Joseph Alleine
3
A necessidade da conversão
Talvez vocês
estejam prontos a indagar: "O que significa essa insistência?" Talvez
estejam admirados que eu os persiga tão ardentemente, sempre batendo na mesma
tecla, ou seja, que devem arrepender-se e converter-se. No entanto, preciso
dizer-lhes como Rute disse a Noemi: "Não me instes para que te deixe, e me
afaste de ao pé de ti". (Rute 1:16). Se se tratasse de um caso de
indiferença, isto é, que vocês pudessem salvar-se da maneira como estão, eu, de
bom grado, os deixaria em paz; mas acham que não me vou preocupar com vocês,
sabendo que estão prestes a perecer? Como o Senhor vive, diante de quem eu
estou, não tenho a mínima esperança de vê-los no Céu, a menos que se convertam.
Desespero completamente da vossa salvação, a não
ser que vocês sejam persuadidos a desistirem de si mesmos e a voltarem-se para
Deus em santidade e novidade de vida. Teria Deus dito, "...aquele que não
nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus", e,
contudo, admiram-se de que os seus ministros lutem tão diligentemente por
vocês? Não achem estranho que eu seja zeloso para que vocês sigam a santidade,
e deseje ver a imagem de Deus refletida em vocês. Jamais alguém entrou ou
entrará no Céu por qualquer outro caminho, senão por esse. A conversão descrita
não é um alto prémio para alguns cristãos aperfeiçoados, mas toda alma que é
salva passa por essa transformação.
Conta-se de um nobre romano que, ao apressar-se em
levar mantimento à cidade onde havia fome, disse aos marinheiros que se negavam
a navegar sob um mau tempo: "É-nos necessário navegar — não nos é
necessário viver". O que você considera necessário? O seu pão é
necessário? A sua respiração é necessária? Então a sua conversão é muito mais
necessária. De fato, esta é a única coisa necessária. Suas posses não são
necessárias; você pode vender tudo para comprar a pérola de grande preço e,
contudo, lucrar com a compra. Sua vida não é necessária; você pode perdê-la por
Cristo, com infinita vantagem. Sua reputação não é necessária; você pode ser
repreendido por causa do nome de Cristo e ainda ser feliz; sim, você pode ser
muito mais feliz na censura do que na fama. Mas a sua conversão é necessária; a
sua salvação depende dela; e não seria preciso ter cuidado num assunto tão
importante? É deste ponto que depende a sua formação ou sua ruína para toda a
eternidade.
Mas vou mostrar-lhes, mais especificamente, a
necessidade da conversão em cinco pontos.
1. Sem conversão sua existência é vã.
Não seria uma pena se você não servisse para nada,
se fosse um peso inútil sobre a Terra, uma simples verruga no corpo do Universo?
Entretanto, é isso que você é enquanto não convertido, pois não pode responder
pela finalidade da sua existência. Não é para o prazer divino que você existe e
foi criado? Deus não o fez para Si mesmo? Você é um ser humano e pode
raciocinar? Então, pense como veio a existir e por que existe. Contemple a obra
de Deus em seu corpo, e pergunte a si mesmo qual o propósito de Deus ao criar
essa obra. Considere as nobres faculdades da sua alma nascida para o Céu. Com
que propósito Deus lhe outorgou essas qualidades superiores? Teria sido só para
que você se deleitasse e satisfizesse os seus sentimentos? Será que Deus pôs os
homens neste mundo, apenas como andorinhas, para ajuntar gravetos e lama,
construir seus ninhos, criar seus filhotes e depois partirem?
O próprio pagão poderia ver mais além. Será que é
tão "terrível e maravilhosamente criado" e nem assim considera
consigo mesmo: "Certamente, fui criado para algum nobre e elevado
propósito"?
Ó homem, raciocine um pouquinho! Não é uma pena que
tal obra divina tenha sido criada em vão? Verdadeiramente, a sua existência é
vã, a menos que você viva para Deus. Seria melhor que não existisse, se não
viver para Ele. Quer corresponder ao propósito para o qual foi criado? Você
precisa arrepender-se e ser convertido; sem isso, não vai servir a propósito
algum; na realidade servirá a um mau propósito.
Você é um inútil. O não-convertido é como um
instrumento excelente que tem todas as cordas quebradas ou desafinadas. O
Espírito do Deus vivo precisa consertá-lo e afiná-lo pela graça da regeneração
e tocá-lo docemente pelo poder da graça atuante, caso contrário as suas orações
serão apenas uivos e todo o serviço que presta a Deus não encontrará eco nos
ouvidos do Altíssimo. Todos os seus poderes e faculdades estão tão corrompidos
em seu estado natural, que se não for purificado das suas obras mortas, não
poderá servir ao Deus vivo. Um homem que não esteja santificado não pode
realizar a obra de Deus.
(1) Ele não tem habilidade para fazê-la. É tão
completamente incapaz na obra quanto na palavra da justiça. Há grandes
mistérios tanto na prática como nos princípios da santidade. Ora, o homem não
regenerado desconhece os mistérios do reino do Céu. Do mesmo modo que não se
pode esperar boa leitura da parte daquele que nunca aprendeu as primeiras
letras, ou a boa música do alaúde daquele que jamais pegou num instrumento,
também não se pode esperar que o homem natural ofereça serviço algum agradável
ao Senhor. Antes ele precisa ser ensinado por Deus (João 6:45); ensinado a orar
(Lucas 11:1); ensinado a ser útil (Isaías 48:17); ensinado a ir (Oséas 11:3);
senão ele estará completamente incapacitado.
