… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A RESSURREIÇÃO GERAL por Samuel Davies



SAMUEL DAVIES

A Ressurreição Geral

Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação.” (Jo 5: 28-29 ARC)

Desde que o pecado entrou no mundo e a morte pelo pecado, esta terra tem sido um vasto cemitério para os seus filhos. Em todas as épocas e em cada lugar, esta sentença tem sido executada: “[Tu] és pó e em pó te tornarás” (Gn 3:19). A terra tem sido arqueada com sepulcros, o alojamento final dos mortais, e o fundo do oceano pavimentado com os ossos de homens. A natureza humana foi no princípio limitada a um casal, mas logo e amplamente se espalhou! Quão inconcebivelmente numerosos são os filhos de Adão! Quantas nações diferentes em nosso globo contêm milhões de pessoas numa só geração! E quantas gerações se sucederam com o decorrer do tempo dos últimos seis mil anos! Deixe a imaginação evocar este exército muito extenso: crianças que apenas mal conheceram o nosso mundo e depois partiram para um mundo desconhecido; os idosos que tiveram uma jornada longa na vida: a mocidade florescente e a meia-idade; que eles passem em revista, diante de nós, provenientes de todos os lugares e de todas as eras, e que vasta e surpreendente multidão! Se a posteridade de um homem (Abraão) por um filho foi, de acordo com a promessa divina, como as estrelas do Céu ou como a areia à beira-mar, inumerável, que número pode computar as multidões que saíram de todos os patriarcas, os filhos de Adão e Noé! Mas o que é feito deles? Meu Deus! Eles se tornaram em terra, o seu elemento original; todos eles estão encarcerados no sepulcro, exceto a presente geração, e nós estamos caindo um após o outro, em rápida sucessão, naquele lugar designado a todos os que vivem.

Não houve talvez um momento em cinco mil anos em que um ou outro não tenha descido às mansões dos mortos. Em algumas horas fatais, pela espada da guerra ou pelas mandíbulas vorazes de terremotos, milhares tiveram o fio da vida cortado e foram imediatamente limpos e deixados em enorme e promíscua mortandade. Número grandíssimo de pessoas além de qualquer comparação está dormindo sob o solo. Lá, acha-se a beleza que dá a sua  excelência ao pó, apodrecendo em mau cheiro e repugnância, e alimentando os vermes mais vis. Lá, acha-se a cabeça que outrora usou uma coroa, tão abjeta e desprezível quanto o mais miserável mendigo. Lá, acham-se os gigantes poderosos, os heróis e os conquistadores, os Sansões, os Ajaxes, os Alexandres e os Césares do mundo! Lá, eles jazem estúpidos, insensatos, inativos e incapazes de repelir os vermes que se revoltam no tutano e fazem casas nas órbitas oculares, onde os olhos cintilavam com brilho vivo. Lá, acham-se os sábios e os instruídos, tão podres, tão impotentes quanto os tolos. Lá, acham-se alguns com quem antigamente conversámos, alguns que eram nossos amigos, nossos companheiros; e lá, acham-se os nossos pais e mães, os nossos irmãos e irmãs.

E eles ficarão lá para sempre? Este corpo, este artefato singular do Céu, feito tão maravilhosa e temerosamente, jazerá sempre em ruínas e nunca será restaurado? Os extensos vales de ossos secos nunca mais reviverão? Sabemos isto, que “não é impossível para Deus ressuscitar os mortos.” Aquele que formou o nosso corpo do nada certamente pode formá-lo de novo e pode reparar os estragos do tempo e da morte. Mas qual é a Sua vontade declarada neste caso? O assunto volta-se para isto, o que está revelado completamente no meu texto: “Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros”, sem exceção, “ouvirão a Sua voz [do Filho de Deus), e [...] sairão” (Jo 5:28-29).

E para que fim sairão? Para cada propósito diferente: uns para “a ressurreição da vida” e outros para “a ressurreição da condenação” (v. 29).

E qual é a base para esta enorme distinção? Ou qual é a diferença em carácter entre os que receberão tão diferente destino? Esta: Os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal, para a condenação. É isto, e somente isto, que será a norma de distinção.

