… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 11 de junho de 2016

039 - Os dois laços: a Vida Eterna e a Comunhão Pessoal (1.ª Parte)



C. H. Mackintosh

Breves Meditações

039 - Os dois laços: a Vida Eterna e a Comunhão Pessoal (1.ª Parte)
No cristianismo há dois laços muito importantes que trataremos de distinguir. Um deles é o laço da vida eterna, e o outro é o laço da comunhão pessoal. Ambos são diferentes e nunca devem confundir-se; e, posto que estão intimamente relacionados, não devem separar-se jamais. O primeiro constitui o fundamento da nossa segurança; o segundo, a fonte secreta do nosso gozo e de toda a nossa fecundidade. O primeiro não pode ser quebrado jamais; o segundo, pode-o ser por milhares de coisas.

Dada a imensa importância destes laços, examinemo-los com reverência e com oração, à luz da divina inspiração.

Em primeiro lugar, com respeito ao precioso laço da vida eterna, não podemos menos que citar algumas passagens que mostram a sua origem, o que é e quando e como se forma.

Acima de tudo, devemos ter claramente presente que o homem no seu estado natural não tem nenhum conhecimento deste laço: «O que é nascido da carne é carne» (Jo 3:6 ACF). Pode ser que haja muito do que é realmente amável, grande nobreza de carácter, grande generosidade, estrita integridade; mas não há vida eterna. O primeiro laço é desconhecido. Não importa quão cultivada e elevada seja a natureza: você não pode de maneira alguma formar o grande laço da vida eterna. Pode fazer desta natureza moral, instruída, religiosa, mas enquanto que ela seja simplesmente natureza, não tem a vida eterna. Podem-se escolher as mais belas virtudes morais, e concentrá-las num indivíduo, sem que este indivíduo haja jamais sentido uma simples pulsação da vida eterna. Não estamos dizendo que estas virtudes e qualidades não sejam boas e desejáveis em si mesmas. Ninguém no seu são juízo poria isto em dúvida. Na natureza, tudo o que é bom, deve ser estimado no seu justo valor. Ninguém pensaria nem por um momento em pôr um homem sóbrio, industrioso, amável e de princípios, ao nível de um bêbado, de um ocioso, de um perverso ou de um pródigo. Do ponto de vista moral e social, existe evidentemente uma diferença enorme e muito importante. Mas, entenda-se claramente, e tenha-se bem presente, que, mediante as mais belas virtudes e as mais nobres qualidades da velha criação, jamais poderemos adquirir um lugar na nova. Não podemos, pelas excelências do primeiro Adão, por mais que se concentrem num só indivíduo, estabelecer um direito a ser membros do segundo Adão, que é Cristo. Os dois são totalmente distintos. O velho e o novo, o primeiro e o Segundo. “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.” (Jo 3:6 ACF) “De modo que se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas passaram; eis aqui todas são feitas novas” (João 3:6; 2 Coríntios 5:17).

Nada pode ser mais explícito, mais concludente que a última citação de 2 Coríntios 5: “As coisas velhas” —qualquer que seja a sua natureza— “passaram”. A sua existência não é reconhecida na nova criação, onde “tudo provém de Deus” (v. 18). O antigo fundamento foi completamente removido e, na Redenção, têm-se lançado novos alicerces. Não há uma só partícula do velho material, empregado no novo. “Todas as coisas são feitas novas”: “tudo provém de Deus”. Os vasos da antiga criação foram postos de lado e, em seu lugar, foram postos os da Redenção. A vestimenta da antiga criação foi desprezada, e a nova, a impecável roupa da Redenção, substituiu-a. A mão do homem jamais teceu um só fio, nem pôs um só ponto nesta bela roupa. Como o sabemos? Como podemos falar com semelhante confiança e autoridade? Dizemo-lo, pela autoridade divina e pela voz concludente da Santa Escritura, que declara que na nova criação “tudo provém de Deus”. Louvado seja o Senhor de que assim seja! Esta verdade faz com que tudo seja tão seguro, põe todas as coisas numa posição que está inteiramente fora do alcance do poder do inimigo. O adversário não pode tocar em nada, nem a ninguém na nova criação.

A morte é o limite do domínio de Satanás. Os seus domínios não se estendem para além da tumba; mas a nova criação começa do outro lado da morte. Descobrimo-la quando dirigimos o nosso olhar desde aquela tumba onde o Príncipe da vida foi sepultado, até ao Céu. Ela esparge sobre nós os brilhantes raios das suas glórias por entre um cenário, onde a morte não pode jamais entrar, onde o pecado e a aflição são desconhecidos, onde o silvo da serpente jamais pode ser ouvido e os seus odiosos rastros vistos. “Tudo provém de Deus”.

Agora bem, se este aspecto da nova criação fosse compreendido claramente, resolveria um sem número de dificuldades, acalmaria as perplexidades do coração e simplificaria as coisas de maneira notável. Se olharmos ao nosso redor, ao que se chama o mundo religioso, ou à igreja professante, o que vemos? Um sem número de esforços para melhorar o homem na sua condição adâmica, natural ou da velha criação. A filantropia, a ciência, a filosofia, a religião põem-se em jogo. Todo o tipo de alavanca moral se põe em acção com o objecto de elevar o homem na escala da existência. O que querem dizer os homens quando falam de «elevar as massas»? Quão longe podem chegar nas suas acções? Até que grau as poderiam elevar? Poderiam localizá-las na nova criação? Certamente que não, sabendo que nesta criação “tudo provém de Deus”.

