… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Génesis 3 - Versículos 4-15 - A serpente é condenada. A indicação do Messias.


Comentário Completo de Matthew Henry sobre a Bíblia
(Matthew Henry’s Complete Commentary on the Bible)

Génesis 3
 VERSÍCULOS 14-15
A serpente é condenada. A indicação do Messias.
 

Os prisioneiros foram considerados culpados pela sua própria confissão, e também pelo conhecimento pessoal e infalível do Juiz, e nada de importante foi oferecido para a suspensão do julgamento, Deus imediatamente passa à sentença e, nestes versículos, Ele começa (onde o pecado começou) com a serpente. Deus não interrogou a serpente, nem lhe perguntou o que ela tinha feito, nem por que o tinha feito mas imediatamente a condenou: 1. Porque ela já estava (tinha sido) condenada pela rebelião contra Deus, e a sua maldade (má vontade, rancor; intenção criminosa; vontade de fazer mal; malícia) e perversidade (maldade, ruindade; malvadez; imoralidade) eram notórias, não descobertas por alguma investigação secreta, mas abertamente confessadas e declaradas, como as de Sodoma. 2. Porque ela deveria ser, para sempre, excluída de qualquer esperança de perdão. E, por que qualquer coisa deveria ser dita para convencer e humilhar aquele que não encontraria lugar para arrependimento? A sua ferida não era (foi) procurada, porque não deveria ser curada. Alguns pensam que a condição dos anjos caídos não havia sido declarada sem esperança (desesperada; irremediável, irrecuperável) e impossibilitada de qualquer solução (abandonada, desamparada) até ao momento (agora) em que haviam atraído (atraíram) o homem à rebelião.


