… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

19 de maio de 1876 • Guillaume Groen van Prinsterer, um profeta para o nosso tempo



19 de maio de 1876 Guillaume Groen van Prinsterer, 
um profeta para o nosso tempo

Um dos cristãos mais relevantes que houve na Holanda no século XIX foi Guillaume Groen van Prinsterer, que nasceu em Voorburg, num subúrbio oriental de Haia, em 21 de agosto de 1801 e que morreu neste dia de 19 de maio de 1876 naquela mesma cidade. Durante o período que em que lhe tocou viver a Europa experimentou mudanças sociais e políticas profundas, que poderiam ficar resumidos numa data: 1848. Neste ano aconteceram pelo continente europeu uma série de insurreições e revoluções que anunciavam que a velha ordem, sustentada durante séculos, dava os seus últimos suspiros. Este terremoto que tinha tido o seu epicentro na França com a Revolução Francesa, umas décadas antes, produzia as suas réplicas na Alemanha, na Itália, na Hungria e na Espanha, entre outros países, com maior ou menor intensidade.



Em consequência dessa grande sacudidela duas grandes instituições, representativas do poder na Europa durante séculos, caíram, no decurso da vida de van Prinsterer, para não mais se levantar. Uma foi o Sacro Império Romano-Germânico (em alemão Heiliges Römisches Reich; em latim Sacrum Roma-num Imperium), que foi abolido em 1806 e outra foi a Inquisição, que na sua vertente portuguesa foi suprimida em 1821. Sinais de perturbação que os tempos tinham cambiado. O absolutismo político e religioso tinha morrido.



Durante a sua infância e juventude van Prinsterer tinha crescido numa atmosfera religiosa nominal, a religião de seus pais, um protestantismo herdado, estando satisfeito com ela. Mas ao ir para Bruxelas em 1828 para resolver certos assuntos que o rei da Holanda lhe tinha encomendado, entrou em contato com Merle d'Aubigné (1794-1872), que era a cabeça do movimento evangélico conhecido como o Réveil (o avivamento), que tinha começado na Suíça sob Robert Haldane (1764-1842). Em consequência desse encontro a vida de van Prinsterer ficou transformada, tendo-se convertido ao Evangelho. A partir desse momento todas as suas ideias ficaram impregnadas por uma nova maneira de ver as coisas. Também as questões políticas.



Van Prinsterer havia-se licenciado em direito e era além disso um competente historiador, conhecedor, de modo especial, da história do seu país. Mas também era um patriota que amava a Holanda. Ao estudar as raízes da Revolução Francesa percebeu as letais sementes de que era portadora e os perigos associados com ela. Como resultado publicou o seu livro “Ongeloof en Revolutie” (Incredulidade e revolução) em 1847. Não é que Van Prinsterer fosse um reacionário ou um nostálgico dos tempos passados; não podia sê-lo, porque sendo holandês sabia muito bem, pela história do seu país, o que significavam o Sacro Império e a Inquisição, o despotismo e o abso-lutismo. A Holanda tinha sofrido muito para que esquecesse a lição. Não obstante, não era um ingé-nuo para que recebesse de braços abertos as mudanças que a Revolução trazia, já que nas mesmas se deu contas da sua raiz anticristã, por excelência. E a partir daí dedicou-se a combater os efeitos devastadores que a Revolução podia produzir na vida dos indivíduos e da sua nação.



No seu livro, que originalmente foi o conteúdo de uma série de conferências, desenvolve a tese de que a Revolução Francesa foi o resultado direto da incre-dulidade que o cepticismo da ilustração tinha ido semeando. O entronizar da razão humana tinha sido possível graças a um movimento de apostasia e de rebelião contra Deus.



Não é que van Prinsterer fosse um anti-revolucionário por princípio, porque na sua obra ele distingue entre as revoluções da Inglaterra e da América e a da França, quando, utilizando as pala-vras de Stahl (1802-1861) afirma: “A liberdade da Inglaterra e da América respira o espírito dos puri-tanos; a liberdade da França respira o espírito dos enciclopedistas e jacobinos.” Isto é, a origem da primeira teve raízes cristãs, enquanto as raízes da segunda são anticristãs. Ainda que aparentemente todas as democracias parecem ser iguais, na verdade não é assim; ainda que pareça que não há mais do que uma espécie de liberdade, na verdade há mais de uma, conforme seja a sua origem. E um pouco mais adiante escreve: “Por certo que não somos opostos a toda a revolução. Também conhecemos as datas de 1752 e de 1688. Ao que nos opomos é à Revolução… a derrocada sistemática das ideias por meio do qual o Estado e a sociedade, a justiça e a verdade se fundem na opinião humana e na arbitrariedade, e não nas ordenanças divinas.”



Mas o problema que van Prinsterer detecta não é só o ataque direto da Revolução contra o Cristianis-mo, mas também contra a própria noção de direito, cujos fundamentos escava e destrói. Um desses fundamentos é o princípio de legitimidade, que para fazê-lo saltar pelos ares se semeou de minas o terreno da teologia, da teoria política, da literatura e da educação. De maneira que o resultado desta confrontação ele descreve-o desta maneira:



“Existem matérias sagradas, invioláveis, legítimas que postas sob os escudos da justiça reconhecida universalmente, não devem jamais ser mudadas, e não podem ser sacrificadas por nenhuma vontade humana. Este é o princípio de legitimidade na sua mais alta universalidade. Não existe a justiça universal. Nada é sagrado, inviolável, legítimo. Todas as leis podem ser mudadas à vontade do soberano, e o mais forte é o soberano. Todos os direitos podem ser sacrificados em prol do bem-estar geral, e o bem-estar geral é aquilo que definimos a nosso gosto. Aí tendes o princípio da ilegitimidade, ou da Revolução em todo seu alcance colossal.”



Se não fosse porque van Prinsterer morreu há mais de um século, parecer-nos-ia que quem assim nos fala é alguém com quem nos podemos encontrar ao dobrar a esquina de uma qualquer rua, tal é a atualidade que possuem as suas palavras. Mas ele não se contentou simplesmente em assinalar os erros e graves prejuízos daquela Revolução, mas pelo contrário, mostrou também onde estava a solução para esse perigoso estado de coisas:



“O que se pode aprender da experiência da era revolucionária? Que o homem, sem Deus, até com as circunstâncias a seu favor, nada pode fazer a não ser obrar a sua própria destruição. O homem deve romper o círculo vicioso revolucionário: deve voltar-se para Deus cuja verdade somente pode resistir ao poder do erro. Se alguém considera que esta lição transcendental da história é mais um lamento sen-timental que um conselho para a política está esquecendo que o poder do Evangelho para a realização da ordem, a liberdade e a prosperidade tem sido demonstrado pela história do mundo. Tenha presente que tudo o que é útil e benéfico para o homem, é promovido pelo temor de Deus, e é frustrado pela negação de Deus. Deve ter presente especialmente que a teoria revolucionária foi um desenvolvimento do germe da incredulidade, e que a planta venenosa cultivada pela apostasia murchará e asfixiará numa atmosfera de avivamento da fé.”



Van Prinsterer foi membro do parlamento do seu país, levantando a sua voz em público para defender as suas convicções cristãs. Quão necessário seria hoje que no parlamento português, e em muitos outros foros europeus e mundiais, houvesse alguma voz semelhante à sua. Ainda que é óbvio, seria uma voz clamando no deserto.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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