(2) Ele não tem forças para realizá-la. Quão frágil
é o seu coração! (Ezequiel 16:30). Logo fica cansado. Que canseira é o dia do
Senhor!! (Malaquias 1:13). Ele está sem forças (Romanos 5:6), sim, está morto
em pecados (Efésios 2:5).
(3) Ele não tem vontade de fazer a obra de Deus.
Não deseja ter o conhecimento dos caminhos de Deus (Job 21:14). Não os conhece
e não se importa em conhecê-los (Salmo 82:5). Ele não os conhece nem jamais os
entenderá.
(4) Ele não tem instrumentos nem materiais
adequados para a obra. Da mesma forma que não se pode talhar o mármore sem
ferramentas, nem pintar sem pincéis e tintas, nem construir sem materiais, não
é possível realizar qualquer serviço agradável a Deus sem as graças do
Espírito, que são tanto os materiais como os instrumentos de trabalho. A
caridade não é um serviço a Deus, mas um ato de ostentação, a menos que brote
do amor a Deus. O que é a oração dos lábios sem a graça no coração, senão uma
carcaça sem vida? O que são todas as nossas confissões se não forem práticas de
contrição piedosa e de arrependimento sincero? O que são as nossas petições, se
não forem animadas de desejos santos e de fé nos atributos e promessas de Deus?
O que são os nossos louvores e ações de graças, se não brotarem do amor de Deus
e se não forem uma santa gratidão e um sentimento das misericórdias de Deus em
nossos corações? Portanto, assim como não se pode esperar que as árvores falem
ou que os mortos se movimentem, também não se pode esperar que o não-convertido
apresente um serviço santo e agradável a Deus. Se a árvore é má, como pode dar
bons frutos?
Da mesma forma, sem conversão você vive para um mau
propósito. A alma não convertida é uma verdadeira gaiola de aves imundas
(Apocalipse 18:2), um sepulcro cheio de corrupção e imundícia (Mateus 23:27),
uma repugnante carcaça cheia de vermes rastejantes, que exalam um mau cheio
muito nojento às narinas de Deus (Salmo 14:3). Oh, que situação terrível! Você
ainda não percebeu que é necessário que haja uma mudança? Não nos teria
entristecido ver os consagrados vasos de ouro do templo de Deus transformados
em copos de bebidas alcoólicas e poluídos com o culto aos ídolos? (Daniel
5:2-3). Os judeus não consideraram uma terrível abominação quando Antíoco
colocou a figura de um suíno na entrada do Templo? Quão mais abominável, então,
teria sido se o próprio Templo fosse transformado num estábulo ou num chiqueiro
e o Santo dos santos fosse servido como a casa de Baal! É exatamente este o
caso do não-regenerado. Todos os seus membros estão transformados em
instrumentos de injustiça, em servos de Satanás e, o mais íntimo de seu coração,
em um receptáculo de impureza. Você pode ter ideia do tipo de convidados que
estão dentro da casa, por aqueles que vêm para fora; pois, "do coração
procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos
testemunhos e blasfémias" (Mateus 15:19). Este bando negro mostra o Inferno
que há no interior.
Oh que abuso insuportável ver uma alma nascida para
o Céu humilhada a tal baixeza; ver a glória da criação de Deus, a principal
obra de Deus, o Senhor desta Terra, comendo bolotas como o pródigo! Não foi
lamentável ver aqueles que se alimentavam de delicadas iguarias, sentados
desfalecidos nas ruas; e os preciosos filhos de Sião, comparáveis ao ouro puro,
reputados como vasos de barro; e aqueles que estavam vestidos de carmesim,
abraçando o estéreo? (Lamentações de Jeremias 4:2, 5). E não é muito mais
terrível ver o único ser nesta Terra que é dotado de imortalidade e que tem o
sinete de Deus, tornar-se um vaso no qual não há prazer, destinado ao mais
sórdido uso? Oh, que indignidade intolerável! Seria melhor que você fosse
quebrado em mil pedaços do que continuar a ser rebaixado a um serviço tão vil.
2. Sem a conversão, não somente o homem é inútil,
mas também toda a criação visível. Deus fez todas as criaturas visíveis no Céu
e na Terra para servirem ao homem, e o homem é somente o porta-voz de todo o
resto. O homem é, no mundo, o que a língua é para o corpo, isto é, fala por
todos os membros. As outras criaturas não podem louvar o seu Criador, a não ser
através de sinais mudos e insinuações dirigidas ao homem, para que ele fale por
elas. O homem é, como se fosse, o sumo-sacerdote da criação de Deus, para
oferecer o sacrifício de louvor por todas as suas co-criaturas. O Senhor Deus
espera um tributo de louvor de todas as Suas obras. Ora, todas as demais
criaturas trazem os seus tributos ao homem e pagam esses tributos através das
mãos dele. Então, se o homem é falso, infiel, egoísta, Deus é roubado por todas
as criaturas e não recebe a glória ativa de nenhuma de Suas obras.
Oh que pensamento horrível! Imaginem, Deus criar um
mundo como este, despender tão infinito poder, sabedoria e bondade, e no fim
ser tudo em vão! Pensem no homem ser culpado, afinal, de roubar a Deus e de
privá-lO da glória de tudo! Reflitam bem nisso. Enquanto alguém for um
não-convertido, todos os préstimos das outras criaturas lhe são inúteis. A sua
comida o alimenta inutilmente. O Sol brilha para ele inutilmente. As suas
roupas aquecem-no em vão. O seu animal carrega-o em vão. Em resumo, o
incansável trabalho e o contínuo serviço de toda a criação, são inúteis para
ele. O serviço de todas as criaturas que trabalham arduamente e submetem toda a
sua força ao homem, com a qual ele deveria servir o Criador delas, não passa de
trabalho perdido. Por isso, "toda a criação geme" (Romanos 8:22) sob
o abuso de homens profanos que pervertem todas as coisas, usando-as para
satisfazer suas luxúrias, uso bastante contrário ao verdadeiro propósito da
existência delas.
