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domingo, 19 de março de 2017

19 de março de 1222 • António de Lisboa prega o seu primeiro sermão




19 de março de 1222 António de Lisboa prega o seu primeiro sermão
 António de Lisboa, por Benozzo Gozzoli
Santo António nasceu em Lisboa, junto à catedral da cidade, onde hoje se ergue a Igreja de Santo António, construída em sua honra, no local em que se situava a casa paterna, muito perto do lanço ocidental da cerca moura. Segundo as mais recentes investigações sobre a data do seu nascimento, terá nascido em 1192 (embora a data considerada até há pouco tempo fosse 1195). Foi batizado uma semana depois, de acordo com o costume da época, na Sé de Lisboa e os seus pais deram-lhe o nome de Fernando.


Filho de Martim e de Teresa, gente abastada e com influência na cidade, desde os primeiros anos da sua vida foi educado por sua mãe, em sintonia com as práticas cristãs. Com 7 ou 8 anos de idade ingressou na escola anexa à Catedral de Lisboa, onde estudou as primeiras letras. Aí também foi menino de coro.

Aquando da tomada de Lisboa em 1147, D. Afonso Henriques nomeou como bispo da cidade um inglês, Gilbert Hastings, homem muito instruído nas letras sagradas e que conferiu um cunho cultural ao seu bispado. Além disso, o III Concílio de Latrão, celebrado em 1179, tinha consagrado como obrigatória, em todas as escolas catedrais, a existência de um mestre-escola, com a finalidade de ministrar instrução religiosa ao clero e a crianças em idade escolar. Desta escola anexa à Sé de Lisboa e da sua biblioteca pouco se conhece de concreto, pois toda a documentação se perdeu na altura do terramoto de 1755, que destruiu muito desta parte da cidade. Sabe-se, contudo, que nestas escolas existiam obras de carácter predominantemente religioso, mas também possuíam obras escolares e pedagógicas. No entanto, também se estudava gramática, retórica, música e aritmética. Fernando Martins, pois é este o seu nome antes de se tornar franciscano, estudou nesta escola catedral as primeiras letras, tomando contacto com a cultura religiosa, que tão relevante iria ser no decorrer da sua vida.

Segundo a primeira biografia, intitulada Legenda Prima ou Assídua, redigida logo após a sua morte por confrades que o conheciam bem, Fernando Martins ingressou, depois destes primeiros estudos, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, de cónegos regrantes de Santo Agostinho, onde passou aproximadamente dois anos. As constantes solicitações de amigos e de familiares não lhe permitiam a tranquilidade necessária para se dedicar à vida de estudo e de meditação religiosa que tanto desejava. Em seguida transfere-se para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, também de cónegos regrantes de Santo Agostinho, onde permaneceu cerca de nove anos, na paz e tranquilidade que o lugar propiciava, permitindo-lhe, como era seu desejo explícito, dedicar-se ao estudo, à oração e à reflexão, já iniciados em Lisboa.

Na Livraria do Mosteiro de Santa Cruz o santo encontrou as obras de referência fundamentais que estão na base da sua apurada formação intelectual e que nos permitem afirmar, sem sombra de dúvida, que a sua sólida e bem estruturada cultura teológica é claramente portuguesa, no sentido de ter sido adquirida em Portugal, ainda que mais tarde, em Itália, como franciscano, a tivesse actualizado à luz de novos dados e da própria vivência da espiritualidade franciscana.

O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, na época em que o santo aí viveu, era considerado um dos mais prestigiados centros de cultura monástica, ombreando em prestígio com outros centros europeus, como a Escola de Paris, com a qual mantinha contactos estreitos. Neste momento uma pergunta emerge: que leva o cónego regrante de Santo Agostinho, dedicado ao saber e às tarefas monásticas, a abandonar este Mosteiro e a abraçar o franciscanismo nascente, cuja mensagem evangélica ainda estava pouco divulgada e não contemplava o estudo, que o Santo tanto apreciava; que o leva a abandonar os cónegos regrantes de Santo Agostinho e a trocar o nome de baptismo Fernando pelo de António, com o qual passou a ser conhecido? A resposta não é linear, mas certamente foi tocado pela espiritualidade e mensagem, ainda que simples, dos primeiros franciscanos que, vindos de Itália, batiam à porta do rico Mosteiro de Santa Cruz a pedir esmola, e que ao mesmo tempo davam a conhecer a mensagem apostólica de São Francisco de Assis.

