Comentário
Completo de Matthew Henry sobre a Bíblia
(Matthew Henry’s Complete Commentary on the Bible)
Génesis 2
VERSÍCULOS 8-15
O
Jardim do Éden
Como
o homem consiste de corpo e alma, um corpo criado da terra e uma alma racional
e imortal soprada pelo céu, temos, nestes versículos, a provisão que foi feita
para a felicidade de ambos. Aquele que o criou tomou o cuidado necessário para
fazê-lo feliz. A condição era que o homem se houvesse conservado assim, e teria
sabido o quando era próspero. Essa parte do seu ser através da qual ele se
relaciona com o mundo dos sentidos estava feliz. Pois ele foi colocado no
paraíso de Deus. A parte pela qual ele se relacionava com o mundo dos espíritos
estava bem provida porque ele havia sido levado a uma aliança com Deus. Senhor,
que é o homem, para que ele possa ser dignificado desta maneira, o homem que é
um verme! Aqui, temos:
I.
Uma descrição do jardim do Éden, que foi destinado para ser a mansão e o
domínio deste grande senhor, o palácio deste príncipe. O escritor inspirado,
nesta história, escrevendo em primeiro lugar para os judeus, e calculando a sua
narrativa para a fase inicial da igreja, descreve as coisas de acordo com a sua
aparência perceptível exterior, e leva-nos, por meio de revelações adicionais
da luz divina, ao entendimento dos mistérios escondidos nelas. As coisas
espirituais são alimentos fortes, que eles ainda não podem suportar. Mas ele
escreve como a carnais, 1Co 3:1. Por isto ele não insiste muito na felicidade
da mente de Adão como na do seu estado exterior. A história mosaica, assim como
a lei mosaica, prefere as figuras das coisas celestiais, às coisas celestiais
propriamente ditas, Hb 9:23. Observe:
1.
O lugar designado para a residência de Adão era um jardim. Não uma casa de
marfim, nem um palácio revestido de (com) ouro, mas um jardim, mobiliado e
ornamentado pela natureza, não pela arte. Quão pouca razão têm os homens para
se orgulhar de construções pomposas e magníficas, quando a felicidade do homem
na inocência consistia no facto de que ele não precisava de nada disto! Assim
como as roupas surgiram com o pecado, assim também as casas. O céu era o
telhado da casa de Adão, e nunca houve nenhum telhado tão curiosamente
revestido e pintado. A terra era o seu pavimento, e nunca houve nenhum
pavimento tão ricamente decorado. A sombra das árvores era o seu refúgio.
Debaixo delas, estavam as suas salas de jantar, os seus quartos, e nunca houve
aposentos tão agradavelmente decorados como estes: os de Salomão, em toda a sua
glória, não eram adornados como eles. Quanto mais nós nos conseguirmos acomodar
às coisas simples, e quanto menos nos entregarmos a nós mesmos a esses prazeres
artificiais, que foram inventados para proporcionar satisfação ao orgulho e à
luxúria dos homens, mais nos aproximamos de um estado de inocência. A natureza
satisfaz-se com pouco e com o que é mais natural. Já a graça, satisfaz-se com
menos. Mas a luxúria não se satisfaz com nada.
2.
O projeto e o equipamento deste jardim eram o fruto imediato da obra da
sabedoria e do poder de Deus. O Senhor Deus plantou este jardim, isto é, Ele o
havia plantado ao terceiro dia, quando foram criados os frutos da terra.
Podemos supor acertadamente que aquele era o lugar mais perfeito para o prazer
e o deleite que o sol jamais viu, quando o próprio Deus todo-suficiente
designou que fosse a felicidade atual da Sua amada criatura, o homem em
inocência, e um tipo e uma figura da felicidade dos escolhidos remanescentes em
glória. Nenhum prazer pode ser agradável, ou satisfatório para uma alma, exceto
aqueles que o próprio Deus preparou e designou para ela, nenhum paraíso é de
confiança, exceto aquele plantado por Deus. A luz do nosso próprio fogo, e as
faíscas dos nossos próprios gravetos, em breve nos deixarão no escuro, Is
50:11. Toda a terra era agora um paraíso, comparado com aquilo em que ela se
tornou depois da queda, e depois do dilúvio. Os mais belos jardins do mundo são
um deserto, comparados com aquilo que toda a face da terra era, antes de ser
amaldiçoada por causa do homem. Mas isto não era suficiente. Deus plantou um
jardim para Adão. Os escolhidos de Deus terão para si favores que os
distinguirão.
