… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

17 de abril de 1582 • Frei Tomé de Jesus, um amante e apaixonado seguidor de Jesus Cristo



17 de abril de 1582 Frei Tomé de Jesus,
um amante e apaixonado seguidor de Jesus Cristo
Frei Tomé de Jesus nasceu em Lisboa, em 1529. De origem nobre, foi educado por Frei Luís de Montoia, no Colégio de “N.ª Sr.ª da Graça”, em Coimbra. Em 1544 professou na Congregação dos Eremitas de Santo Agostinho, no Colégio de “N.ª Sr.ª da Graça”, em Lisboa. Foi sempre um modelo de virtudes, tanto que não tardou a ser nomeado mestre de noviços. Muito dado à oração e à leitura espiritual, gastava nesses piedosos exercícios a maior parte de seus dias e de suas noites. Sendo criticado por outro religioso, a sua vingança foi sair a pedir esmolas para socorrer os parentes pobres deste. E como lhe perguntassem como podia fazer tanto bem a quem o magoava, respondeu que “não se há de reparar em merecimentos para fazer bem, pois Nosso Senhor nos faz inúmeras mercês sem que as mereçamos”.



Gostava de fazer e manter amizade com pessoas espirituais, pelo que esteve em contacto até mesmo com um famoso mestre da espiritualidade de então, o Padre Luis de Granada. Visitava com muita frequência os enfermos, preparando-lhes mesmo até alguns xaropes e remédios com grande proveito deles, pelo que se conta que até alguns médicos vinham pedir-lhe sugestões para o seu ofício. Tornou-se, aos poucos, bastante conhecido em Portugal, como homem de Deus. Por isso, quando o Rei Dom Sebastião resolveu partir para a África a combater os muçulmanos, isso no ano de 1578, mandou chamar Frei Tomé para acompanhar o exército como um dos capelães. Todavia, como disse Gustavo Corção, “o mistério das permissões divinas nos traz vertigens”... A batalha Alcácer Quibir foi uma das mais desastrosas da história portuguesa, el-rei Dom Sebastião foi morto, e sem deixar herdeiros, pelo que pouco tempo depois Portugal perderia a sua soberania e acabaria anexado e subordinado a Espanha.


No meio do confronto bélico com os infiéis, Frei Tomé permanecia segurando alto um crucifixo nas mãos, exortando os soldados a lutarem e a morrerem bravamente pelo bem da cristandade, quando, de repente, uma lança o atingiu no ombro, derrubando-o ferido e a sangrar, após o que outro muçulmano o prendeu e por fim o levou para uma certa cidade africana. Ali, Frei Tomé foi vendido como escravo a um marabuto, isto é, uma espécie de líder religioso muçulmano, que o comprou precisamente para o fazer apostatar da fé cristã.

Primeiro, o marabuto tratou-o muito bem, para o seduzir dessa forma. Mas vendo que por aí nada conseguia, passou então a maltratar duramente o pobre Frei, chegando a prendê-lo com correntes e algemas e a trancá-lo despido numa áspera cela, onde de ordinário lhe dava mais açoites do que alimento. Tudo isso por o Frei se negar a abandonar a santa fé cristã. Entretanto, de alguma maneira, Frei Tomé conseguiu papel e pena e pôs-se a passar o tempo escrevendo meditações sobre os sofrimentos de Cristo. Precisava escrever em segredo, escondendo bem os manuscritos, de modo a não ser descoberto pelo marabuto. A cela era muito escura, só entrando nela um pequeno raio do sol – a única luz de que o Frei dispunha para escrever.



O resultado foi o livro “Trabalhos de Jesus”. São meditações sobre os sofrimentos padecidos por Nosso Senhor desde o começo da Sua vida terrena até à consumação da Sua Paixão. Um total de 52 meditações, divididas cada uma em duas partes: na primeira dirige-se à inteligência, propondo reflexões; na segunda, à vontade, propondo santos afetos, preces e propósitos.



Das suas obras, “Trabalhos de Jesus”, dividida em duas partes (a primeira editada em 1601 e a segunda em 1609) e escrita enquanto estava preso, é, sem dúvida, a mais importante. Escritos às escondidas, sem livros de consulta, embora acusem leituras anteriores da escola de místicos flamengos e alemães dos séculos XIV e XV, os “Trabalhos de Jesus” são constituídos pela reconstituição imaginária de 50 dos padecimentos (ou trabalhos) de Cristo, e ainda de outros passos da Sua vida, seguidos de exercícios ou preces de resignação e humilhação. Com o objetivo de consolar os companheiros de cativeiro, elabora uma mística da dor, exaltando, em longas enumerações, os sofrimentos padecidos por Cristo.



Frei Tomé só pôde enviar o livro para a impres-são depois que um embaixador de Portugal conse-guiu negociar com o governante muçulmano daquele lugar, o qual aceitou tirar o Frei das mãos do marabuto e encaminhá-lo para uma escravidão mais branda. Assim, é que Frei Tomé acabou indo parar a Sagena, onde já estavam cerca de dois mil cristãos escravizados, entre os quais o Frei realizou um fervoroso apostolado, fazendo do cárcere uma capela. Apesar de prisioneiro, não deixava de discutir com os muçulmanos, a fim de refutar-lhes os erros de sua falsa religião – expondo-se, assim, até ao risco de ser morto por eles. As crónicas relatam que também com judeus ele disputava doutrinariamente, chegando a escrever um tratado apologético contra o judaísmo. Os amigos de Frei Tomé estiveram a ponto de conseguir de Filipe II, então senhor de toda a Península Ibérica, que pagasse o resgate do Frei. Mas Frei Tomé não consentiu em ser libertado, querendo ficar até ao fim junto dos demais cristãos prisioneiros. Ao todo foram quatro anos de cativeiro, desde a fatídica batalha de Álcacer-Quibir, até à sua santa morte, ocorrido neste dia, 17 de abril de 1582, com 53 anos de idade. A notícia da sua morte demoraria seis meses para chegar a Portugal.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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