Phillips Brooks
A lâmpada do Senhor
“ A alma do homem é a lâmpada do Senhor.” (Pv 20:27,
ARC, Pt)
A ligação essencial entre a vida de Deus e a vida do homem é a grande
verdade do mundo; e esta é a verdade que Salomão nos apresenta nas palavras
notáveis que escolhi para meu texto esta manhã. O quadro que as palavras sugerem
é muito simples. Uma vela apagada fica no escuro, e alguém tem de acendê-la. Um
pedacinho de papel em chamas mantém o fogo ao princípio, mas é vago e
espasmódico. Chameja e oscila e a qualquer momento pode apagar. Mas a chama
vaga, incerta e cintilante toca a vela, a vela pega fogo e imediatamente temos
uma chama fixa. Queima ininterrupta, clara e constantemente. A vela dá ao fogo
um ponto de manifestação para todo o ambiente que é iluminado por ele. A vela é
glorificada pelo fogo, e o fogo é manifestado pela vela. Os dois prestam
testemunho de que foram constituídos um para o outro pelo modo no qual
satisfazem a vida um do outro. Essa satisfação vem pela maneira como a
substância inferior presta obediência à superior. A vela obedece ao fogo. A
cera dócil reconhece que a chama subtil é sua mestra, e se entrega ao seu
poder; e assim, como todo escravo fiel de um senhor nobre, dá imediatamente à
nobreza do seu senhor a chance de se exprimir, e sua própria substância é
vestida com uma glória que não lhe é própria. O granito desobediente, se
tentamos queimá-lo, não dá ao fogo a chance de mostrar o seu brilho, nem reúne
esplendor para si. Só arde com resistência taciturna, e, à medida que o calor
aumenta, racha e quebra, mas não se rende. Porém a vela obedece, e assim neste
fogo difuso acha um ponto de expressão permanente e clara.
Não vemos, com tal quadro nítido diante de nós, o que quer dizer quando é
dito que um ser é a vela de outro ser? Há na comunidade um homem de caráter
grandioso e rico, cuja influência percorre todos os lugares. Você não pode
falar com cada homem em toda a cidade, mas você obtém, mostrado pelas maneiras
próprias daquele homem, o pensamento, o sentimento daquele homem central que
ensina toda a comunidade a pensar, a sentir. Até os meninos captam algo do
poder dele, e têm algo sobre si que não existiria se ele não morasse na cidade.
Que descrição melhor você daria de tudo isso, do que dizer que a vida daquele
homem era fogo, e que as vidas de todos os outros, velas que ele acendeu, que
deu à natureza rica, quente, viva e fértil que havia nele pontos multiplicados
de exibição permanente, de forma que ele iluminou a cidade por eles? Ou, para
não olhar tão amplamente, tenho pena de você se no círculo da sua casa não há
uma natureza morna e viva que seja seu fogo. A sua natureza, uma vela fria e
escura tocada por esse fogo, queima luminosa e claramente. Para onde quer que
você seja levado, talvez em regiões onde essa natureza não possa ir, você leva
o fogo e monta-o num lugar novo. Não, o fogo em si pode ter mitigado, a
natureza pode ter desaparecido da terra e ido para o céu; e, não obstante, a
sua vida, a vela, que foi acendida nesse fogo ainda mantém o fogo no mundo,
como o fogo do raio vive na árvore que atingiu, muito tempo depois de o próprio
raio fugaz ter terminado asua vida curta e quente e ter morrido. Assim o homem
no escritório de contabilidade é a vela da mulher que fica em casa, fazendo que
a influência suave dela seja sentida nos lugares ásperos do comércio, onde os
pés dela nunca vão. Assim o homem que para a cidade, vive como inspiração à
honestidade, pureza e caridade, só pode ser a vela em cujas vidas obedientes
ainda queima o fogo de outro homem forte e verdadeiro que era seu pai, e que
passou da vista dos homens uma vintena de anos atrás. Os homens chamam o pai de
morto, mas ele não está mais morto que a tocha apagada que iluminava o farol
que está brilhando no monte.
