… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

22 de novembro de 1873 • Afunda-se o “Ville du Havre” em 12 minutos



22 de novembro de 1873   Afunda-se em 12 
minutos o “Ville du Havre”
Lançado à água em 1866, o vapor “Ville du Havre” que fazia a ligação marítima do Norte de França e a cidade de Nova Iorque nos Estados Unidos quando fazia a viagem de volta para a Europa colidiu neste dia, 22 de novembro de 1873, com o veleiro de três mastros “Loch Earn”, de bandeira escocesa, e afundou-se em apenas 12 minutos nas águas frias do Atlântico Norte, tendo morrido no naufrágio 226 pessoas. Sobreviveram 61 passageiros e 26 membros da tripulação.



Entre os passageiros, viajava a senhora Anna Larsen Spafford e as suas quatro filhas: Anna, Margaret, Elizabeth e Tanetta. Vinham à Europa, a Londres, apoiar uma cruzada evangelística que Moody realizaria na Inglaterra. Residentes em Chicago (EUA), Anna viajava sem o marido, o advogado Horatio Gates Spafford (1828-1888), crente presbiteriano, natural de North Throy, no estado de Nova York. Desta família só a Senhora Spafford se salvou. E sabemos (quase) nada do que aconteceu.



Mas… Quando também quando regressava de participar da Assembleia da Aliança Evangélica em Nova York, e para não deixar a Espanha, como maliciosamente escreveu Marcelino Menéndez Pelayo, este um medonho naufrágio acabou-lhe com a sua vida sem nunca conhecer o seu terceiro filho, entretanto, nascido durante a sua estadia na América.



Antonio Carrasco Palomo nasce em 19 de janeiro de 1842 em Málaga, tornando-se o primeiro filho de uma família modesta e numerosa. Os primeiros estudos tiveram de ser interrompidos para ajudar a remediar a difícil situação económica em sua casa, assim que começa a trabalhar cedo num escritório.



A sua juventude coincide com a intensificação da propagação ilegal do protestantismo na Andaluzia. E numa das congregações de Málaga abraça a fé evangélica aos 18 anos, unindo-se de imediato a um grupo de leitores da Bíblia ligados a Manuel Matamoros. Logo se torna um ativo propagador da fé que abraçara, e juntamente com os outros jovens crentes, passa à introdução de Bíblias e de outros livros proibidos de Gibraltar, a fim de edificar as congregações andaluzes e de contribuir para a sua expansão. Como era óbvio, estas tarefas levam-no à prisão.



Depois de 22 meses de prisão, é a sua causa julgada em Audiência Pública. Na sua defesa, Bernabé Dávila Bertoli, mostra que ele e os seus companheiros tinham sido “injustamente acusados” de procurar o mal da sua pátria. Mas não adiantou nada. Como outros evangélicos presos de Málaga e Granada, é condenado a nove anos de prisão. A pena, graças à intercessão promovida pela Aliança Evangélica em representação de vários países “protestantes” feita à rainha espanhola Isabel II é comutada em desterro durante o mesmo período de tempo. Assim, em maio de 1863, com vários outros evangélicos, teve de deixar a Espanha.



Então, recebe uma sólida formação humanística e teológica bíblica em França, Suíça e Alemanha, donde regressa a Espanha a 7 novembro de 1868, graças à liberdade de religião concedida pelo triunfo da revolução chamada “a Gloriosa”.



No início do ano seguinte, juntamente com Francisco de Paula Ruet e outros antigos crentes em Málaga, organiza o primeiro núcleo protestante de Madrid, a Igreja Evangélica Reformada, com uma assistência que envolvia de 300 a 1000 pessoas.



A 6 de novembro de 1869 publica o primeiro número de “La Luz” um semanário que dirigirá até à sua morte e que, hoje bimestral, ainda é publicado. Também escreve vários panfletos que circulam abundantemente pela Espanha. Um deles, intitulado “A los españoles”, foi para o Índice do Livros Proibidos do Santo Ofício, da Igreja Católica Romana.



A Sociedade Abolicionista Espanhola, que agita opinião pública a favor da libertação dos escravos que ainda a Espanha mantinha então nas províncias espanholas ultramarinas de Porto Rico e Cuba, teve-o como conferencista e vice-presidente. E nos comícios abolicionistas alterna, como palestrante, com Emilio Castelar e outras admiradas figuras públicas espanholas



Como tinha acontecido em 1886, Carrasco é nomeado para representar a Espanha na grande Assembleia da Aliança Evangélica Mundial, realizada em Nova Iorque nos EUA, em novembro de 1873. O seu discurso queda registado para a posteridade na ata da referida Assembleia. E quando ele volta a bordo (e não quando fugia “frustrado” de Espanha, como maliciosamente escreveu Menéndez Pelayo), do vapor francês “Ville de Havre”, que apesar de ter o seu casco em aço, afunda-se rapidamente às 2 da manhã em 22 de novembro de 1873, numa colisão com um navio à vela, o Loch Earn, perto da costa da portuguesa. Carrasco e todos os fundos que havia conseguido recolher para a construção da sua igreja local foram perdidas. Deixa para trás uma jovem viúva e três filhos, um dos quais nasce durante a sua estadia nos EUA.



A sua morte súbita deixa as igrejas evangélicas de Madrid num vazio pastoral que só é preenchido quando Juan Bautista Cabrera se muda para Madrid para continuar a obra do Senhor que o naufrágio do “Ville du Havre” não faz sobraçar. O Senhor seja louvado! “Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora, tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas. (1Pe 2:25, ARC, Pt)

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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