I. A sentença proferida contra o tentador pode ser considerada como um raio sobre a serpente, o animal (criatura-bruta, besta, bruto, animal inferior) que Satanás usou foi (era), como o resto (como todos os outros), criado para servir o homem, mas agora era mal utilizado, para o seu próprio dano (para o ferir). Portanto, para testificar um descontentamento (uma desaprovação) contra o pecado, e o ciúme pela honra ferida de Adão e Eva, Deus lança uma maldição e uma repreensão (um opróbrio) sobre a serpente, e fá-la gemer, sobrecarregada. Veja Rm 9:20. Os instrumentos do diabo devem compartilhar das punições do diabo. Assim os corpos dos ímpios, embora (sendo) apenas instrumentos de injustiça, deverão compartilhar dos tormentos eternos com a alma, o agente principal. Até mesmo o boi que matar um homem deverá ser apedrejado, Ex 21:28, 29. Veja aqui como Deus odeia o pecado, e especialmente o quanto Ele Se desagrada (está descontente) com aqueles que levam (atraem, tentam, seduzem, engodam) outros ao pecado. Está (Existe) uma mácula perpétua sobre o nome de Jeroboão que tinha feito pecar a Israel. Agora: 1. A serpente aqui é colocada sob (recebe, é sujeita, é submetida à) a maldição de Deus: maldita serás mais que todos os animais do campo. Até mesmo as criaturas rastejantes, quando Deus as criou, foram abençoadas por Ele (Gn 1:22), mas o pecado transformou a bênção numa maldição. A serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo (Gn 3:1), e aqui, é amaldiçoada mais do que toda besta do campo (maldita serás mais que toda a besta do campo). A subtileza não santificada com muita frequência prova ser uma grande maldição para o homem. E quanto mais astutos (astuciosos) os homens forem para fazer o mal, mais danos causarão, e, consequentemente, eles receberão maior condenação. Os tentadores subtis são as criaturas mais amaldiçoadas sob o sol. 2. Aqui ela (a serpente) é colocada sob (a) reprovação (censura) e (a) inimizade do homem. (1) Ela deve ser (será para) sempre considerada como uma criatura vil e desprezível, merecedora de escárnio e desprezo: “Sobre o teu ventre andarás”, não sobre pés, ou meia erecta, mas arrastando-te durante todo o tempo, o ventre curvado até ao chão,” uma expressão de uma condição miserável e abjeta, Sl 44:25 “e tu não poderás evitar comer pó com o teu alimento.” O seu crime foi que ele tentou Eva a comer o que ela não deveria ter comido. O seu castigo (punição, penalidade, pena) era que ele necessitaria de comer o que não desejaria comer: e pó comerás. Isto indica (denota, mostra) não só uma base e condição desprezível, mas também um espírito inferior e merecedor de piedade. Sobre aqueles cuja coragem os deixou, está escrito que lamberão o pó como serpentes, Mq 7:17. Como é triste que a maldição da serpente seja a escolha dos mundanos cobiçosos (ambiciosos; avaros), cujo caráter é suspirar pelo pó da terra! Am 2:7. Estes escolhem as suas próprias ilusões (desilusões, decepções, enganos; alucinações), e assim será a sua condenação (destino lúgubre, fado; morte, ruína) (2) Ela será (deve ser), para sempre, considerada como uma criatura venenosa e nociva, merecedora de ódio e repulsa (detestação; abominação): porei inimizade entre ti e a mulher. Sendo as criaturas inferiores criadas para o homem, era uma maldição que qualquer uma delas se virasse contra o homem, e o homem contra elas e isto é parte da maldição da serpente. A serpente é danosa (nociva, prejudicial; perniciosa, ofensiva; que magoa) para com o homem, e frequentemente fere o seu calcanhar, porque ela não consegue alcançar nenhum ponto mais alto. Na verdade, está registado que ela morde os calcanhares dos cavalos, Gn 49:17. Mas o homem é vitorioso (vencedor) sobre a serpente, e fere a sua cabeça, isto é, faz-lhe uma ferida mortal, visando destruir toda a geração (progénie; raça) de víboras. O resultado desta maldição sobre a serpente é que, embora esta criatura seja subtil e muito perigosa, ainda assim ela não é vitoriosa (triunfa, predomina, leva a melhor) (como o seria, se Deus lhe desse permissão) para a destruição da humanidade. Esta sentença proferida sobre a serpente é muito fortalecida por aquela promessa de Deus para o Seu povo: Pisarás o leão e o áspide (Sl 91:13), e por aquela de Cristo para os Seus discípulos, Pegarão nas serpentes (Mc 16:18). Paulo testemunha que saiu ileso da (indemne; sem ferimentos; são e salvo, incólume) (não foi mortalmente ferido pela) víbora que lhe acometeu a mão. Observe aqui que a serpente e a mulher acabavam de ficar muito amigas e familiarizadas na conversa sobre o fruto proibido, e havia um entendimento maravilhoso entre elas. Mas aqui elas são irreconciliavelmente colocadas em discórdia. Note que as amizades pecaminosas terminam, justamente (positivamente, realmente, merecidamente, com razão), em contendas (rixas de consequências sangrentas, hostilidades, animosidades, inimizades) mortais: aqueles que se unem na iniquidade (maldade, ruindade; perversidade, malvadez; rancor, espírito vingativo; imoralidade; vício) não permanecem unidos durante muito tempo (com grande duração; com grande demora; por muito tempo; muito tempo).


II. Esta sentença pode ser considerada como igual à do diabo, que somente fez uso da serpente como seu instrumento nesta manifestação, mas foi ele mesmo o agente principal. Aquele que falou por meio da boca da serpente aqui é golpeado, como se fosse golpeado na parte lateral da serpente. E o objetivo principal desta sentença é ser semelhante à coluna de fogo e nuvem que tem um lado escuro, voltado para o diabo, e um claro, voltado para os nossos primeiros pais e a sua descendência. Grandes coisas estão contidas nestas palavras.



1. Uma censura (vergonha, descrédito; mancha, desgraça, opróbrio; vexame; censura, acusação, exprobração, reprimenda;) perpétua aqui é (está aqui) atribuída àquele grande inimigo, inimigo, não só de Deus mas também do homem. Sob a capa da serpente (o disfarce da serpente), aqui ele é condenado a ser: (1) Desprezado (degradado, rebaixado; aviltado) e amaldiçoado por Deus. Supõe-se que o pecado que converteu anjos em demónios foi o orgulho, que aqui é devidamente (com justiça; justamente) punido com uma grande variedade de mortificações, veladas (expressas em palavras, exprimidas, estando escondidas, formuladas) sob as circunstâncias inferiores de uma serpente rastejando sobre o seu ventre, e lambendo o pó. Como caíste (do céu), ó Lúcifer (Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva!)! Aquele que desejava estar acima de Deus, e liderou uma rebelião contra Ele, é aqui devidamente exposto ao desprezo, e deverá ser pisoteado. O orgulho de um homem o fará cair, e Deus humilhará aqueles que não se humilharem. (2) Detestado e odiado por toda a humanidade. Mesmo aqueles que são realmente seduzidos para os interesses do diabo, ainda professam sentir ódio e abominação por ele. E todo aquele que é nascido de Deus, conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca, 1Jo 5:18. Aqui ele é condenado a um estado de guerra e inimizade irreconciliável. (3) Destruído e arruinado, por fim (finalmente), pelo grande Redentor, que é representado pelo ferimento da sua cabeça. A sua política subtil será completamente frustrada, o seu poder usurpado será completamente esmagado, e ele será, para sempre, cativo da honra injuriada da soberania divina. Sabendo disto desde agora, o diabo já está sendo atormentado antes da hora (do tempo, do prazo).

