… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

31 de outubro de 1999 . Luteranos e Católicos assinam a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação


31 de outubro de 1999 Luteranos e Católicos
  assinam a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação

Para os Cristãos Luteranos o ensino bíblico da centralidade de Cristo, Somente Cristo (Solus Christus) é o único fundamento da sua fé e da sua salvação. Somente Cristo salva, somente Cristo perdoa, somente Cristo nos conduz à comunhão com Deus. O ser humano não tem forças, nem recursos para se salvar a si mesmo, por meio das suas obras ou méritos pessoais. Se a salvação é realizada somente por Cristo, então também é verdade que podemos alcançá-la Somente Pela Fé (Sola Fide) e não pelas nossas obras. Não precisamos de conquistar o favor de Deus. Deus já manifestou o quanto nos ama, ao enviar o Seu Filho ao mundo. Ele perdoou-nos, salvou-nos e reconciliou-nos Consigo mesmo, não cobrando dos homens as suas injustiças e os seus pecados. Tudo isto pode (e deve) ser aceite como um presente divino, por meio da fé.

Na época de Lutero ensinava-se que a tradição da Igreja e a autoridade do Papa era tão ou mais importante que a Bíblia. Por isso Lutero dá ênfase às Sagradas Escrituras, ensinando que Somente A Escritura (Sola Scriptura) pode levar ao caminho da salvação, por meio de Jesus Cristo. Nenhuma lei, tradição, convenção humana, nem mesmo a Igreja está acima da Sagrada Escritura. A Escritura é central para a Comunidade Cristã; é nela que a Comunidade deve basear as suas ações.

Vivemos num mundo em que tudo é pago, comprado e conquistado. Nada é de graça. Esta mentalidade, no tempo de Lutero, tinha sido transferida até mesmo para as coisas de Deus. A salvação deveria ser conquistada ou comprada mediante o pagamento de indulgências, as cartas de perdão, oferecidas pela Igreja daquela época. Lutero insurge-se contra esta prática. E fez isto fundamentado na centralidade de Cristo (Solus Christus), da fé (Sola Fide) e da Sagrada Escritura (Sola Scriptura).

A Escritura é o instrumento que Deus usa para nos conduzir à graça de Deus, ou seja, à compreensão de que a salvação não é mérito humano, mas presente divino, dado por meio de Cristo e recebido pela fé. Isto é realmente revolucionário, tanto hoje como no tempo do Reformador. Não há salvação por iniciativa humana, nem por méritos próprios alcançados pela observância de leis e regras estabelecidas por qualquer Igreja Cristã. A salvação é iniciativa gratuita de Deus, realizada por meio de Cristo, isto é Somente pelA Graça (Sola Gratia).

Neste dia, 31 de outubro de 1999 o Bispo Luterano Christian Krause, pela Federação Luterana Mundial, e o Cardeal Edward I. Cassidy, pela Santa Sé, assinam a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. O documento afirma sete vezes “confessamos juntos”. Este “confessamos juntos” põe em concordância o essencial da fé dos Cristãos Luteranos (Sola gratia, Sola fides) sem deixar que os Cristãos Católicos percam a face (isto é, a defesa das obras).

A Declaração pode ser resumida neste parágrafo: "Confessamos juntos: somente pela graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa do nosso mérito, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras."

E, pasmemo-nos!!! Foram precisos 482 longos e duros anos de pelejas e de amarguras entre Irmãos em Cristo desavindos para que Luteranos e Católicos percebam de coração franco que confessam a mesma fé na Doutrina Cristã da Justificação” (isto é a mesma “salvação”) com cambiantes diferentes. Estão unidos no fundamental: Jesus Cristo é o Salvador! Crêem no mesmo Salvador!

Sobre isto Lutero dizia: “Entendo que o pecador é justificado somente pelo amor, pela misericórdia e pela graça de Deus, e nada mais. A graça de Deus livra-me da culpa, do poder e da presença do pecado.” (Conversas com Lutero, p. 224).

O Documento assinado representa finalmente por parte dos Cristãos Católicos a aceitação da Doutrina da Justificação dos Cristãos Luteranos. A reconhecê-la tão tardiamente! Mais vale tarde que nunca! A dizer com verdade: “Lutero é Cristão Católico”, ou melhor ainda “Nós somos todos Cristãos Luteranos, por exemplo, como santo Agostinho, o ‘Doctor Gratiae’!” Porém, como sempre acontece nestas grandes caminhadas ecuménicas entre Cristãos Irmãos, alguns poucos de ambos os lados não são tão volantes e não aceitaram a Declaração. E alguns desses Cristãos Luteranos não signatários defendem que a Igreja Católica deve (ou devia) na sequência da assinatura da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, retractar-se em relação ao Concílio de Trento.

Houve diversos aspectos simbólicos na assinatura da Declaração Conjunta. Entre eles:
- O documento foi assinado na mesma igreja de Augsburgo, a igreja de Santa Ana, onde o Cardeal Caetano teve o diálogo (nada amigável) com o monge Martinho Lutero em 1518;
- Na mesma cidade onde em 1530 foi apresentada solenemente diante do imperador Carlos V a Confissão de fé daqueles que seguiam a doutrina defendida pelos próceres da Reforma, documento que veio a ser mundialmente conhecido como a “Confissão de Augsburgo” e que marcou a separação da igreja ocidental;
- Na mesma cidade de Augsburgo onde foi celebrada, em 1555, a paz de entre católicos e evangélicos;
- E, exatamente no dia 31 de outubro, data comemorada nas igrejas evangélicas luteranas como Dia da Reforma, lembrando a publicação das 95 teses no ano de 1517.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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