João Wesley
A salvação pela fé
Sermão
NOTAS INTRODUTÓRIAS
ESTE sermão foi pregado por Wesley perante a
Universidade de Oxford, em 11 de junho de 1738, dezoito dias depois da
experiência consciente de sua nova vida. Consiste ele de três partes: definição
da fé, definição da salvação e resposta às objeções.
Desde muitos anos Wesley procurava a salvação
mediante às obras da lei. Mesmo tendo chegado a ponto de estabelecer sua
própria justiça pela oração, jejuns e boas obras, não encontrou, entretanto, a
pérola de grande preço. Finalmente foi ele convencido por Peter Böhler, o
morávio, de que a salvação vem pela fé —e vem quando a alma põe sua confiança
em Cristo, o Salvador. Como este sermão foi o resultado imediato de sua
conversão, é oportuno relatar a experiência do pregador, servindo-nos, para tanto,
de suas próprias palavras:
“No dia seguinte, pois, ele (Peter
Böhler), veio outra vez, com três outros, e todos testificaram sua experiência
pessoal, unânimes no sentido de ser a verdadeira e viva fé em Cristo
inseparável do sentimento de perdão de todos os pecados passados e de
libertação de todos os pecados presentes. Aduziram a uma só voz, que essa fé é
um dom, um livre dom de Deus; e que Ele certamente o concederia a toda alma que
profunda e perseverantemente o buscasse. Eu não estava perfeitamente
convencido, mas pela graça de Deus resolvi buscar esse dom até o fim, primeiro
— renunciando, em absoluto, a toda dependência, total ou parcial, de minhas
próprias obras ou justiça, nas quais havia realmente fundado minha
esperança de salvação, embora não a conhecesse desde a mocidade; segundo —
acrescentando ao uso constante de todos os outros meios de graça, a súplica
insistente por esse objetivo, isto é, pela justificação, graça salvadora e
plena confiança no sangue de Cristo derramado por mim, confiança posta
nele como meu Cristo, minha única justificação, santificação e
redenção.
Continuei assim a buscá-lo (embora
com estranha indiferença, negligência, frieza e desusadas e frequentes recaídas
em pecado), até quarta-feira, 24 de maio. Penso que era cerca de cinco horas da
manhã quando abri meu Testamento nestas palavras: τι μεγιστα ημιν και τιμια
επαγγελματα δεδωρηται, iνα γeνησθε θεiας κοινωνοi φuσεως: “Foram-nos dadas
excessivamente grandes e preciosas promessas, de que seremos participantes da
natureza divina”. (2Pd 1.4). Quando estava a sair, abri outra vez o livro
nestas palavras:
“Não estás longe do reino de
Deus”. À tarde me pediram fosse à igreja de S. Paulo. A antífona era: “Das
profundezas te clamei, ó Senhor; Senhor, ouve minha voz. Oh! que teus ouvidos
considerem bem a voz do meu clamor. Se tu, Senhor, fores ao extremo de notar o
que é feito perversamente, ó Senhor, quem subsistirá em tua presença? Porque em
ti há misericórdia; por isso tu serás temido. Ó Israel, confia no Senhor;
porque no Senhor há misericórdia, e nele a salvação é abundante. E ele redimirá
a Israel de todos os seus pecados”.
Pela tardinha fui de muito má
vontade a uma sociedade à rua Aldersgate, onde alguém estava lendo o prefácio
de Lutero à Epístola aos Romanos. Cerca de um quarto para as nove, enquanto ele
descrevia a mudança que Deus opera no coração através da fé em Cristo, senti
meu coração aquecido de maneira estranha. Senti e confiei em Cristo, Cristo só,
para a salvação; e foi-me dada a segurança de que Ele havia tirado meus pecados,
salvando-me da lei do pecado e da morte”.
