… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

10 de janeiro de 1479 • Johannes Cochlaeus, o teólogo católico adversário de Lutero



10 de janeiro de 1479 Johannes Cochlaeus, 
o teólogo católico adversário de Lutero

O seu verdadeiro nome era Johann Dobneck. É este o homem que irá alimentar e servir de base à opinião dos historiadores e teólogos Católicos sobre Martinho Lutero até quase aos nossos dias. Já em 1529, este Johannes Cochlaeus, adversário de Martinho Lutero desde a primeira hora e também o seu primeiro biógrafo católico, descreveu o Reformador como “tendo sete cabeças.” Como se depreende facilmente não irei abordar nem escalpelizar nenhuma delas! Pelo contrário, hoje irei dar uns lampejos rápidos sobre Johannes Cochlaeus. E, noutro dia mais oportuno, em querendo o Senhor, tratarei acerca do que ele disse sobre o Reformador nascido em Eisleben, na Saxónia.



Johannes Cochlaeus nasceu em Wendelstein, próximo de Nuremberga, na Alemanha, neste dia, 10 de janeiro de 1479 e morreu em Breslau em 10 ou 11 de janeiro de 1552, conforme as fontes.



Era filho de um camponês, gente pobre, e por isso começou os seus estudos relativamente tarde. Primeiro estudou em Nuremberga, com o humanista Heinrich Grieninger. Em 1504 ingressou na universidade de Colónia, onde o conde Hermann von Neuenar, Ulrich von Hutten e outros humanistas foram seus condiscípulos. Ainda estudante também foi íntimo amigo de Carl von Miltitz, que posteriormente seria camareiro e núncio papal. De 1510 a 1515 ensinou no convento de São Sebaldo em Nuremberga, editando vários manuais que foram muito apreciados. Durante os anos 1515 a 1519 viajou pela Itália como tutor de três sobrinhos de Willibald Pirkheimer. Aí deu-se conta da lassidão moral e da falta de zelo religioso dos católicos em geral e da própria corte papal. Embora se sentisse repelido pela teologia escolástica estudou com grande zelo a Bíblia, Orígenes, Crisóstomo e Agostinho de Hipona, doutorando-se em 1517 em teologia em Ferrara. Em Roma foi consagrado sacerdote e nomeado diácono da igreja de “Nossa Senhora” em Frankfurt sobre o Meno. Aí Ao seu redor, a Alemanha posicionou-se do lado de Lutero, mas para manter as boas relações com a corte episcopal de Frankfurt sobre o Meno e com Girolamo Aleandro, de Worms, que lhe propôs a tarefa de se opor a Lutero, mudou de opinião e de aliados, passando a usando a sua pluma a favor da causa de Roma.



Agora o seu desejo mais profundo era encontrar-se com Lutero numa disputa pública. Com a ajuda do cardeal Aleandro consegue fazê-lo, tendo-se encontrado em privado com Lutero. Mas nestas conversações privadas os seus ataques conta Lutero foram tão exagerados e as suas invectivas e opiniões tão polémicas que até mesmo os seus amigos e aliados católicos desaprovaram o seu comportamento. Mesmo quando Johannes Cochlaeus já não tinha nem amigos nem dinheiro que o pudessem suportar, nunca se cansou de encontrar maneiras de se opor Lutero. Até no auge do seu zelo recomendou a supressão da universidade de Wittenberg! Em 1521 ofereceu os seus serviços ao Papa, mas ninguém fez caso dele em Roma. É no ano de 1522 que ele escreve e publica em Estrasburgo o seu primeiro tratado contra Lutero, o “De gratia sacramentorum liber unus Joannis Cochlæi adversus assertionem M. Lutheri”. Lutero respondeu-lhe, defendendo-se com o seu “Adversus armatum virum Cocleum”, a que Johannes Cochlaeus riposta em 1523, com “Adversus cucullatum minotaurum Wittenbergensem... De sacrorum gratia, iterum.”



No outono de 1523, Johannes Cochlaeus foi para Roma porque não sentia seguro Frankfurt sobre o Meno, mas para lá regressou no início de 1524. Enquanto isso, os seus protetores e amigos uniram-se ao partido opositor. E Cochlaeus acompanhou o cardeal Lorenzo Campeggio, o núncio papal, à convenção de Ratisbona como intérprete e membro da comissão que discutia a reforma do clero. A sua posição em Frankfurt sobre o Meno tornou-se insustentável, pelo que Cochlaeus teve de fugir para Colónia em 1525, tendo recebido a prebenda de São Víctor, na cidade de Mogúncia, em 1526. Assiste à dieta de Spira de 1526, embora não tenha concretizado seu sonho de ter uma disputa publica com Lutero. Lutero ignorou-o, depois de lhe responder ao seu primeiro tratado, mas Cochlaeus continuava infatigável, escrevendo tratados polémicos contra ele e a Reforma. Depois da morte de Jerónimo Emser ocorrida em 8 de novembro de 1527, Johannes Cochlaeus foi no ano seguinte ocupar o lugar que ficara vago em Dresden como conselheiro do duque da Saxónia, e aí continuou a sua luta literária contra Lutero. Nas novas funções Cochlaeus acompanhou o duque à dieta de Augsburgo em 1530, sendo um dos teólogos católicos nomeados para refutar a Confissão de Augsburgo. Os seus ataques conta as doutrinas da Reforma encontraram pouco apoio entre os  seus amigos e aliados católicos, e é por isso que só Johann Eck redige a Confutatio, a resposta católica dada aos luteranos naquela ocasião. A esperança de Cochlaeus receber apoio financeiro de Roma foi ilusória, pelo que lhe era cada vez mais difícil publicar as suas diatribes. Em 1534 ou 1535 Jorge da Saxónia ofereceu-lhe uma prebenda no bispado de Meissen e posteriormente foi nomeado preboste de São Severo em Erfurt até 1539. Mas em 17 de abril de 1539 o duque Jorge, O Barbudo, da Saxónia morria. A morte do duque Jorge, da Saxónia foi um duro golpe para Cochlaeus e para a causa católica. O progresso da Reforma na Saxónia tornou impossível que ele mantivesse os seus cargos eclesiásticos, e por isso teve de aceitar uma nova prebenda no capítulo da catedral de Breslávia, uma cidade da Baixa Silésia, na Polónia. O rei Fernando convocou as dietas de Hagenau, Worms e Ratisbona, mas de novo Cochlaeu foi ignorado. Acompanhou interessadíssimo os preparativos do Concílio de Trento, mas não foi convocado nem convidado, e não pôde participar no mesmo. Até ao final dos seus dias permaneceu sendo o mesmo zeloso campeão do Catolicismo Romano, embora não tendo recebido o reconhecimento desejado. Para completar o seu trágico destino, o papa Paulo IV pôs o seu nome no Index (Index Librorum Prohibitorum, em tradução livre, o Índice dos Livros Proibidos, lista de publicações literárias que eram proibidas pela Igreja Católica)!


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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