… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Génesis 1 - VERSÍCULOS 1-2 - A Criação



Comentário Completo de Matthew Henry sobre a Bíblia
(Matthew Henry’s Complete Commentary on the Bible)

Génesis 1
 VERSÍCULOS 1-2

A Criação
Nestes versículos temos a obra da criação no seu epítome e no seu embrião.



I. No seu epítome, v. 1, onde encontramos, para nosso conforto, o primeiro artigo do nosso credo, que Deus Pai, o Todo-Poderoso é o Criador do céu e da terra, e nós cremos nEle como tal.



1. Observe, neste versículo, quatro coisas:



1) O efeito que produziu: o céu e a terra, isto é, o mundo, incluindo toda a estrutura e os elementos do universo, o mundo e todas as coisas nele, At 17:24. O mundo é uma casa grande, consistindo em histórias superiores e inferiores, a estrutura magnífica e imponente, uniforme e conveniente, e cada aposento bem decorado, com toda a sabedoria. Esta é a parte visível da criação que Moisés aqui procura explicar; portanto, ele não menciona a criação dos anjos. Mas como a terra não só possui a sua superfície enfeitada com ervas e flores, mas também as suas entranhas são enriquecidas com metais e pedras preciosas (que participam da sua natureza sólida e mais valiosa, embora a criação delas não seja mencionada aqui), assim os céus são não só embelezados aos nossos olhos com luminares gloriosos que enfeitam o seu exterior, de cuja criação lemos aqui, mas por dentro estão repletos de seres gloriosos, fora da nossa vista. Estes são seres celestiais que superam em excelência os astros, assim como o ouro ou as safiras excedem os lírios do campo. No mundo visível é fácil observar: [1] Grande variedade, diversos tipos de seres imensamente diferentes uns dos outros na sua natureza e constituição. Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras!, e todas são muito boas! [2] Grande beleza. O céu azul e a terra verdejante são encantadoras para o olho de espectadores curiosos. Quanto mais os ornamentos de ambos. Então, como deve ser transcendente a beleza do Criador! [3] Grande exatidão e precisão. Para aqueles que, com a ajuda de microscópios, olham minuciosamente para as obras da natureza, elas parecem ser muito mais refinadas do que qualquer obra de arte. [4] Grande poder. Este não é um monte de matéria morta e inativa, mas há virtude, em diferentes níveis, em cada criatura. A terra em si mesma possui uma força magnética. [5] Grande ordem, uma dependência mútua de seres, uma harmonia exata de movimentos, e uma admirável cadeia e conexão de causas. [6] Grande mistério. Há fenómenos na natureza que não podem ser resolvidos, segredos que não podem ser compreendidos nem explicados. Mas a partir do que vemos do céu e da terra podemos facilmente deduzir o poder eterno e a divindade do grande Criador, e podemos equipar-nos com motivos abundantes para os Seus louvores. E que a nossa condição e posição, como homens, nos faça lembrar da nossa obrigação como cristãos, que é sempre manter os nossos olhos no Céu e a terra debaixo dos nossos pés.



(2) O autor e a causa desta grande obra: DEUS. A palavra hebraica é Elohim, o que indica: [1] O poder de Deus, o Criador. El significa o Deus forte. E o que, nada menos do que uma força poderosa, poderia fazer surgir todas as coisas do nada? [2] A pluralidade de pessoas na Divindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Este nome plural de Deus, em hebraico, que fala dEle no plural, embora Ele seja Um, talvez Ele fosse para os gentios um sabor de morte para a morte, endurecendo-os na sua idolatria. Mas isto é para nós um sabor de vida para vida, confirmando a nossa fé na doutrina da Trindade, a qual, embora seja apenas obscuramente sugerida no Antigo Testamento, é claramente revelada no Novo Testamento. O Filho de Deus, a eterna Palavra e Sabedoria de Deus estavam com Ele quando Ele fez o mundo (Pv 8:30), ou melhor, ouvimos com muita frequência, que o mundo foi feito por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez, Jo 1: 3, Jo 1: 10; Ef 3:9; Cl 1.16 e Hb 1:2. Ó que pensamentos elevados isto deve formar nas nossas mentes acerca deste grande Deus, de Quem nos aproximamos em adoração religiosa, e deste grande Mediador em Cujo Nome nos aproximamos!



(3) O modo como esta obra foi realizada: Deus criou-a, isto é, fê-la do nada. Não havia nenhuma matéria pré-existente a partir da qual o mundo foi produzido. Os peixes e as aves foram de facto produzidos a partir das águas, e os animais e o homem da terra. Mas esta terra e estas águas foram feitas do nada. Pelo poder comum da natureza, é impossível que algo seja feito do nada. Nenhum artífice pode trabalhar, a menos que ele tenha com que trabalhar. Não obstante, pelo poder infinito de Deus, não só é possível que algo seja feito do nada (o Deus da natureza não está sujeito às leis da natureza), mas na criação é impossível que ocorra o contrário, porque nada é mais desrespeitoso para a honra da Mente Eterna do que duvidar da sua omnipotência. Assim, a excelência do poder pertence a Deus, como também Lhe pertence toda a honra e toda a glória.



(4) Quando esta obra foi produzida: No princípio, isto é, no início do tempo, quando aquele relógio foi posto a funcionar pela primeira vez. O tempo começou com a produção daqueles seres que são medidos pelo tempo. Antes do início do tempo não havia nada além dAquele Ser Infinito que habita a eternidade. Se perguntássemos por que Deus não fez o mundo antes, apenas escureceríamos o conselho com palavras sem conhecimento. Pois como poderia haver cedo ou tarde na eternidade? E Ele fê-lo no início do tempo, de acordo com os Seus conselhos eternos antes de todo o tempo. Os rabinos judeus têm um ditado que diz que houve sete coisas que Deus criou antes do mundo, que têm apenas o propósito de expressar a excelência delas: a lei, o arrependimento, o paraíso, o inferno, o trono da glória, a casa do santuário, e o nome do Messias. Mas para nós, é suficiente dizer: No princípio era o Verbo, Jo 1.1.



