… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 30 de abril de 2017

21 de abril de 1715 • Estreia a Cantata BWV 31 “Der Himmel lacht! Die Erde jubilieret” (Riam os Céus, alegre se a Terra)



21 de abril de 1715 Estreia a Cantata BWV 31 “Der Himmel lacht! Die Erde jubilieret” (Riam os Céus, alegre-se a Terra)
Igreja de São Pedro e São Paulo, em Weimar, provavelmente o lugar de sua estreia.

 “Der Himmel lacht! Die Erde jubilieret” (Riam os Céus, alegre-se a Terra), BWV 31, é uma cantata escrita por Johann Sebastian Bach em Weimar para o primeiro dia de Páscoa e foi estreada neste dia, 21 de abril de 1715.



Desde 1708 que Bach trabalhou para a corte em Weimar. Em 2 de março de 1714 Bach foi nomeado Konzertmeister da capela da corte de Weimar dos duques Co-reinantes Guilherme Ernesto e Ernesto Augusto da Saxónia-Veimar. Neste posto assumiu a responsabilidade principal de compor novas obras, concretamente cantatas para a Schlosskirche (igreja do palácio), com uma periodicidade mensal.



Bach compôs esta obra durante a sua estadia em Weimar para o domingo de Páscoa em 1715. A cantata foi interpretada pela primeira vez em 21 de abril de 1715. Tendo em conta a rica orquestração de três grupos instrumentais e um coro a cinco vozes, John Eliot Gardiner é da opinião de que a cantata não foi interpretada na pequena Schloßkirche da corte, mas na igreja de São Pedro e São Paulo de cidade, onde a família ducal evidentemente assistia, às vezes, aos cultos divinos. Bach interpretou esta cantata posteriormente em diversas ocasiões em Leipzig numa forma ligeiramente modificada. Existem evidências de interpretações realizadas nos anos de 1724 e 1731; também é provável que tivesse sido feita uma inter-pretação posterior em 1735. Como a afinação do órgão de Weimar, que servia como referência para os instrumentos de corda, estava provavelmente uma terceira acima do tom da afinação padrão em Leipzig, Bach viu-se obrigado a abandonar as vozes dos instrumentos de metal ou a reescreve-los para as atuações em Leipzig, ou a substituir as partes dos diferentes instrumentos.



As leituras bíblicas estabelecidas para esse dia eram da I Epístola aos Coríntios, “Cristo é o nosso cordeiro pascal” (1 Coríntios 5:6-8), e do Evangelho segundo São Marcos, a ressurreição de Jesus (Marcos 16:1-8).



O texto foi escrito pelo poeta de Weimar Salomon Franck o qual o publicou no Evangelisches Andachts-Opffer (Oferenda Evangélica de Orações). Os versos são poesia livre e interpretam a mensagem da Páscoa, conectado à petição aos crentes para que deixem que Jesus também ressuscite em suas almas. O movimento final é o último verso do coral “Wenn mein Stündlein vorhanden ist” (Quando chegar minha hora) de Nikolaus Herman, que expressa o desejo de morrer, para seguir a Jesus na ressurreição.

A obra está escrita para três solistas vocais (so-prano, tenor e baixo) e um coro a cinco vozes; três trombetas, 3 timbales, dois oboés, taille (ou taille d'hautbois, isto é um oboé tenor barroco), fagote, dois violinos, 2 violas, 2 violoncelos e baixo contí-nuo.



Consta de nove movimentos.

1. Sonata

2. Coro: Der Himmel lacht! Die Erde jubilieret

3. Recitativo (baixo): Erwünschter Tag!

4. Ária (baixo): Fürst dê Lebens, starker Streiter

5. Recitativo (tenor): Sou stehe dann, du gotter-gebne Seele

6. Ária (tenor): Adam muss in uns verwesen

7. Recitativo (soprano) : Weil dann dá Haupt sein Glied

8. Ária (soprano) e coral: Letzte Stunde, brich herein

9. Coral: Sou fahr ich hin zu Jesu Cristo



O caráter festivo da obra fica demonstrado na sonata com uma introdução de tipo fanfarra, um concerto de três grupos metais, madeiras e cordas, todos eles divididos em várias partes. O primeiro movimento coral, cantado por um coro a cinco vozes, evoca a “celestial risada e o mundano júbilo” do texto, segundo John Eliot Gardiner, que continua: «os ritmos dançáveis e a fino brilhantismo das trompetistas anunciam a Glória da Missa em si menor, inclusive o abrandamento do tempo e o silenciamento dos metais quando a letra fala da libertação de Cristo do sepulcro».



A voz do baixo anuncia a ressurreição de Jesus num recitativo e continua com uma ária, ambos acompanhados somente pelo contínuo. A ária, marcada como Molto adágio, louva a Jesus como “Príncipe da vida” e “forte lutador”.



