… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 4 de abril de 2017

4 de abril de 1507 • A ordenação sacerdotal de Martinho Lutero



4 de abril de 1507 A ordenação sacerdotal de Martinho Lutero
A venda de indulgências, pintura de Augsburg, cerca de 1530.
Nascido em Eisleben, na Turíngia, a 10 de novembro de 1483, Martinho Lutero, o iniciador da Reforma na Alemanha, era filho de Hans e Margaretha Lutero, camponeses católicos alemães e foi criado num lar onde imperava a religião profunda e a pobreza. O menino Martinho aprendeu, como todas as crianças da sua época e como então era normal, a orar aos santos, a realizar boas obras e a reverenciar o papa e a igreja.



Cedo, aos 5 anos, Lutero começou a estudar latim numa escola local. Já aos 12 anos era aluno de uma escola de uma irmandade religiosa em Magdeburgo. Em 1505 recebeu o grau de Mestre em Artes da Universidade de Erfurt, e em 1505 começou a estudar Direito na mesma Universidade. Porém, em 2 de julho de 1505 quando regressava para casa de férias, rebentou inesperadamente sobre ele uma forte tempestade estival, com vento forte, muita chuva e grande trovoada, que por pouco não foi morto por um raio. No meio desta trágica experiência fez um voto a Santa Ana prometendo-lhe que, se sobrevivesse àquela tempestade, entraria no convento e seria monge. E, abandonou o estudo de direito, e cumpriu a promessa, entrando no convento da Ordem dos Agostinhos, em Erfurt, no dia 17 de julho de 1505. Aí como devoto frade realizava as tarefas e os ofícios rigorosamente, confessava-se frequentemente e cumpria, muito compenetrado e escrupulosamente, as penitências que lhe impunham, muito preocupado com a salvação da sua alma!



A sua ordenação sacerdotal foi neste dia, 4 de abril de 1507. Em seguida, deixou o Mosteiro para ensinar filosofia moral na Universidade de Wittenberg. Durante anos, antes de obter o seu doutoramento em teologia, Lutero lutou profundamente com o problema da sua salvação pessoal. Continuava a ser afligido por uma angústia que pode ser sintetizada na pergunta: Se o meu coração é governado pelo pecado, como posso esperar a salvação diante de Deus? Por causa do que havia aprendido, procurou resposta e paz através da realização de boas obras, incluindo jejuns e autoflagelação, como vinha fazendo desde o seu ingresso no convento. De nada lhe valiam! O pobre do monge Martinho não tinha paz! O seu sentimento de incapacidade para sentir paz diante de Deus continuou, levando-o às portas do desespero!



Finalmente, a angústia espiritual de Lutero só teve resposta no dia em que encontrou na Bíblia a certeza de que não há como alguém merecer o favor de Deus por causa de alguma coisa que faz ou faça. Que a única forma de alguém obter o favor Deus é através da fé em Jesus Cristo. Que é através da fé em Jesus que os pecados são perdoados por Deus. Lutero experimentou a paz espiritual quando compreendeu que a justificação é um dom divino, sem mérito algum da parte do homem, e que à fé posta no sacrifício redentor do Senhor Jesus Cristo efectuado uma única vez na Cruz do Calvário, devem seguir-se as boas obras, não para alcançar ou ganhar a graça de Deus, mas, sim, como uma manifestação de gratidão. Este entendimento, conhecido como a doutrina da justificação pela fé, tornou-se um dos pilares do pensamento religioso de Lutero.



E, talvez esta descoberta/vivência pessoal de Lutero tivesse ficado entre os muros espessos e altos do seu convento e ter-se-ia perdido para sempre, ou talvez fosse semeada nas suas aulas e colhida e saboreada por algum seu aluno mais ávido da sua salvação e da paz com Deus e não viesse a ter tanta relevância como realmente merece, como o maior tesouro que a pessoa avidamente deve querer ter, se entretanto no pontificado de Júlio II (1503 a 1513) não fosse decidido derrubar a igreja velha da praça de S. Pedro e em 18 de abril de 1506, Bramante recebeu o encargo de desenhar uma nova basílica, com propósito de que o novo edifício fosse o maior e o mais importante edifício religioso do Catolicismo. E, claro! Para construir tal Basílica era preciso arranjar rios de dinheiro.