2. Uma disputa (altercação, discórdia, questão, desavença, rixa; motivo de queixa) eterna aqui tem início, entre o reino de Deus, e o reino do diabo entre os homens. Uma guerra é proclamada entre a semente da mulher e a semente da serpente. Aquela batalha no Céu, entre Miguel e o dragão, teve início agora, Ap 12:7. Observe os frutos desta inimizade: (1) O facto de que existe um conflito contínuo entre a graça e a corrupção, nos corações do povo de Deus. Satanás, por meio das suas corrupções, ataca-os, golpeia-os, testa-os (peneira-os, joeira-os, passa-os pelo crivo, ciranda-os; examina-os minuciosamente, esquadrinha-os) e tenta (procura, busca; tenta conseguir, procura obter, esforça-se por) devorá-los. Eles, pelo exercício das suas graças, resistem-lhe, lutam com ele, extinguem (apagam) os seus dardos inflamados, e forçam-no (obrigam-no) a fugir deles. O Céu e o inferno nunca se poderão reconciliar, nem a luz e as trevas. Muito menos Satanás e uma alma santificada, pois um é absolutamente contrário ao outro porque (visto que, porquanto) estes opõem-se um ao outro). (2) Que existe igualmente (da mesma maneira) uma luta contínua entre os ímpios e os crentes fiéis (as pessoas religiosas) neste mundo. Aqueles que amam a Deus consideram seus inimigos aqueles que O (ao precioso Senhor) odeiam, Sl 139:21, 22. E toda a fúria (raiva; cólera furiosa; acesso de raiva; furor, violência) e maldade dos perseguidores contra o povo de Deus são frutos desta inimizade, que irá continuar enquanto houver um homem piedoso neste lado do céu (fiel ao Senhor lutando pelos interesses do céu), e um homem mau neste lado do inferno (ímpio lutando pelos interesses do inferno). Não vos maravilheis, se o mundo vos aborrece, 1Jo 3:13.


