… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 22 de abril de 2017

22 de abril de 254 • Orígenes entre os seis maiores teólogos do Cristianismo



22 de abril de 254 Orígenes 

entre os seis maiores teólogos do Cristianismo

“Orígenes, o maior erudito da Igreja antiga”, segundo J. Quasten. “O grande mestre da Igreja depois dos Apóstolos.” Foi assim como Jerónimo, tradutor da Bíblia latina (a Vulgata), se referiu a Orígenes, um teólogo do século terceiro.



Orígenes nasceu por volta de 185, em Alexandria, no Egito, numa família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. Obteve amplo conhecimento da literatura grega, mas seu pai, Leonides, obrigou-o a dedicar-se igualmente ao estudo das Escrituras. Quando Orígenes tinha 17 anos, cerca de 202, o pai de Orígenes foi preso porque se havia tornado Cristão. Jovem e cheio de zelo, Orígenes estava determinado a juntar-se ao pai na prisão e no martírio. Ao perceber isso, a mãe dele escondeu as suas roupas para impedir que ele se fosse embora de casa. Por carta, ele implorou a seu pai: “Cuidado! Não mudes de ideias por nossa causa.” Orígenes encorajou-o a não negar a Cristo. Leonides, seu pai, continuou firme e foi executado, deixando a família na pobreza. Mas Orígenes já estava bem adiantado nos estudos, o suficiente para poder sustentar a mãe e seis irmãos mais novos dando aulas de literatura grega.



O objetivo do imperador romano era impedir o avanço do Cristianismo. Assim publicado um decreto nesse sentido e visto que o decreto não afetava apenas os alunos cristãos, mas também os professores crentes, então todos os mestres cristãos fugiram de Alexandria. Quando alguns não-cristãos apelaram para o jovem Orígenes em busca de orientação bíblica, ele assumiu essa obra como uma comissão divina. Muitos de seus alunos foram martirizados, alguns mesmo antes de completar os estudos. Correndo grande risco, Orígenes incentivava abertamente os seus alunos a permanecer firmes na fé em Cristo, quer estivessem diante de um juiz quer na prisão, ou prestes a ser executados. Eusébio, historiador do quarto século, relata que quando eles estavam sendo conduzidos à execução, Orígenes “os cumprimentava corajosamente com um beijo”.



Muitos que não eram cristãos ficaram irados com Orígenes por considerá-lo responsável pela conversão e morte dos seus amigos. Por diversas vezes ele escapou por um triz de turbas e de uma morte violenta. Embora fosse obrigado a mudar-se constantemente para escapar dos seus perseguidores, ele não diminuiu suas as atividades de ensino das doutrinas cristãs. A sua coragem e dedicação impressionaram Demétrio, bispo de Alexandria. Por isso, em 203, Demétrio nomeou Orígenes, de apenas 18 anos de idade, diretor da escola catequética de Alexandria, fundada por um estóico chamado Panteno, que se havia convertido à mensagem de Jesus, atraindo muitos jovens estudantes pelo seu carisma, conhecimento e virtudes pessoais.



Depois de ter também frequentado, desde 205, a escola de Amónio Sacas, fundador do neo-platonismo e mestre de Plotino, apercebeu-se da necessidade do conhecimento apurado dos grandes filósofos.



No decurso de uma viagem à Grécia, no ano de 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de Jerusalém e Teoctisto de Cesareia.



Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo facto de se ter castrado e convocou o Concílio de Alexandria (231) com esta finalidade. Também, contribui para esse facto o de Orígenes ter levado ao extremo a apropriação da filosofia platónica, tendo sido considerado herético.



Orígenes, então, passou a morar num lugar onde Jesus havia muitas vezes estado: Cesareia, na Palestina, onde prosseguiu as suas actividades com grande sucesso, abrindo a chamada Escola de Cesareia. Na sequência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio, Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte perto dos 70 anos, por volta de 253 ou 254.



Os seus ensinos foram condenados ainda pelo Concílio de Alexandria de 400 e pelo Segundo Concílio de Constantinopla, em 533, o que demonstra terem perdurado até ao século VI.



