… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

20 de outubro de 1910 • A Câmara Municipal de Gaia dá o nome de Diogo Cassels à antiga rua do Torne



20 de outubro de 1910 A Câmara Municipal de Gaia dá o nome de Diogo Cassels à antiga

 rua do Torne
James (ou Diogo, nome português que adoptou) foi o mais velho dos 11 filhos de John Cassels, um negociante britânico estabelecido no Norte de Portugal. Nasce em Massarelos, na cidade do Porto em 3 de novembro de 1844. Criado entre as duas margens do Douro, no Porto e em Vila Nova de Gaia, indo mais tarde para Inglaterra onde estuda no colégio de Repton. Por falta de saúde, aos 14 anos, teve de abandonar o colégio e regressar a Gaia, continuando depois durante algum tempo o estudo das línguas inglesa, francesa, latina e grega, com professores particulares.

É obrigado a deixar estes estudos particulares ainda muito novo para começar a trabalhar, a fim de auxiliar a família. Entretanto, torna-se sócio de seu pai na firma John Cassels, fundada pelo seu pai. Em virtude do súbito falecimento do seu pai, foi durante alguns anos gerente da fábrica de estamparia da mesma sociedade, em Mafamude, que também tinha sido montada por seu pai. Este primeiro período da sua vida foi de intensa actividade, pois teve de trabalhar com afinco, visto a sua mãe e os seus dez irmãos terem ficado a seu cargo. Tempos depois, resolve passar essa sociedade e dedicar-se ao comércio, fundando a casa comercial James Cassels, no Porto, a qual ainda hoje existe, apesar de ser dirigida por pessoas estranhas à sua família.

Cidadão benemérito de Gaia e presbítero da Igreja Lusitana, Diogo Cassels dedica a sua vida à difusão da instrução e da educação das classes humildes. Neste âmbito, funda a Escola do Torne para as classes pobres, em 1868, com apenas 24 anos de idade, e a Escola do Prado, em 1901, com o produto de um seguro de vida. Hoje, a Associação das Escolas do Torne e do Prado, constituída em 1989, dá continuidade, em novos moldes, ao trabalho educativo e social iniciado por Diogo Cassels no século XIX.

Em 1885, portanto aos 41 anos, Diogo Cassels faz o Exame de Estado na Escola Normal do Magistério, na Rua da Alegria, no Porto, que o habilita a exercer como professor de instrução primária, e seis anos mais tarde, em 1891 obtém o diploma de professor de instrução secundária. Aos 57 anos, em 1901, quando a maior parte das pessoas pensa em descansar, Diogo Cassels com o produto de um seguro de vida, funda a Escola do Prado, leccionando e dirigindo ambas as Escolas, do Torne e do Prado, com inexcedível dedicação e competência.

Diogo Cassels dedica incansavelmente a sua actividade à difusão da instrução e da educação das classes humildes, estimulando-as e incutindo-lhes a veneração por todos os sentimentos nobres que dignificam o homem, ensinando e instruindo, sem desfalecimento, gastando, nessa missão, a sua grande fortuna.

Em abril de 1908, a Liga Nacional de Instrução Nacional reconhecendo os grandes serviços prestado por Diogo Cassels no combate ao analfabetismo, concedeu-lhe o diploma de “Benemérito da Instrução”.

A Câmara Municipal de Gaia no mesmo sentido, num ato simbólico que se traduz um duplo objectivo, o de valorizar o cidadão gaiense, e o benemérito da instrução e fundador das Escolas do Torne e do Prado, na sua sessão realizada neste dia, 20 de outubro de 1910, quando se viviam os ardores republicanos e uma onda de anticlericalismo varria a recém-nascida República Portuguesa, resolve, por unanimidade (o que já tinha sido resolvido pela sessão transacta) dar o nome de Diogo Cassels à antiga Rua do Torne, artéria central da cidade de Gaia que, como se sabe atravessa a Avenida da República, ligando a Rua 14 de outubro com a Rua General Torres. Tendo-lhe posteriormente sido erigido um busto no Jardim do Morro em Gaia em 10 de abril de 1938.


No dia 7 de novembro de 1923, quando Diogo Cassels recebia um donativo para as escolas, num banco inglês, foi acometido, repentinamente, por um ataque fulminante que o prostrou para sempre, aos 79 anos de idade.

A Câmara Municipal de Gaia ao tomar conhecimento da morte deste insigne educador reúne extraordinariamente instituindo por unanimidade, dois prémios de cem escudos cada um, denominando-os de “Diogo Cassels e Isabel Cassels”, para serem distribuídos anualmente, ao aluno e à aluna mais distintos das escolas fundadas pelo grande benemérito.

Desde muito jovem que Diogo Cassels dedica o seu tempo e bens a tarefas de evangelização. A partir de 1866, aos vinte e dois que realiza em sua casa reuniões evangelísticas para as quais convidava os operários da estamparia que administrava, vizinhos e amigos. Aí se faziam orações, leitura de trechos bíblicos e entoavam hinos religiosos. Detido pelas autoridades por alegado crime de proselitismo e desrespeito à religião do Estado, em 1868 Cassels é julgado e condenado a seis anos de deportação, pena anulada pelo Tribunal da Relação.

Nesse mesmo ano de 1868, Diogo Cassels funda em Vila Nova de Gaia a Escola do Torne, em edifício que servia simultaneamente de capela para o culto evangélico, a primeira construída no País destinada a portugueses. Nos anos subsequentes o trabalho desenvolve-se e ganha crescente implantação no meio social: ao ensino elementar, com frequências anuais na ordem da centena de crianças de ambos os sexos, juntam-se uma creche, aulas nocturnas para adultos e cursos secundários; funda-se uma sociedade mutualista, uma caixa económica para operários e abre-se um “gabinete de leitura” com jornais e uma biblioteca.

Em 1880 Cassels e a sua congregação aderem à recém-organizada Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica. Por esses anos Diogo Cassels assume quase na íntegra os custos da construção de outra capela e respectiva escola, a do “Redentor”, na Rua Visconde de Bóbeda (Porto), inaugurada e dedicada ao culto em 1883. Instituído Diácono e ordenado Presbítero (1892) na Igreja Lusitana, continua a ocupar toda a sua vida e recursos à pregação da Palavra de Deus, à educação e assistência aos mais carenciados, aspectos que entendia complementares no testemunho cristão e espírito de missão que o orientavam. Em 1894 faz construir um novo templo para a sua igreja do Torne, que dedicou a “S. João Evangelista, libertando espaços para uma actividade educativa em franca expansão. Em 1901 inaugurou ainda no Arco do Prado (Gaia) outra Escola e Igreja, igualmente construídas a expensas próprias e de donativos que angariava.

Além do ministério na igreja que fundou e serviu, do trabalho educativo e social, Diogo Cassels dirigiu durante 32 anos, até à sua morte, o jornal Igreja Lusitana, para divulgação das actividades da igreja e escola do Torne, promovendo e formação e edificação cristã de crentes e não crentes. Em 1906 compilou em livro a Reforma em Portugal, onde dá conta dos esforços pioneiros para a renovação da mentalidade religiosa e para a dupla e inseparável tarefa da evangelização/alfabetização das populações.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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