E agora, concernente a toda essa iluminação de vida em vida, duas coisas
são evidentes, as mesmas duas que apareceram na história da vela e sua chama:
Primeiramente, tem de haver uma correspondência de natureza entre as duas
vidas; e em segundo lugar, tem de haver uma obediência sincera da menor para a
maior. A natureza que não sente o calor de outra natureza, mesmo que lhe seja
mantida próxima; c a natureza que recusa ser mantida onde a chama da outra
natureza pode alcançá-la — ambas têm de ficar apagadas, pouco importando quão
ardentemente o fogo da vida superior queime.
Penso que estamos prontos para nos voltarmos a Salomão, ler suas palavras
novamente e entendê-las. “A alma do homem é a vela do Senhor”, declara ele.
Deus é o fogo deste mundo, seu princípio vital, uma presença terna e penetrante
em todos os lugares. Que coisa da natureza exterior pode nos pintar o
pensamento misterioso, subtil, ativo, vivo, produtivo e destrutivo, que sempre
tem levantado o coração dos homens e lhes solenizado a face quando dizem a
palavra “Deus”, conforme esta coisa estranha, tão divina, tão sobrenatural, tão
terrível e contudo tão graciosa; tão plena de criatividade, e não obstante tão
vivaz e feroz para tirar tudo o que se opõe cm seu caminho — esta maravilha,
esta beleza, esta glória e este mistério de fogo? Os homens sempre sentiram a
aptidão da figura; c o fogo sempre se reuniu, mais perto de todos os elementos
terrenos, em volta do trono no qual a concepção que os homens têm da deidade
assentou-se. E agora deste fogo a alma do homem é a vela. O que significa isso?
Se, pelo fato de o homem ser de natureza correspondente à natureza de Deus, e
na medida em que o homem é obediente a Deus, a vida de Deus, que é disseminada
ao longo do universo, reúne-se na elocução; e os homens e, sim, todas as outras
coisas, se tais seres há capazes de observar nossa humanidade, vêem o que Deus
é contemplando o homem a quem Ele inflamou, então a figura não é clara?
Trata-se de um pensamento maravilhoso, mas está bastante nítido.
Aqui está o universo, cheio do fogo difuso da divindade. Os homens o sentem
no ar, quando sentem um calor intenso que não desatou em chamas. Este é o
significado de grande parte da majestade inexplicada e misteriosa da vida, da
qual os que estão plenamente em seu poder estão parcialmente cientes. É a
sensação de Deus, sentida mas não vista, como atmosfera carregada de calor que
não irrompe em fogo. Agora em meio a este mundo solene e sobrecarregado,
levanta-se um homem, puro, semelhante a Deus e perfeitamente obediente a Ele.
Num momento, é como se o quarto aquecido tivesse encontrado um ponto sensível e
inflamável, onde pudesse acender uma chama. A vaga opressão da presença sentida
de Deus torna-se clara e definida. A intermitência da impressão da divindade é
afiançada na permanência. O mistério muda seu caráter, e é um mistério de luz,
não de escuridão. O fogo do Senhor encontrou a vela do Senhor, e queima clara e
firmemente, guiando-nos e alegrando-nos em vez de nos desnortear c nos
assustar, tão exatamente como um homem que é obediente a Deus começa a captar e
manifestar a natureza divina.
Espero que descubramos que esta verdade se aproxima muito de nossas vidas
pessoais e distintas; mas, antes que cheguemos a isso, recordemos primeiramente
com que dignidade central essa verdade veste a vida do homem no grande mundo.