O método utilizado para financiar a construção da Basílica de São Pedro foi a concessão de indulgências em troca de contribuições daqueles que com esmolas ajudavam na reconstrução da basílica. O grande promotor deste método de angariação de fundos foi Alberto de Mainz, que se viu forçado a liquidar as dívidas à Cúria Romana, contribuindo para o programa de reconstrução. Para facilitar, Alberto nomeou o alemão Johann Tetzel, pregador da Ordem dos dominicanos, cuja arte de propaganda e venda de indulgências motivou um avultado escândalo. O agressivo marketing de Johann Tetzel em promover esta causa foi mal encarado por alguns eclesiásticos, até que Martinho Lutero, escreveu ao arcebispo Alberto, argumentando contra essa "venda de indulgências", incluindo também a "disputa de Martinho Lutero sobre o poder e a eficácia das indulgências", que veio a ser conhecido como as "95 Teses" de Lutero, que afixou (segundo a tradição) na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg em 31 de outubro de 1517, redigidas em latim. A meu ver, a construção da Basílica de São Pedro foi o factor mais importante que fez explodir/eclodir o início da Reforma Protestante.



O Papa Leão X terá criticado e até terá castigado Johann Tetzel pelos seus sermões, porque iam muito além dos ensinamentos reais da igreja sobre as indulgências. A pregação deles, em alguns casos era falsa, atribuindo às indulgências características muito além da doutrina oficial, chegando a afirmara que "Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do purgatório"! Embora Lutero não negasse o direito do Papa ou da Igreja de conceder perdões e penitências exigia no entanto, a correção dos abusos na prática.



Uma das principais propostas teológicas que Lutero expôs nas "95 Teses" é que a graça provém diretamente do amor de Deus, e que só a fé é instrumento de salvação, não as obras humanas. Isto incidia diretamente contra a prática das indulgências, cuja aquisição supostamente permitia, e permite ainda entre os Cristãos Católicos, a remissão dos pecados por parte da Igreja Católica Romana, a qual se considera como a única administradora da redenção. As indulgências eram uma espécie de certificados que outorgavam o perdão dos pecados. Também se aplicavam e se aplicam ainda aos defuntos, contribuindo para abreviar a sua permanência no purgatório.



Segundo Lutero, o verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho, isto é, a proclamação do amor de Deus. A Cúria da Igreja Romana ordenou que Lutero se apresentasse em Roma para responder às acusações de heresia. Sabendo do caso, o Príncipe da Saxónia, Frederico o Sábio, interveio e insistiu que a audiência de Lutero fosse realizada em solo alemão. Como resultado, uma Dieta Imperial foi realizada na cidade de Augsburgo, em 1518, onde Lutero se recusou a mudar de opinião, e não se retractou. Temendo ser preso, fugiu de Ausburgo. As ideias de Lutero logo encontraram adeptos em todas as regiões da Alemanha, e mesmo fora dela. A resposta do Papa à situação foi dada a 15 de junho de 1520 com a publicação da bula de excomunhão de Lutero intitulada “Exsurge Domine”, ameaçando Lutero de excomunhão, dando-lhe sessenta dias para se retractar, e como ele não o fez, acabou excomungado oficialmente pela Cúria Romana.



Em protesto, ele queimou publicamente a Bula e foi excomungado em janeiro de 1521. Em junho de 1525, Lutero casou-se com Catarina de Bora, uma ex-freira. Os dois tiveram seis filhos e abrigaram onze órfãos. Lutero publicou cerca de 400 obras durante a sua vida, incluindo comentários bíblicos, catecismos, sermões e tratados. Também escreveu hinos para a Igreja. Parte das suas obras estão publicadas em diversas línguas modernas.



Lutero faleceu de derrame cerebral em 18 de fevereiro de 1546, aos 63 anos de idade, na sua cidade natal, Eisleben, na Alemanha. O seu corpo foi sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg, onde, cerca de 30 anos antes, havia afixado as suas “95 Teses”.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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