Foi assim que Wesley subiu degrau
a degrau, até alcançar a grande bênção da consciência do perdão. O Espírito
Santo selou a verdade em seu coração, e debaixo dessa santa influência ele se
entregou totalmente ao Senhor, por um ato de fé no Salvador dos homens. Então
Wesley se tornou habilitado a dizer: “Seu sangue foi derramado por mim; Ele
é meu Salvador”. Como ele descreve essa fé no sermão seguinte, assim
também descreve a salvação que a acompanha. A consciência da salvação do pecado
é ilustrada, por sua própria experiência:
“Após meu regresso à casa, fui
muito perseguido por tentações; mas, louvando em voz alta, elas fugiam;
voltaram repetidamente, e repetidamente levantei os olhos, sempre verificando
que Ele “mandou-me auxilio de seu santo lugar”. Nisto achei em que
principalmente consistia a diferença entre este meu estado e o estado
primitivo. Estava lutando, sim, e combatendo com todas as minhas forças, tanto
debaixo da lei como debaixo da graça. Mas então eu era algumas vezes, senão
frequentemente, derrotado; agora, sempre saia vencedor”.
Cinco dias depois, escreve ele:
“Tenho constante paz, nenhum pensamento inquietante; e sou livre do pecado;
nenhum desejo ímpio entretenho”. Dois dias após, acrescenta: “Ainda na
quarta-feira afligi o Espírito de Deus, não somente deixando de velar em
oração, mas falando com aspereza, em lugar de terno amor, de alguém que não se
encontrava bem seguro na fé. Imediatamente Deus ocultou sua face e fui conturbado,
e nessa aflição continuei até a manhã seguinte, 1° de junho, quando foi do
agrado de Deus confortar minha alma, no momento em que exortava a uma pessoa”.
ESBOÇO DO SERMÃO
A graça é a fonte de todas as
bênçãos conferidas ao homem e, dada a condição deste, oriunda da queda, sua
salvação decorre proeminentemente daquela mesma fonte. A fé é a condição da
salvação.
I. Qual é a fé mediante a qual
somos salvos?
1. Não é meramente a fé dos
pagãos, posta em Deus como governador moral.
2. Não é a fé intelectual do
demónio.
3. Não é apenas a fé dos
Apóstolos, antes da ressurreição.
4. Mas a fé em Cristo, de coração;
fé na propiciação.
5. Entretanto, a fé cristã não é
apenas assentimento ao Evangelho de Cristo em conjunto, mas também plena
confiança no sangue de Cristo; confiança nos méritos de sua vida, morte e
ressurreição; descanso nele como nossa propiciação e nossa vida, dada por
nós e vivendo em nós. É a confiança segura que o homem tem em
Deus, de que, através dos méritos de Cristo, seus pecados são perdoados e
ele é restaurado no favor de Deus: em consequência disto, passa a estar
unido a Ele, ligado a Ele como nossa “sabedoria, justiça, santificação e
redenção”, ou, numa palavra, nossa Salvação.
II. Qual é a salvação mediante a
fé?
1. Uma salvação presente.
2. Do pecado.
3. Da culpa.
4. Do temor.
5. Do poder do pecado. Aquele que
é nascido de Deus não comete pecado habitual, nem pecado voluntário, nem por
mau desejo, nem por fraqueza.
III. Resposta às objeções.
1. A salvação pela fé não é oposta
às boas obras, porque?
2. Não rebaixa a lei de Deus até
os limites da fraqueza humana, mas assegura seu verdadeiro cumprimento
espiritual.
3. Não leva ao orgulho, porque
exclui a jactância.
4. Não incita ao pecado, uma vez
que a bondade de Deus levará todos os sinceros ao arrependimento.
5. Conduz à desesperança somente
de nós mesmos, para que encontremos salvação em Cristo.
6. É a doutrina do verdadeiro
conforto.
7. É a doutrina de fundo
escriturístico. É o antídoto eficaz contra o Romanismo.
8. É o verdadeiro segredo da força
do Protestantismo.
A SALVAÇÃO PELA FÉ
“Pela graça sois salvos mediante a
fé”. (Efésios 2.8)
1. TODAS as bênçãos que Deus comunica
ao homem vêm de sua mera graça, munificência ou favor; de sua livre, imerecida
benevolência, representando graça inteiramente espontânea, visto nenhum direito
ter o homem à menor clemência por parte da Divindade. Foi a livre graça que
“formou o homem do pó da terra e nele soprou a alma vivente”, estampando nessa
alma a imagem de Deus e “sujeitando todas as coisas debaixo de seus pés”. A
mesma graça chega até nós, neste dia, traduzindo-se em vida, respiração e todas
as coisas. Nada do que somos, ou possuímos, ou realizamos, merece o mínimo
favor das mãos de Deus. “Todas as nossas obras, ó Deus, tu as operaste em nós”.