Certas filosofias, pertencentes a nosso tempo, depreciariam a importância do
homem no mundo e o privariam de sua centralidade. O instinto e o orgulho
humanos rebelam-se contra elas, mas ele é confundido por sua aparência
enganadora. É realmente verdade, como é notório, que o mundo foi feito para o
homem, e que a partir do homem, ficando no centro, todas as coisas além das
quais o mundo contém, ganha seu verdadeiro valor e recebe o veredicto do seu
destino? Esta era a antiga história que a Bíblia contou. O livro de Gênesis com
o jardim do Éden e os animais obedientes esperando até que o homem lhes
dissesse como deviam ser chamados, tangeu firmemente, no começo do hino da
história do mundo, a grande nota da centralidade do homem. E o jardim do Éden,
nesta sua primeira idéia, repete-se em cada cabana das florestas ocidentais ou
das selvas meridionais onde um novo Adão e uma nova Eva. um colono solitário e
sua esposa, começam novamente a história humana. Lá, mais uma vez, a nota do
Gênesis é soada, e o homem afirma sua centralidade. A floresta aguarda para obter
a cor da vida do homem. Os animais hesitam com medo ou raiva até que ele os
domestique para seu serviço ou os despeça. A terra debaixo dos pés do homem
celebra a fertilidade a seu comando e responde a convocação das sementes de
grãos ou de flores. O próprio céu sobre sua cabeça o respeita, e o que ele faz
na terra ecoa nas mudanças climáticas e na pressa ou lentidão das tempestades.
Esta é a grande impressão que toda a vida mais simples do homem sempre está
criando, e com a qual as filosofias, que fariam pouco caso da separação e
centralidade da vida do homem, sempre têm de lutar. E esta é a impressão que é
tomada, fortalecida, esclarecida e retirada de um orgulho insignificante de uma
dignidade suprema e uma responsabilidade solene, quando temos tal mensagem como
a de Salomão. Ele diz que a verdadeira separação, superioridade e centralidade
do homem está na semelhança da natureza de Deus. e na capacidade de obediência
espiritual a Ele, em virtude da qual o homem pode ser a declaração e
manifestação de Deus para todo o mundo. Contanto que essa verdade permaneça, a
centralidade do homem é certa. “A alma do homem é a vela do Senhor'.
Esta é a verdade sobre a qual desejo falar hoje: a revelação perpétua de
Deus através da vida humana. Você tem de se perguntar primeiramente o que é
Deus. Você tem de perceber como no próprio âmago da existência divina, conforme
você a concebe, acham-se estes dois pensamentos — propósito e justiça —; o
quanto é absolutamente impossível dar a Deus uma personalidade, exceto de acordo
com a concretização destas duas qualidades: a inteligência que planeja em amor
e a justiça que vive em dever. Então se pergunte como poderia existir na terra
o conhecimento dessas qualidades, do que são, de que tipo de ser farão em sua
combinação perfeita, se não houvesse uma natureza humana na qual eles se
expressassem, da qual brilhassem. Só uma pessoa pode expressar uma pessoa
verdadeiramente. Um caráter só pode ser ecoado através de outro caráter. Você
pode escrever pelo céu inteiro que Deus é justo, mas isto não arderia lá.
Seria, na melhor das hipóteses, apenas um pouco de conhecimento; nunca um
evangelho, ou algo que alegraria o coração dos homens em saber. Isto só ocorre
quando a vida humana, capaz de uma justiça como a de Deus, justificada por Deus,
brilha com a sua justiça aos olhos dos homens, uma vela do Senhor.
Insinuei há pouco uma coisa que precisamos observar. A expressão de Deus
feita através do homem é puramente uma expressão de qualidade. Não me diz nada
acerca das quantidades que compõem sua vida perfeita. Que Deus é justo e o que
deve ser justo — essas coisas eu aprendo pela vida justa de homens justos
acerca de mim; mas quanto Deus é justo, a que perfeição inconcebível, a que
desenvolvimento inesperado de si mesmo, a qualidade majestosa da justiça pode
se estender nEle — da qual não posso formar julgamento que valha algo, da
justiça que vejo no membro da raça humana. Isto me parece ampliar de imediato o
âmbito da verdade que estou declarando. Se é a qualidade de Deus que o homem é
capaz de expressar, então deve ser a qualidade do gênero humano que é
necessária à expressão; a qualidade do gênero humano, mas não uma quantidade
específica, nem um grau designativo da grandeza humana. Quem tem em si a
qualidade humana, quem tem realmente o espírito do homem, pode ser uma vela do
Senhor. I ma medida maior do espírito torna mais luminosa a luz; mas tem de
haver uma luz onde quer que o ser humano, em virtude da sua humanidade,
torna-se pela obediência luminoso com Deus.
