… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 23 de junho de 2016

06 - AS CARACTERÍSTICAS DOS NÃO-CONVERTIDOS

Um guia seguro para o céu
Joseph Alleine

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As características dos não-convertidos

Enquanto permanecemos à distância, fazendo afirmações generalizadas, há poucos frutos a esperar; é a luta corpo-a-corpo que opera os resultados. David não foi despertado pela hesitação do profeta, à distância, com insinuações parabólicas. Natan foi forçado a aproximar-se dele e a dizer-lhe claramente: "Tu és este homem". Poucos negariam verbalmente a necessidade do novo nascimento, mas eles têm uma auto-confiança enganadora de que tal transformação não tem de ser feita agora. E por saberem que estão isentos daquela hipocrisia grosseira —à qual a religião é apenas coisa aparente— que engana os outros e encobre maus desígnios, confiam na sua sinceridade e não desconfiam da hipocrisia mais íntima, que constitui um grande perigo e com a qual o homem engana a sua própria alma. Mas o enganoso coração do homem é uma tão incomparável fraude, uma auto-ilusão tão dominadora, e uma doença tão fatal, que não sei qual é maior: a dificuldade ou a necessidade da obra esclarecedora em que estou empenhado. Pobres incrédulos! Eles precisam de ser desenganados; do contrário perecerão! Mas como acontecerá isso?

"Ajuda-me, ó Luz que tudo penetras, e permita que o Teu olho que discerne desvende o fundamento miserável do autoenganador. Guia-me, ó Senhor Deus, como fizeste com os profetas, aos recônditos das ilusões, penetra os corações pecadores e revela as perversidades secretas que estão ocultas na escuridão. Oh, envia o Teu anjo adiante de mim para abrir as trancas de seus corações, assim como Tu fizeste com Pedro, e faze com que os portões de ferro se abram de repente e espontaneamente. E à semelhança de Jónatas, cujos olhos se iluminaram com o mel ao prová-lo, concede-me, ó Senhor, que as pobres almas enganadas com as quais preciso tratar, ao lançarem os seus olhos sobre estas linhas tenham as suas mentes iluminadas, as suas consciências convencidas e despertadas; para que possam ver com os seus olhos, ouvirem com os seus ouvidos e sejam convertidas; e que Tu possas curá-las".

Antes de continuar, precisamos dizer que sem dúvida nenhuma os homens estão sinceramente persuadidos de que as suas condições e os seus corações são bons, quando na verdade não são saudáveis. Ouçam o próprio Cristo afirmando que, como no caso de Laodiceia, os homens podem ser desgraçados, miseráveis, pobres, cegos e nus e contudo, não saberem disso; de fato, eles se julgam ricos e amadurecidos na graça (Apocalipse 3:17). "Há uma geração que é pura aos seus olhos, e que nunca foi lavada da sua imundícia". (Provérbios 30:12). Quem mais do que Paulo já esteve persuadido do seu estado, enquanto ainda na condição de não convertido? (Romanos 7:9). Do mesmo modo, estão miseravelmente enganados aqueles que acham que uma firme confiança é uma evidência suficiente. Aqueles que não têm outra prova melhor, senão uma forte convicção de que são convertidos, certamente desconhecem a conversão.

Mas vamos ser mais específicos. Como foi dito aos adeptos do anticristo, ocorre aqui também; alguns dos não-convertidos trazem as suas marcas nas suas testas, de uma maneira mais visível; outros as têm nas suas mãos mais ocultamente. O apóstolo avalia alguns, e a respeito desses escreve a sentença de morte nestas terríveis listas — as quais eu lhes imploro que observem com toda a diligência: "Porque bem sabeis isto: que nenhum fornicário, ou impuro, ou avarento, o qual é idolatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência." (Efésios 5:5-6). "Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte." (Apocalipse 21:8). "Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis; nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus". (I Coríntios 6:9-10). Ai daqueles cujos nomes estiverem escritos nessas listas. Esses tais podem ficar sabendo, tão certo como se o próprio Deus lhes tivesse falado lá do Céu, que não são santificados e que não podem ser salvos nessa condição.

Há portanto dez classes de pessoas que, sem sombra de dúvida, não são convertidas. Elas levam as marcas nas suas testas.

(1). Os impuros. Estes são sempre contados entre os bodes e têm os seus nomes mencionados em todas as listas anteriormente citadas.

(2). Os avarentos. Esses são sempre caracterizados como idólatras, e as portas do reino estão definitivamente fechadas para eles.