2. Aprendamos, por esta razão: (1) Que o ateísmo é loucura, e os ateus são os maiores loucos na natureza, porque eles vêem que há um mundo que não poderia fazer-se sozinho, e, ainda assim, não reconhecem que há um Deus que o fez. Sem dúvida alguma, eles não têm desculpa, mas o deus deste mundo cegou as suas mentes. (2) Que Deus é o Senhor soberano de todos por um direito incontestável. Se Ele é o Criador, sem dúvida Ele é o dono, o proprietário dos Céus e da terra. (3) Que com Deus todas as coisas são possíveis, e, portanto, feliz é o povo que O tem por seu Deus, e cuja ajuda e esperança se acham no Seu nome, Sl 121:2; 124:8. (4) Que o Deus a Quem servimos é digno de glória e louvor, e é exaltado acima de tudo e de todos, Ne 9:5, 6. Se Ele fez o mundo, Ele não precisa dos nossos serviços, nem pode ser beneficiado por eles (At 17:24, 25), e não obstante, Ele os requer, e merece o nosso louvor, Ap 4:11. Se todas as coisas são dEle, tudo deve ser para Ele.



II. Aqui está a obra da criação em seu embrião, v. 2, onde temos um relato da primeira matéria e do primeiro movimento.



1. Um caos foi a primeira matéria. Ela é aqui chamada de terra (ainda que a terra propriamente dita não tenha sido feita senão no terceiro dia, v. 10), porque ela se parecia muito com o que depois foi chamado de terra, mera terra, destituída dos seus ornamentos, e era como uma massa pesada e desordenada. Ela também é chamada de o abismo, tanto pela sua vastidão como porque as águas, que foram depois separadas da terra, estavam agora misturadas com ela. A partir desta imensa massa de matéria, todos os corpos e até mesmo o firmamento e os céus visíveis, foram depois produzidos pelo poder da Palavra Eterna. O Criador poderia ter feito a Sua obra perfeita inicialmente, mas por este processo gradual Ele pode mostrar qual é, habitualmente, o método da Sua providência e da Sua graça. Observe a descrição deste caos. (1) Não havia nele nada desejável para ser visto, porque era sem forma e vazio. Toho e Bohu, confusão e vazio. Assim estas palavras são traduzidas, em Is 34:11. Ela era sem forma, era inútil, não tinha habitantes, não tinha ornamentos, a sombra ou aridez severa das coisas por vir, e não a imagem das coisas, Hb 10:1. A terra é quase reduzida à mesma condição outra vez pelo pecado do homem, sob o qual a criação geme. Veja Jr 4:23: Observei a terra, e eis que estava assolada e vazia. Para aqueles que têm os seus corações no Céu, este mundo inferior, em comparação com o superior, parece ser constantemente apenas confusão e vazio. Não há nenhuma beleza verdadeira para ser vista, nenhuma plenitude satisfatória para ser desfrutada, nesta terra, mas somente em Deus. (2) Mesmo se houvesse qualquer coisa desejável para ser vista, não havia luz para vê-la, porque as trevas, trevas espessas, estavam sobre a face do abismo. Deus não criou estas trevas (como é dito que Ele criou as trevas da aflição, Is 45:7), porque era só a falta de luz, a qual não se poderia dizer que faltava até que algo fosse criado para ser visto por ela. Nem se precisava de reclamar a falta dela, pois não havia nada para ser visto além da confusão e do vazio. Se a obra da graça na alma é uma nova criação, este caos representa o estado de uma alma sem graça e não regenerada. Há desordem, confusão, e toda a obra má. Está vazia de todas as coisas, por que não tem a Deus; é escura, é a própria escuridão. Esta é a nossa condição por natureza, até que a graça poderosa efetue uma mudança bendita.



2. O Espírito de Deus foi o primeiro a mover-Se: Ele movia-Se sobre a face das águas. Quando consideramos a terra sem forma e vazia, parece-me que ela é como o vale repleto de mortos e de ossos secos. Podem estes viver? Pode esta massa confusa de matéria constituir-se num mundo belo? Sim, se um espírito de vida procedente de Deus entrar nele, Ez 37:9. Agora há esperança acerca disto, porque o Espírito de Deus começa a operar, e, se Ele opera, quem ou o que O impedirá? É dito que Deus fez o mundo pelo Seu Espírito, Sl 33:6; Jb 26:13. E a nova criação é realizada pelo mesmo poderoso Trabalhador. Ele moveu-Se sobre a face do abismo, como Elias se estendeu sobre a criança morta, assim como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e paira sobre eles, para os aquecer e para os alimentar, Mt 23:37. Assim como a águia desperta agita o seu ninho e se move sobre os seus filhos (a mesma palavra que é usada aqui), Dt 32:11. Aprendemos, por esta razão, que Deus não só é o autor (criador) de todos os seres, mas a fonte de vida e de movimento. A matéria morta estaria para sempre morta, se Ele não a tivesse estimulado. E torna-se digno de crédito para nós que Deus ressuscitasse os mortos. Um poder que tirou este mundo da confusão, do vazio, e das trevas, no início do tempo, pode, no fim do tempo, tirar os nossos corpos vis da sepultura, conquanto ela seja uma terra escuríssima, como a mesma escuridão, terra da sombra da morte e sem ordem alguma (Jb 10:22), e pode torná-los corpos gloriosos.


http://www.studylight.org/commentaries/mhm/view.cgi?bk=0&ch=1



Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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