Mas então, o que são estas «massas» que os homens procuram elevar? São elas nascidas da carne ou do Espírito? Da carne certamente! Mas, então “o que é nascido da carne, carne é.” Você pode elevar a carne tão alto como lhe agrade. Pode aplicar a mais poderosa alavanca e fazê-la subir ao ponto mais elevado ao qual se possa chegar. Pode educá-la, cultivá-la e refiná-la, tanto quanto o queira. Que a ciência, a filosofia, a religião (assim chamada) e a filantropia ponham ao seu dispor todos os seus recursos; com tudo isso, o que se consegue obter? Não se pode fazer da carne, espírito. Não é possível introduzi-la na nova criação. Não se pode formar o primeiro grande vínculo da vida eterna. Você não terá feito absolutamente nada pelo homem, ainda que pelo melhor deles; não terá feito nada pelo seu interesse espiritual e eterno. Tê-lo-á deixado no seu antigo estado adâmico, nas circunstâncias da velha criação. Tê-lo-á deixado nos seus perigos, na sua responsabilidade, nos seus pecados, na sua culpabilidade; tê-lo-á deixado exposto à justa ira de um Deus que aborrece o pecado. Pode ser que seja mais cultivado no seu estado de pecado, mas é de todas as maneiras culpado. A cultura não pode tirar a culpa; a educação não pode apagar os pecados; a civilização não pode dissipar do horizonte do homem as sombras e as pesadas nuvens da morte e do juízo.

Que não se nos vá interpretar mal. Não é nossa intenção menosprezar a educação nem a civilização, a filantropia nem a verdadeira filosofia. O que queremos —e afirmamo-lo com total claridade— é que se tenham estas coisas pelo que realmente merecem, que sejam estimadas no seu justo valor. Estamos dispostos a deixar a margem mais ampla que se requeira para incluir todas as vantagens possíveis da educação em todos os seus ramos. Concedido isto, retomemos com renovadas forças à nossa tese, ou seja: que na educação das «massas» se eleva precisamente o que não tem nenhuma existência diante de Deus, nenhum lugar na nova criação. Pois bem, repetimo-lo com ênfase e insistimos com energia neste ponto: que até que não se haja feito entrar a alma na nova criação, nada absolutamente se terá feito por ela no que respeita à eternidade, ao Céu e a Deus. É certo que se pode aplainar o caminho do homem neste mundo; que se podem polir do grande caminho da vida humana algumas asperezas; que se pode alimentar a carne no seio enganoso do luxo e das comodidades; que se pode fazer tudo isto e muito mais; que se pode coroar a cabeça do homem com os mais apreciados louros que o homem tenha podido ganhar, nas distintas arenas, competindo na sua luta pela fama. Você pode adornar o seu nome com todos os títulos que jamais haja recebido um mortal, e, depois de tudo isto, deixá-lo nos seus pecados, exposto à morte e à condenação eterna. Se o primeiro grande laço não se forma, a alma é como uma embarcação desprendida das suas amarras e impelida pelos ventos borrascosos no meio do mar agitado, sem timão nem bússola.

Queremos chamar seriamente a atenção do leitor sobre este ponto, pois sentimos profundamente a sua imensa importância prática. Cremos que é difícil achar uma verdade à qual o inimigo faça uma oposição mais ardente e mais constante que a da nova criação. Ele conhece perfeitamente a sua poderosa influência moral, o poder que tem sobre a alma para desprendê-la das coisas presentes, para produzir a renuncia ao mundo, para elevá-la de maneira prática e habitual, acima das coisas presentes e sensíveis. Daí que o seu esforço se concentre em manter as pessoas sempre ocupadas na desventurada tarefa de tratar de elevar a natureza e de melhorar o mundo. Não tem nenhuma objecção contra a moralidade, ou a religião, como tais, em todas suas formas. Servir-se-á do próprio cristianismo como meio para melhorar a velha natureza. A sua obra mestra é, sem dúvida, é coser como uma «nova peça» a religião cristã, sobre o «velho vestido» da natureza caída. Você pode fazer o que quiser sempre e enquanto que deixe o homem na antiga criação; porque Satanás sabe muito bem que em todo o tempo que você o deixe ali, permanecerá nas suas garras. Tudo o que seja da antiga criação acha-se nas garras de Satanás e dentro do alcance das suas armas. Tudo o que pertence à nova criação escapa ao seu poder. “O que é engendrado de Deus guarda-se, e o maligno não lhe toca” (1ª João 5:18 , Versão Moderna castelhana). Não diz que o crente se guarda a si mesmo, e o maligno não lhe toca. O crente é um ser complexo que se compõe de duas naturezas: a velha e a nova, a carne e o espírito, e se ele não vigia, “o maligno” imediatamente o tocará e o transtornará. Mas, a natureza divina, a nova criação, não pode ser tocada, e enquanto isso marchemos na energia desta natureza divina, e respiremos a atmosfera desta nova criação, estaremos perfeitamente resguardados de todos os assaltos do inimigo.

http://www.verdadespreciosas.com.ar/index.html 


Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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