… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 22 de abril de 2017

SALMO 38



C. H. Spurgeon
O Tesouro de David
SALMO 38

TÍTULO.Salmo de David, para lembrança, ou ainda noutras leituras dos originais, Salmo da coleção de David. Para que Deus Se lembre, ou, Salmo de David. Em memorial, ou, Salmo de David. Como lembrete para Deus.” David tinha a impressão de que Deus o tinha esquecido, e por isso repassa as suas aflições e clama em alta voz pedindo ajuda. O Salmo 70 tem o mesmo título, e nele, o Salmista derrama as suas queixas diante de Deus. Seria de pouco proveito procurar conjeturar o ponto na história de David em que este Salmo foi escrito; ele pode ser uma comemoração da sua própria doença e de resistência à crueldade; ele pode, por outro lado, ter sido composto por ele para o uso de santos doentes e caluniados, sem referência especial a si mesmo.

TÍTULO. O Salmo é para trazer à lembrança. Entre as coisas que David recorda, as principais são: 1) As suas provas e libertações passadas. O ponto culminante do Salmo de David, não obstante, é o recordar; 2) A corrupção da sua (nossa) natureza. Não há, quiçá, outro Salmo no qual se descreva mais integralmente a natureza humana, vista à luz que Deus, o Espírito Santo, projeta sobre ela, no tempo em que Ele nos persuade do pecado.



Estou persuadido de que a descrição feita no Salmo não corresponde a nenhuma enfermidade corporal conhecida. É muito semelhante à lepra, mas há certas características importantes, que não se encontam em nenhum caso de lepra descrito, seja no passado, seja nos nossos dias. O facto é que se trata de uma lepra espiritual; é uma enfermidade interior aquela que aqui é descrita, e David retrata-a na sua própria vida e quer que nós a recordemos. C. H. S.



Versículo 1. Ó SENHOR, não me repreendas na Tua ira, ou ainda noutras leituras dos originais, SENHOR, não me repreendas com a Tua ira, ou, SENHOR, não me castigues em consequência da Tua severidade. Tenho de ser repreendido porque sou um filho que há errado, mas Tu, Pai cuidadoso, não ponhas muita ira no tom da Tua voz; trata-me brandamente, embora eu tenha pecado de modo grave. A ira de outros eu posso sofrê-la, mas não a Tua. C. H. S.



Versículo 2. Porque as Tuas frechas se cravaram em mim, ou ainda noutras leituras dos originais, Feriste-me com as Tuas setas, ou, Em mim penetraram as Tuas setas, ou, Os Teus castigos me têm ferido. São setas, verdadeiramente, que penetram rapidamente, e para lhes dares impulsiono são disparadas no Teu arco cruzado, pois de outro modo, não voariam tão rápidas, não penetrariam tão profundamente como as cruzes e aflições com que me surpreendeste.



Oh, assim como estendeste o braço da Tua ira, oh Deus, para disparar estas flechas contra mim, estende o Teu braço de misericórdia para as arrancar, e que eu possa cantar-Te hinos e não nénias; e que Tu possas mostrar o Teu poder ao perdoar-me como o tens feito ao me condenares! Sir Richard Baker.



Versículo 2. As Tuas frechas As flechas são: 1) rápidas; 2) secretas; 3) agudas; 4) letais. São instrumentos que tiram sangue e bebem sangue até à embriagez (Dt 32:42); as aflições são como flechas em todas estas características. Joseph Caryl.



Versículo 3. Tua indignação... meu pecado, ou ainda noutras leituras dos originais, Tua cólera… meu pecado, ou, Tua ira …minhas culpas, ou, Tua ira… meu pecado. Ai! Sou como uma bigorna sob dois martelos: um a Tua ira, o outro o meu pecado; ambos me golpeiam incesantemente; o martelo da Tua ira golpeia a minha carne, e o martelo do meu pecado golpeia os meus ossos; a Tua ira golpeia a minha carne, que é mais sensível; o meu pecado golpeia os meus ossos, que são mais duros.



A ira de Deus e o pecado são as duas causas eficientes de toda a miséria; porém, a causa verdadeiramente é o pecado; a ira de Deus, como ocorreu com o edifício que Sansão derrubou sobre a sua própria cabeça, não cai em cima de nós, a menos que nós a empurremos e a puxemos para cima de nós mesmos pelo pecado. Sir Richard Baker.



Versículo 3. Nem há paz (noutra leituras dos originais, repouso) em meus ossos, por causa do meu pecado. O Cristão nesta vida é como o mercúrio, que tem em si mesmo um princípio de movimento, mas não de repouso; nunca está quieto, como o navio sobre as ondas.