A aguda voz do tenor no recitativo suplica à alma que olhe à “nova vida em espírito”, seguido de um ária brilhante, acompanhada pela corda, que fala de “der neue Mensch” (o novo homem), livre de pecado.



A voz mais aguda da soprano canta na primeira pessoa como a alma num recitativo, convencida de tomar parte na ressurreição. Na última ária, soprano e oboé solista em efeito de eco contrastam com a corda em uníssono em notas graves, que já antecipam a melodia do coral do fim. O hino é um “coral de leito mortuário”, escrito para um coro a quatro vozes coroado pela elevação da trombeta e pelo primeiro violino.



Agora só falta arranjar 21/22 minutos para nos deliciarmos a escutá-la! Porque esperamos…

Alemão
Uma primeira proposta de tradução livre
Uma segunda proposta de tradução livre
1. Sonate
1. Sonata
1. Sonata
2. Coro

Der Himmel lacht! Die Erde jubilieret
Und was sie trägt in ihrem Schoß;
Der Schöpfer lebt! Der Höchste triumphieret
Und ist von Todesbanden los.
Der sich das Grab zur Ruh erlesen,
Der Heiligste kann nicht verwesen.
2. Coro

Riam os Céus, alegre se a Terra
E tudo o que em seu seio encerra;
O Criador vive, o Altíssimo triunfa,
Livre das ataduras da morte.
Ele que tinha escolhido a tumba como descanso,
O Santo, não podia corromper-se.
2. Coro

O céu ri! A terra exulta e com ela,
Tudo o que leva no seu seio.
O Criador vive! O Altíssimo trunfa
E está liberado dos laços da morte.
Ele, que escolheu a tumba como última morada,
O Altíssimo, que não pode sofrer corrupção.
3. Recitativo (baixo)

Erwünschter tag! Sei, seele, wieder froh!
Das a und o,
Der erst und auch der letzte,
Den unsre schwere schuld in todeskerker setzte,
Ist nun gerissen aus der not!
Der herr war tot,
Und sieh, er lebet wieder;
Lebt unser haupt, so leben auch die glieder.
Der herr hat in der hand
Des todes und der hölle schlüssel!
Der sein gewand
Blutrot bespritzt in seinem bittern leiden,
Will heute sich mit schmuck und ehren kleiden.
3. Recitativo (baixo)

O alfa e a ómega,
O primeiro e o último,
Ao que a nossa culpa pôs no cárcere da morte,
Foi arrancado da angústia.
O senhor estava morto,
E vejam, vive de novo;
Se a nossa cabeça viver, também os membros vivem.
O senhor tem em suas mãos
As chaves da morte e do inferno.
Aquele que seu vestido
Salpicou com sangre em sua amarga paixão
Hoje veste-se de esplendor e glória.
3. Recitativo (baixo)

Dia desejado! Alma, mantém-te outra vez alegre!
Alfa e ómega, o primeiro e também o último,
Ao que as nossas graves culpas
Encerrou na prisão da morte,
É agora arrancado da miséria!
O senhor estava morto, e vejam:
Ele vive de novo.
Se viver a cabeça, vivem também os membros.
O senhor tem na mão
A chave da morte e do inferno!
Ele, cujo manto salpicou o vermelho sangue
Em sua amarga paixão,
Quer hoje revestir-se com jóias e honras.
4. Arie (baß)

Fürst des lebens, starker streiter,
Hochgelobter gottessohn!
Hebet dich des kreuzes leiter
Auf den höchsten ehrenthron?
Wird, was dich zuvor gebunden,
Nun dein schmuck und edelstein?
Müssen deine purpurwunden
Deiner klarheit strahlen sein?
4. Ária (baixo)

Príncipe da vida, poderoso combatente,
Altíssimo filho de Deus!
Elevou-te a escada da cruz
Até ao mais alto trono da glória?
O que antes te atava
Será agora o teu precioso ornamento?
Serão as tuas purpúreas feridas
Os brilhos do teu esplendor?
4. Ária (baixo)

Príncipe da vida, forte guerreiro,
Prometido filho de Deus!
Eleva-te a escada da cruz
Até ao mais alto trono?
É que o que antes te tinha preso,
Agora é a tua jóia, a tua pedra preciosa?
São as tuas feridas de púrpura
Raios da tua claridade?
5. Rezitativ (tenor)

So stehe dann, du gottergebne seele,
Mit christo geistlich auf!
Tritt an den neuen lebenslauf!
Auf! Von des todes werken!
Laß, daß dein heiland in der welt,
An deinem leben merken!
Der weinstock, der jetzt blüht,
Trägt keine tote reben!
Der lebensbaum läßt seine zweige leben!
Ein christe flieht
Ganz eilend von dem grabe!
Er läßt den stein,
Er läßt das tuch der sünden
Dahinten
Und will mit christo lebend sein.
5. Recitativo (tenor)