Há homens de gênio espiritual sublime, os líderes de nossa raça. Como eles
se salientam na história! Todos os homens sentem, quando na presença desses
líderes, que estão diante da luz de Deus! Eles ficam confundidos quando tentam
explicar. Não há nada mais instrutivo e sugestivo que a confusão que os homens
sentem quando tentam contar o que é inspiração — como os homens ficam
inspirados. As linhas que eles traçam pela comunicação ininterrupta entre Deus
e o homem sempre ficam instáveis e confusas. Mas em geral, aquele que entra na
presença de uma natureza poderosa, cujo poder é de tipo absolutamente
espiritual, sente-se seguro de que, de alguma forma, ele está entrando na
presença de Deus. Contudo seria melancólico se somente os grandes homens
pudessem nos dar esta convicção. O mundo seria mais obscuro do que é se todo o
espírito humano, tão logo ficasse obediente, não se tornasse a vela do Senhor.
Uma pessoa pobre, desprovida, sofrida, ferida, se apenas mantém a verdadeira
qualidade humana e não fica inumana, e se é obediente a Deus de maneira cega,
surda e semi-consciente, torna-se luz. Aqueles que se encontram ainda mais em
trevas tornam-se vagamente cientes de Deus através desta pessoa. Uma simples
criança, na sua pura humanidade e com a inclinação fácil e instintiva de sua vida
para Deus, de quem ela veio — é uma das trivialidades nos lares acerca de
quantas vezes a criança pode arder com alguma sugestão da divindade, e lançar
luz nos problemas e mistérios cuja dificuldade ela própria nunca sentiu.
Há velas grandes e velas pequenas ardendo em todos os lugares. O mundo é
luminoso com elas. Você fechou o livro no qual mantinha comunhão com uma das
grandes pessoas de todos os tempos; e enquanto você permanece na luz que ela
espalha em torno de si, seu filho a seu lado lhe diz algo simples e pueril, e
uma nova linha de sabedoria iluminada percorre pelos doces e sutis pensamentos
que o grande pensador lhe deu, assim como a luz de uma vela pequena envia seu
ponteiro especial de brilho através do esplendor penetrante de um mundo iluminado
pelo sol. Não é estranho. O fogo é o mesmo, qualquer que seja a luminária
humana que dê sua expressão. Não há vida tão humilde que, se for verdadeira e
genuinamente humana e obediente a Deus, não possa disseminar a luz divina. Não
há pessoa tão pobre que os maiores e mais sábios de nós possam se dar ao luxo
de menosprezá-la. Não sabemos em que momento súbito a vida brilha com a vida de
Deus.
E nesta nossa verdade, temos a chave de outro mistério que por vezes nos
confunde. O que faremos de um rico em realizações e em aspirações generosas, de
boas maneiras, bem-educado, que se instruiu para ser luz e ajudar outros, mas
que, agora que seu treinamento esta completo, levanta-se no meio dos membros da
raça humana completamente na escuridão e desprovido de poder? Há muitos de tais
homens. Todos os conhecemos, os quais viram como os homens cresceram. Seus
irmãos ficam em volta deles esperando deles a luz, mas a luz não vem. Eles
mesmos ficam admirados. Eles se formaram para a influencia, mas ninguém os
reconhece. Eles se inflamaram para dar luz. mas ninguém brilha de volta uma
resposta agradecida. Talvez eles culpem os membros da raça humana que são muito
tolos para ver o esplendor que dão. Talvez só desejem saber qual é o problema.
e esperam, com uma esperança que nunca morre totalmente no desespero, pelo
muito demorado reconhecimento c gratidão. No fim, morrem, e os homens que lhes
volteiam o sepulcro sentem que a coisa mais triste sobre a morte deles é que o
mundo não está perceptivelmente mais escuro do que antes. O que significa? Se
deixarmos a verdade da figura de Salomão desempenhar seu papel, o significado
da figura familiar não é: Estes homens são velas apagadas; eles são o espírito
do homem, elaborado, cultivado, em seu melhor primor, mas no qual falta o
último toque de Deus. Tão escuro quanto uma fileira de luminárias prateadas,
todas cinzeladas e forjadas com habilidade maravilhosa, todas providas do óleo
mais raro, porém intactas pelo fogo, tão escuro neste mundo é uma longínqua
fileira de homens cultos, postados ao longo dos corredores de uma era da
história, ao redor dos saguões de uma universidade ou nos púlpitos de uma
igreja imponente, a quem não chegou o fogo da devoção, que ficam em temor e reverência
diante de sabedoria não maior que a própria, que são orgulhosos e egoístas, que
não sabem o que é obedecer.