Enquanto temos pecado, somos como o mercúrio: um filho de Deus está cheio de movimento e inquietação... Está em constante flutuação, sempre tem pressa; a sua vida é como a maré, umas vezes sobe, outras vezes baixa. Não há descanso; e a razão é porque se acha fora do seu centro. Tudo está em movimento até que volta para o seu centro; Cristo é o centro da alma; o ponteiro da bússola treme até que marca o Pólo Norte. Thomas Watson.



Versículo 3.  Não tenho paz, sinto dores contínuas por causa dos meus pecados, que são como uma inundação que me submerge inteiramente. Aprende aqui dos mendigos a procurar alívio e subsistência. Eles mostram as suas chagas, dão a conhecer a sua necessidade, manifestam toda a sua miséria; não fazem a sua situação melhor do que ela é. Os mendigos sabem por experiência que quanta maior miséria exibem mais são compadecidos e mais auxílio recebem. William Gouge.



Versículo 4. Pois já as minhas iniquidades ultrapassaram a minha cabeça: como carga pesada são demais para as minhas forças, ou ainda noutras leituras dos originais, Estou afogado no mar dos meus pecados; eles são carga pesada demais para mim, ou, Os meus pecados pesam sobre a minha cabeça e como um fardo excessivo me oprimem, ou, [Os meus pecados] são um fardo demasiado pesado para as minhas forças. É bom que o pecado seja uma carga intolerável e que a lembrança dos nossos pecados nos aflija até se tornar irresistível. Este versículo é o clamor genuíno de alguém que se sente desfeito pela sua transgressão e, contudo, não vê o grande sacrifício. C. H. S.



Versículo 4. [Os meus pecados] são um fardo demasiado pesado para as minhas forças. Não há ninguém tão forte que possa ser carregado em excesso; embora Sansão tenha carregado ao ombro as portas da Gaza, quando derrubou o templo de Dagon sobre sua cabeça morreu esmagado.



E assim sou eu; desde que nasci levo sobre mim a carga do pecado; antes a levava ligeiramente, como Sansão levava as portas de Gaza; mas agora puxei a casa inteira do pecado e ela caiu sobre mim, e não posso evitar ser esmagado por um peso tão grande. E esmagado teria ficado, oh minha alma, se Deus apesar da Sua ira não Se tivesse compadecido de ti e, apesar do Seu desagrado, não tivesse detido a Sua mão de um maior castigo. Sir Richard Baker.



Versículo 4. É de especial utilidade para nós que as quedas dos santos de Deus sejam registadas nas Sagradas Escrituras. As manchas não se vêem mais desagradáveis em parte alguma do que num rosto formoso ou num vestido limpo.



E é conveniente ter um conhecimento perfeito da imundície do pecado. Aprendamos também a pensar com humildade de nós mesmos e a depender da graça de Deus para nos manter sob estrita vigilância, não seja que caiamos nos mesmos pecados, ou em piores (Gl 6:1). Herman Witsius, D.D., 1636-1708.



Versículo 5. As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura, ou ainda noutras leituras dos originais, As minhas chagas são fétidas e purulentas, por causa da minha loucura, ou, As minhas feridas estão inflamadas e cheias de pus, e isso em consequência da minha loucura, ou, Fedem e supuram as minhas chagas, por causa de minha loucura. A consciência foi revolvendo o mal até chegar a ser uma ferida que supura, e a corrupção é espantosa. Que criatura tão horrível se vê o homem ante a sua própria consciência quando a sua corrupção e baixeza são abertas e tornadas patentes pela lei de Deus, aplicadas pelo Espírito Santo!



Nem as enfermidades mais repelentes se podem comparar ao pecado. Nem as úlceras, cancros ou chagas pútridas se lhe podem comparar na sua indescritível pestilência. Nós mesmos nos vemos desta maneira. Escrevemos do que sabemos e damos testemunho do que vimos; e até mesmo agora trememos ao pensar no inflamado mal no recôndito da nossa natureza. C. H. S.



Versículo 5. As minhas chagas cheiram mal. Podia o sepulcro reter Lázaro quando Tu abriste a Tua boca e o chamaste? Tampouco pode a corrupção das minhas chagas ser um estorvo para a sua cura se Te agradar em curá-las. Sir Richard Baker.



Versículo 5, 6. Sempre que Deus quer revelar o Seu Filho com poder, sempre que quer que o evangelho faça ressoar as cordas do coração acerca do pecado, Ele faz sentir o peso do mesmo à consciência e fá-la gemer. E estou seguro de que quando uma pessoa está trabalhando sob a carga do pecado o fará cheia de gemidos e de queixas. A Bíblia regista centenas de queixas dos filhos de Deus sob a carga do pecado.