(3). Os beberrões. Estes não somente se embebedam e perdem a razão, mas também são fortes demais para bebidas fortes. O Senhor enche a Sua boca de maldição contra eles e declara que não herdarão o reino de Deus. (Isaías 5:11-12, 22; Gálatas 5:21).

(4). Os mentirosos. O Deus que não pode mentir declarou-lhes que não terão lugar no Seu reino nem acesso ao Seu monte; mas a porção deles é no lago de fogo, com o pai das mentiras, de quem são filhos. (Apocalipse 21:8, 27; João 8:44; Provérbios 6:17).

(5). Os blasfemos. O fim destes, se não houver um profundo e pronto arrependimento, é a repentina destruição e a infalível e inevitável condenação. (Tiago 5:12; Zacarias 5:1-3).

(6). Os escarnecedores e os caluniadores. Estes gostam de difamar o seu próximo, lançando-lhe em rosto toda a sujeira possível ou, pior ainda, ofendendo-o secretamente na sua ausência. (Salmo 15:1,3; I Coríntios 5:11).

(7). Os ladrões, os extorsionários. Estes são opressores que afligem o pobre ou lesam os seus irmãos sempre que se lhes oferece uma oportunidade. Esses precisam saber que Deus é o vingador dos inocentes. (I Tessalonicenses 4:6). Ouçam, ó servos falsos, inúteis e roubadores; ouçam, ó negociantes enganadores, ouçam a vossa sentença! Deus certamente fechará a porta para vocês e mudará os vossos tesouros de injustiça em tesouros de ira, e fará com que vossa prata e o vosso ouro adquiridos desonestamente os atormentem, como um metal que queima a vossa carne (Tiago 5:2-3).

(8). Todos os que vivem, geralmente, na profana negligência da adoração de Deus. Estes não ouvem a Sua Palavra, não invocam o Seu nome, não oram a Deus, não se importam com as suas próprias almas nem com as almas dos seus familiares, mas vivem no mundo, sem Deus (João 8:47; Job 15:4; Salmo 14:4; Salmo 79:6; Efésios 2:12 e 4:18).

(9). Os amantes e frequentadores de más companhias. Deus declarou que será o destruidor de tais pessoas, e que elas não entrarão no Seu repouso (Provérbios 9:6 e 13:20).

(10). Os escarnecedores da religião. Estes zombam da vida reta e escarnecem dos mensageiros e dos diligentes servos do Senhor, de sua santa profissão, e alegram-se com as fraquezas e as falhas dos cristãos professos. "Ouvi, ó desprezadores", ouvi a vossa terrível condenação (Provérbios 19:29; II Crónicas 36:16).

Pecador, considere sinceramente se você está incluído numa dessas classes, pois se for esse o caso, você está no fel da amargura e na escravidão da iniquidade, visto que todos esses têm os sinais em suas testas e são, sem dúvida alguma, filhos da morte. E se assim for, que o Senhor se compadeça de nossas pobres congregações. Oh, quão pequeno é o número que restará quando essas dez classes forem excluídas.

Senhores, admiro-me dos esforços que fazeis para manter a confiança no vosso bom estado quando Deus, lá do Céu, Se declara contra vocês e decreta a vossa condenação! Quero arrazoar com vocês, da mesma maneira que Deus fez com o Seu povo: "Como dizes logo: Não estou contaminado... ? Vê o teu caminho no vale, conhece o que fizeste..." (Jeremias2:23). Ó homem, a tua consciência não está avisada dos teus ardis enganosos, dos teus pecados secretos, do teu costume de mentir? Sim, os teus amigos, a tua família, os teus vizinhos não testemunham a tua profana negligência da adoração de Deus, das tuas atitudes cobiçosas, do teu comportamento invejoso e malicioso? Será que eles não podem apontar para ti e dizerem: "Lá vai o pródigo jogador; lá vai o Nabal beberrão, companheiro dos que praticam o mal; lá vai o escarnecedor, zombador, ou folgazão!" Amado leitor, Deus escreveu com um raio de sol, no livro pelo qual você vai ser julgado, que essas não são as características dos Seus filhos e que nenhum dos que as possui escapará da condenação do Inferno, a menos que seja renovado pela graça da conversão.