Há uma explicação do seu espanto quando você se apega estreitamente a um
homem a quem o mundo chama brilhante, e descobre que você mesmo não obtém
brilho dele. Há uma explicação de você, ó homem perplexo, que nunca pode
entender a razão de o mundo não se voltar para você em auxílio. O mundo pobre e
cego não pode contar a necessidade que tem, analisar o instinto que possui, nem
dizer por que busca um homem e deixa outro; mas por seus olhos cegos, sabe
quando o fogo de Deus cai numa vida humana. Este é o significado da
prestimosidade estranha que surge no homem quando ele é verdadeiramente
convertido. Não se trata de uma verdade nova que ele aprendeu, nem de
maravilhas novas que ele pode fazer, trata-se da natureza apagada, que na
obediência e submissão absolutas daquela grande hora, foi levantada e iluminada
na vida de Deus e agora arde com Ele.
Mas não é a pior coisa na vida para um homem ser destituído de poder ou de
influência. Há homens o bastante por quem agradeceríamos a Deus se não
causassem dano, mesmo que não fizessem nenhum bem. Não me deterei agora para
questionar se tal coisa é possível, como uma vida ficar totalmente sem influência
de qualquer tipo, se talvez os homens de quem tenho falado também não pertençam
à classe de que quero falar a seguir. Por mais que seja, estou certo de que
você reconhecerá o fato de que há uma multidão de homens cujas candeias não
estão apagadas, e contudo não são as velas do Senhor. Uma natureza preenchida
ricamente até à borda, um homem de conhecimento, de perspicácia, de habilidade,
de pensamento, com as mesmas graças do corpo perfeito, e não obstante profano,
impuro, mundano e difundindo ceticismo de todo o bem e verdade acerca dele por
onde quer que vá — a sua vela não está apagada. Ele brilha tão intensa e
vividamente que as luzes mais puras ficam escuras por seu clarão. Mas se é
possível para a vela humana, quando tudo está pronto, quando os componentes
sutis de uma natureza humana estão todos cuidadosamente entrosados; se é
possível que, em vez de ser erguido ao céu e inflamado no puro ser daquEle que
é eterna e absolutamente bom, ser mergulhado no inferno e consumido nas chamas
do terrível enxofre do inferno, então podemos entender a visão de um homem que
é rico em toda qualidade humana brilhante, amaldiçoando o mundo com a exibição
ininterrupta do diabólico em vez do divino em sua vida.
Quando o poder do amor puro aparece como capacidade de luxaria brutal;
quando a ingenuidade santa com que o homem busca o caráter do membro da raça
humana, para que ele o ajude a ser o melhor que pode, é transformado na
habilidade profana com a qual o homem ruim estuda sua vítima, a fim de que ele
saiba como tornar sua condenação mais completa. Quando o magnetismo quase
divino que é dado ao homem para que instile fé e esperança em alguém que nele
confia, é usado para respirar dúvida e desespero em toda a substância da alma
confiante de um amigo. Quando as faculdades mentais, que devem embelezar a
verdade, são deliberadamente prostituídas a serviço da mentira. Quando a
seriedade é degradada para ser escrava da blasfémia, e a reputação do escravo é
transformada em manto para a vergonha do senhor, em todos estes casos, e quão
frequentes são entre nós ninguém deixa de perceber, você tem o espírito do
homem inflamado de baixo, não de cima. a vela do Senhor ardendo com o fogo do
Diabo. Ainda queimará; ainda a inflamabilidade nativa da humanidade se
mostrará. Haverá luz; haverá poder; e homens que querem nada mais que luz e
poder irão a ela.
É maravilhoso como o mero poder, ou o mero brilho, completamente separado
do trabalho que o poder está fazendo e da história que o brilho tem a contar,
ganhará a confiança e admiração de homens de quem esperaríamos coisas melhores.
