… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

9 de janeiro de 1991 • Richard Thomas Cole parte para o Senhor nesta noite!



9 de janeiro de 1991 Richard Thomas Cole parte para o Senhor nesta noite!
... Até aconteceu quando houve baptismos de crentes em Amarante, a populaça quis afogá-lo no Rio Tâmega!? ...
Havia um casal de crentes independentes ingleses, de Liverpool, que vinham habitualmente de férias a Portugal. E não foi na sede de concelho, a vila de Amares, onde haveria talvez melhores condições de hospedagem, que então, pelo ano de 1930 andaria pelas 13 878 almas, para onde eles foram viver, mas na pequena aldeia de Caires. Tratava-se de Blanched Olver e da sua esposa, que aproveitavam esse tempo para testemunhar da sua Fé em Cristo, e, que, embora desconhecendo a língua portuguesa, iam para as feiras do Concelho de Amares com bandeiras com textos bíblicos e distribuíam literatura cristã em português. Muito sofreu este casal de Crentes! Não foi o serem corridos a ovos e laranjas podres o que os magoou! Não! O que lhes doía na alma era a ignorância e as trevas espirituais em que jazia o povo daquelas aldeias do distrito de Braga! E regressam ao seu país condoídos deste rude povo ignorante e fanatizado a quem trouxeram a luz do Evangelho. São escassas as informações sobre o Casal Olver. Mas uma coisa sei e é que este Casal de Crentes chegavam com facilidade ao Trono do Pai! Oravam muito e trabalhavam muito para o seu Senhor. Regavam com as suas orações aquele chão duro onde só cressem espinhos, para vir a ser chão de boa terra que dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.

Não sei se foi a Assembleia de “The Sharon Hall”, onde o Casal Olver se reunia, ou quem foi, mas Crentes no Senhor, foram com certeza, que ano de 1929 instalaram uma tenda para Evangelização em Liverpool. Quem pregou, ou fez o apelo, ou cantou, não sei. Sei é que Richard Thomas Cole aceitou o convite para ir à tenda, ouviu a mensagem e converteu-se. Isto Foi em 23 de junho de 1929, e em agosto do mesmo ano foi baptizado. Ainda não ele tinha feito os 22 anos.

Richard Thomas Cole havia nascido em Liverpol em 23 de setembro de 1907. Agora trabalhava no armazém de uma fábrica de vidros e jogava futebol em Everton nos tempos livres. Era um jovem mundano, escarnecedor da Palavra de Deus, hostil ao Evangelho e surdo aos constantes amorosos apelos da sua irmã crente, para que se reconciliasse com o seu Criador.

Como se reúnem na mesma Assembleia, o Casal Olver faz amizade com o jovem, novo crente. Oram e esperam. O Senhor Deus, Pai Amantíssimo tem os Seus desígnios! Este jovem era a resposta às orações balbucientes do Casal Olver a favor dos descrentes portugueses! E contactam o jovem Richard no sentido de o estimular a vir para Portugal como missionário! Foi um choque para Rich, uma vez que nunca lhe tinha passado pela cabeça ser missionário onde quer que fosse. É que que havia muitas limitações da parte dele, além da falta de ter vocação, havia a carência de meios: pouca instrução formal, sem metal sonante, sem domínio da língua nativa. Nã! Deus tudo mudou! Depois de muita oração e reflexão, e mesmo sem meios de subsistência garantidos, Richard Thomas Cole decidiu aceitar o desafio! Pois era de facto de um desafio que se tratava, já que, até ao dia da sua partida para a glória, nunca Rich soube com efeito quem foi a pessoa que por debaixo da porta da sua casa lhe introduziu um envelope contendo o dinheiro necessário para pagar a sua passagem de navio para Portugal. E foi assim que Rich veio para o nosso país, e foi assim que durante cinco décadas viveu, recebendo uma oferta de um lado ou de outro, teve sempre o necessário para o seu sustento, sem apoio de quakquer agência missionária. Em face disto não nos admiramos que tanto amasse o seu Senhor”

Algumas cartas de recomendação encaminham-no para a vila de Estarreja, onde aprendeu a língua portuguesa com Viriato Dias Sobral, que lhe deu acolhimento e o iniciou no trabalho missionário.

Depois estabeleceu contactos com alguns obreiros, como Frank Smith, Eric Barker, Ronald Moulton, Alfredo Henrique da Silva, Keneth Cox, José Ilídio Freire, Alfred Poland e José Fontoura, para além do já mencionado Viriato Dias Sobral, aos quais deu alguma colaboração nos seus ministérios.

No ano de 1943 (?) Richard Thomas Cole fixou residência em Braga na Rua de S. Vicente, 40, e abriu uma sala para a pregação do Evangelho no nº 37 da mesma rua, mais tarde mudou para o Largo da Estação nº 5, e, finalmente para a Rua da Cruz de Pedra, 39.

No ano seguinte, a 29 de março, 1944 contraiu matrimónio com uma senhora crente portuguesa de nome Palmira Fernandes Sepúlveda, acto que foi celebrado pelo então Pastor Metodista, Alfredo Henrique da Silva, com quem ele mantinha boas relações.

Richard Thomas Cole abriu trabalhos missionários em Braga, em Vila Nova de Famalicão, no Centro, em Carreira, e Gondifelos do mesmo Concelho, em Vila Real de Trás-os-Montes e em Vila Praia de Âncora.