Com efeito, em 1219, passaram por Coimbra, a caminho de Marrocos, cinco frades, cuja intenção era a de evangelizarem os mouros. Ora, o facto de estes terem sido martirizados no Norte de África e degolados, em 16 de janeiro de 1220, pelo Miramolim, e de terem sido trazidos para Coimbra os seus restos mortais, cujas relíquias ainda hoje se encontram na Igreja de Santa Cruz, conduz o cónego regrante Fernando Martins a tomar a decisão, certamente já esboçada interiormente, de seguir as pisadas destes cinco protomártires franciscanos.

Fortemente impressionado por um tal exemplo de amor missionário, resolve trocar o hábito de cónego regrante pelo simples e pobre hábito de burel de frade menor, propondo-se seguir as pisadas dos martirizados, que tinham partido para evangelizar. Deste modo, é acolhido no Convento dos Olivais, em Coimbra, para em seguida partir para o Norte de África.

Também ele se dirige a Marrocos, mas aí adoece e vê-se obrigado a regressar de barco. Segundo a Legenda Prima, uma tempestade levanta-se e arrasta a embarcação para as costas da Sicília, na Itália. António desembarca e acaba por se dirigir ao importantíssimo Capítulo das Esteiras em Assis, que reuniu a maior parte dos franciscanos vindos de todas as partes da Europa, a fim de se encontrarem com o seu luzeiro, irmão Francisco. Nesta altura. António tem cerca de 30 anos. Chegado como um desconhecido e simples frade menor, após o termo do Capítulo, vai com alguns confrades para Monte Paulo, lugar ermo, onde leva uma vida austera e simples, dedicada à oração e à ajuda aos confrades. É este o momento de reflexão intensa. de asseguramento interior da sua vida como frade menor. De carácter solitário e silencioso, mas amável, é solicitado a dizer algumas palavras, em Forli neste dia, 19 de março de 1222, por ocasião de ordenações. Revela-se, então, o seu vasto saber, bem como os seus notáveis dons como pregador.

É este o momento a partir do qual a sua vida vai sofrer uma profunda alteração. Desconhecido de todos até ali, o saber de carácter teológico-escriturístico pacientemente adquirido em Portugal, aliado à sua veia de grande pregador, tiram-no do anonimato em que vivia. Podemos afirmar com segurança que começa aqui a sua vida pública. O seu saber teológico é posto ao serviço do franciscanismo nascente, que nesta altura não possuía nem bibliotecas, nem mestres. António é, verdadeiramente, o primeiro mestre de Teologia da Ordem Franciscana e como tal indicado pelo próprio fundador no final de 1223. A sua actividade como pregador vai exercer-se na Itália e no Sul de França, com grande sucesso. Por isso, é designado para, mediante a pregação, vencer as heresias dos catáros e albigenses. De palavra fácil, suave e convincente, a sua atitude para com os hereges é a de procurar convencer pelo poder da palavra, sem violência, mas de um modo incisivo e persistente. Ficou conhecido como o «martelo dos heréticos», devido a esta sua capacidade de persuasão. Mas nem sempre estes o escutaram, pelo menos nos primeiros tempos de pregação, tal como mostra a florinha do Sermão aos Peixes. De saúde débil e devido ao facto de a sua vida pública ser deveras esgotante, sente que necessita de descansar. Escolhe a casa do conde Tiso, em Campo de Sampiero, onde existe uma velha nogueira, de grandes ramadas. Aí é construída uma espécie de cela, que o acolhe durante o dia. Está-se em Maio de 1231. A sua saúde vai-se degradando e em 13 de junho de 1231, sentindo a chegada da «irmã» morte, pede para o levarem para Pádua, onde queria ser sepultado. Morre pelo caminho, em Arcela, mas acaba por ser sepultado em Pádua. As crianças da cidade correram pelas ruas anunciando «morreu o Santo».

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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