3. Sem a conversão a sua religião é vã. Todas as
suas práticas religiosas são nada mais que perdas, pois elas não cumprem os
verdadeiros propósitos do Evangelho, isto é, não podem agradar a Deus nem
salvar a sua alma (Romanos 8:8; I Coríntios 13:2-3). Mesmo que os seus cultos
sejam muito especiais, Deus não tem prazer neles (Isaías 1:14; Malaquias 1:10).
Não é terrível a situação daquele homem, cujos sacrifícios são como homicídios
e cujas orações como um sopro de abominação? (Isaías 66:3; Provérbios 28:9).
Muitos, sob convicção, pensam que estão determinados a corrigirem-se e que
algumas orações e esmolas poderão consertar tudo; mas que tristeza, senhores,
enquanto os seus corações permanecerem sem santificação, nenhuma de suas
obrigações será aceita.
Quão meticuloso era Jeú! No entanto, tudo foi
rejeitado porque o seu coração não era justo (II Reis 10 com Oséias 1:4). Quão
irrepreensível era Paulo! Contudo, não sendo convertido, tudo não passava de
perda (Filipenses 3:6-7). Os homens acham que fazem muito em dar atenção ao
serviço de Deus, e até O consideram em débito com eles, entretanto, não estando
santificados, as suas práticas religiosas não podem ser aceitas.
Ó alma, não pense que quando os seus pecados a
perseguem, uma simples oraçãozinha e uma reformazinha de sua conduta poderão
apaziguar a Deus. É necessário começar com o seu coração. Se ele não for
renovado, você não pode agradar a Deus mais do que alguém que, tendo-o ofendido
indizivelmente, viesse trazer-lhe a coisa mais asquerosa para acalmá-lo; ou,
havendo caído no lodo, pensasse em reconciliar-se com você com seus abraços
imundos.
Ê uma grande desgraça labutar no fogo. Os poetas
não poderiam inventar um Inferno pior para Sísifo, do que ficar labutando
eternamente, a fim de levar para cima da montanha a pesada pedra que sempre
rolava para baixo novamente, obrigando-o a recomeçar o seu trabalho. Para Deus
o maior dos julgamentos temporais é que os que desobedecem edifiquem uma casa
sem habitar nela, plantem e não colham, e o seu trabalho seja devorado pelos
estrangeiros (Deuteronómio 28:20, 38-41). Não é uma grande desgraça perder todo
o nosso trabalho, semear e construir em vão? Mas é muito pior perder os nossos
esforços religiosos — orar, ouvir a Palavra de Deus e jejuar em vão! Trata-se
de uma perda eterna e irreparável. Não se deixe enganar: se você continuar no
seu estado pecaminoso, ainda que estenda as suas mãos, Deus vai esconder os
olhos; mesmo que você faça muitas orações, Ele não ouvirá (Isaías 1:15). Se um
homem incapaz começa a fazer o nosso trabalho e o estraga, mesmo que ele
capriche, não lhe agradecemos por isso. Deus tem de ser adorado conforme a Sua
determinação. Se um servo faz o nosso trabalho totalmente contrário à nossa
ordem, ele deverá receber açoites ao invés de louvores. A obra de Deus precisa
ser feita de acordo com a Sua vontade, ou Ele não Se agradará; e isto não pode
ser, a menos que seja feito com um coração santo.
4.Sem a conversão verdadeira, as suas esperanças
são em vão.
"... a esperança do hipócrita perecerá."
(Job 8:12-13). "... porque o Senhor rejeitou as tuas confianças." (Jeremias
2:37).
(1) A esperança de conforto aqui é vã. É preciso
que você seja convertido não somente por segurança, mas também para o conforto
da sua condição. Sem a conversão, você não conhecerá a paz (Isaías 59:8). Sem o
temor de Deus, você não pode ter o conforto do Espírito Santo (Atos 9:31). Deus
fala de paz somente ao Seu povo e aos Seus santos (Salmo 85:8). Se permanecendo
em seus pecados você tem uma falsa paz, ela não provém de Deus e, portanto,
você pode adivinhar quem é o autor dela. O pecado é uma verdadeira doença
(Isaías 1:5); sim, a pior das doenças; é uma lepra na cabeça (Levítico 13:44);
uma chaga no coração (I Reis 8:38); uma quebradura nos ossos (Salmo 51:8); ele
traspassa, fere, tortura, atormenta (I Timóteo 6:10). Do mesmo modo que um homem
não pode esperar alívio quando a doença está na sua força total, ou quando os
ossos estão desjuntados, também não pode esperar conforto enquanto estiver em
seus pecados.
Ó homem infeliz, que não tem alívio nessa situação,
mas sim aquilo que provém da mortalidade da doença! Na sua irreflexão, o pobre
homem enfermo diz que está bem; com a morte já estampada em sua face, ele ainda
se levantaria e estaria ativo em seus negócios, quando o próximo passo seria,
provavelmente, a sepultura. Os homens não santificados geralmente não vêem nada
defeituoso; consideram-se sadios e não chamam o médico; mas isso simplesmente
mostra o perigo da situação em que se encontram.