Oh, que tu sejas agora persuadido a arrependeres-te e a deixares todas as tuas transgressões, ou então a iniquidade será a tua ruína. (Ezequiel 18:30). Oh, pobres pecadores endurecidos! Será que tenho de deixá-los onde estão? Será que tenho de deixar o beberrão sossegado na sua taberna? Será que tenho de deixar o malicioso no seu veneno? Entretanto, precisais de saber que fostes avisados e que eu não sou culpado do vosso sangue; e quer escuteis, quer desistais, vou deixar-vos estes versículos que servirão de trovões para acordar-vos ou de ferro causticante para endurecer-vos: "Mas Deus ferirá gravemente a cabeça dos Seus inimigos e o crânio cabeludo do que anda nas suas culpas". "O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, será quebrantado de repente sem que haja cura". "Mas porque clamei e vós recusastes; porque estendi a minha mão, e não houve quem desse atenção; ... também eu me rirei na vossa perdição, e zombarei, vindo o vosso temor." (Salmo 68:21; Provérbios 29:1; Provérbios 1:24-27).

Pois bem, imagino agora que muitos começarão a bendizer-se e a pensar que tudo está bem, porque não podem ser acusados desses pecados mais torpes. Mas preciso dizer-lhes que há um outro tipo de pessoas não santificadas, que não têm os sinais nas testas, mas têm-nos de forma mais secreta e encoberta. Essas pessoas frequentemente enganam-se a si mesmos e aos outros, passando por bons cristãos, quando na realidade ainda não estão salvos. Muitos não são descobertos até que a morte e o julgamento tragam tudo à luz. Esses autoenganadores parecem chegar até à porta do Céu certos de sua admissão, mas no fim não conseguem entrar. (Mateus 7:22). Rogo-vos encarecidamente que apliqueis aos seus corações e retenhais firmemente esta reflexão que é um alerta, isto é, que multidões perecem por causa de algum pecado secreto, o qual não está escondido apenas dos outros, mas devido a não perscrutarem os vossos próprios corações; está escondido até deles mesmos. Um homem pode estar isento de poluições patentes, e, contudo, morrer por causa de algum pecado que passa desapercebido; e existem os seguintes doze pecados ocultos, pelos quais as almas descem aos milhares para os recintos da morte eterna. Precisais de investigar cuidadosamente estes pecados e considerá-los como marcas negras onde quer que se encontrem, e como reveladores de um estado não regenerado e se amais as vossas suas vidas, notem os mesmos cuidadosamente com zelo santo para que vocês não se revelem ser as pessoas referidas.

(1). Ignorância crassa e voluntária (Oseias 4:6). Oh, quantas almas infelizes estão sendo mortas por este pecado, embora pensem sinceramente que têm bons corações e que estão preparadas para o Céu. Este pecado é o assassino que executa milhares silenciosamente, sem que nada suspeitem e sem que vejam a mão do que os destrói. Não importa quais sejam as desculpas que apresentem para a ignorância, eles descobrirão que ela é um pecado que destrói a alma (Isaías 27:11; II Tessalonicenses 1:8; II Coríntios 4:3). Ah, como teria afligido os nossos corações se tivéssemos visto aquele horrível espetáculo em que os pobres protestantes eram lançados num celeiro e vinha um açougueiro, com as suas mãos manchadas com sangue humano, e os conduzia um por um de olhos vendados para um cepo onde os matava um após outro em grande número, a sangue frio. Mas os vossos corações devem sofrer muito mais ao pensar nas centenas que a ignorância destrói em segredo e conduz de olhos vendados para o cepo. Tomai cuidado para que este não seja o vosso caso. Não justifiqueis a ignorância; se poupardes esse pecado, saibais que ele não vos poupará; e será que alguém abrigaria um assassino no seu seio?

(2). Reservas secretas quanto à entrega a Cristo. Renunciar a tudo por Cristo, odiar pai e mãe, sim, renunciar à própria vida por Ele, "duro é este discurso". (Lucas 14:26). Alguns farão muitas coisas, mas não querem a religião que os salvará. Jamais chegam a ser totalmente devotados a Cristo nem completamente submissos a Ele. Precisam de ter o doce pecado; não querem prejudicar-se a si mesmos; têm exceções secretas para a vida, para a liberdade ou para a posição social. Muitos aceitam a Cristo dessa maneira e jamais levam em conta os Seus termos de auto-negação, nem avaliam o custo; e este erro fundamental estraga tudo e os arruina para sempre (Lucas 14:28-33).

