… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 21 de março de 2017

21 de março de 1843 • A Segunda Vinda de Cristo anunciada por William Miller



21 de março de 1843 A Segunda Vinda de Cristo anunciada por William Miller

Caricatura (1843) de um seguidor de William Miller.

Biblioteca do Congresso, Washington, D.C. (no. 3a24747u)

Um dos fenómenos próprios da liberdade religiosa e da proliferação de denominações nos Estados Unidos foi e é o surgimento de grupos que, apartando-se de certos aspetos fundamentais da fé cristã ou recalcando sobremaneira outros, constituem-se em Igrejas separadas do restante. Algumas delas nascem na consequência da febre escatológica que percorreu muitas denominações (ou, Igrejas) no século XIX e consideram-se a si mesmas a verdadeira Igreja ressurgida e purificada depois de séculos de apostasia.



O ano de 1830 marca o início de uma febril atividade religiosa nos Estados Unidos. Além da vitalidade registada entre os grupos ortodoxos, nesse ano publica-se o “Livro de Mórmon”, o texto fundamental da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Em 1843, William Miller prediz que a Segunda Vinda de Cristo pode acontecer a qualquer momento, atingindo o seu adventismo toda a nação. Em 1866, Mary Baker Eddy funda a Ciência Cristã, sustentando que a enfermidade, a dor, o mal, o pecado e a morte são erros da nossa mente mortal e são não existentes. Em 1872, Charles Taze Russell funda as Testemunhas de Jeová, ensinando que a Trindade é “uma doutrina não bíblica e falsa” criada por Satanás, sendo Cristo a encarnação do arcanjo Miguel.



Embora as definições para definir um grupo como seita variem, é possível encontrar diversas marcas distintivas em tais movimentos, entre as quais estariam:



1. Reducionismo cristológico, quer seja por negar a plena divindade de Jesus ou por negar a plena eficácia da Sua obra expiatória.



2. Reducionismo eclesiástico, por se considerarem a si mesmos os únicos depositários da salvação.



3. Ampliação da revelação, por considerar algum texto, pessoa ou instituição com autoridade inspirada além da Bíblia.



Joseph Smith cresceu num tempo de intenso avivamento religioso, tando experimentado um dia, aos 14 anos, uma experiência espiritual com Deus e Jesus Cristo. Em 1827 afirmou que um anjo lhe tinha mostrado o lugar onde estavam enTerradas as placas de ouro, nas quais estava gravada uma história dos índios americanos, descrevendo-os como descendentes das tribos perdidas de Israel, que teriam navegado para a América do Norte através do Oceano Pacífico. Este “Livro de Mórmon” é a tradução para o inglês das placas de ouro que ele fez com a ajuda de umas pedras especiais (o Urim e o Tumim). Publicado em 1830 o livro chamado “Mórmon”, foi apresentado como a evidência científica da sua chamada divina. Não obstante, a maioria dos eruditos não mórmones julgaram o “Livro Mórmon” como uma coleção de lendas locais de origem índia, de fragmentos autobiográficos e de controvérsias políticas e religiosas contemporâneas, especialmente conectadas com o movimento anti maçom.



Então Smith afirmou que a igreja organizada por ele era a primitiva e antiga igreja restaurada de novo. Logo a animosidade se levantou contra Smith e seus seguidores, obrigando-os a mudarem de lugar constantemente. Uma das razões da repulsa que provocavam vinha da prática da poligamia, à qual o próprio Smith não era alheio, calculando-se que teve cerca de cinquenta esposas. A aldeola de Commerce, no Illinois, onde finalmente se estabeleceram, Smith tornou-a a maior cidade de todas desse Estado, desempenhando ele mesmo o cargo de prefeito. Em fevereiro de 1844, ao anunciar a sua candidatura à presidência dos Estados Unidos, os seus inimigos atacaram-no nos jornais, o que provocou que Smith ordenasse a sua destruição, a que se seguiram ameaças de turbas violentas. Preso e acusado de traição, morreu em consequência do assalto feito à prisão onde estava por um grupo armado.



Sob a liderança de Brigham Young (1801-1877) os mórmones mudaram-se de Illinois para o vale de Salt Lake, onde finalmente se fixaram. Os historiadores mórmones Leonard Arrington e Davis Bitton resumem assim as características desta nova igreja:



Primeira, pretende ser um retorno à primitiva e pura igreja do Novo Testamento.



Segunda, o “Livro de Mórmon” fazia da América a Terra escolhida por cima das demais.



Terceira, as sucessivas revelações ao profeta e líder faziam de tal igreja não uma denominação mas uma nova religião, com a prática do batismo pelos mortos e o ensino de uma progressão perpétua da humanidade inclusivamente além da morte.