Um livro ou uma peça brilhantes atrairá multidões, ainda que seu significado
seja detestável. Um homem esperto fará um grupo de meninos e homens ficar como
pássaros encantados enquanto ele silenciosamente lhes arranca os princípios e
os deixa como ignorantes morais. Muitos da comunidade se apressarão como
ovelhas tolas para as eleições e votarão em quem eles sabem que c falso e
brutal, porque aprenderam a dizer que ele é forte. Tudo isso é efetivamente
verdade; e não obstante, enquanto os homens fazem estas coisas loucas e tolas,
eles conhecem a diferença entre a iluminação de uma vida humana que é inflamada
de cima e da que é inflamada de baixo. Eles reconhecem as chamas puras de um e
o clarão lúrido de outro; e por mais que louvem e sigam a inteligência e o
poder, como se ser inteligente ou poderoso fosse um fim suficiente em si mesmo,
eles sempre manterão o mais sagrado respeito e confiança por aquela inteligência
mais pobre que é inspirada por Deus e que trabalha pela justiça.
Há ainda outro modo, mais subtil e às vezes mais perigoso que estes, no
qual o espírito do homem pode falhar em sua função mais completa como vela do
Senhor. A candeia pode estar acesa, e o fogo no qual está iluminada seja
realmente o fogo de Deus, e contudo pode não ser somente Deus quem brilha no
mundo. Posso imaginar uma vela que de algum modo mistura uma peculiaridade de
sua própria substância com a luz que dispensa, dando à luz um matiz que não
pertencia essencialmente ao fogo no qual foi aceso. Homens que a viram, veriam
não só o brilho do fogo. Também veriam o tom e a cor da candeia. E assim,
penso, é com o modo no qual Deus é manifestado através de alguns homens bons.
Eles de fato acenderam a vida nEle. É o fogo do Senhor que neles queima. Eles
são obedientes, e assim Ele os torna pontos de sua exposição; mas eles não
podem se livrar de si mesmos. Estão misturados com o Deus que eles mostram.
Eles se mostram como também o mostram. É como quando um espelho mistura a
própria forma com os reflexos das coisas que são refletidas nele, e lhes dá
convexidade curiosa porque ele é em si mesmo convexo. Este é o segredo de todo
fanatismo piedoso, de todo preconceito santo. É a vela pondo a própria cor na
chama que tomou emprestado do fogo de Deus. O homem violento faz Deus parecer
violento. O homem especulativo faz Deus parecer um sonho bonito. O homem
legalista faz Deus parecer uma lei dura e acerada. É daqui que surge toda
facção severa e estreita de sectarismo. A estreiteza do presbiteriano ou do
metodista, ou do anglicano ou do quacre, cheio de devoção, realmente em chamas
com Deus — o que é ele senão uma vela que sempre dá à chama sua cor, e que. por
uma disposição que muitos homens têm em valorizar as pequenas coisas da vida
mais do que as grandes, torna menor o brilho essencial da chama do que a cor
especial que lhe empresta?
Minhas palavras talvez pareçam lançar um pouco de desprezo ou dúvida
naquele elemento individual e distinto na religião de todo homem, sobre o qual,
pelo contrário, dou o mais alto valor. Todo homem que é cristão tem de viver
uma vida cristã que lhe seja peculiarmente própria. Toda vela do Senhor tem de
expressar sua luz peculiar. Somente a verdadeira individualidade da fé é
marcada por estas características que a salvam do fanatismo; primeiramente, não
agrega algo à luz universal, mas só lhe tira fortemente algum aspecto que lhe
seja especificamente próprio. Em segundo lugar, sempre se preocupa mais com a
luz essencial do que com o modo peculiar no qual a expressa. Em terceiro lugar,
facilmente mistura com outras expressões especiais da luz universal, em
simpatia e reconhecimento sinceros do valor que se acha nelas. Que estas
características estejam na religião de todo homem, e então a individualidade da
fé é um ganho inestimável. Então as velas diferentes do Senhor brilham em
longas fileiras pelos grandes saguões do seu palácio do mundo; e todas juntas,
cada uma complementando as demais, iluminam todo o vasto espaço com Ele.