Teve pontos de pregação do Evangelho no Concelho de Braga: em Areal e Real, no Concelho de Caminha, em Riba d'Âncora, no Concelho de Vila Nova de Famalicão e em Anta.

De todos estes trabalhos de Richard Thomas Cole existem frutos, dos quais a maior parte, na cidade de Braga.

Este denodado Cristão recebeu manifestações de hostilidade um pouco por todo o lado. Agentes da G. N. R. e, ou, da P. S. P., mal informados, detiveram-no algumas vezes errada e injustificadamente. Recebeu agressões verbais, ameaças físicas, uma das quais concretizada em Vila Praia de Âncora, recebeu pedradas e, foi, até ameaçado de foices em riste! Tudo isto eram as atitudes comuns de hostilidade que ele colhia tanto nas cidades como nas aldeias portuguesas. Até aconteceu quando houve baptismos de crentes em Amarante, a populaça quis afogá-lo no Rio Tâmega!? Mas, Richard não era homem facilmente intimidável e resistia, resistia sempre com a força que o Senhor lhe dava!

Diz quem o conheceu que é difícil pensar numa qualquer localidade do Minho, por onde Rich não tenha passado, levando consigo o testemunho de Cristo, através de literatura, empunhando cartazes com textos bíblicos em praças públicas sempre com a maior das oposições, às vezes mais, outras vezes menos musculadas dos resistentes ao Evangelho.

Os últimos anos da sua vida entre nós, passou-os Richard Thomas Cole entre Vigo, na Espanha, e Braga. A sua principal ocupação era colocar um colete com textos bíblicos no peito e nas costas, e dirigia-se às grandes centrais de autocarros e comboios, aos turistas, aos quais oferecia ajuda, sempre que precisavam de algo, Rich estava preparado para dar resposta a tudo, já que fornecia informações das mais variadas, tais como locais de câmbios, horários de expediente, lugares turísticos de interesse, horários de comboios e autocarros para qualquer parte do país, tanto de Espanha como de Portugal. Dava informações sobre hotéis e pensões para todas as classes de bolsa e, até chegou a dar informações sobre touradas! Uma vez quando lhe foram solicitadas! A tudo ele respondia com uma precisão e sabedoria que a todos surpreendia. Rich era um homem singular.

Aos seus interlocutores, falava-lhes sempre, do Caminho. Aliás era este o seu primordial objetivo. Deste modo, turistas de todo o mundo, tanto europeus e asiáticos, como africanos e americanos, assim como “cristãos" e islâmicos, assim também judeus e ateus levaram na sua bagagem, para além do testemunho verbal que Rich sempre fazia questão de dar, um tratado cristão, um Evangelho e até Novos Testamentos, e sempre que possível na própria língua do contactado, ou, quando não era possível, na língua do contactado, na língua inglesa.

Richard Thomas Cole tinha um admirável desapego às coisas materiais, mesmo àquelas que se poderiam considerar perfeitamente legitimas. Pessoa muito alegre, nunca deixava transparecer quaisquer preocupações que, porventura, tivesse. Assaz humilde, mas simultaneamente altivo no que concerne a assuntos de Fé. Não era pessoa fácil de torcer, mas quando se convencia de erro, aceitava com humildade a verdade.

Era dotado de um dom extraordinário para aplicar a Palavra de Deus em toda e qualquer conversa. Assim, se alguém lhe falasse da carestia da vida, da política, de problemas sociais, ou de outro qualquer tema, em menos de cinco minutos de conversa, ele com a sua proverbial habilidade, alterava o rumo da conversa, para o evangelizar com a Palavra de Deus.

Como era um Crente muito experimentado nos trabalhos, e, sobretudo um homem de oração, era por isso, muito vulgar que os irmãos crentes o procurassem para que recebessem o seu conselho sobre problemas morais e espirituais, e, não raras vezes, quando saíam da sua presença, já vinham com o problema quase resolvido.

Era possuidor duma notável cultura bíblica. Os seus estudos bíblicos eram de grande profundidade. O Irmão Rich pregava como vivia: amava o seu Senhor com muita seriedade e candura. Pena é que pouco tenha deixado escrito.

No dia 20 de junho de 1967 regressou definitivamente à sua terra natal, tendo servido o SENHOR na região de Braga durante mais de 40 anos.

Foi morar na sua casa, no nº 69 de Howthorn Road. Continuava a ser o mesmo homem simples. Vivia com frugalidade. Achava que o servo do Senhor necessitava apenas de uma cama, de uma mesa e de uma cadeira, e era nesse princípio que vivia. Ainda continuava a entender que as almas estavam à sua espera para ouvir a Mensagem da salvação e não devia gastar tempo com coisas triviais que, considerava, supérfluas.

Já nos seus últimos dias de vida adoece, é hospitalizado no dia 6, e parte para estar com o seu Senhor, três dias depois, na noite deste dia, 9 de janeiro de 1991.

“Disse-lhe o seu senhor: “Muito bem! És um servo bom e fiel. Já que foste fiel nas coisas pequenas, eu te confiarei as grandes. Vem tomar parte na felicidade do teu senhor!” (Mt 25:21, BPT, Pt)

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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