça fosse posta de lado. Cerrando a passassem do caminho a todo homem iníquo que sonha com o Céu encontram-se os Andes majestosos da justiça divina, que nenhum pecador não regenerado pode sonhar em atravessar. —C. H. S.

Versículo 6. Os Teus juízos são um grande abismo. A maneira de Deus proceder com os homens não pode ser sondada por nenhum homem cheio de jactância que quer ver o porquê de tudo. O SENHOR não admite ser interrogado por nós com respeito a por quê isto e por quê aquilo. Ele tem as Suas razões, mas não as quer submeter à nossa néscia consideração. —C. H. S.

Versículo 7. E por isso, os filhos dos homens se abrigam à sombra das Tuas asas. Oh se mais pessoas pudessem conhecer a excelência do refúgio celestial! Ver que O rechaçavam fez chorar a Jesus; as nossas lágrimas podem lamentar o mesmo mal. —C. H. S.

Versículo 7.

Numa cela solitária me encontro detido,
Atado por amor a Cristo, testemunha da Sua verdade;
As paredes são grosas, mas as portas abertas.
Deus é a minha força, o meu repouso e paz.

Numa carta de Jeronius Segerson, escrita na prisão de Antuérpia para a sua esposa, chamada Lysken, a qual se achava também ali. 1551.

Versículo 8. Serão completamente saciados. Tal como Deus espera o melhor para nós, também nos dá o melhor. —George Swinnock

Versículo 8. Saciados da abundância da Tua casa, ou Eles se fartarão da gordura da Tua casa, ou, Ficam satisfeitos com a abundância da Tua casa, ou ainda noutra leitura dos originais, Podem saciar-se da abundância da tua casa. Ouvi uma vez um pai que dizia que quando se tinha traslado com a sua família para uma nova residência, em que os compartimentos eram muito mais amplos, com móveis e equipamentos e provisões mais ricas e variadas do que na sua residência anterior, o seu filho mais novo, muito pequeno ainda, corria de um compartimento para outro examinando as coisas novas cheio de entusiasmo, exclamando com assombro infantil a cada descobrimento: “Isto é nosso, Pai? É nosso?” O menino não dizia “teu” e observei que o Pai, enquanto contava a história, não se sentia ofendido pela liberdade do seu filho. Podia-se ver nos seus olhos que a confiança do menino ao apropriar-se também como seu o que era do seu pai constituía um elemento importante na sua satisfação. Assim serão, suponho, o gozo e a confiança com que o filho da família do nosso Pai considerará tudo como seu quando for mudado da condição presente relativamente humilde e entre na realidade infinita vindoura. Quando as glórias do Céu irrompam ante a sua vista, não se manterá à distância como um estranho, dizendo: “Oh meu Deus, estas coisas são Tuas!” Dará um salto para diante e tocará em todas as provisões que contenha a mansão bendita, exclamando ao olhar para o rosto de Seu Pai: “Pai, isto e aquilo é nosso!” O menino está contente com todas as riquezas do Pai, e o Pai está mais contente pelo seu filho querido. —William Arnot

Versículo 8. E os farás beber da corrente das Tuas delícias, ou, e o rio das Tuas delícias lhes mata a sede, ou, Tu os inebrias no rio das Tuas delícias, ou ainda noutra leitura dos originais, E Tu os abeberarás da corrente das Tuas delícias. Tem motivo, causa ou razão alguma o menino para ir mendigando aqui e acolá migalhas e restos, quando seu Pai tem artigos tão valiosos e deliciosos ao seu dispor? —George Swinnock

Versículo 8. Delícias. Vemos esta mesma palavra em forma de “Éden” no Génesis, só que aqui está no plural. —Dalman Asptone, M. A.

Versículo 9. Porque de Ti brota o manancial da vida, ou, Porque em Ti está o manancial da vida, ou ainda noutra leitura dos originais, Pois em Ti está a fonte da vida. Este versículo é feito de palavras simples mas como o primeiro capítulo do Evangelho de João, é muito profundo. Do SENHOR, como fonte independente e suficiente de Si procede toda a criatura, é sustentada e sustentada por Ele, e só por meio dEle pode ser aperfeiçoada. A vida está na criatura, mas a fonte da mesma está unicamente no Criador. —C. H. S.