Com o tempo, Orígenes tornara-se um erudito notável e um escritor prolífero. Orígenes escreveu, diz-nos São Jerónimo em “De Viris Illustribus” nada menos que 600 obras, entre as quais as mais conhecidas são: “De Princippis”, “Contra Celso”, e a “Héxapla”. Entre os seus numerosos comentários bíblicos devem ser realçados: “Comentário ao Evangelho de Mateus” e “Comentário ao Evangelho de João”. O número das suas homílias que chegaram até aos dias de hoje ultrapassam largamente a centena.



Orígenes deixou uma obra gigantesca, sendo que o catálogo compilado por Eusébio dá conta de 2.000 escritos, enquanto Epifânio diz que Orígenes escreveu umas impressionantes 6 000 obras. O historiador Paul Johnson diz que “parece que trabalhava o dia inteiro e a maior parte da noite e era um escritor compulsivo. Até o intrépido Jerónimo, mais tarde, reclamaria: ‘alguém já leu tudo que foi escrito por Orígenes?’. Os seus comentários às Escrituras eram tão vastos que nenhum foi transmitido na íntegra. Alguns foram perdidos, outros sobrevivem como paráfrases drásticas”. Eusébio justifica essa alta produtividade com o fato de que “sete estenógrafos que se revezavam em intervalos definidos, e outros tantos escreventes de livros e mulheres calígrafas” (“Histórica Eclesiástica”, VI, 23, 2), provavelmente patrocinados por Ambrósio. De qualquer maneira, 800 desses escritos chegaram até nossos dias. Poucos, entretanto, trazem os textos originais, já que a maioria foi expurgada pelas controvérsias origenistas posteriores, e outra parte sobreviveu apenas por meio de traduções sofríveis. Dentre essas obras, alguma se destacam.



A “Hexapla” é a primeira tentativa cristã de estabelecer o cânon da Escritura de uma maneira minimamente científica (dentro do que se podia considerar ciência à época). A “Hexapla” é uma gigantesca versão de 50 volumes das Escrituras Hebraicas. A maior parte dela foi perdida, e consistia numa exposição paralela, em seis colunas, do texto hebraico do Antigo Testamento, da sua transliteração em letras gregas, e as quatro versões gregas que circulavam naquela época: a de Áquila, a de Símaco, a Septuaginta e a tradução de Teódoto. Ele dispôs a “Hexapla” em seis colunas paralelas, contendo: (1) o texto hebraico e aramaico, (2) uma transliteração desse texto para o grego, (3) a versão grega de Áquila, (4) a versão grega de Símaco, (5) a Septuaginta grega, que ele revisou para corresponder mais exatamente ao texto hebraico, e (6) a versão grega de Teodocião. Em alguns trechos, como em alguns Salmos, diante de outras versões, Orígenes expandia a “Hexapla” para nove colunas. “Hexapla” tomou a maior parte da vida de Orígenes, que sempre acrescentava, corrigia ou revia algumas posições.



“Scholia” é a obra em que Orígenes expõe alguns comentários breves sobre determinados textos em que a interpretação parecia difícil ou interessante. Apenas um ou outro fragmento dessa obra chegou até nós. Em suas Homilias, escritas depois do rompimento com Demétrio, encontra-se a natureza da pregação de Orígenes, que se revela mais como uma exortação moral, sem fazer profundas exegeses do texto bíblico. Boa parte das Homilias se perdeu, lamentavelmente, mas restaram muitos dos seus Comentários (Evangelho de São Mateus, de São João, sobre a Epístola aos Romanos, sobre o Cântico dos Cânticos, etc.), que são as principais fontes pelas quais é possível conhecer o método exegético de Orígenes, que, por sua vez, é uma chave importante para a compreensão do restante de sua teologia.