Assim, elas são outras tantas manifestações de livre misericórdia; e, qualquer
que seja a justiça que se encontre no homem, ainda será também uma dádiva de
Deus.
2. Com que fará o pecador propiciação
pelo menor de seus pecados? Com suas obras? Não. Ainda que estas sejam muitas e
sejam santas, não lhe pertencem, mas são de Deus. Na verdade todas essas obras
são ímpias e pecaminosas, reclamando nova propiciação. Somente frutos
corrompidos pendem de uma árvore corrupta. E o coração do homem é ao mesmo
tempo corrupto e abominável, estando “desprovido da glória de Deus”— a justiça
gloriosa de inicio impressa em sua alma, segundo a imagem de seu grande
Criador.
Assim, pois, nada tendo, nem
justiça nem obras, que alegar, seus lábios inteiramente se calam diante de Deus.
3. Se o homem pecaminoso acha, pois,
favor à vista de Deus, isto vem a ser “graça sobre graça!” Se Deus ainda
concede que desçam sobre nós outras bênçãos e, ademais, a maior de todas, que é
a salvação, que, podemos dizer a essas coisas, senão repetir: “Graças sejam
dadas a Deus por seu dom inefável!” E assim é. Nisto “Deus recomenda seu amor
para connosco, em que, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu para
salvar-nos. “Pela graça”, pois, “sois salvos mediante a fé”. A graça é a fonte;
a condição é a fé.
Para não decairmos da graça de
Deus, cabe-nos inquirir cuidadosamente:
I. Qual é a fé mediante a qual
somos salvos.
II. Qual é a salvação que é
mediante a fé.
III. Como podemos responder a
certas objeções.
I
Qual é a fé mediante a qual somos
salvos?
1. Em primeiro lugar, não é meramente
a fé dos pagãos.
Deus exige que o pagão creia que
“Deus existe e que é remunerador dos que o buscam”; que essa procura diligente
se faça, glorificando-o como a Deus, dando-lhe graças por todas as coisas e
praticando cuidadosamente a virtude moral, a justiça, a misericórdia e a
verdade para com seus semelhantes. O grego ou o romano, o cita ou o indiano,
não teria, portanto, nenhuma desculpa, se não acreditasse suficientemente
nisto: o Ser e atributos de Deus, o estado futuro de recompensa ou punição e o
caráter obrigatório da virtude moral. Este é simplesmente o credo de um pagão.
2. Não é, também, em segundo lugar, a
fé do demónio, embora ela vá multo além da dos pagãos. O demónio crê não
somente que há um Deus poderoso e sábio, gracioso no recompensar e justo no
punir, mas também crê que Jesus é o Filho de Deus, o Cristo, o Salvador do
mundo. Encontramo-lo, de fato, declarando, em termos categóricos: “Bem sei quem
és: tu és o Santo de Deus” (Lc 4.34). Nem podemos duvidar de que o infeliz
espírito creia em todas as palavras que saíram dos lábios do Santo e mais em
quaisquer outras que foram escritas pelos homens santos do passado, acerca de
dois dos quais ele fora compelido àquele glorioso testemunho: “Estes homens são
servos do Altíssimo, que vos mostram o caminho da Salvação”. Não é demais,
pois, que o grande inimigo de Deus e dos homens creia e, crendo, estremeça, –
que Deus se manifestou em carne; que “submeterá todos os inimigos debaixo dos
pés”; e que “toda Escritura foi dada por inspiração de Deus”. Até aí vai a fé
do demónio.
3. Em terceiro lugar: a fé mediante a
qual somos salvos, no sentido em que a Palavra será mais adiante explanada, não
é meramente a que nutriam os apóstolos, quando Cristo estava ainda sobre a terra,
muito embora nele cressem a ponto “de deixarem tudo para segui-lo”; embora
tivessem já nesse tempo o poder de operar milagres, de “curar todas as espécies
de doença e toda forma de enfermidade”; embora tivessem “poder e autoridade
sobre os demónios”, e, o que vale mais que tudo isso, fossem enviados por seu
Mestre a “pregar o Reino de Deus”.