Versículo 9. Porque de Ti brota o manancial da vida. Estas são algumas das palavras mais maravilhosas que se acham no Antigo Testamento. A sua plenitude de significado não pode ser esgotada por nenhum comentário. São, de facto, a medula e a antecipação de grande parte dos ensinos mais profundas do apóstolo João. —J. J. Stewart Perowne

Versículo 9. Na Tua luz, veremos a luz, ou ainda noutra leitura dos originais, e é na Tua luz que vemos a luz. O conhecimento de Deus derrama mais luz nas coisas espirituais que sobre todos os outros temas. Não necessitamos de uma vela para ver o Sol; vemo-lo pelo seu próprio resplendor, e depois vemos todo o resto por este brilho. Nunca vemos a Jesus com a nossa luz, mas a nós à luz de Jesus. É um vaidoso aquele que confia no conhecimento e no engenho humanos; um raio do trono de Deus é melhor do que o resplendor do meio-dia da sabedoria criada. SENHOR, dá-nos o Sol, e deixemos aos que se deleitam nas velas de cera da superstição e na fosforescência da filosofia corrupta! —C. H. S.

Versículo 9. Na Tua luz, veremos a luz. Esta visão gloriosa que Daniel viu tirou-lhe a energia (Dn 10:8). O objeto, estando fora dele, tirou-lhe todo vigor ao contemplá-lo, e deixou-o exânime; mas no Céu, o nosso Deus, a Quem veremos e conheceremos, achar-Se-á dentro de nós para nos fortalecer; então viveremos porque veremos a Sua face. Será uma luz consoladora, como a luz da manhã para o sentinela cansado, que deseja vê-la durante a noite. —William Colville

Versículo 9. Na Tua luz, veremos a luz. A luz da natureza é como uma faísca, a luz do evangelho como uma lâmpada, a luz da graça uma estrela, mas a luz da glória é o próprio Sol. Quanto mais subimos, maior é nossa luz; Deus reside “na luz inacessível” (1Tm 6:16) para todo homem que arrasta a sua mortalidade e o seu pecado; mas quando estas duas características corruptas e impotentes forem eliminadas, então contemplaremos esta luz. Agora estamos contentes de que o Sol e as estrelas se achem sobre as nossas cabeças para nos darem luz: que luz e deleite serão quando estes se acharem aos nossos pés! Esta luz tem de estar por cima da luz deles, tal como agora eles estão por cima de nós. —Thomas Adams.

Versículo 9. Na Tua luz, veremos a luz. Fazemos grandes alardes da luz que temos no mundo, e há motivos para isso nas coisas naturais; mas assim como nos tempos antigos o mundo não pôde conhecer a Deus por meio da sabedoria, o mesmo é válido agora. Se temos de conhecer a Deus, tem de ser mediante a Sua Palavra. —Andrew Fuller

Versículo 9. Na tua luz, veremos a luz. Conheceremos inconcebivelmente mais no primeiro momento depois de chegarmos ao Céu do que somos capazes de alcançar durante todos os nossos dias aqui. —Timothy Cruso

Versículo 9. Nesta comunhão com Deus, o que nos falta? Porque Deus será tudo em todos; Ele será a formosura para o olho, a música para o ouvido, o mel para o paladar, e contentamento e satisfação plenos para os nossos desejos, e isto de modo imediato. —Edmund Pinchbeck, B.D., in “The Fountain of Life:” a Funeral Sermon (“Na fonte da vida”, Sermão de um enterro), 1652.

Versículo 10. E a Tua justiça sobre os retos de coração. A pior coisa que deve temer o homem de Deus é o desamparo e o abandono do Céu; daqui a razão desta prece. Mas o temor carece de fundamento se considerarmos a paz que nos brinda a fé. Aprendamos deste versículo que por mercê ao pacto temos garantida a continuidade da misericórdia, ainda que por isso não podemos deixar de fazer desta o objeto de nossa oração.

Versículo 11. Não venha sobre mim o pé dos soberbos, ou, Não permitas que os soberbos me pisem, ou, Não permitas que me pisem os pés dos orgulhosos, ou ainda noutra leitura dos originais, Que o pé do orgulho não me alcance. Os homens bons fazem bem em temer os orgulhosos, porque a semente da serpente nunca cessa de morder o calcanhar dos fiéis. C. H. S.


Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

1 comentário:

João Damasceno disse...

Olá, Prof. António Carlos. Tem sido um prazer imenso usufruir de todas as suas edições. Tenho aprendido bastante e extraído bastante consolo lendo biografias, leituras diárias, sermões , etc.Estou esperando ansioso a sua publicação do Salmo 29 da obra de Charles Spurgeon O Tesouro De David.Quero dizer muito obrigado pelo seu trabalho quem edificado muitos cristãos aqui no Brasil. Um abraço.
João Pereira Damasceno
rev.damasceno@gmail.com