A queixa espiritual, pois, é uma marca da vida espiritual e Deus reconhece-a como tal. “Certamente, ouvi os gemidos de Efraim” (Jr 31:18). Isto mostra que Efraim tem algo que o oprime, que o faz gemer; que o seu pecado está patente à sua vista em toda a sua malignidade; que ele é angústia para a sua alma; que o encontra na boca; que é descoberto pelo olho penetrante de Deus e fustigado pela mão de Deus. J. C. Philpot. 1842.



Versículo 6. Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia. Que um homem se veja e se sinta encadeado pela culpa, em perigo do inferno, sob o poder das suas concupiscências, em inimizade contra Deus, e, Deus, como um estranho para ele; que o sentimento desta condição se ache em seu coração, e toda a sua alegria se tem dissipado.



Que lamentável criatura é o homem ante os seus próprios olhos! Inveja a sorte das bestas que correm e pulam nos prados. Sabemos de alguém que ao ver um sapo soluçou, porque Deus o tinha feito um homem; a bondade de Deus fazia-o chorar, segundo ele a via; porém, este homem crê que a sua condição é imensamente pior do que a de um sapo, e queria transformar-se num, porque o sapo não sente a culpa do pecado, não teme a ira de Deus, não está sob as garras da concupiscência; Deus não é um inimigo para o sapo; isto é o que ele sente. Giles Firmin, 1617-1697.



Versículo 7. Porque as minhas ilhargas estão cheias de ardor, ou ainda noutras leituras dos originais, Estou a arder de febre, ou, As minhas entranhas ardem de febre, ou, Os meus lombos ardem-me de febe. Em muitas coisas as nossas avaliações são exageradas, mas nunca estimamos com excesso a maldade do pecado. Corrompe e condena. Cobre a alma de manchas de praga, como a lepra (Is 1:5, 6). William S. Plumer.



Versículo 8. Estou fraco e mui quebrantado [ou ainda noutras leituras dos originais, quebrado, alquebrado]. O original diz “intumescido [intumescer, verbo transitivo e intransitivo 1. inchar; fazer(-se) túmido; inturgescer; entumecer; 2. figurado ensoberbecer(-se)]”, como gelado; há contradições na minha mente que desvaria e no meu corpo doente; parece-me que, alternativamente, parte de mim é quente e outra fria. Como as almas no purgatório dos papistas, lançadas desde fornos ardentes a pedras de gelo, assim os corações atormentados vão de um extremo ao outro, os dois torturantes igualmente. Do calor do temor, ao calafrio do horror; do desejo ardente, a uma insensibilidade horrível; estes estados sucessivos daquele que se acha sob a convicção de pecado levam-no à porta da morte. C. H. S.



Versículo 8. Gemo de desespero. É difícil que o penitente verdadeiro, na amargura da sua alma, repasse a vida que há arrastado na sua pecaminosidade sem gemer e suspirar do fundo do seu coração. Mas ditosos são estes gemidos, ditosos estes suspiros e soluços, posto que fluem da influência da graça e do alento do Espírito Santo, O qual, de forma inefável, geme dentro de nós e connosco, e forma estes gemidos nos nossos corações por meio da penitência e do amor! Jean Baptiste Elias Avrillon, 1652-1729.



Versículo 9. O meu gemido não Te é oculto. As lágrimas secretas para os pecados secretos são um sinal excelente de um coração santo e de um bálsamo curativo para os espíritos quebrantados. Samuel Lee.



Versículo 11. Os meus amigos e os meus propínquos [adj. próximo; não distante; vizinho; pl. parentes], ou, companheiros, noutra leituras dos originais, afastam-se da minha chaga. É muito duro, porque os que deveriam acudir primeiro para nos ajudar são os primeiros a nos abandonar. Em tempos de tribulação profunda da alma, até mesmo os amigos mais íntimos não podem entrar no caso do que sofre. Podem estar ansiosos acerca dele, mas não podem vendar as feridas de uma consciência dorida e terna. Oh, que solidão a de uma alma que passa pelo poder do Espírito Santo e que reguardua do pecado! C. H. S.



Versículo 11. A prova do afeto vê-se nos factos. Ouço o nome de parentes e amigos, mas não vejo os factos. Portanto, acudo a Ti, cuja Palavra são factos; porque necessito da Tua ajuda. From the Latin of A. Rivetus.