No campo apologético, Orígenes escreveu “Contra Celsum”. Celso era um filósofo pagão, que havia escrito uma obra anti-cristã chamada “O Verdadeiro Verbo”, que tinha alcançado significativa repercussão, sobretudo por ter sido bem escrito e fundamentado. Foi Ambrósio que pediu a Orígenes que refutasse Celso. A princípio, ele não teve muito interesse, mas finalmente decidiu aceitar os apelos insistentes de Ambrósio e refutou um por um os argumentos de Celso, fazendo dessa obra um testemunho interessante de como foi travado o combate entre cristãos e pagãos no começo da Igreja.



Por fim, a sua obra mais importante é “De principiis” (“Sobre os primeiros princípios”), em que Orígenes faz uma exposição sistemática de sua teologia, cuja maior parte sobreviveu por meio de uma tradução para o latim feita por Rufino, que, como era relativamente comum àquela época, tomou a infeliz liberdade de “corrigir” algumas opiniões de Orígenes. Quanto a essas traduções, há uma certa controvérsia: alguns dizem que Rufino alterou o pensamento de Orígenes para esconder suas ideias, que ele considerava por demais audaciosas para a ocasião, enquanto outros dizem que Rufino fez isso para favorecer o movimento origenista a partir do séc. IV, que distorceu e usou a seu bel prazer as profundas especulações teológicas de Orígenes.



Apesar de se ter castrado em obediência a uma interpretação literal da Bíblia, o fato é que Orígenes estava muito longe de ser literalista em sua interpretação do texto sagrado, sendo que ele acreditava firmemente na inspiração literal de cada palavra da Escritura. Para ele, não havia nela nenhuma palavra ou letra gratuita, que não contivesse em si um mistério. Essa é a principal razão que levou Orígenes a dedicar tanto tempo à “Hexapla”, ou seja, a restaurar o texto bíblico original.



Hans Kung coloca Orígenes entre os seis maiores teólogos do Cristianismo (juntamente com Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino, Martinho Lutero, Friedrich Schleiermacher e Karl Barth) no livro “Os grandes pensadores do Cristianismo”. E cita Hans Urs von Balthasar, que afirma: “Se se retirar a Eusébio [o historiador, de Cesareia], o brilho de Orígenes, ficaremos apenas com um teólogo mediano e um historiador aplicado. Jerónimo limita-se a transcrevê-lo nos seus comentários da Escritura, mesmo depois de, com uma aparente dureza e revolta, ter rompido a ligação com o seu mestre. Basílio e Gregório de Nazianzo recolhem com uma admiração entusiástica as passagens mais sedutoras da obra imensa daquele a quem eles próprios recorriam sempre que a luta quotidiana lhes permitia um momento de descanso. Gregório de Nissa deixou-se seduzir por ele mais profundamente ainda. Os escritores capadócios transmitem-no quase integralmente. A maior parte dos textos do Breviário, compostos por Ambrósio (assim como os de Jerónimo e de Beda), que o conheceu directamente e que o transcreve, não passam de citações praticamente literais de textos de Orígenes” (H.U.v. Balthasar, Origenes, Geist und Feuer. Ein Aufbau aus seinen Schriften. Salzburg, 1938, p. 11, citado na pág. 46 de Os grandes pensadores do cristanismo, de Hans Kung, Ed. Presença).



Foi conhecido, na sua época, pelo apelido de Adamâncio (“o homem de aço”), o que, a título de curiosidade ou infeliz coincidência, nos remete ao “adamantium”, liga metálica fictícia que impregna as garras do popular Wolverine, da não menos popular série X-Men dos nossos dias. Coincidência ou não, o fato é que Orígenes desempenhou, à sua maneira, o papel de uma espécie de super-herói da sua época, tais foram, por um lado a sua produção literária abundante, e, por outro, inúmeras viagens e algumas atitudes radicais.



Apesar de ter cometido erros graves, a contribuição de Orígenes foi inestimável para a Igreja. Um dos seus alunos, o Padre da Igreja Gregório de Nazianzo, bem o sintetizou como "a pedra que aguça a todos nós." Como não há datas definidas que estejam associadas com a vida de Orígenes, escolhi o dia de hoje, 22 de abril, para lembrar e reconhecer a sua importantíssima contribuição para a Igreja.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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