O pecado produz naturalmente doenças e distúrbios
na alma. Que tumulto contínuo há numa mente descontente! Que mal consumidor é a
preocupação desordenada! O que é a paixão, senão uma verdadeira febre na mente?
O que é a luxúria, senão um fogo nos ossos? O que é o orgulho, senão um edema
mortal? O que é a cobiça, senão uma sede insaciável e insuportável? O que é a
malícia, senão um veneno no próprio coração? A preguiça espiritual nada mais é
que um escorbuto na mente, e a segurança carnal é uma letargia mortal. Como
essa alma pode ter conforto verdadeiro, se está acometida de tantos males? Mas
a graça da conversão cura e, portanto, alivia a mente e prepara a alma para uma
paz firme, duradoura e imortal. "Muita paz têm os que amam a tua lei, e
para eles não há tropeço". (Salmo 119:165). São os caminhos da sabedoria
que garantem o prazer e a paz (Provérbios 3:17). O salmista tinha muito mais
prazer na Palavra de Deus do que em todas as delícias da sua mansão. (Salmo
119:103, 127). A consciência não pode ter paz completa enquanto não for
totalmente purificada (Hebreus 10:22). Maldita é aquela paz que se mantém no
caminho do pecado (Deuteronómio 29:19-20). Há duas espécies de paz que devem
ser temidas mais do que todas as aflições deste mundo: a paz com o pecado e a
paz no pecado.
(2) A esperança da salvação na vida futura é vã.
Essa esperança é a mais ofensiva a Deus e a mais perniciosa para você. Nessa
esperança há morte, desespero e blasfémia.
Reitero: há morte nela. A sua confiança, ó homem,
será arrancada dos seus tabernáculos, Deus a arrancará com raízes e ramos; ela
o conduzirá ao rei dos terrores (Job 18:14). Embora você possa encostar-se
nessa casa, ela não resistirá; ao contrário, provará ser como um edifício
arruinado que, quando o homem põe nele a sua confiança, desmorona em cima dele
(Job 8:15).
Há desespero nessa esperança. "... qual será a
esperança do hipócrita..., quando Deus lhe arrancar a sua alma?" (Job
27:8). Então há um fim eterno para essa esperança. De fato, a esperança do
justo tem um fim, mas não se trata de um fim destruidor, e sim de um fim
aperfeiçoador. A sua esperança termina em gozo; a de outros, em frustração. O
homem justo, no momento da morte, diz: "Está acabado"; mas o ímpio
diz: "Está perdido", e pode, sinceramente, lamentar-se como Job
(embora esse o tenha feito por equívoco) na sua situação: "Onde está a
minha esperança? "Quebrou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou a
minha esperança, como a uma árvore". (Job 19:10) "... o justo até na
sua morte tem esperança". (Provérbios 14:32). Quando a natureza está
agonizando, as esperanças do justo estão vivas; quando o corpo está
desfalecendo, as esperanças estão florescendo; a esperança do justo é uma
esperança viva, mas a de outros é uma esperança morta, condenadora, que destrói
a alma. "Morrendo o homem ímpio perece a sua expectação, e a esperança dos
injustos se perde". (Provérbios 11:7). Tal esperança fica frustrada e
mostrará que é como uma teia de aranha (Job 8:41), que gera de suas próprias
entranhas; mas então chega a morte e destrói tudo e há, portanto, um fim eterno
da sua confiança, na qual se firmava. "Os olhos dos ímpios desfalecerão, e
perecerá o seu refúgio; e a sua esperança será o expirar da alma". (Job
11:20). Os ímpios fixam-se na sua esperança carnal, e não se apartarão dela;
eles seguram-na firmemente, não deixarão que ela se vá; mas a morte a arrancará
dos seus dedos. Embora não possamos desenganá-los, a morte e o julgamento o
farão. Quando a morte arremessar o seu dardo através do seu fígado, destruirá
num só golpe a sua alma e as suas esperanças. Os ímpios têm esperança apenas
nesta vida e, portanto, são os mais miseráveis de todos os homens. Quando a
morte chega, deixa-os no espantoso abismo do infindável desespero.
Há blasfémia nessa esperança. Esperar que sejamos
salvos apesar de continuarmos não convertidos, é esperar que provemos que Deus
é mentiroso. Misericordioso e compassivo como é, Deus tem-lhes dito que jamais
os salvará se continuarem nos caminhos da ignorância e da injustiça. Em suma:
Ele tem lhes dito que não importa o que sejam ou façam, nada lhes garantirá a
salvação, a menos que se tornem novas criaturas. Ora, dizer que Deus é
misericordioso e que Ele nos salvará sem conversão, é o mesmo que dizer:
"Esperamos que Deus não cumpra aquilo que Ele diz." Não podemos pôr
em antagonismo os atributos de Deus. Ele decidiu glorificar a Sua misericórdia
mas sem prejudicar a Sua verdade, fato que o pecado presunçoso descobrirá para
seu desespero eterno.
Objeção: mas nós esperamos em Jesus Cristo.
Colocamos toda a nossa confiança em Deus, portanto não há dúvida de que seremos
salvos.
Resposta: isso não é esperar em Cristo, mas esperar
contra Cristo. Esperar ver o reino de Deus sem nascer de novo, esperar achar a
vida eterna no caminho largo, é esperar que Cristo Se revele um falso profeta.
O clamor do salmista é: "... mas confiei na tua palavra." (Salmo
119:81). Mas a esperança do opositor é contra a Palavra de Deus. Mostre-me uma
palavra de Cristo que sustente a sua esperança de que Ele o salvará na
ignorância ou na negligência profana do Seu serviço, e eu jamais tentarei
abalar a sua confiança.