4. Qual é a fé mediante a qual somos
salvos? Pode-se responder, de modo geral, que é, primeiro, a fé em Cristo:
Cristo e Deus através de Cristo são os próprios fundamentos dessa fé. Nisto se
distingue ela suficientemente, absolutamente, da fé, seja dos antigos ou dos
modernos pagãos. Da fé que possui o demónio ela se distingue por isto: não é
uma coisa meramente especulativa, racional, um assentimento frio e morto, uma
série de ideias que se amontoam na cabeça, mas uma disposição do coração. Por
isso diz a Escritura: “Com o coração o homem crê para a justiça”; e: “se tu
confessares com tua boca o Senhor Jesus, e creres em teu coração que Deus o
levantou dentre os mortos, serás salvo”.
5. Nisto ela difere daquela fé que os
próprios apóstolos nutriam enquanto nosso Senhor estava na terra: reconhece a
necessidade e os méritos de sua morte e o poder de sua ressurreição. Reconhece
sua morte como o único meio suficiente de redimir o homem da morte eterna, e
sua ressurreição como a restauração de todos nós à vida e imortalidade, tanto
mais que ele “foi entregue por nossos pecados e ressurgiu para nossa
justificação”. A fé cristã é, portanto, não só um assentimento a todo o Evangelho
de Cristo, mas também plena confiança no sangue de Cristo; confiança nos
méritos de sua vida, morte e ressurreição; descanso nele como nossa propiciação
e nossa vida,— vida divina que foi dada por nós e vive em nós; e, em
consequência disto, união com ele, adesão à sua pessoa, coma “nossa sabedoria,
justiça, santificação e redenção”, ou, numa palavra, — nossa Salvação.
II
O segundo ponto a ser considerado
é: Qual é a Salvação que é mediante a fé?
1. Primeiro qualquer que seja essa
salvação, ela é uma salvação presente. É alguma coisa atingível desde já,
atualmente atingível na terra, pelos que são participantes dessa fé. Por isso
diz o apóstolo aos crentes de Éfeso e, através destes, aos crentes de todos os
tempos: “Vós sois salvos mediante a fé”, e não: “Vós sereis salvos”, embora
também seja verdadeira esta última afirmativa.
2. Vós sois salvos (para abranger
tudo numa só palavra), do pecado. Esta é a salvação que vem pela fé.
Esta é a grande salvação predita
pelo anjo, antes que Deus introduzisse no mundo seu primogênito: “... a quem
chamarás JESUS, porque ele salvará seu povo de seus pecados”. Nem aqui, nem nas
outras partes do Escrito Sagrado, aparece qualquer limitação ou restrição. Todo
seu povo, ou, como se diz em outros lugares, “todo o que crê”, Cristo o salvará
dos pecados; do pecado original e atual, passado e presente, “da carne e do
espírito”. Mediante a fé que há em Cristo, os pecadores são salvos, tanto da
culpa como do poder da culpa.
3. Primeiro, da culpa de todos os
pecados passados: Porque, conquanto todo o mundo seja culpado diante de Deus,
de modo que, se o Senhor quisesse “assinalar que os que cometem erros, ninguém
poderia nele permanecer”; e uma vez que “pela lei vem”, somente, “o
conhecimento do pecado”, mas não a libertação dele, já que pelo cumprimento
“das obras da lei nenhuma carne pode ser justificada à sua vista”,— agora,
todavia, “a justiça de Deus, que é pela fé em Jesus Cristo, é manifestada a
todo aquele que crê”.
“São justificados livremente por
sua graça, através da redenção que há em Jesus Cristo”. “A este Deus enviou
para ser a propiciação mediante a fé em seu sangue, para declarar sua justiça
para (ou pela) remissão dos pecados passados”. Agora, Cristo suprimiu a
“maldição da lei, fazendo-se maldição por nós”. “Cancelou o escrito de dívida
que era contra nós, levando-o e cravando-o em sua cruz”. “Agora não há, pois,
condenação para os que crêem em Cristo Jesus”.
