… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

28 de abril de 1564 • Tendo os ministros de Genebra à sua volta, Calvino despede-se deles



28 de abril de 1564 Tendo os ministros de Genebra à sua volta, 
 Calvino despede-se deles
A saúde de Calvino começou a vacilar nos seus últimos anos de vida. Sofrendo de enxaquecas, hemorragia pulmonar, gota e pedras nos rins foi, por vezes, levado carregado para o púlpito. Calvino continuava a ter detratores declarados que lhe dirigiam ameaças constantes.



Entretanto, apreciava passar os seus tempos livres no lago de Genebra, lendo as Escrituras e bebendo vinho tinto. No fim de sua vida disse a seus amigos que estavam preocupados com o seu regime diário de trabalho: “Qual quê? Querem que o Senhor me encontre ocioso quando Ele chegar?



Em 6 de fevereiro de 1564, Calvino, muito enfermo, foi transportado para a igreja numa cadeira, pregando então com dificuldade o seu último sermão. No dia de Páscoa, 2 de abril, foi levado pela última vez à igreja. Participou da ceia e, com a voz trémula, cantou juntamente com a congregação.



Neste dia, 28 de abril de 1564, Calvino quase um mês antes de morrer, convocou os ministros de Genebra para virem a sua casa e tendo-os todos à sua volta, despede-se deles. A certa altura ele afirma: “A respeito da minha doutrina, ensinei fielmente e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso do modo mais fiel possível e nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as distorci. Quando fui tentado a requintes, resisti à tentação e sempre estudei a simplicidade. Nunca escrevi nada com ódio de alguém, mas sempre coloquei fielmente diante de mim o que julguei ser a glória de Deus. [...] Esquecia-me de um ponto: peço-lhes que não façam mudanças, nem inovem. As pessoas muitas vezes pedem novidade. Não que eu queira por minha própria causa, por ambição, a permanência do que estabeleci, e que o povo o conserve sem desejar algo melhor; mas porque as mundanas são perigosas, e às vezes nocivas... ” João Calvino, Calvin: Textes Choisis par Charles Gagnebin, p. 42-43.



João Calvino morreu em Genebra a 27 de maio de 1564. Foi enterrado numa sepultura simples e não marcada, conforme o seu próprio pedido no Cimetière des Rois, na cidade de Genebra, na Suíça.



Calvino, cujo nome francês era Jean Cauvin ou Calvin, nasceu em Noyon, localidade da Picardia, no norte da França, em 10 de julho de 1509. Filho do secretário do bispo da sua cidade natal, cursou estudos de humanidades em famosos colégios parisienses e mais tarde leis nas universidades de Orleães e Bruxelas, onde teve como professores importantes pensadores da época. Em 1532, Calvino evidenciou os seus sólidos conhecimentos de latim e história com a publicação do seu tratado sobre Séneca “De clementia” (Sobre a clemência).



Pouco depois de publicar esta obra, Calvino converteu-se ao protestantismo, mas quando o grupo de teólogos reformadores a que pertencia foi ilegalizado na França, abandonou Paris. No início de 1535 instalou-se em Basileia, na Suíça, e aí apareceu ao ano seguinte “A Instituição da Religião Cristã”, em latim “Christianae religionis instituto”, ou simplesmente “As Institutas”, a obra principal da teologia de João Calvino. Tratava-se de um brilhante resumo das doutrinas protestantes, onde, entre outras coisas, postulava a predestinação dos escolhidos, rechaçava os sacramentos tal como os entendia o catolicismo e esboçava um novo esquema de organização para a nova forma do cristianismo. Com esta obra, traduzida para o francês em 1541, Calvino tornou-se num dos principais teólogos protestantes.



Ainda em 1536, depois de uma breve viagem à Itália ao passar por Genebra foi convidado a permanecer nela. A cidade tinha adotado recentemente o protestantismo, mas carecia de uma doutrina e uma organização. Calvino permaneceu ali dois anos, mas elaborou um código litúrgico e moral tão severo que foi expulso pelo conselho genebrino.



De 1538 até 1541 residiu em Estrasburgo, onde criou uma nova liturgia e estabeleceu novas instituições paroquiais, ao tempo em que a convite de Martinho Bucer, o protector de Calvino em Estrasburgo, dirigia pessoalmente uma congregação de reformados franceses refugiados naquela cidade. Um refugiado que visitou a igreja de Calvino fez a seguinte descrição do culto: “Todos cantam, homens e mulheres; e é um belo espetáculo. Cada um tem um livro de cânticos nas mãos... Olhando para esse pequeno grupo de exilados, chorei, não de  tristeza, mas de alegria, por ouvi-los todos cantando tão sinceramente, enquanto agradeciam a Deus por tê-los levado a um lugar onde seu nome é glorificado.” Lá Calvino se casou com Idelette de Bure e entabulou amizade com Martinho Bucer, que influenciou profundamente a sua teologia, principalmente acerca da doutrina do Espírito Santo e da disciplina eclesiástica. Nesses anos participou de vários concílios entre católicos e protestantes e conheceu importantes teólogos luteranos como Melâncton e Martinho Lutero.



Enquanto isso, Genebra debatia-se entre o caos intestino e a ameaça católica externa, e voltou a chamar Calvino. Este, depois do seu regresso, aplicou as suas ideias religiosas de grande austeridade, e por meio dos Regulamentos (ou Ordenanças) eclesiásticos organizou a igreja de Genebra, que seria a base de todas as igrejas do protestantismo reformado.



Durante os anos seguintes, depois de anular a todos seus opositores, Calvino tornou-se o pastor mais importante de Genebra, tanto no aspecto religioso como no económico e político.



A partir de 1550 dedicou-se sobretudo a apoiar outros grupos protestantes afins à sua tese e a proporcionar coerência à sua doutrina. Em 1559 apareceu a versão latina definitiva das “Instituições”, e um ano depois, veria a luz a versão francesa, obra que o guinda como um dos grandes teólogos do Cristianismo. Sob o seu influxo, e o da Academia que fundou em Genebra, esta cidade converteu-se no centro principal do protestantismo europeu.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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