(3). Formalidade na religião. Muitos descansam no lado externo da religião e no cumprimento exterior dos seus deveres sagrados. E muitas vezes isto engana efetivamente os homens e certamente os invalida mais do que a impiedade, à semelhança do que aconteceu com o fariseu. Ouvem, jejuam, oram, dão esmolas, e portanto não admitirão que não estão em ótimas condições espirituais. Entretanto, descansando na obra feita e falhando no trabalho do coração, no poder interior e na vitalidade da religião, acabam caindo no fogo por causa da sua esperança ilusória e da persuasão confiante de que estão bem preparados e a caminho do Céu. Oh, que situação terrível quando a religião de um homem só serve para endurecer o seu coração e efetivamente iludir e enganar a sua própria alma!

(4). O predomínio de motivos errados nos deveres santos. Esta era a ruína dos fariseus. Oh, quantas almas infelizes são destruídas por causa disso e caem no Inferno antes que descubram o seu erro! Fazem as suas "boas obras" e pensam que tudo está bem, mas não percebem que estão sendo impulsionadas continuamente apenas por motivos carnais. É verdade que até mesmo no caso dos verdadeiramente santificados, às vezes objetivos carnais parecem renascer; mas são sempre matéria do seu ódio e humilhação, e jamais chegam a dominá-los, nem a subjugá-los de novo. No entanto, quando a mola mestra que comumente leva o homem aos deveres religiosos é um objetivo carnal, tal como a satisfação da consciência, a obtenção da reputação de que é religioso, ser notado pelos homens, mostrar os seus próprios dons e talentos, evitar a censura de que é uma pessoa profana e não religiosa, ou coisa semelhante, isso revela um coração não regenerado. Ó cristãos, se quiserdes evitar o autoenganoentão deem atenção não apenas às vossas ações, mas também aos vossos motivos.

(5). Confiança na sua justiça própria. Isso é um mal que destrói a alma. Quando os homens confiam na sua justiça própria, certamente rejeitam a de Cristo. Amados, vocês precisam ser vigilantes em tudo, pois não apenas os vossos pecados podem arruiná-los mas também os vossos deveres. Talvez vocês jamais tenham considerado isso, mas é assim mesmo; sem dúvida alguma, um homem tanto pode perecer por causa da sua justiça aparente e das suas supostas virtudes, como por causa dos pecados crassos, ou seja, quando ele confia em coisas como a sua justiça própria e as apresenta diante de Deus para satisfazer a Sua justiça, apaziguar a Sua ira, buscar o Seu favor e obter o Seu perdão.

Isso significa demitir Cristo do Seu ofício e produzir um salvador a partir de nossas obras e virtudes. Acautelem-se disso, cristãos professos; vocês são muito atuantes, mas isso pode estragar tudo. Quando tiverem feito o máximo e o melhor, fujam de vós mesmos para Cristo; reconheçam que as vossas justiças próprias são como trapos imundos (Filipenses 3:9; Isaías 64:6).
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6). Uma secreta inimizade contra o rigor da religião. Muitas pessoas moralmente corretas, cumpridoras dos seus deveres religiosos, têm uma amarga inimizade contra o rigor e o zelo religiosos, e odeiam a vida e o poder da religião. Não apreciam esta solicitude nem gostam que os homens sejam tão zelosos. Condenam os rigores da religião como se fossem singularidade, indiscrição, zelo exagerado, e consideram o pregador zeloso e o crente fervoroso nada mais do que extremistas. Tais homens não amam a santidade como santidade (porque então amariam a perfeição da santidade) e portanto são corruptos em seus corações, seja qual for o bom conceito que tenham sobre si mesmos.

(7). O descanso num certo grau de religião. Quando supõem que já possuem o suficiente para serem salvos, deixam de olhar mais adiante, e assim apresentam-se carentes da graça verdadeira, graça essa que sempre leva os homens a aspirarem a perfeição (Filipenses 3:13; Provérbios 4:18).