4. Sendo salvos da culpa, os homens
são também salvos do temor. Não, em verdade, do filial temor de conceber
qualquer ofensa, mas do medo servil que escraviza; do medo, que causa tormento;
do medo de punição; do medo da ira de Deus, —desse Deus que eles agora não mais
contemplam como um Senhor severo, mas como um Pai indulgente. “Não receberam
outra vez o espírito de escravidão, mas o espírito de adoção, pelo qual
exclamam: Abba, Pai; testificando também o mesmo Espírito com seu espírito, que
eles são filhos de Deus”. São também salvos não da possibilidade, mas do receio
de decaírem da graça de Deus e de serem privados das grandes e preciosas
promessas. Deste modo “têm paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo”.
Regozijam-se na esperança da glória de Deus — e o amor de Deus se derrama abundantemente
em seus corações, através do Espírito Santo, que lhes é dado. Pelo Espírito são
persuadidos (talvez não em todos os tempos, nem com a mesma plenitude de
convicção), de que “nem a morte, nem a vida, nem as coisas presentes, nem as
coisas futuras, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura
será capaz de os separar do amor de Deus, que, é em Cristo Jesus, nosso
Senhor”.
5. Ainda mais: mediante essa fé, são
eles salvos do poder do pecado e, bem assim, da culpa inerente ao pecado. Isto
o apóstolo o declara: “Sabemos que ele se manifestou para tirar nossos pecados,
e nele não há pecado. O que nele permanece, não peca”. (1Jo 3.5). E em outro
lugar: “Filhinhos, que ninguém vos engane. O que comete pecado é do diabo. Quem
quer que crê é nascido de Deus. E quem é nascido de Deus não comete pecado;
porque sua filiação permanece nele e ele não pode pecar, parque é nascido de Deus”.
Ainda mais: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; pelo
contrário, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o maligno não o segura”. (1Jo
5.18).
6. Aquele que pela fé é nascido de
Deus, não peca: (1) Por pecado habitual: porque todo pecado habitual é pecado
dominante, —mas o pecado não pode dominar a qualquer que creia; nem (2) por
pecado voluntário: porque, enquanto permanece na fé, sua vontade tenazmente se
opõe a todo pecado, aborrecendo-o como se fora veneno mortal; nem (3) por
qualquer desejo pecaminoso, porque almeja constantemente a santa e perfeita
vontade de Deus— e qualquer tendência para o desejo profano ele a sufoca desde
o inicio, pela graça de Deus; nem (4) peca por enfermidade, quer pela prática
de qualquer ato, quer por palavra ou
pensamento, porque suas fraquezas não têm o concurso da vontade; e, sem tal concurso,
não há, propriamente; pecado. Assim, “o que é nascido de Deus não peca”; e,
embora não possa dizer que não tenha pecado, certo é que atualmente ele não
peca.
7. Esta é, pois; a salvação pela fé,
mesmo no mundo presente: salvação do pecado e das consequências do pecado
expressas com frequência pela palavra justificação, a qual, tomada em sentido
mais lato, implica na libertação da culpa e do castigo, pela propiciação de
Cristo atualmente aplicada à alma do pecador, agora crente em Jesus, e
libertação do domínio do pecado, mediante o mesmo Senhor, formado em seu coração.
Assim, aquele que é justificado, ou salvo pela fé, é, na verdade, nascido de
novo. Nasce outra vez do Espírito para uma nova vida, que “está escondida com
Cristo em Deus”. Como um recém-nascido, gradualmente recebe o αδολον, o “leite
racional, sem dolo, da Palavra — e cresce por ele”, subindo de fé em fé, de
graça em graça, até chegar, afinal, a “homem perfeito, segundo a medida da
estatura da plenitude de Cristo”.
III
A primeira objeção que a este
asserto usualmente se faz, é:
1. Que pregar a salvação, ou a
justificação, pela fé, somente, é pregar contra a santidade e as boas obras. Á
isto se pode dar esta breve resposta: “O reparo seria verdadeiro, se
falássemos, como fazem alguns, de uma fé separada da santidade e das boas
obras; falamos, porém, da fé que, ao revés, produz todas as boas obras e toda a
santidade”.
