… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

15 de maio de 1531 • Os cantões suíços que tinham aceitado a Reforma reuniram-se



15 de maio de 1531 Os cantões suíços que tinham aceitado a Reforma reuniram-se

“The murder of Zwingli”, por Karl Jauslin (1842–1904)
A 30 de junho de 1530 foi convocada a famosa dieta de Ausburgo, à qual Zuínglio enviou uma breve confissão de fé e tentou, ainda que sem êxito, que o Imperador a conhecesse. Era uma confissão de fé pessoal que hoje é um dos documentos mais interessantes da Reforma. Na mesma expressa sobre a Santa Ceia: “Creio que na santa Eucaristia, isto é, na Santa Ceia de ação de graças, o verdadeiro corpo de Cristo está presente mediante a contemplação da fé; quer dizer, que aqueles que agradecem ao Senhor pela bondade que nos foi a nós outorgada em Seu Filho, reconhecem que Ele assumiu verdadeira carne, que sofreu verdadeiramente na mesma, que verdadeiramente limpou os nossos pecados com o Seu próprio sangue; de forma que este fato por Cristo se faz presente a eles pela contemplação da fé. Mas que o corpo de Cristo em essência e realmente, quer dizer, o corpo natural mesmo, esteja presente na Santa Ceia ou que seja mastigado com a nossa boca ou dentes, como os papistas e alguns que desejam os pratos de carne do Egito afirmam, não só o negamos, mas, sim, firmemente mantemos que é um erro oposto à Palavra de Deus.”



Zuínglio desempenhou um papel proeminente no protestantismo e fez de Zurique nele um lugar destacado. O seu trabalho educativo e pedagógico foi importante. Era um professor nato e quando deu aulas a alguns alunos em Glarus, algumas das cartas deles que se preservaram mostram o bom professor que ele era. O livrinho que Zuínglio deu de presente ao seu enteado mostra o sábio pedagogo que ele era, e por isso quando as suas outras responsabilidades lhe permitiram, aceitou o posto de reitor da escola Carolinum, da Grossmünster (literalmente: a grande catedral) de Zurique em 1525, fazendo muito para melhorar o seu curriculum. Mas nem só a educação reclamou a sua atenção. Por ser uma pessoa de destaque em Zurique era consultado sobre qualquer assunto, quer pelos magistrados quer pelos cidadãos anónimos. A sua correspondência obrigava-o a trabalhar arduamente pelas noites adentro depois dos dias muito ocupados, fluindo da sua pluma uma multidão de tratados, em latim para o público em geral e em alemão para os seus concidadãos. Esses tratados foram, muitas vezes, redigidos rapidamente e alguns têm pouco interesse atual, mas a maioria deles merece a pena ser lido. Há-os polémicos, como os que intercambiou com Lutero sobre a Santa Ceia; os expositivos, acerca da sua posição teológica em geral ou particular sobre certos pontos; os práticos, dando orientação aos pregadores sobre como pregar o Evangelho; ou os patrióticos, nobres proclamações contra a guerra e os mercenários. Esses escritos mostram a ampla inteligência, o grande talento e a vasta mentalidade de Zuínglio e fundamentam a afirmação de que se ele vivesse hoje seria um homem moderno em todos os aspetos.



Mas a sua vida plena de tarefas tão árduas estava chegando ao fim, não pela debilidade da sua capacidade física, nem porque o seu cérebro já não funcionasse, mas sim porque a luta fratricida que temporalmente se evitou estalou de novo. Neste dia, 15 de maio de 1531, os cantões suíços que tinham aceitado a Reforma reuniram-se, sabendo que os cinco cantões, que eram fortemente católicos, tinham rechaçado guardar o tratado que os seus representantes tinham assinado no ano anterior, resolvendo que se não eles não dessem razões os impediriam de cruzar a fronteira para comprar trigo, sal, ferro, aço e outras coisas necessárias. Era uma crua medida a que o cantão de Zurique se opôs, mas que foi aprovada. Logo que este decreto entrou em execução, os cinco cantões católicos prepararam-se para a guerra, atacando primeiramente Zurique que era a cidade que estava no seu caminho descendente das montanhas. Em 9 de outubro de 1531 as suas tropas cruzaram a fronteira de Zurique, que estava a só quinze quilómetros da cidade, chegando lá as notícias nessa mesma tarde. Por estranho que pareça, não parecia haver temor na cidade de Zurique que a frente da guerra estivesse tão perto dela, quando a cidade não estava preparada para ela. Foi uma turba, e não um pequeno exército dos famosos soldados suíços, a que saiu apressadamente da cidade. O seu objetivo era Kappel (Kappel am Albis, uma comuna da Suíça, no Cantão de Zurique), reunindo-se ali no dia seguinte, sexta-feira, 11 de outubro de 1531, com o exército principal, no qual estava Zwinglio incorporado, protegido com uma armadura, se bem que ele não era um dos combatentes, embora ele permanecesse presente no fragor da batalha, estando ali porque era o principal pastor de Zurique. Estava sentenciado que Zurique seria derrotada, por ter só dois mil e setecentos homens mal orientados, contra oito mil. Abrumados os soldados de Zurique, em pouco tempo, ficaram quase aniquilados, sendo a batalha de Cappel uma repetição da de Flodden Field que se travara a 9 de setembro de 1513. Quinhentos Zuriquenses foram assassinados, entre eles os representantes das famílias mais proeminentes da cidade e também Zuínglio. Ferido primeiro por uma flecha e golpeado logo na cabeça por uma pedra, foi morto por um golpe de espada. Durante algum tempo não foi reconhecido, mas quando se soube que aquele cadáver era o do Zuínglio foi tratado com a maior indignidade, porque era o autor das regulações que tinham originado a guerra, o que não era verdade, e porque era também o dirigente da Reforma em Zurique, o que sim, era verdade.



O corpo foi entregue ao verdugo, que o esquartejou como se fora o de um traidor e o queimou, como se fora um herege. A guerra acabou num tratado de paz que era, é óbvio, favorável aos cinco cantões católicos, embora não tão duro para os derrotados cantões protestantes como poderia esperar-se.



Todos os planos de Zuínglio para formar uma liga de príncipes, de cantões e de cidades contra o papa e o imperador e todas as suas esperanças de enviar missionários reformados para os cantões católicos suíços acabaram para sempre. Muito pelo que ele lutou, para a prática e a teologia na Igreja, não lhe sobreviveu. A música restaurou-se nas igrejas reformadas em 1598 e as suas ideias eucarísticas foram substituídas entre os reformados pelas ideias de Calvino. Entretanto, ao ir sendo melhor conhecido, através do esplendor da sua mente, da sua independência e da sua vontade progressista vai ganhando fama crescente, vai sendo posto ao lado de Lutero como líder da hoste protestante.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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