Tentei descrever algumas das dificuldades que assediam a exibição plena no
mundo desta grande verdade de Salomão, que “a alma do homem é a vela do
Senhor”. O homem é egoísta, desobediente e não deixará sua vida queimar. O
homem é voluntarioso, apaixonado e inflama a vida com fogo descrente. O homem é
estreito, fanático e faz com que a luz de Deus brilhe com a sua própria cor
especial. Mas iodos estes são acidentes. Todos estes são distorções da
verdadeira ideia do homem. Como sabemos? Eis o Homem perfeito, Jesus Cristo!
Que homem Ele é! Quão nobre, formosa e perfeitamente humano! Que mãos, que pés,
que olhos, que coração! Quão genuína e inconfundivelmente homem! Eu levo os
homens da minha experiência ou da minha imaginação à presença dEle. e vejam,
justamente quando o pior ou melhor deles fica aquém dEle, minha consciência
humana me assegura que eles também ficam aquém da melhor idéia do que é ser
homem. Aqui está o espírito do homem em sua perfeição. E então? Não é também a
vela do Senhor? “Eu sou a luz que vim ao mundo' (Jo 12.46), asseverou Jesus.
“Quem me vê a mim vê o Pai'1 (Jo 14.9). “Nele, estava a vida e a vida era a luz
dos homens” (Jo 1.4). Assim escreveu o homem de todos os homens que o conheceu
melhor. E nEle, onde estão as dificuldades que vimos? Por um momento, onde está
a obscuridade do egoísmo? Parece-me coisa maravilhosa que a natureza humana
supremamente rica de Jesus nunca, por um momento, tenha se voltado com
autocomplacência pela própria riqueza, ou se iludido com o perigo insistente de
todas as almas opulentas: o desejo, no mais pleno sentido, de só agradar a si
mesmo. Que fascinante é esse desejo. Quanto mantém longe da utilidade muitas
das naturezas mais abundantes do mundo. Somente para manipular reiteradamente
os seus tesouros escondidos, ter, com mesquinhez espiritual, seus pensamentos
por pura alegria de pensar e transformar a emoção na atmosfera suave de uma
vida de egoísmo cultivado. Nem um momento disso ocorreu em Jesus. Toda a vasta
riqueza de sua natureza humana só significava para Ele mais poder para
expressar Deus aos homens.
E contudo quão pura era sua vida rica. Quanto detestava queimar com
qualquer fogo que não o divino. Tal vida abundante, e ainda tal incapacidade
absoluta de alguém viver senão a vida mais santa; tal poder de queimar, e ainda
tal incapacidade absoluta de ser inflamada por qualquer tocha senão Deus; tal
abundância com tal pureza nunca foi vista sobre a terra; e contudo sabemos
quando o vemos que não é um monstro, mas é o tipo do que todos os homens devem
ser, embora todos os homens, exceto Ele, tenham fracassado em ser.
Havia intensa personalidade nEle sem um momento sequer de fanatismo. Uma
vida especial, uma vida que se levanta distinta e auto-definida entre todas as
vidas dos homens, e no entanto uma vida tornando o Deus universal o mais
universalmente manifesto por sua distinção, apelando a todas as vidas só em
proporção à intensidade da individualidade que enchia sua própria vida. Perceba
que só preciso pedir que você o veja, e você tem de ver o que é pelo qual
nossas luzes fracas estão lutando. Há o verdadeiro homem espiritual que é a
vela do Senhor, a luz que brilha em todo homem.
É distintamente uma nova ideia de vida, nova aos padrões de todo o nosso
viver usual, o qual esta verdade revela. Todos os nossos apelos ordinários aos
homens para que estejam de pé e produzam e se façam luzes brilhantes, fenecem e
tornam-se insignificantes diante desta mensagem sublime que se mostra nas
palavras de Salomão e na vida de Jesus. O que diz esta mensagem sublime? “Você
é uma parte de Deus! Você não tem lugar ou significado no mundo senão em
relação a Ele. A relação plena só pode ser percebida pela obediência. Seja
obediente a Ele, e você brilhará por sua luz e não pela própria. Então você não
será escuro, porque Ele o inflamará. Então você será tão incapaz de queimar com
falsa paixão quanto estará pronto para responder com a verdadeira. Então o
Diabo pode segurar sua tocha para você, como ele a segurou para o coração de
Jesus no deserto, e seu coração será igualmente não inflamável quanto o dEle.