(8). O predominante amor ao mundo. Esta é a real evidência de um coração não santificado. "Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele". (I João 2:15). Mas quão frequentemente este pecado se esconde sob a capa da confissão pública de fé. Sim, há um tal poder de engano neste pecado que, muitas vezes, quando todos podem ver o mundanismo e a cobiça existentes na pessoa, ela própria não os pode enxergar em si mesma, e apresenta tantas desculpas e pretextos para justificar o seu amor pelo mundo que fica cega e perece no seu autoengano. Quantos e quantos cristãos professos existem, cujos corações pertencem mais ao mundo do que a Cristo; são pessoas "que só pensam nas coisas terrenas", e portanto inclinam-se evidentemente para as coisas da carne e provavelmente o seu fim será a perdição (Romanos 8:5; Filipenses 3:19). Contudo, fale com tais pessoas e elas lhe dirão, confiantemente, que estimam a Cristo acima de tudo, pois não podem ver as suas inclinações carnais por falta de um rigoroso exame dos seus próprios corações. Se simplesmente buscassem com diligência, logo descobririam que a sua maior satisfação está no mundo e que o seu maior cuidado e melhor esforço são empregados para se apossarem do mundo, sinais evidentes de um pecador não convertido. Que a ala religiosa do mundo possa atentar sinceramente para isso, a fim de que não venha a perecer em decorrência deste pecado despercebido. Os homens podem ser mantidos longe de Cristo, e frequentemente ocorre, tanto pelo amor desordenado aos confortos legítimos como pelos seus hábitos ilegítimos.

(9). O domínio da malícia e da inveja contra os que os desrespeitam e os injuriam. Oh quantos que, tendo a aparência de religiosos, lembram as injúrias e guardam os ressentimentos, pagando o mal com o mal, amando a vingança e desejando o mal aos que os injuriam. Isto vai diretamente contra as regras do evangelho, contra o padrão de Cristo e contra a natureza de Deus. Sem dúvida alguma, quando este mal se mantém fervendo no coração, prevalecendo habitualmente, ao invés de ser odiado, resistido e mortificado, tal pessoa encontra-se realmente em fel de amargura e em estado de morte (Mateus 18:32-35; I João 3:14-15).

(10). Orgulho não mortificado. Quando os homens apreciam mais os louvores dos seus semelhantes do que o louvor de Deus, e colocam o coração na estima, no aplauso e na aprovação humanos, é bem certo que estão vivendo em pecado e longe da verdadeira conversão (João 12:43; Gálatas 1:10). Quando os homens não veem, nem lamentam, nem gemem sob o orgulho do próprio coração, é sinal de que estão completamente mortos no pecado. Oh, quão ocultamente esse pecado vive e reina em muitos corações; e eles não sabem, mas desconhecem-se a si mesmos (João 9:40).

(11). Um dominante amor pelo prazer. Esta é uma marca negra. Quando os homens dão à carne a liberdade que ela deseja, e a mimam e a agradam, ao invés de a negar e a dominar; quando o maior prazer é gratificar os seus apetites e satisfazer os seus sentidos, tudo é falso, não obstante a aparência que tenham de religião. Uma vida que satisfaz à carne não pode agradar a Deus. "E os que são de Cristo, crucificaram a carne..." e têm o cuidado de a subjugar como a um inimigo (Gálatas 5:24; I Coríntios 9:25-27).

(12). Segurança carnal. Trata-se de uma confiança presunçosa de que já estão em boas condições. Muitos clamam "paz e segurança", quando uma repentina destruição está vindo sobre eles. Foi essa segurança que manteve as virgens loucas adormecidas quando deveriam estar trabalhando; que as manteve na cama, quando deveriam estar no mercado. Foi só quando o noivo chegou que perceberam que lhes faltava azeite; e enquanto foram comprá-lo, a porta se fechou. Oxalá aquelas virgens loucas nunca tivessem deixado sucessores! Haveria, no entanto, algum lugar onde eles não estejam? Onde é que eles não habitam? Os homens desejam agradar-se a si mesmos sobre bases sempre tão frágeis, esperançosos de que a sua condição seja boa; portanto não se preocupam em mudar, e por causa disso perecem em seus pecados. E você, leitor está em paz? Mostre-me as bases sobre as quais a sua paz se firma. É a paz das Escrituras? Você pode apresentar as marcas características de um verdadeiro cristão? Pode apresentar as evidências de que tem algo mais que qualquer hipócrita do mundo já teve? Se não pode, então tema essa paz mais do que qualquer aflição; e saiba que uma paz carnal geralmente revela-se o maior inimigo da alma, e enquanto sorri, beija e fala de maneira agradável, ela fatalmente golpeia e destrói.

A esta altura parece-me ouvir os meus leitores exclamando como os discípulos: "Quem poderá ser salvo?" Separem de nosso meio todas aquelas dez fileiras de profanos de um lado, e depois tirem aquelas doze classes de hipócritas autoenganadores e coloquem-nos do outro lado, e digam-me se não há um saldo que vai ser salvo. Quão poucas serão as ovelhas que restarão quando todos esses forem afastados e incluídos com os bodes. De minha parte, não tenho esperanças de ver no Céu nenhum dos meus numerosos leitores que for encontrado entre estas vinte e duas classes aqui mencionadas, a não ser que seja conduzido a uma outra condição através da conversão verdadeira.