3.
A condição deste jardim era extremamente gracioso. Ele estava no Éden, que quer dizer deleite e prazer. O lugar aqui é particularmente descrito com tais marcas e
limites que seriam suficientes, eu imagino, quando Moisés escreveu, para
especificar o lugar àqueles que conheciam aquela região. Mas agora, ao que
parece, os curiosos não conseguem contentar-se a este respeito. Deve ser
preocupação nossa assegurar-nos um lugar no paraíso celestial, e então não
precisaremos de nos atrapalhar com a busca do lugar do paraíso terrestre. É
certo que, onde quer que ele estivesse, ele tinha todas as conveniências
desejáveis, e (que nunca nenhuma casa nem jardim na terra teve), sem qualquer
inconveniente. Formoso de sítio, este jardim era a alegria e a glória de toda a
terra: sem dúvida, ele era a terra na sua mais elevada perfeição.
4.
As árvores que foram plantadas neste jardim. (1) Ele tinha todas as melhores e
as mais selecionadas árvores, em comum com o resto da terra. Era formoso e
adornado com cada árvore que, pela sua altura ou amplitude, pela sua espécie ou
cor, pelas suas folhas ou flores, era agradável à vista e encantava os olhos.
Ele estava provido com abundância e enriquecido com toda a árvore que produzia
frutos agradáveis ao paladar, úteis para o corpo, e muito bons para provisões da
boca. Deus, sendo um Pai terno, não procurou somente o benefício de Adão, mas
também o seu prazer, visto que existe um prazer consistente
com a inocência, ou melhor, existe um prazer verdadeiro e transcendente na
inocência. Deus deleita-Se na prosperidade dos Seus servos, e deseja que eles
se sintam tranquilos. Se eles estiverem intranquilos, será devido a eles
mesmos. Quando a Providência nos coloca num Éden de abundância e prazer, nós devemos servi-Lo com gozo e alegria de coração,
na abundância das boas coisas que Ele nos dá. Mas: (2) Havia nele duas árvores
extraordinárias, e peculiares. Em toda a terra, não havia (árvores) semelhantes
a elas. [1] Havia a árvore da vida, no
meio do jardim, que não era tanto um memorando para ele (o homem), da fonte
e do autor da sua vida, nem, talvez, nenhum meio natural para conservar ou
prolongar a vida. Mas ela pretendia ser principalmente um sinal e um selo para
Adão, assegurando-lhe a continuidade da vida e da felicidade, mesmo até à
imortalidade e à beatitude eterna, por meio da graça e do favor do seu Criador,
com a condição da sua perseverança neste estado de inocência e obediência. Dela,
ele podia comer e viver. Cristo agora é, para nós, a árvore da vida (Ap 2:7;
22:2), e o pão da vida, Jo 6:48, 53. [2] Havia a árvore da ciência do bem e do mal, assim chamada, não porque
tivesse qualquer virtude nela, de gerar ou aumentar algum conhecimento
proveitoso (certamente, se este fosse o caso, não teria sido proibida), mas, em
primeiro lugar, porque havia uma revelação expressa e positiva da vontade de
Deus, a respeito desta árvore, de modo que por intermédio dela se pudesse
conhecer o bem e o mal morais. O que é o bem? O bem é não comer desta árvore. O
que é o mal? O mal é o comer desta árvore. A distinção entre todos os demais
bens e males morais estava escrita no coração do homem, pela natureza. Mas
esta, que resultava de um mandamento positivo, estava escrita nesta árvore. Em
segundo lugar, porque, no final, ela provou dar a Adão um conhecimento
experimental do bem, ao perdê-lo, e do mal, ao experimentá-lo. Assim como no
concerto da graça temos, não somente: “Quem
crer, será salvo”, mas temos também: “Quem
não crer será condenado” (Mc 16.16), também o concerto da inocência traz as
suas responsabilidades: “Faça isto e viva”, o que estava selado e confirmado
pela árvore da vida, mas: “Fracasse, e morra”, algo de que Adão estava
convencido devido a esta outra árvore: “Toque nela e expõe-se ao perigo”, por
conseguinte, através destas duas árvores, Deus colocou diante de Adão o bem e o mal, a bênção e a maldição, Dt
30:19. Estas duas árvores eram como dois sacramentos.