Alma entregue a deus,
Levanta-te com Cristo espiritualmente!
Começa uma nova vida!
Levanta-te das obras da morte!
Que o mundo veja o seu salvador
No testemunho da sua vida.
A videira que hoje floresce
Não tem sarmentos mortos.
A árvore da vida faz viver seus ramos!
Um cristão foge
Prontamente da sepultura.
Deixa a pedra sepulcral,
Deixa o sudário do pecado
Para trás,
E vive com Cristo.
5. Recitativo (tenor)

Levanta-te pois, alma devota de Deus,
Com Cristo em espírito!
Passa a uma nova forma de vida!
Ah! Abandona as obras da morte!
Deixa que o salvador do mundo
Ilumine a tua vida!
A vinha, que floresce agora,
Não dá mais que cachos mortos!
A árvore da vida deixa viver os seus ramos!
Todo cristão foge
A toda pressa da sepultura!
Ele deixa a pedra,
Deixa o sudário dos pecados
Atrás de si
E só deseja estar vivo em Cristo.
6. Arie (tenor)
 
Adam muß in uns verwesen,
Soll der neue mensch genesen,
Der nach gott geschahen ist.
Du mußt geistlich auferstehen
Und aus sündengräbern gehen,
Wenn du christi gliedmaß bist.

6. Ária (tenor)

Adão deve desaparecer em nós,
Para que nasça o homem novo,
Que foi feito para Deus.
Deve ressuscitar espiritualmente
E deixar a tumba do pecado,
Se é um membro de Cristo.
6. Ária (tenor)

Adão deve morrer em nós
E deve renascer o homem novo
Que foi criado à imagem de Deus.
Tu, deves ressuscitar espiritualmente
E abandonar a tumba do pecado,
Se é um membro de Cristo.
7. Rezitativ (sopran)

Weil dann das haupt sein glied
Natürlich nach sich zieht,
So kann mich nichts von jesu scheiden.
Muß ich mit christo leiden,
So werd ich auch nach dieser zeit
Mit christo wieder auferstehen
Zur ehr und herrlichkeit
Und gott in meinem fleische sehen.
7. Recitativo (soprano)

Pois a cabeça atrai naturalmente
Os membros para ela,
Nada pode me separar de jesus.
Se devo padecer com Cristo,
Também com Cristo
Ressuscitarei de novo
Em esplendor e glória,
E em minha carne verei a deus.
7. Recitativo (soprano)

Assim como a cabeça aos seus membros,
Por natureza, arrasta para si,
Já nada pode me separar de jesus.
Se eu devo sofrer com Cristo,
Assim me acontecerá, ao seu devido tempo,
Que com Cristo de novo ressuscitarei
Na honra e esplendor
E verei Deus na minha carne.
8. Arie (Sopran) und Choral
 
Letzte Stunde, brich herein,
Mir die Augen zuzudrücken!
Laß mich Jesu Freudenschein
Und sein helles Licht erblicken.
Laß mich Engeln ähnlich sein!
Letzte Stunde, brich herein!
8. Ária (Soprano) e Coral

Vêem, última hora,
E fecha-me os olhos!
Que eu veja o resplendor de alegria
De Jesus e a Sua clara luz,
Faça-me como os anjos!
Vem, última hora!
8. Ária (Soprano) e Coral

Última hora, vem já
E fecha-me os olhos!
Deixa-me ver a alegria radiante de Jesus
E a Sua brilhante luz.
Deixa-me ser semelhante aos anjos!
Última hora, vem já!
9. Choral

So fahr ich hin zu Jesu Christ,
Mein' Arm tu ich ausstrecken;
So schlaf ich ein und ruhe fein,
Kein Mensch kann mich aufwecken,
Denn Jesus Christus, Gottes Sohn,
Der wird die Himmelstür auftun,
Mich führn zum ewgen Leben.

9. Coral (Coro)

Para Jesus Cristo vou
Com os braços abertos;
Dormirei e descansarei,
Ninguém poderá despertar-me,
Pois Jesus Cristo, o Filho de Deus,
Abrir-me-á as portas do Céu
Para a nova e eterna vida.
9. Coral (Coro)

Vou para o Jesus Cristo
E meus braços para Ele dirijo.
Durmo um sonho aprazível
Que nenhum homem pode me turvar,
Pois Jesus Cristo, o Filho de Deus,
Pois Jesus Cristo, o Filho de Deus,
Abrir-me-á as portas do Céu
E me conduzirá à vida eterna.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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