2. Pode, entretanto, ser de maior
utilidade à apresentação de uma resposta mais extensa, principalmente se considerar
que a objeção em apreço não é nova, mas remonta aos tempos de S. Paulo. Já
naquele tempo perguntava o apóstolo: “Invalidamos a lei pela fé?” Respondemos,
primeiro, que todo o que não prega a fé, manifestamente invalida a lei, quer
direta e grosseiramente, por limitações e comentários que destroem todo o
espírito do texto, quer indiretamente, deixando de apontar o único meio pelo
qual é possível dar cumprimento à própria lei. Enquanto que, em segundo lugar,
“estabelecemos a lei”, tanto no demonstrar sua plena extensão e seu amplo
sentido espiritual, como no apontar a todos aquele caminho de vida, para que “a
justiça da lei neles se possa cumprir”. Os que só confiam no sangue de Cristo
usam de todas as ordenanças que ele estabeleceu, fazem todas as “boas obras que
ele antes havia preparado para que andassem nelas”, formam e exteriorizam todo
o santo e celestial caráter e ainda a própria mente que havia em Cristo Jesus.
3. Mas, a pregação dessa fé não leva
os homens ao orgulho? Respondemos que, acidentalmente, isto pode acontecer;
entretanto, todo crente verdadeiro deve estar perfeitamente a par da
advertência contida nas palavras do grande apóstolo: “Em razão da
incredulidade” os primeiros galhos “foram separados; e tu permaneces na fé. Mas
não te vanglories, mas teme. Se Deus não poupou os ramos naturais, toma cuidado
para que não suceda que ele deixe de poupar-te. Veja, pois, a bondade e
severidade de Deus! para os que caíram, severidade; mas, para contigo, bondade,
se perseverares em sua bondade; de outro modo, também tu serás desarraigado”.
(Rm 3.27). E, enquanto ele prossegue, lembremo-nos das palavras de S. Paulo, prevendo
e rebatendo tal objeção: “Onde está, logo, a jactância? Ficou excluída. Por que
lei? Pela das obras? Não; mas pela lei da fé”. Se o homem fosse justificado
pelas obras, teria de que se gloriar; mas não há glorificação para aquele que
“não obra, mas crê naquele que justifica o ímpio” (Rm 4.5). No mesmo sentido
são as palavras que precedem e seguem o texto (Ef 11.4ss): “Deus, que é rico em
misericórdia, ainda quando estávamos morto em pecados, reconciliou-nos com
Cristo (pela graça sois salvos), para que pudesse mostrar a suprema riqueza de
sua graça em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Pela graça é que sois
salvos mediante a fé; e isto não vem de vós mesmos”. De vós mesmos não vem
vossa fé, nem vossa salvação: são “dons de Deus”; representam livre, imerecida
dádiva. A fé, mediante a qual sois salvos, bem como a salvação que Deus, por
sua própria boa vontade, por seu mero favor, adiciona a ela, procedem do
Senhor. O fato de crermos é um aspecto de sua graça; o fato de, crendo, sermos
salvos, é outro aspecto. “Não pelas obras, para que ninguém se glorie”. Porque
todas as nossas obras, toda a nossa justiça, anteriores à nossa crença, nada
merecem de Deus, a não ser a condenação; tão longe estavam de merecer a fé,
que, recebida esta, ela não procede do mérito das obras. Nem a salvação é pelas
obras, quando cremos, porque Deus é quem então opera em nós. Deste modo,
dar-nos recompensa por aquilo que ele próprio realiza, é gesto que somente pode
recomendar as riquezas de sua misericórdia, mas que a nós não nos deixa coisa
alguma de que nos possamos gloriar.
4. Falar assim da misericórdia de
Deus, salvando ou justificando livremente, só pela fé, não incita, por ventura,
os homens ao pecado? Na verdade isto pode acontecer e acontecerá: muitos
“continuarão no pecado para que a graça possa superabundar”; mas seu sangue
será sobre sua cabeça. A bondade de Deus deve levá-los ao arrependimento: isto
acontecerá com os que sejam sinceros de coração, os quais, sabendo que ainda há
perdão para eles, clamam com ânsia que desejam também ver canceladas suas
culpas mediante a fé que há em Jesus. E se eles realmente clamam sem
fingimento; se o buscam por todos os meios que o próprio Deus apontou; se
recusam a ser confortados até que venha o Senhor, —“Ele virá e não tardará”. E
ele pode fazer grandes coisas em curtíssimo espaço de tempo. Muitos são os
exemplos, nos Atos dos Apóstolos, da divina operação da graça no coração dos
homens, manifestando-se como relâmpago fuzilando desde os céus. Assim, no mesmo
instante em que Paulo e Silas começaram a pregar, o carcereiro se arrependeu e
creu, sendo batizado; o mesmo se dera com os três mil, no dia de Pentecoste, que
se arrependeram “e creram à primeira pregação de Pedro. E, graças a Deus, ainda
há muitas provas vivas de que ele é “poderoso para salvar”.