Mas assim que Deus o tocar, você arderá com uma luz tão verdadeiramente sua que
você reverenciará sua própria vida misteriosa, e contudo será impossível esse
orgulho tão verdadeiramente seu”. Que filosofia de vida humana. “Não ser nada,
nada!”, clama o cantor místico em seu hino de reavivamento, desejando-se perder
em Deus. “Não, não: Ser algo, algo”, protesta o não místico, ansiando por
trabalho, ardente por vida e caráter pessoal. Onde está a reunião dos dois?
Como a submissão se encontrará com a sublime auto-estima, sem a qual nenhum
homem pode justificar seu viver e honrar-se em sua humanidade? Onde elas se
reúnem nesta verdade? O homem tem de ser algo para que ele não seja nada. O
algo que ele tem de ser tem de consistir em aptidão simples para expressar a
vida divina, que é o único poder original no universo. E então o homem não tem
de ser nada para que seja algo. Ele tem de se submeter em obediência a Deus
para que assim Deus o use de algum modo, no qual sua natureza especial só seja
usada para iluminar e ajudar o mundo. Diga-me, os dois brados não se juntam na
única aspiração do homem cristão em encontrar a vida perdendo-a em Deus, para
ser ele mesmo sendo não sua vida, mas a de Cristo?
Em certas terras, para certas cerimónias santas, eles preparam as velas com
cuidado muito meticuloso. As próprias abelhas que destilam a cera são sagradas.
Elas vagueiam em jardins plantados com flores doces só para uso delas. A cera é
juntada por mãos consagradas; e a moldagem das velas é tarefa santa, executada
em lugares santos, ao som de hinos e na atmosfera de orações. Tudo isso é feito
porque as velas serão queimadas nas cerimónias mais sublimes em dias muito
sagrados. Com que cuidado deve ser feito o homem cujo espírito c a vela do
Senhor! É o espírito dele que Deus tem de acender com o próprio Espírito.
Portanto, o espírito tem de ser parte preciosa do homem. O corpo só deve ser
estimado para proteção e educação que a alma obtém dele. E o poder pelo qual
seu espírito se tornará cm vela é a obediência. Então, a obediência deve ser o
empenho e desejo da sua vida; a obediência, não penosa e forçada, mas pronta,
amável e espontânea; a obediência do filho ao pai, da vela à chama; a execução
do dever não meramente para que o dever seja feito, mas para que a alma ao
fazê-lo se torne capaz de receber e expressar Deus; suportar a dor não
meramente porque a dor deva ser suportada, mas para que o ato de suportar torne
a alma capaz de arder com o fogo divino que o encontrou no forno; o
arrependimento do pecado e a aceitação do perdào, não meramente para que a alma
seja salva do fogo do inferno, mas para que seja tocada com o fogo do céu e
brilhe com o amor de Deus como as estrelas, para sempre. Acima de todos os
quadros da vida — do que significa, do que podemos entender — destaca-se este
quadro da alma ou do espírito humano que queima com a luz do Deus a quem ele
obedece e o mostra a outros homens. Meus jovens amigos, os velhos lhes dirão
que os mais inferiores quadros da vida e seus propósitos mostram-se ilusórios e
enganosos. Mas este quadro nunca engana a alma que tenta percebê-lo. O homem
cuja vida é a busca por tal obediência, quando afinal sua tarefa terrena tiver
sido concluída, olhará adiante das fronteiras desta vida para a outra e dirá
humildemente, assim que a história de sua vida terminar e sua oração pela vida
por vir, as palavras que Jesus disse: “Eu glorifiquei-te na terra, tendo
consumado a obra que me deste a fazer. E, agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto
de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse”
(Jo 17.4, 5).
Sermão de
Phillips Brooks, bispo de Massachusetts e pregador (1835-1893)
Clarence E. Macartney, In
Great Sermons of the World
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