Deus rejeita essa esperança com repugnância. Os que
foram condenados pelo profeta, continuaram em seus pecados; contudo, diz o
profeta: "... e ainda se encostam ao Senhor. . ." (Miquéas 3:11).
Deus não suportará ser transformado em esteio para o homem em seus pecados. O
Senhor rejeitou aqueles pecadores arrogantes que continuaram nas suas
transgressões e ainda se apoiavam no Deus de Israel, da mesma forma que se
sacode o pó que adere à roupa.
Se a sua esperança vale alguma coisa, ela os
purificará de seus pecados (I João 3:3), mas maldita é a esperança que acalenta
o homem em seus pecados.
Objeção: então, quer que caiamos no desespero?
Resposta: vocês devem perder a esperança de ir para
o Céu do jeito que estão, isto é, enquanto não forem convertidos. Devem perder
a esperança de ver a face de Deus, sem santificação. Mas não devem, de modo
algum, desesperar de achar misericórdia se se arrependerem e forem convertidos.
Nem precisam desesperar de alcançar arrependimento e conversão se usarem os
meios de Deus.
5. Sem a conversão, tudo que Cristo fez e sofreu
será em vão para vocês. A Sua obra não vai ajudá-los, de forma alguma, para
obterem a salvação. Muitos alegam que o fato de Cristo haver morrido pelos
pecadores é uma base suficiente para a salvação deles; mas devo dizer-lhes que
Cristo jamais morreu para salvar pecadores impenitentes e não convertidos. Um
notável teólogo costumava fazer duas perguntas ao tratar particularmente com as
almas: "O que Cristo fez para você? O que Cristo realizou em você?"
Sem a atuação do Espírito na regeneração, não temos participação nos benefícios
da redenção. Digo-lhes, da parte de Deus, que o próprio Cristo não pode
salvá-los se continuarem nesse estado.
(1) Salvar os homens em seus pecados, seria ir
contra a Sua fidelidade. O Mediador é o servo do Pai, apresenta o encargo que o
Pai Lhe deu, age em nome dEle, e pleiteia a ordem dEle para Sua justificação
(João 10:18,36; João 6:38,40). Deus O encarregou de tudo, confiou-Lhe a Sua
própria glória e a salvação de Seus eleitos (Mateus 11:27; João 17:2). Assim,
antes de deixar o mundo, Cristo apresenta ao Pai um relato de ambas as partes
daquilo que Ele Lhe confiou (João 17). Ora, Cristo iria impedir completamente a
glória do Pai, empanar o Seu maior crédito, se Ele salvasse os homens que
estivessem em pecado; pois isso iria derrubar todos os Seus juízos e profanar a
todos os Seus atributos.
Iria derrubar todos os juízos de Deus, cuja ordem é
que os homens sejam levados à salvação através da santificação (II Tessalonicenses
2:13). Ele os escolheu para que fossem santos (Efésios 1:4). São eleitos para o
perdão e para a vida, através da santificação (I Pedro 1:2). Se vocês puderem
anular a lei dos imutáveis juízos de Deus ou corromper Aquele que o Pai selou,
fazendo com que vá frontalmente contra o Seu mandamento, então poderão ir para
o Céu na condição em que se encontram. Mas, esperar que Cristo os salve
enquanto não forem convertidos, é esperar que Ele Se revele infiel ao Seu
encargo. Ele jamais salvou nem salvará uma alma que não Lhe tenha sido dada
pelo Pai na eleição, e levada a Ele por um chamamento eficaz (João 6:37,44).
Estejam certos de que Cristo não salvará pessoa alguma de forma contrária à
vontade do Pai.
Salvar os homens em seus pecados, significaria
profanar todos os atributos de Deus.
A Sua justiça. A justiça do julgamento de Deus está
em retribuir a todos segundo as suas obras. Ora, se os homens semeassem para a
carne e colhessem do Espírito vida eterna, onde ficaria a glória da justiça
divina, uma vez que seria dada ao ímpio tal qual é dada ao justo?
A Sua santidade. Se Deus não apenas salvasse os
pecadores, mas os salvasse em seus pecados, Sua tão pura e irrepreensível
santidade seria extremamente deturpada. Aos olhos santíssimos de Deus, aqueles
que ainda não foram santificados são piores do que um porco ou do que uma
víbora. Seria uma extrema profanação da infinita pureza da pessoa de Deus,
permitir que tais elementos habitassem com Ele. Eles não podem suportar o Seu
julgamento e não poderiam permanecer na presença dEle. Se David que era santo
não aguentou tal coisa em sua casa, nem mesmo diante de seus olhos (Salmo
101:3,7), como podemos pensar que Deus a pode suportar? Se Deus pegasse os
homens no estado em que estão e os tirasse do lamaçal de sua imundícia para a glória
do Céu, o mundo iria pensar que Deus não está a uma distância muito grande do
pecado nem que sente repugnância por ele, como nos é dito que Ele sente. O
mundo estaria pronto a concluir que Deus seria exatamente igual a qualquer
homem, como alguns dos antigos impiamente concluíram, por causa da paciência
dEle. (Salmo 50:21).