5. Ainda quanto à mesma verdade,
considerada sob outro ponto de vista, levanta-se a objeção contrária: Se o
homem não pode ser salvo depois de tudo quanto fizer ou possa fazer, isso o
lavará ao desespero. Leva-lo-á, sim, à desesperança de ser salvo por suas
próprias obras, seus méritos ou sua justiça. E deve, ser assim, porque ninguém
pode confiar nos méritos de Cristo, antes que se tenha negado inteiramente a si
mesmo. Aquele que “tenta estabelecer sua própria justiça”, não pode receber a
justiça que vem de Deus.
A justiça que é pela fé não lhe
pode ser dada enquanto ele confiar na justiça que vem da lei.
6. Mas isto, diz-se, é uma doutrina
desoladora. O diabo fala coerentemente consigo próprio, isto é, sem veracidade
nem pudor, quando ousa sugerir aos homens que seja desoladora a doutrina em
questão. É a única tranquilizadora, “cheia de conforto” para os pecadores que
se destroem e se perdem. “Aquele que nele crê não será confundido, porque o
mesmo Senhor é rico para com todos os que o invocam” Eis aí o conforto, alto
como os céus, forte como a morte! Como! Misericórdia para com todos? Para
Zaqueu, um ladrão público? Para Maria Madalena, meretriz vulgar? Parece-me
ouvir alguém dizendo: “Então eu, também eu, posso esperar misericórdia!” Podes,
sim, aflito, a quem não houve quem confortasse! Deus não desdenhará tua oração.
Talvez te venha ele dizer imediatamente: “Tem bom ânimo; teus pecados são te perdoados”;
tão perdoados que eles jamais exercerão domínio sobre ti, e, ainda mais, “o Espírito
Santo testificará com teu espírito que és filho de Deus”. Oh! Alegres
boas-novas! Boas-novas de grande gozo, enviadas a todo o povo! “Oh! Que todo o
que tem sede venha às águas: venha e compre, sem dinheiro e sem preço”. Ainda
que teus pecados sejam “vermelhos como o carmesim” e tantos como teus cabelos, “volta
para o Senhor e ele terá misericórdia de ti; e para nosso Deus, porque ele te
perdoará largamente”.
7. Quando nenhuma outra objeção
ocorre, simplesmente nos dizem os opositores que a salvação somente pela fé não
deve ser pregada como doutrina capital, ou, pelo menos, não deve ser pregada a
todos. Mas, que diz a Espírito Santo? Ninguém pode pôr outro fundamento além do
que já foi posto, que é Jesus Cristo”. Logo, a doutrina segundo a qual “todo o
que nele crê será salvo” é, e deve ser, o fundamento de toda nossa pregação,
isto é, deve ser pregada em primeiro lugar. “Seja assim; mas não a todos”. A
quem, então, não devemos pregar? Quem será excluído? Os pobres? Não. Eles têm
especial direito à pregação do Evangelho. Os ignorantes? Não. Deus tem revelado
essas coisas, desde o começo, aos simples e ignorantes. Os jovens? De modo
nenhum: “deixai-os”, de qualquer modo, “vir a Cristo, e não os embaraceis”. Os
pecadores? Muito menos. “Ele veio a chamar, não os justos, mas os pecadores ao arrependimento”.
Se, entretanto, tivéssemos de excluir alguns, excluiríamos os ricos, os
letrados, os homens afamados e de boa conduta. É verdade que estes, de sua
parte, se recusam a ouvir; todavia, ainda assim lhes devemos dizer a palavra de
nosso Senhor. O teor de nossa comissão no-lo impõe: “Ide e pregai o Evangelho a
toda criatura”. Se alguém, para sua própria perdição, falsear ou torcer uma
parte dessa palavra, esse tal levará sua própria carga. Mas, ainda assim, “Vive
o Senhor que, seja o que for que nos disser, isso mesmo diremos”.