5.
Os rios com os quais este jardim era regado, Gn 2:10-14.
Estes quatro rios [(ou um único rio dividido em quatro
braços (ribeiros)] contribuíam muito, tanto para tornar o jardim
agradável como para a sua fecundidade. A terra
de Sodoma é descrita como sendo toda bem regada, como o jardim do SENHOR, Gn 13:10. Observe
que aquilo que Deus planta, Ele cuidará para que seja regado. As árvores da
justiça estão junto aos rios, Sl 1:3. No paraíso celestial existe um rio
infinitamente superior a estes pois é o rio da água da vida, que não sai do
Éden, como estes, mas que procede do trono de Deus e do Cordeiro (Ap 22:1), um
rio cujas correntes
alegram a cidade de Deus, Sl 46:4. O Hidequel e
o Eufrates são rios da Babilónia, coisa que lemos em outras passagens. Junto a
estes rios, os judeus cativos se sentaram e choraram, lembrando-se de Sião (Sl
137:1). Mas parece-me que eles tinham muito mais razão para chorar (e também
nós) com a lembrança do Éden. O paraíso de Adão era a sua prisão. Foi esta a
obra miserável do pecado. Da terra de Havila está escrito (Gn 2:12): “O ouro
dessa terra é bom” e “Ali há o bdélio e a pedra sardónica”, certamente isto
é mencionado para que a riqueza da qual a terra de Havila se vangloriava
pudesse ser posta em cheque (derrotada) comparada com aquela que era a glória da
terra do Éden. Havila tinha ouro, e especiarias e pedras preciosas. Mas o Éden
tinha aquilo que era infinitamente melhor, a árvore da vida e a comunhão com
Deus. Da mesma maneira podemos dizer dos africanos e indianos: “Eles têm o
ouro, mas nós temos o Evangelho. O ouro da sua terra é bom, mas as riquezas da
nossa são infinitamente melhores.”
II. A colocação do homem neste paraíso de deleite, Gn
2:15, onde observamos,
1. Como Deus o colocou na posse deste paraíso:
O Senhor Deus tomou o homem, e o pôs no jardim do Éden como consta em Gn 2: 8, 15. Observe aqui: (1) O homem
foi criado fora do paraíso, visto
que, depois de Deus o ter formado, pô-lo no jardim. Ele foi criado da terra
(argila, barro; pó) comum, não de pó do paraíso. Ele viveu fora do Éden antes
de viver nele, para que ele pudesse ver que todos os consolos da sua condição
no paraíso eram devidos à graça livre de Deus. Ele não podia alegar um direito
de inquilino a não ser posto fora da propriedade arrendada porquanto não tinha
nascido no local, nem tinha alguma coisa a não ser aquilo que havia recebido.
Toda a vanglória estava, por isto, para sempre excluída. (2) O mesmo Deus que era o autor da sua existência era o autor da
sua felicidade. A mesma mão que lhe criou uma alma viva, plantou a árvore da
vida para ele, e fixou-lhe residência (colocou-o lá) junto dela.
Aquele que nos criou –e somente Ele– é capaz de nos fazer felizes. Aquele que é o
formador dos nossos corpos, e o Pai dos nossos espíritos, Ele, e ninguém, a não
ser Ele, pode, efetivamente, proporcionar o necessário para a felicidade de
ambos. (3) Aumenta muito o conforto de qualquer condição (circunstância), se tivermos visto Deus indo
claramente adiante de nós, e colocando-nos nela. Se não tivermos constrangido a
providência, mas se a tivermos seguido, e aceite as dicas de
direção que Ele nos tem dado, podemos ter a esperança de
encontrar um paraíso onde, de outro modo, o não poderíamos ter esperado
encontrar. Veja Sl 47.4.