A Sua veracidade. Deus declarou lá do Céu que se
alguém dissesse que teria paz, embora andasse segundo o parecer do seu coração,
Sua ira fumegaria contra aquela pessoa (Deuteronómio 29:19-20). Ele declarou
que somente aqueles que confessassem e deixassem os seus pecados achariam
misericórdia (Provérbios 28:13). Ele declarou que somente aqueles que fossem
limpos de mão e puros de coração subiriam ao Seu monte e entrariam no Seu santuário
(Salmo 24:3-4). Onde estaria a verdade de Deus se, apesar disso tudo, Ele
conduzisse os homens à salvação, sem conversão? Ó pecador desesperado, que se
atreve a esperar que Cristo fará Seu Pai mentiroso e anulará a Palavra dEle
para salvá-lo!
A Sua sabedoria. Isto seria o mesmo que lançar as
mais preciosas misericórdias sobre aqueles que não dão qualquer valor a elas,
nem seriam de modo algum dignos delas.
Eles não dariam valor a elas. O pecador ainda não
santificado dá pouca importância à grande salvação de Deus. Ele não dá maior
valor a Cristo do que os sadios dão ao médico. Ele não valoriza o Seu bálsamo,
não valoriza a Sua cura, mas pisa no Seu sangue. Ora, seria sábio forçar o
perdão e a vida àqueles que não iriam manifestar qualquer agradecimento? Será
que o Deus sapientíssimo, que nos proibiu de fazê-lo, iria lançar as Suas
coisas santas aos cães e as Suas pérolas aos porcos, os quais não iriam fazer
outra coisa senão voltar-se novamente e dilacerá-lO? Isto seria, realmente,
fazer com que a misericórdia fosse desprezada. A sabedoria requer que a vida
seja dada conforme a honra de Deus, e que Deus cuide da Sua glória, bem como da
felicidade do homem. Seria uma desonra para Deus outorgar as Suas mais
preciosas riquezas àqueles que têm maior prazer nos seus pecados do que nos
deleites celestiais que Ele oferece. Deus perderia o louvor e a glória da Sua
graça, se Ele a lançasse sobre aqueles que não apenas são indignos dela, mas
também não a desejam.
Além disso, as misericórdias de Deus não são próprias
para os não-convertidos. A sabedoria de Deus é vista em coisas que são próprias
umas às outras: os meios aos fins; o objetivo ao poder de realização; a
qualidade do dom à capacidade do receptor. Ora, se Cristo levasse o pecador não
regenerado para o Céu, esse pecador sentir-se-ia tão mal ali como um animal que
fosse levado à bonita sala de uma sociedade de homens eruditos, uma vez que a
pobre criatura preferiria estar pastando com os seus companheiros no campo.
Digam-me: o que um homem não santificado faria no Céu? Não poderia ficar
contente lá porque nada é apropriado para ele. O lugar não lhe convém e
sentir-se-ia completamente deslocado, como um peixe fora d'água. A companhia
não poderia agradá-lo, pois que comunhão têm as trevas com a luz? A corrupção
com a perfeição? A baixeza e o pecado com a glória e a imortalidade? O trabalho
ali não lhe agradaria, pois os cânticos do Céu não se adaptam à sua boca nem
agradam aos seus ouvidos. Quem poderia cativar um jumento com a música ou
levá-lo para junto do seu órgão e esperar que ele produza uma melodia ou
mantenha o ritmo com um coral harmonioso? Se ele tivesse habilidade, não teria
vontade para fazer tal coisa e, portanto, não teria prazer nisso. Seria uma
ofensa para um doente enfraquecido pôr diante dele uma mesa repleta de iguarias
deliciosas. Se o pobre pecador considera um sermão muito longo e comenta sobre
um culto: "que canseira!", imagine quão miserável ele se sentiria ao
pensar na eventualidade de estar engajado num culto eterno!
A Sua imutabilidade, ou a Sua onisciência ou a Sua
onipotência. Está aprovado no Céu e registado no decreto da corte celestial,
que somente os limpos de coração verão a Deus (Mateus 5:8). Ora, se Cristo
levar não-convertidos para o Céu sem o conhecimento do Pai, onde estará a
onisciência de Deus? Se Ele os levar contra a vontade do Pai, onde estará a
onipotência de Deus? Ou se Ele tiver que mudar a vontade do Pai, onde estará a
imutabilidade de Deus?
(1) Pecador, você não vai desistir da sua inútil
esperança de ser salvo nesta condição? Bildade diz: "... será a Terra
deixada por tua causa? Remover-se-ão as rochas do seu lugar?" (Job 18:4).
Será que posso argumentar ainda mais com você? Serão as leis do Céu alteradas
por sua causa? Serão os fundamentos eternos transtornados por sua causa? Irá
Cristo confundir a onisciência do Pai ou encurtar o braço do Seu poder eterno
por sua causa? Será a justiça divina violada por sua causa? Ou o brilho de Sua
santidade empanado por sua causa? Oh, a impossibilidade, o absurdo, a blasfémia
de tal confiança! Pensar que Cristo o salvará nessa condição é fazer do
Salvador um pecador e ofender a infinita Majestade como nenhum dos ímpios da Terra
ou nenhum dos demónios do Inferno jamais fez ou poderia fazer; e nem assim você
vai desistir dessa esperança blasfema?
(2) Salvar os homens em seus pecados seria ir
contra a palavra de Cristo. Não precisamos dizer: "... Quem subirá ao Céu?
(isto é, trazer do alto a Cristo). Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a
tornar a trazer dentre os mortos a Cristo)... A palavra está junto de ti".
(Romanos 10:6-8). Você concorda que Cristo vai encerrar a controvérsia? Ouça,
então, as Suas próprias palavras: "... se não vos converterdes..., de modo
algum entrareis no reino dos céus." "... Necessário vos é nascer de novo."