E agora, consciência, faça o seu trabalho. Fale franca, profunda e intimamente àquele que ouve ou lê estas linhas. Se encontrar qualquer uma dessas marcas nele, deve declará-lo completamente impuro. Não minta. Não fale de paz àquele a quem Deus não fala de paz. Não permita que o sentimento a corrompa, nem que o amor-próprio ou o preconceito carnal a ceguem. Eu intimo-a, pelo tribunal celestial, que venha e testifique. Visto que você vai responder por sua conta, apresente um relato verdadeiro sobre o estado e a situação daquele que lê este livro. Consciência, irá ficar calada numa hora como esta? Eu suplico-lhe, pelo Deus vivo, que diga a verdade. O homem é convertido ou não? Ele permite a si próprio alguma forma de iniquidade ou não? Ele realmente ama, agrada, louva e se deleita em Deus acima de todas as coisas ou não? Levante-se e dê uma resposta definida.

Por quanto tempo essa alma viverá na incerteza? Ó consciência, apresente o seu veredito. Esse homem é um novo homem ou não? Como você descobre isso? Ele passou por uma completa e poderosa transformação ou não? Quando, aonde e por que meios foi realizada nele essa completa transformação do novo nascimento? Fale, consciência; e se você não pode dizer o tempo e o lugar, então poderia mostrar uma evidência bíblica de que a obra foi realizada? O mesmo já foi tirado do seu falso fundamento, da sua falsa esperança e da sua falsa paz, nas quais confiava? Ele já foi profundamente convencido do pecado e de sua condição de perdido e destruído? Foi livrado de si mesmo e dos seus pecados para render-se totalmente a Jesus Cristo? Ou será que ele se encontra, até hoje, sob o poder da ignorância ou na lama do mundanismo? Você não acha que ele é um estranho à oração, um negligente da Palavra, um amante deste presente século? Você não o pega, de vez em quando, numa mentira? Não encontra o seu coração fermentado com a malícia ou queimando de concupiscência, ou andando segundo a sua cobiça? Fale francamente sobre todos os pontos antes mencionados. Você pode absolver esse homem (ou essa mulher) da sua inclusão numa das vinte e duas classes aqui descritas? Se ele (ou ela) for encontrado em qualquer uma delas, ponha-o de lado; a porção dele não é com os santos. Precisa ser convertido e feito nova criatura, ou não poderá entrar no reino de Deus.

Amados, não sejam em vós próprios traidores. Não enganem os vossos corações, não deem as vossas suas mãos à sua própria ruína por causa de uma cegueira voluntária. Estabeleçam um tribunal em vossos corações. Reúnam a palavra e a consciência. "À Lei e ao Testemunho". Ouçam o que a Palavra conclui a respeito da vossa condição. Prossigam na busca até descobrirem como está a vossa condição. Se cometerem um erro aqui, perecerão. É tal a deslealdade do coração, a sutileza de temperamento e o engano do pecado, tudo conspirando para iludir e lograr a pobre alma; e é tão comum e fácil cometer um erro que há mil hipóteses contra uma de que vocês serão enganados, a menos que sejam atentos, radicais e imparciais no exame da vossa condição espiritual. Portanto, sejam diligentes na busca, desçam até ao fundo, investiguem tudo, ponham-se na balança, cheguem ao padrão do santuário e tragam a vossa moeda para a pedra de toque, Satanás é o pai da mentira; ele sabe como lidar com a vida; ele é perfeito no negócio e não há nada que ele não possa imitar. Não há uma graça sequer que possam desejar a qual ele não possa falsificar. Sejam zelosos, não confiem nem mesmo em si próprios. Cheguem-se a Deus para que Ele os perscrute e os prove, para que Ele os examine e conheça o vosso intimo. Se outros tipos de ajuda não forem suficientes para resolver o assunto, e vocês ainda estiverem incertos, consultem um fiel e piedoso ministro ou um amigo cristão. Não descansem até que tenham certeza da vossa segurança eterna.

"Ó Perscrutador dos corações, faz com que essa alma Te busque, e ajuda-a na sua busca".

Joseph Alleine in “Um guia seguro para o Céu”, PES, PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS, Rua 24 de Maio, 116 — 3.° andar — sala 16-17 Caixa Postal 1287 — 01051 — São Paulo, SP, Brasil

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