2.
Como Deus lhe deu ocupação e afazeres. Ele o colocou lá, não como o leviatã nas
águas, para folgar nelas, mas para lavrar e guardar o jardim. O próprio paraíso
não era um lugar de dispensa (isenção) do trabalho. Observe aqui: (1) Nenhum de
nós foi enviado ao mundo para estar ocioso. Aquele que nos criou estas almas e
corpos deu-nos alguma coisa em que podemos trabalhar. E aquele que nos deu esta
terra para nossa morada criou alguma coisa na qual podemos trabalhar. Se uma
origem importante, ou uma grande propriedade, ou um grande domínio, ou uma
inocência perfeita, ou uma capacidade para a contemplação pura, ou uma família
pequena, pudessem dar a um homem o direito de não se esforçar, Adão não teria
sido colocado para trabalhar. Mas Aquele que nos deu a existência deu-nos uma
ou mais ocupações, para que possamos servi-Lo tanto a Ele como à nossa geração,
e para que trabalhemos pela nossa salvação. Se não nos importarmos com os
nossos interesses, seremos indignos da nossa existência e do nosso sustento. (2)
As atividades seculares podem ser coerentes com um estado de inocência e (com)
uma vida de comunhão com Deus. Os filhos e herdeiros do Céu, enquanto estão
aqui neste mundo, têm alguma coisa para fazer nesta terra, que deve ocupar
parte do seu tempo e dos seus pensamentos. E, se eles realizarem as suas
tarefas tendo Deus como objetivo, estarão servindo-O tão verdadeiramente quanto
quando estão de joelhos. (3) A ocupação de lavrador é uma ocupação antiga e
honrosa. E era necessária, mesmo no paraíso. O jardim do Éden, embora não
precisasse de arrancar (tirar) as ervas daninhas [pois espinhos e cardos ainda
não eram um coisa desagradável, (um incómodo)]
ainda assim ele precisava de ser lavrado e cuidado. A natureza, mesmo no seu estado primitivo, dava espaço para (dava abertura
para, dava ensejo a) as melhorias da arte e do esforço. Era uma ocupação
apropriada para o estado de inocência, tomando providências para (fazendo
preparativos para) a vida, não para a luxúria, e dando ao homem uma
oportunidade de admirar o Criador e de reconhecer a Sua providência: enquanto
as suas mãos estavam ocupadas com as suas árvores, o seu coração poderia estar
com o seu Deus. (4) Existe um prazer verdadeiro na tarefa para a qual Deus nos
chama, e na qual nos emprega. O trabalho de Adão estava muito longe de o
degradar (rebaixar) porque ele era considerado um acréscimo aos prazeres do
paraíso. Ele não poderia ser feliz se tivesse estado ocioso. Ainda há uma lei
que está em vigor: “Se alguém não quiser
trabalhar, não coma também”, 2Ts 3:10; Pv
27:23.
III. A ordem que Deus
deu ao homem na inocência, e a aliança para a qual Ele o conduziu. Até aqui, temos visto Deus como o poderoso
Criador do homem, e seu beneficente Benfeitor. Agora Ele aparece como seu Governante e Legislador.
Deus pô-lo no jardim do Éden, não para ele viver ali como pudesse desejar, mas
para estar sujeito a regras. Como não estamos autorizados a estarmos ociosos
neste mundo, e a não fazermos nada, assim também não estamos autorizados a
sermos caprichosos, e fazer o que nos apeteça (fazer o que desejarmos, fazer o
que quisermos). Embora Deus houvesse dado ao homem o domínio sobre as
criaturas, Ele queria que o próprio homem soubesse que ele mesmo ainda estava
sob o governo do seu Criador.
http://www.studylight.org/commentaries/mhm/view.cgi?bk=0&ch=1
Tradução de Carlos
António da Rocha
****
Esta tradução é de
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já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca
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