Sede de Sonhos e Visões
C. H. Spurgeon
Há alguns, e estes geralmente são os mais iletrados, que têm a expectativa de experimentar sonhos notáveis ou de ter visões únicas.
Eu às vezes fico surpreso de que
ainda persista no meio do nosso povo uma noção de que certo tipo de sonho,
especialmente se repetir-se várias vezes, e se for tão vívido que permaneça na
imaginação por um longo período, seja um sinal do favor divino. Nada poderia
ser mais completamente falso, nada pode ser mais infundado e sem a menor sombra
de evidência; e ainda assim muitos imaginam que se sofressem dolorosamente de
indigestão para que o seu sono fosse estragado por sonhos vívidos, então
finalmente poderiam pôr a sua confiança em Jesus Cristo.
A noção é tão absurda que se ela
fosse tão-somente mencionada a homens racionais, estes teriam necessariamente
que ridicularizá-la. Ainda assim, conheço muitos que foram, e ainda são,
escravos dessa ilusão.
Há pouco tempo, depois de pregar
numa distante vila do interior, fui procurado insistentemente como conselheiro
espiritual por uma carta importuna de uma mulher que atribuia a mim uma
sabedoria que eu nunca reivindiquei possuir. Eu desejei saber qual era a
dificuldade espiritual que ela tinha, e quando fui a sua casa e a encontrei
muito doente, fiquei entristecido ao ver que ela era vítima de uma superstição
na qual temo que o pastor dela a tinha animado e, desta forma, confirmado. Ela
informou-me solenemente que tinha visto algo levantar-se à noite ao pé da sua
cama. Ela estava esperançosa de que se tratasse do nosso abençoado Senhor, mas
infelizmente ela não tinha conseguido ver a cabeça. Como eu conhecia tanto a
respeito das coisas espirituais, será que poderia dizer-lhe quem era?
Eu disse que achava que ela
devia ter pendurado o vestido dela num gancho na parede, ao pé da cama, e que
na escuridão o terá confundido com uma aparição.
É claro que isso não a satisfez.
Eu caí imediatamente a zero no conceito dela, ao nível de um homem de mente
extremamente carnal, se não um escarnecedor, mas eu nada pude fazer a respeito
disso. Eu não podia alimentar uma superstição tão ridícula. Fui obrigado a
dizer-lhe que era uma estupidez ela ter a esperança da salvação porque ela era
tola o bastante para imaginar que tinha visto Jesus com os seus olhos carnais,
quando a visão salvífica é sempre espiritual.
Sobre a pergunta quanto ao facto
da suposta aparição ter uma cabeça ou não, eu disse-lhe que se ela usasse mais
a sua própria cabeça e o seu coração, meditando na Palavra de Deus, ela estaria
numa condição bem mais esperançosa.
... Se visse qualquer coisa, ou
sonhasse qualquer coisa, o que é que isso provaria? Ora, não provaria
absolutamente nada a não ser que estava mal de saúde, e que a sua imaginação
encontrava-se morbidamente activa.
Lance fora essas coisas. Elas
são superstições adequadas a povos não-civilizados, mas não são aceitáveis para
Cristãos do século dezanove. Eu apenas estou a mencioná-las, não porque penso
que qualquer de vós tenha caído nelas, mas para que lidem sempre com elas de
forma extremamente rígida onde quer que se deparem com elas. Elas são
superstições que não podem ser toleradas por homens Cristãos. Entretanto há
alguns que, de facto, não acreditarão no simples Evangelho de Cristo a menos
que algum absurdo desse tipo possa ser associado a Ele.
Que Deus os livre de tal
incredulidade.
C. H. Spurgeon
Charles
Haddon Spurgeon, comumente referido como C. H. Spurgeon (Kelvedon,
Essex, 19 de junho de 1834 — Menton, 31 de janeiro de 1892), foi um
pregador batista reformado britânico.
Carlos António da Rocha
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