"... Se eu te não lavar, não tens parte comigo." "... se vos não
arrependerdes, todos de igual modo perecereis." (Mateus 18:3; João 3:7;
João 13:8; Lucas 13:3). Poder-se-ia pensar que uma só palavra de Cristo seria
suficiente; mas quão frequente e sinceramente Ele a reitera: "Em verdade,
em verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de
Deus". (João 3:3). Sim, Ele não somente afirma, mas também prova a
necessidade do novo nascimento da carnalidade e da pecaminosidade do primeiro
nascimento, em razão das quais o homem não está mais apto para o Céu do que os
animais para o aposento do rei. E você ainda descansará na sua confiança
altiva, frontalmente contrária às palavras de Cristo? Ele teria que agir
completamente contra a lei do Seu reino e contra as regras do Seu julgamento
para salvá-lo nesse estado.
(3) Salvar os
homens em seu estado pecaminoso seria ir contra o juramento de Cristo.
Levantando a Sua mão ao Céu, Ele jurou que aqueles que permanecessem na
incredulidade e não conhecessem os Seus caminhos (isto é, fossem ignorantes
deles ou a eles desobedientes), não entrariam no Seu descanso (Hebreus 3:18). Ó
pecador, você ainda não acreditará que Ele está falando muito a sério? O
concerto da graça está confirmado por um juramento e selado com sangue; mas
tudo isso ficaria anulado e seria achado um novo caminho para o Céu, caso você
fosse salvo nesse estado, isto é, vivendo e morrendo sem santificação. Nos Seus
tratos com os homens Deus condescendeu ao máximo o que Sua honra Lhe permite.
Os homens não podem ser salvos enquanto não forem
convertidos, a menos que consigam que um outro concerto seja feito e que toda a
estrutura do Evangelho — que foi estabelecida para sempre com tão veneráveis
solenidades — seja completamente alterada. Não devem estar loucos aqueles que
esperam tal coisa?
(4) Salvar os homens em seus pecados seria ir
contra a honra de Cristo. Deus mostrará o Seu amor pelo pecador ao mesmo tempo
que mostrará o Seu ódio pelo pecado. Portanto, aquele que invoca o nome de
Jesus, precisa apartar-se da iniquidade e renunciar a toda a impiedade; e
aquele que tem a esperança de vida em Cristo, precisa purificar-se a si mesmo
como Ele é puro, doutro modo Cristo seria considerado um aprovador do pecado
(II Timóteo 2:19; Tito 2:12; I João 3:3). O Senhor Jesus quer que o mundo
inteiro saiba que embora Ele perdoe o pecado não significa que Ele protege o
pecado. Se um homem santo como David falou, "Apartai-vos de mim, todos os
que praticais a iniqüidade..." (Salmo 6:8), e fechou as suas portas contra
eles (Salmo 101:7), não devemos esperar muito mais da santidade de Cristo?
Seria digno de Sua honra ter cachorros à mesa, ou abrigar porcos juntamente com
Seus filhos, ou fazer do seio de Abrão um ninho de víboras?
(5) Salvar os homens em seu estado pecaminoso seria
agir contra os Seus ofícios. Deus elevou-O a Príncipe e Salvador (Atos 5:31).
Ele estaria agindo contra esses atributos se salvasse os homens em seus
pecados. É ofício do rei ser um terror para os malfeitores, e um louvor para os
que praticam o bem. "... é ministro de Deus, e vingador para castigar o
que faz o mal". (Romanos 13:4). Ora, se Cristo favorecesse os ímpios, ou
seja, os que permanecem em seus pecados, e levasse para reinar com Ele aqueles
que não queriam que Ele reinasse sobre eles estaria completamente contra os
Seus ofícios. Portanto, Ele reina para que possa colocar os Seus inimigos
debaixo de Seus pés. Se por outro lado Ele os acolhesse em Seu seio, frustraria
o objetivo do Seu poder real. Pertence a Cristo, na qualidade de Rei, o poder
de subjugar os corações e aniquilar as concupiscências de Seus escolhidos (Salmos
65:5 e 110:3). Que rei levaria rebeldes em franca hostilidade para sua corte? O
que significaria isso, senão trair a vida, o reino, o governo e tudo o mais? Se
Cristo é Rei, honra, reverência e sujeição Lhe são devidas. Ora, salvar os
homens enquanto se encontram na sua inimizade natural, seria obscurecer a Sua
dignidade, perder a Sua autoridade, trazer desonra para o Seu governo e vender
por nada os Seus direitos adquiridos por elevado preço.
Outrossim, Cristo não seria Príncipe nem Salvador
se Ele fizesse isso, pois a Sua salvação é espiritual. Ele chama-Se Jesus,
porque salva o Seu povo dos pecados deles (Mateus 1:21). De modo que se Ele os
salvasse em seus pecados, não seria Senhor nem Jesus. Salvar os homens do
castigo e não do poder do pecado, seria fazer a obra pela metade e ser um
Salvador imperfeito. A Sua função como o Libertador, é desviar as impiedades de
Jacob (Romanos 11:26). Ele foi enviado para abençoar os homens e desviá-los de
suas iniquidades (Atos 3:26) e para dar um fim ao pecado (Daniel 9:24). De modo
que Ele iria destruir os Seus próprios desígnios e anular os Seus ofícios, se
salvasse os homens em seu estado de não-convertidos.
Levante-se, então! O que pretende, ó dormente?
Acorde, ó pecador confiante, para que não seja consumido em suas iniquidades.
Diga como os leprosos: "... e se ficarmos aqui, também morreremos".