Quarta, o fim do mundo era iminente e preparar-se para a Segunda Vinda de Cristo era essencial, já que a Nova Jerusalém estaria na América (Utah) e não em Israel.



Quinta, o mormonismo era a comunidade que marcava a diferença com os gentios do mundo, ao criar um novo reino, um novo Israel que não podia falhar.



O milénio, isto é, a época em que Satanás será preso e Cristo reinará com os Seus na Terra, parecia estar às portas na primeira década do século XIX. Inclusive um homem como Charles G. Finney anunciou em 1835 que o milénio poderia acontecer (chegar) em três anos. Mas, sem dúvida, o mais fervoroso arauto deste acontecimento foi William Miller (1782-1849) que predisse que Cristo retornaria entre este dia, 21 de março de 1843, e o dia, 21 de março de 1844. Apoiando a sua profecia em Daniel 8:13, Miller concluiu que as duas mil e trezentas tardes e manhãs significavam, na realidade, um período de dois mil e trezentos anos. Este período que começou no ano 457 a. C., com a ordem de Artaxerxes de reconstruir Jerusalém significava que matematicamente o ano de 1843 era o assinalado para o estabelecimento da Nova Jerusalém. Miller teve numerosos ouvintes dentre os batistas, metodistas, presbiterianos e congregacionais, atraindo sobre si uma enorme expectação. Mas o cálculo de Miller não se cumpriu e como consequência deu-se “O Dia do Grande Desapontamento”. Muitos voltaram para as suas antigas Igrejas e outros, desencantados, deixaram tudo o que tivesse que ver com religião. Entretanto, um grupo pequeno dirigido por Ellen G. White (1827-1915) retomou a inquietação de Miller chegando à conclusão de que o erro não esteve na data mas no acontecimento que nessa data aconteceu. Tal acontecimento não foi outro senão que Cristo começou a purificação do santuário celestial. Aqui temos um grupo que estando à beira da extinção ressurgiu das suas próprias cinzas, tendo em 1863 mais de cem Igrejas. A senhora White acrescentou além da espera pelo advento (isto é, a Segunda Vinda de Cristo) outro ensino (doutrina) fundamental: o sábado devia ser guardado, já que a ordem da sua guarda, não tinha sido revogada, sendo o domingo uma invenção satânica, que, de facto ,é a marca do Anticristo.



Em 1872, um pequeno grupo de estudo bíblico, dirigido por Charles Taze Russell (1852-1916) deitou as sementes do que logo chegaria a ser conhecido como as Testemunhas de Jeová. Russell guiou o seu grupo numa pormenorizada investigação daquelas passagens referentes à Segunda Vinda de Cristo. Convencido de que um grande conflito cósmico entre Satanás e Jeová terminaria com o retorno visível e físico de Cristo à Terra e convencido de que este acontecimento era imediato, começou a proclamar que “milhões que agora vivem não morrerão jamais.” Por volta de 1879 as Testemunhas tinham a sua própria publicação, a Watch Tower (A Sentinela/A Atalaia), celebrando a sua primeira assembleia nacional em Chicago em 1893 e em 1909 possuíam o seu quartel geral em Nova Iorque. Tendo começado com um punhado de pessoas, as Testemunhas cresceram até serem, cem anos mais tarde, vários milhões.



Também pela época do surgimento das Testemunhas de Jeová apareceu a Ciência Cristã sob a liderança de Mary Baker Eddy (1821-1910). Mary, nascida em New Hampshire, era jovem enfermiça, a quem os médicos não davam alívio. A sua descoberta foi que havia uma “ciência da saúde”, descrita no seu livro “Ciência e Saúde”, que foi editado em 1875. No mesmo a autora explicava que a saúde não se pode alcançar somente pela ciência, mas que é preciso um entendimento religioso específico também. A relação entre a falsa crença e a má saúde era direta. A enfermidade não tem realidade independente por si mesma; trata-se de um erro mental, erro que pode ser corrigido mediante uma compreensão metafísica adequada. A mente controla a matéria, chegando a vencer o pecado, a enfermidade e a morte. Jesus foi o primeiro Cientista, a reconhecer que só Deus é real e todo o resto ilusão ou erro. A Bíblia provê-nos de todas as receitas necessárias para a nossa saúde, desde que seja corretamente entendida. Em 1883, Mary Baker Eddy escreveu uma “Chave para as Escrituras”, a que posteriormente acrescentaria o seu livro “Ciência e Saúde”. Quando a fundadora morreu, a Ciência Cristã já estava firmemente estabelecida, com mais de mil Igrejas espalhadas do Atlântico ao Pacífico.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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