8. Hoje, mais especialmente, diremos
que “pela graça sois salvos mediante a fé”: porque a sustentação desta doutrina
nunca foi mais oportuna do que no presente. Nada pode mais eficientemente
prevenir a expansão do erro romanista entre nós do que a pregação daquela
doutrina. Seria um nunca acabar o atacar, um a um, todos os erros, daquela
igreja; mas a salvação pela fé corta-os pela raiz e, onde quer que se
estabeleça, imediatamente consome tudo quanto de mau houver em torno. A essa
doutrina é que nossa igreja mui justamente chama a rocha mais forte e o
fundamento da religião cristã, a qual primeiro expulsou o Papismo destes
reinos, sendo que somente ela pode mantê-lo à distância. Nada, a não ser essa doutrina,
pode opor um dique àquela imoralidade que “invade a terra como um dilúvio”.
Podes tu encher gota a gota o grande abismo? Podes então reformar-nos através
de admoestações acerca de vícios particulares. Venha, porém, a “justiça que é de
Deus pela fé”, e então as ondas orgulhosas serão quebradas e detidas. Nada,
senão essa doutrina, pode fechar a boca àqueles que se “gloriam em seu opróbrio
e abertamente negam o Senhor que os resgatou”. Podem eles falar tão
sublimemente da lei como os que a têm escrita por Deus em seu coração.
Ouvindo-os tratar desta matéria, alguém seria tentado a pensar que eles não
estivessem muito longe do Reino de Deus: mas, que sejam transportados da Lei
para o Evangelho; comece com a justificação pela fé; com Cristo, “o fim da lei
para todo aquele que crê”; e os que agora aparecem como mais ou menos, senão
integralmente, cristãos, logo se declaram filhos da perdição —tão distanciados
da vida e da bem-aventurança (Deus seja misericordioso para com eles!) como o
abismo do inferno está longe das alturas do céu!
9. Por esta razão o adversário se
irrita todas as vezes que se prega ao mundo a “salvação pela fé”: por esta razão
o adversário agitou toda a terra e o inferno, na ânsia de destruir os que
primeiro pregaram a “justificação pela fé”. E pela mesma razão, conhecendo que
só aquela fé poderia subverter os fundamento de seu reino, reuniu todas a suas
forças e empregou todas as suas artes da mentira e tia calúnia para demover
Martinho Lutero do intento de reviver tal doutrina. Nem podemos maravilhar-nos
disto, porque, como observa aquele homem de Deus, “não podia deixar de irar-se
o homem orgulhoso, forte e para ele marcha, tendo nas mãos um caniço”. Esse
furor cresce de vulto quando o adversário sabe que essa criancinha certamente o
derrotará, colocando-o debaixo dos pés. Em casos tais, Senhor Jesus, tua força tem
sido sempre “aperfeiçoada na fraqueza”!
Vai com coragem, criancinha que
crês em Cristo, a sua “mão direita te mostrará terríveis coisas!” Embora estejas
desamparado e sejas fraco como um recém-nascido, o homem forte não será capaz
de permanecer em face de ti. Tu prevalecerás contra ele, e o subjugarás, e o
dominarás, e o porás debaixo de teus pés.
Sob o comando do grande Capitão de
tua salvação, marcharás “conquistando e vencendo”, até que todos os teus
inimigos sejam aniquilados e “a morte seja tragada na vitória”.
Agora, “graças sejam dadas a Deus,
que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”, a quem, com o Pai e o
Espírito Santo, sejam a bênção, a glória, a sabedoria, os louvores, a” honras,
o poder, a força, para todo o sempre! Ámen.
John Wesley (Epworth,
Inglaterra, 17 de junho de 1703 — Londres, 2 de março de 1791) foi um clérigo
anglicano e teólogo cristão britânico, líder precursor do movimento metodista
e, ao lado de William Booth, um dos dois maiores avivacionistas da
Grã-Bretanha.
Fonte:
http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/Sermao_1.pdf
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