… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

11 de janeiro de 1552 • O que Johannes Cochlaeus disse de Lutero



11 de janeiro de 1552 O que Johannes Cochlaeus disse de Lutero
 Lutero Sete Cabeças (1529)
Esta imagem polémica apareceu no rosto como título do panfleto “Os Sete Chefes de Martinho Lutero” por Johannes Cochlaeus.
Mostra Lutero com sete cabeças, cada uma das quais carrega um título diferente: Doutor, Martinus, Lutero, de clérigo, entusiasta, visitante, e Barrabás.  É ao mesmo tempo uma caricatura de Lutero e uma difamação dele como o Anticristo (a besta de sete cabeças do Apocalipse). 
A xilogravura inspirou uma contra-imagem protestante, o "Papado de sete cabeças", um xilogravura de Hans Brosamer (1500-1552 c.), 1529.



11 de janeiro de 1552 • O que Johannes Cochlaeus disse de Lutero



Ontem, aproveitando a data do seu nascimento, 10 de janeiro de 1479, escrevi um pouco sobre a vida de Johannes Cochlaeus, teólogo católico adversário de Lutero. E hoje, aproveitando a data do seu falecimento, este dia 11 de janeiro de 1552, embora haja quem dê a data de 10 de janeiro, abordarei o que ele disse de Martinho Lutero, para além de se referir ao Reformador como “tendo sete cabeças!”



A historiografia católica sobre Martinho Lutero inicia-se logo nos dias do Reformador. Em 1549, tinha ele falecido há três anos, aparece publicado o livro em latim “Comentários acerca dos fatos e escritos de Martinho Lutero”, de Johannes Cochlaeus, de apelido alemão Dobeneck, (1479-1552) e que foi publicado em Mogúncia. O autor era um sacerdote católico e humanista, mas era sobretudo um teólogo polemista que desde 1521 vinha travando controvérsias e polémicas com Lutero. Foi cónego da catedral de Mogúncia, desde 1526, e, depois da catedral de Breslávia, uma cidade da Baixa Silésia, na Polónia, desde 1539.



Nesta sua obra, Cochlaeus diz que se apoia de contínuo nas fontes, isto quer dizer, no próprio Lutero, expondo a sua vida e escritos desde 1517 até à sua morte, em 1546. A sua informação é vasta e capciosa. Utiliza todos os escritos conhecidos de Lutero, mas resume-os numa antologia muito parcial. Além disso, com habilidade de polemista, recolhe e aproveita os escritos antiluteranos especialmente os de Jerónimo Emser (1478-1527).



Ao mesmo tempo assume como verdadeiros os rumores e historietas que corriam sobre Martinho Lutero e transcreve-os. Além de não serem verdadeiros, muitos são invenções apropriados para um repertório que aviva a polémica e outros chegam a ser calúnia, da mais infamante e rasca. No prefácio refere um boato maledicente segundo o qual Lutero seria filho do diabo e também assevera que os frades agostinhos, que viviam com ele, no convento onde Martinho professara, viam certas atitudes de Lutero como estranhas ou incomuns e que procediam, sem dúvida, da convivência íntima que ele teria com o demónio!



Também para Cochlaeus a rebelião de Lutero contra as indulgências se explica por uma triste rivalidade entre frades. Entre os agostinhos e os dominicanos. Entre o agostinho Lutero, que combate as indulgências e o dominicano Tetzel, encarregado de pregar as indulgências na Alemanha.



Mas, certamente onde Cochlaeus mais carrega as tintas negras sobre Lutero é no aspecto moral. Retrata-o como uma figura abominável. Aparece dominado pelo orgulho, pela soberba e pela ambição. Tem um caráter hipócrita e iracundo, que se deixa levar pelas blasfémias e as insolências. Sobressai também pela sua grande astúcia, por ser mentiroso e por inventar calúnias. Em suma, a explicação da crise e rebeldia do frade Lutero é para ele muito simples: deveu-se à inveja, à vaidade, à soberba, à desobediência, ao desprezo da autoridade, e ao seu caráter desenfreado. Deste fundo passional brotou a sua sublevação e para a sua justificação doutrinal interpretou de uma determinada maneira errónea alguns dos textos de São Paulo.



A imagem de Lutero exposta na obra de Cochlaeus perpetuou-se na historiografia católica até princípios do século XX. Infelizmente os teólogos e historiadores Católicos repetiram durante quatro séculos os argumentos cheios de preconceito e de hostilidade de Cochlaeus, que criou assim um muro de incompreensão para com Lutero por parte dos católicos.



A obra que o tornou popular até aos nossos dias é a já referida acima “Comentários acerca dos fatos e escritos de Martinho Lutero” no seu título completo, em latim “Commentaria de actis et scripts Martini Lutheri Saxonis chronographiae ex ordine ab anno Domini 1517 usque ad annum 1546 inclusive fideliter conscripta” e editada em Mogúncia, em 1549.



Este livro, como já afirmei, tornou-se o modelo e a fonte de muitas produções polémicas posteriores, sendo a sua tese, “A Reforma não foi mais que uma inveja incidental entre dominicanos e agostinhos” ainda hoje crida erradamente por muita gente bem pensante.



Não há nada como dar a provar um pouco do mal que Johannes Cochlaeus escreveu. O seguinte parágrafo de “Comentários acerca dos fatos e escritos de Martinho Lutero” dá uma ideia do espírito da obra que ele escreveu:



“Este miserável sujeito [Lutero], de forma deliberada, perverteu, omitindo algumas coisas e acrescentando outras, o antigo texto verdadeiro da Igreja; forçou diferentes interpretações e incorporou glosas irritantes... Emser publicou com esse propósito um particular panfleto no qual não só recolhia todas as glosas erróneas, as perversões e falsificações que havia na tradução de Lutero, mas, ao mesmo tempo, difundiu, como medicina conveniente contra o veneno daquele, uma versão que concorda com o texto latino aceito e estabelecido pela Igreja. Isto foi para tranquilidade dos católicos que, com a ajuda deste panfleto, puderam ver e entender o perigo dos erros de Lutero, e rechaçar as vanglórias e jactâncias dos néscios luteranos. Mas antes que a obra de Emser visse à luz do dia, os impressores tinham dado tanta difusão ao Testamento de Lutero, que inclusive os alfaiates e os sapateiros, assim como as mulheres e outros simples idiotas, embora só pudessem ler um pouco de alemão, leram-no com enorme desejo, como se fosse a fonte de todas as verdades... [e] sem escrúpulo algum debatiam não só com os fiéis católicos, mas também com os sacerdotes e os monges... Essas mulheres luteranas, a quem falta toda a modéstia feminina, usurparam de forma arrogante o ofício da pregação.”

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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