3. Aqui é feita uma promessa graciosa (a respeito) de Cristo, como o libertador do homem caído devido ao poder de Satanás (Aquele que irá libertar os homens caídos do poder de Satanás). Embora o que foi dito tenha sido (houvesse sido, fosse) dirigido à serpente, também foi dito para ser ouvido pelos nossos primeiros pais que, sem dúvida, receberam as indicações (insinuações, sugestões, alusões veladas, avisos, conselhos) da graça que aqui lhes foi dada, e viram uma porta de esperança que se abria para eles. Caso contrário (Além disso; De outro modo; Mais), a sentença seguinte, proferida contra eles, tê-los-ia esmagado. Ali estava (Aqui está) o amanhecer do dia do Evangelho. Mal fomos feridos logo o remédio foi fornecido (provido, munido; abastecido), e revelado (Antes que a ferida fosse feita, o remédio foi providenciado e revelado). Aqui, no princípio do livro, como está escrito (Hb 10:7), no princípio da Bíblia, está escrito de Cristo, que Ele deve (tem de) fazer (fará) a vontade de Deus (a respeito de Cristo, e da Sua disposição para fazer a vontade de Deus Pai). Pela fé nesta promessa, temos razão para pensar que os nossos primeiros pais, e os patriarcas, antes do dilúvio, foram justificados e salvos. Também podemos ter a certeza de que esperaram ansiosamente por esta promessa, e pelos seus benefícios, servindo a Deus de dia e de noite. Aqui três coisas lhes são ditas, a respeito de Cristo: (1) A Sua encarnação, de que Ele seria a semente da mulher, a semente daquela mulher. Portanto, a Sua genealogia (Lc 3:1-38) vai tão alto, a ponto de mostrar que Ele era filho de Adão, mas Deus dá à mulher a honra de O chamar da sua semente (dela), porque foi ela a quem o diabo enganou, e nela Adão tinha lançado a culpa. Aqui, (Sobre este assunto, Assim, Neste lugar) Deus engrandece a Sua graça pelo facto de que, embora a mulher tivesse sido a primeira na transgressão, ainda assim ela seria salva dando à luz filhos (assim alguns interpretam), isto é, pela semente prometida que descenderia (proviria, procederia, derivaria, se originaria) dela, 1Tm 2:15. Também (Da mesma maneira, Igualmente, Do mesmo modo), Ele deveria ser a semente de uma mulher solteira, de uma virgem, para que não fosse manchado pela corrupção da nossa natureza. O Senhor Jesus foi enviado, nascido de mulher (Gl 4:4), para que esta promessa pudesse ser cumprida. É um grande encorajamento para os pecadores que o seu Salvador é (seja) a semente da mulher, osso dos nossos ossos, Hb 2:11, 14. O homem é, portanto, pecador e impuro porque é nascido (nasce) de uma mulher (Jb 25:4), e, portanto, os seus dias são cheios de inquietação (de problemas), Jb 14:1. Mas a semente da mulher se fez (foi feita) pecado e uma maldição por nós, para nos salvar de ambos (salvando-nos, desta maneira, tanto do pecado como da maldição). (2) Os Seus sofrimentos e (a Sua) morte, indicados pelo facto de que Satanás fere o seu calcanhar, isto é, a Sua natureza humana. Satanás tentou a Cristo no deserto, para O atrair ao pecado. E, alguns pensam que foi Satanás que aterrorizou Cristo na Sua agonia, para O levar ao desespero. Foi o diabo que colocou no coração de Judas o desejo de trair a Cristo. No de Pedro, o de O negar. No dos principais dos sacerdotes, o de O levar a juízo. No das falsas testemunhas, o de O acusar. E no de Pilatos, o de O condenar, e tudo isto, com o objetivo de, destruindo o Salvador, destruir e arruinar a salvação. Mas, ao contrário, foi através da morte que Cristo aniquilasse o que tinha o império da morte, Hb 2:14. O calcanhar de Cristo foi ferido quando os Seus pés foram perfurados e pregados na cruz, e os sofrimentos de Cristo continuam nos sofrimentos dos santos (que sofrem) por causa do seu nome. O diabo tenta-os, lança-os na prisão, persegue-os e assassina-os (mata-os; chacina-os), ferindo, desta maneira, o calcanhar de Cristo, que é afligido nas suas aflições (deles) (que Se aflige com as aflições dos Seus servos amados). Mas, enquanto o calcanhar é ferido na terra, temos um conforto: a cabeça está a salvo (segura, em segurança, fora de perigo; sã e salva), no Céu. (3) A Sua vitória sobre Satanás, em ligação com isso (consequentemente, por meio disso; nisso; ligado a isso). Satanás tinha agora maltratado a mulher, e tinha-a insultado. Mas a semente da mulher devia ser levantada (erguer-se-ia), na plenitude do tempo, para vingar a contenda pela mulher, e para pisotear a serpente, para a despojar, para a aprisionar e triunfar sobre ela, Cl 2:15. Ele ferirá a sua cabeça, isto é, Ele destruirá toda a sua política, e todos os seus poderes, e destruirá completamente o seu reino e o(s) seu(s) interesse(s). Cristo frustrou as tentações de Satanás, resgatou as almas das suas mãos, expulsou-o dos corpos das pessoas, despojou o homem forte armado, e dividiu o seu despojo: Com a (Através da Sua) morte, Ele desferiu um golpe fatal e incurável no (contra o) reino do diabo, fazendo uma ferida na cabeça desta besta (fera), que nunca pode(rá) ser curada. Conforme (À medida que) o Seu Evangelho ganha terreno, Satanás cai (Lc 10:18), e é amarrado, Ap 20:2. Pela Sua graça, Ele esmaga Satanás debaixo dos pés do Seu povo (Rm 16:20), e em breve irá lançá-lo no lago de fogo e enxofre, Ap 20:10. E a derrota perpétua do diabo será a completa e eterna alegria e glória do remanescente escolhido.
  
http://www.studylight.org/commentaries/mhm/view.cgi?bk=0&ch=1



Tradução de Carlos António da Rocha

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