Versículo 13. Mas eu, como surdo, não ouvia, e como mudo, não abri a boca. Oh!, que felizes poderíamos ser se sempre pudéssemos fazer o que sabemos que é melhor fazer e se as nossas vontades estivessem dispostas a obrar tal como pode atuar a nossa razão; então evitaríamos muitas rochas nas quais tropeçamos agora; evitaríamos muitos erros nos quais incorremos. O ser surdo-mudo é certamente uma grande incapacidade quando estes defeitos são naturais; porém, quando são voluntários, poderíamos dizer artificiais, então, pelo contrário, bem são vantagens, são perfeições. Sir Richard Baker.



Versículo 15. Porque em Ti, SENHOR, espero; Tu, SENHOR, meu Deus, me ouvirás (responderás, noutra leitura dos originais). O homem que tem que descer a um grande poço não se atira de cabeça nele ou salta para ver o que acontece, mas, sim, ata uma corda a uma viga atravessada na boca, ou fixa-a de modo seguro, e vai descendo gradualmente. Assim pois, desce na consideração do teu pecado pendurado de Cristo, e quando tenhas ido tão abaixo que já não possas descer mais, mas estás disposto a vencer o horror e a escuridão do teu desgraçado estado, não permaneças mais tempo ante as portas do inferno, para que o diabo não te faça entrar nele com um puxão, mas sobe novamente por renovados atos de fé, e “devemos agarrar-nos com firmeza à esperança colocada diante de nós.” (Hb 6:18). Thomas Cole (1627-1697), in “Morning Exercises.”



Versículo 16. Quando escorrega o meu pé, eles se engrandecem contra mim. A menor falta num santo é infalivelmente notada; muito antes de que ela seja uma caída, já o inimigo começa a envergonhar; o menor deslize do pé faz ladrar a todos os cães do inferno. Que cuidadosos temos de ser e que insistentes temos de ser na oração para obter graça sustentadora! Não queremos, como Sansão cego, ser o motivo da chacota dos nossos inimigos; de modo que estejamos alerta e vigiemos a traidora Dalila do pecado, por cujos meios pode ser que nos tirem os olhos. C. H. S.



Versículo 17. Porque estou prestes a coxear, ou ainda noutras leituras dos originais, Na verdade, estou prestes a tropeçar, ou, Sim, estou prestes a cair, ou, Estou prestes a cair. De mostrar a minha debilidade nas minhas provas e aflições, como Jacob coxeava depois da sua luta com o anjo (Gn 32:31). Em grego, “estou preparado para os açoites”, isto é, para sofrer a correção e o castigo pelos meus pecados; e em caldeu, para a “calamidade.” Henry Ainsworth



Versículo 18. Por isso, confesso a minha culpa. Quando a culpa leva a um reconhecimento sincero e culpalizado do pecado, é uma culpa bem-aventurada, algo que temos de agradecer a Deus de coração. Estou inquieto por causa do meu pecado. O sentir dor pelo pecado não é expiação para o mesmo, mas é o espírito adequado com que acudir a Jesus, que é a reconciliação e o Salvador. Quando o homem se acha finalmente diante dos seus pecados, está perto do fim das suas tribulações. C. H. S.



Versículo 19. Porque os meus inimigos são ativos e poderosos. Por mais débil e desfalecente que se encontre o justo, os males que se lhe opõem são verdadeiramente ativos. Nem o mundo, nem a carne, nem o demónio se sentem comovidos pela debilidade que o aflige; este terceto de maldade trabalha com implacável energia para nos derrocar. Se o diabo estivesse enfermo ou os nossos desejos carnais fossem débeis, poderíamos afrouxar na oração; mas tendo inimigos tão ativos e vigorosos, não podemos cessar no nosso clamor a Deus. C. H. S.



Versículo 20. São meus adversários, porque eu sigo o que é bom, ou ainda noutras leituras dos originais,Voltam-se contra mim, quando eu procuro fazer o bem, ou, Perseguem-me, porque procuro fazer o bem, ou, Odeiam-me por eu seguir um caminho direito. Se os homens nos aborrecerem por esta razão, nós temos de nos regozijar disso; a sua ira é uma homenagem inconsciente que o vício rende à virtude. Este versículo não é incompatível com a prévia confissão do escritor; podemos sentir-nos igualmente culpados diante de Deus e, apesar disso, sermos inteiramente inocentes de mal algum para com os nossos próximos. Uma coisa é o reconhecimento da verdade, e outra o submeter-se a ser caluniado. O SENHOR fere-me justamente, e, contudo, eu posso dizer ao meu vizinho: “Por que me feres?” C. H. S.

Tradução de Carlos António da Rocha

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