(II Reis 7:3-4). Na verdade, tão certo como está fora do Inferno agora, você
estará dentro dele brevemente, a menos que se arrependa e seja convertido. Não
há outra porta, senão esta, para você escapar. Levante-se, portanto, ó
preguiçoso, e livre-se das suas desculpas; até quando você ficará cochilando de
mãos cruzadas para dormir? Vai se deitar no meio do mar ou dormir no topo de um
mastro? (Provérbios 23:34). Não há remédio: você precisa de voltar-se para Deus
ou de queimar-se no Inferno. Há uma necessidade absoluta de mudança na sua
condição, a não ser que você tenha resolvido suportar o pior e desafiar o Todo-Poderoso.
Se você ama a sua vida, ó homem, levante-se e saia daí. Parece-me ver o Senhor
Jesus colocando as Suas misericordiosas mãos sobre você numa santa urgência;
acho que Ele age como os anjos fizeram com Lot: "... os anjos apertaram Lot,
dizendo: Levanta-te... para que não pereças... Ele porém demorava-se e aqueles
varões lhe pegaram pela mão, ...sendo-lhe o Senhor misericordioso, e
tiraram-no, e puseram-no fora da cidade e disseram: Escapa-te por tua vida, ...
e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não
pereças". (Génesis 19:15-17).
Ó quão terrível será a sua destruição se
continuarem a endurecer os seus corações em seu estado pecaminoso! Mas nenhum
de vocês pode alegar não haver recebido justos avisos. Contudo, não posso
abandoná-los. Não me basta ter libertado a minha própria alma. Porventura irei
embora sem cumprir a minha missão? Nenhum de vocês vai levantar-se e seguir-me?
Será que estive todo esse tempo falando para o vento? Será que tenho estado a
encantar a víbora surda ou a aquietar o oceano revolto com os meus argumentos?
Falo a árvores, a rochas ou a homens, a túmulos e a monumentos de mortos ou a
seres viventes? Se vocês são seres humanos e não objetos insensíveis, parem e
considerem para onde estão indo! Se têm raciocínios e entendimentos humanos,
não se atrevam a correr para as chamas e cair no Inferno com os olhos abertos;
mas parem e pensem, e comecem a arrepender-se. Que é isso homens? Ainda vão
correr para o Inferno, quando nem os animais se deixam ser forçados a isso? O
quê? Vocês, que são dotados de razão, ainda brincam com a morte e o Inferno, e
com a vingança do Todo-Poderoso? Será que os homens diferem dos animais apenas
no fato de que estes, não tendo previsão, não se importam em fazer providências
para as coisas por vir? E vocês, que estão sendo avisados, não se apressam em
escapar dos tormentos eternos? Oh, mostrem que são seres humanos e permitam que
a razão prevaleça com vocês.
Seria justo vocês contenderem com o Senhor, vosso
Criador, ou endurecerem os vossos corações contra a Sua Palavra, como se a
Força de Israel fosse mentir? (Isaías 45:9; Job 9:4; I Samuel 15:29). Seria
justo que uma criatura com a capacidade de entender pereça, sim, viva
completamente contra a verdadeira finalidade da sua existência? Seria justo que
o único ser neste mundo a quem Deus deu a capacidade de conhecer a Sua vontade
e de glorificá-lO, viva ignorando o seu Criador, sendo-Lhe inútil a Ele, sim,
esteja engajado contra Ele, e cuspa o seu veneno no rosto do seu Criador?
Ouçam, ó céus, e dá ouvidos, ó Terra, e permitam que as criaturas irracionais
julguem se é justo que o homem, a quem Deus criou e alimentou se rebele contra
Ele. Julguem por si mesmos. Seria uma coisa racional as raízes e os espinhos
enfrentarem uma batalha contra o fogo devorador, ou o barro da Terra contender
com o seu Criador? Vocês dirão: "Não, não é possível"; ou certamente
o olho da razão está completamente vazado. E se isso não for racional então não
há razão para que vocês continuem como estão, mas há toda a razão do mundo para
que se voltem imediatamente e se arrependam.
O que direi? Eu poderia esgotar-me neste argumento.
Oh, se vocês pelo menos me ouvissem; se começassem agora uma nova vida! Não
querem ser purificados? Quando é que isso vai acontecer? Amigos, sentem-se e
considerem o argumento que acabo de mencionar. Não seria melhor voltarem?
Venham, e raciocinemos juntos. É bom para vocês estarem aqui? É bom
experimentar se Deus vai cumprir a Sua Palavra e se endurecerem num conceito de
que tudo está bem enquanto permanecem não santificados?
Que tristeza sinto por tais pecadores! Terão que
perecer, finalmente, aos milhares? Que argumentos usarei com eles que ainda não
tenho usado? "... de que outra maneira procederia com a filha do meu
povo?" (Jeremias 9:7).
"Ó Senhor Deus, ajuda-me. Que tristeza! Devo
deixá-los, então? Se eles não me ouvirem, pelo menos que Tu me ouças. Oh, que
eles pudessem viver na Tua presença! Senhor, salva-os, ou perecerão. Meu coração
se derreteria ao ver as suas casas queimando enquanto estivessem dormindo
profundamente em suas camas; e não se comoverá, então, a minha alma dentro de
mim ao vê-los caindo na perdição eterna? Senhor, tem compaixão, e salva-os do Inferno.
Manifesta o Teu poder divino, e a obra será-feita".
Joseph Alleine in “Um
guia seguro para o céu”, PES, PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS, Rua 24 de
Maio, 116 — 3.° andar — sala 16-17 Caixa Postal 1287 — 01051 — São Paulo, SP,
Brasil

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