Evitarei toda artimanha no meu método de tratamento deste assunto, e só pretenderei ilustrar as várias partes do texto. “Todos os que estão nos sepulcros ouvirão a Sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (Jo 5.28,29).

I. “Os que estão nos sepulcros ouvirão a Sua voz.” A voz do Filho de Deus aqui provavelmente significa o som da trombeta do arcanjo, que é denominada a Sua voz, porque soou por Sua ordem e atendeu com o Seu poder avivador. Esta chamada despertadora dos inquilinos do sepulcro encontramo-la predita nas Escrituras. Eu o remeterei a duas passagens claras. “Eis aqui”, diz o apóstolo Paulo, “vos digo um mistério”; um segredo importante e surpreendente, “na verdade, nem todos dormiremos”, quer dizer, a humanidade toda não estará dormindo na morte, quando aquele dia vier. Haverá uma geração vivendo na terra, e ainda que esta não tenha uma ressurreição formal, contudo passará por uma transformação equivalente. “Todos seremos transformados”, diz ele, “num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará”, dará o alarme e no mesmo instante em que o clangor terrível for ouvido todos os que vivem serão transformados em imortais. “Os mortos ressuscitarão incorruptíveis”, e “nós [os que estivermos vivos] seremos transformados” (1Co 15:51-52). Esta é toda a diferença: eles serão ressuscitados incorruptíveis e nós seremos transformados. Este terrificante prelúdio da trombeta também é mencionado de novo: “Nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem.” Não chegaremos antes deles ao encontro de nosso descende Senhor, “porque o mesmo Senhor descerá do Céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus”, ou seja, com trunfo divino, como a soar da Sua majestade, “e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro” (1Ts 4:16), quer dizer, antes que os vivos sejam arrebatados nas nuvens para o encontro do Senhor nos ares. Quando eles ressuscitarem e os vivos forem transformados, todos subirão juntos para o lugar de julgamento.

Meus irmãos, percebam a majestade e o terror deste alarme universal. Os mortos estão dormindo no sepulcro silencioso; os que vivem estão descuidados e despreocupados do grande evento, ou absortos em outras ocupações; alguns dormem nas altas horas da noite; outros dissolveram-se em prazeres sensuais, comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento; ainda outros estão planeando ou executando esquemas para obter riquezas ou honras; uns no próprio ato do pecado; a generalidade estúpida, descuidada das preocupações da eternidade, estando o dia terrível bem prestes a suceder. Outros poucos, aqui e ali, estão conversando com Deus, e “aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tt 2.13), enquanto o curso da natureza continua uniforme e regular como sempre, e os escarnecedores infiéis, ressentindo-se com isso, perguntam: “Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2Pe 3:4). Que surpresa será para um mundo descuidado! Se neste momento esse alarme irrompesse sobre as nossas cabeças, em que terror muitos ficariam nesta assembleia? Tal será o terror, tal a consternação, quando de facto suceder. Os pecadores serão as mesmas criaturas tímidas e auto-condenadas, como são agora. E não poderão tapar os ouvidos que agora são surdos a todos os chamamentos mais gentis do Evangelho. O trunfo de Deus os constrangerá a ouvir e temer, a quem os ministros de Cristo hoje pregam em vão. Então todos terão de ouvir, pois:

II. O meu o texto fala-lhes: “Todos os que estão nos sepulcros”, todos sem exceção, “ouvirão a Sua voz.” Agora a voz da misericórdia chama, a razão pleiteia, a consciência adverte, mas as multidões não ouvirão. Mas esta é uma voz que alcançará, que tem de alcançar cada uma das centenas de milhares de pessoas do género humano, e nenhuma delas poderá tapar os ouvidos. As crianças e os gigantes, os reis e os súbditos, de todas as classes sociais, de todas as eras da humanidade, ouvirão a chamada. Os que vivem serão levados e transformados, e os mortos ressuscitados ao ecoar do som. O pó que outrora estava vivo e formava um corpo humano, quer esteja voando no ar, flutuando no oceano ou vegetando na terra, ouvirá a ordem da nova criação. Para onde quer que os fragmentos da estrutura humana tenham sido espalhados, esta chamada que a tudo penetra alcançá-los-á e trá-los-á à vida. Podemos considerar esta voz como uma convocação, não só para o corpo morto ressuscitar, mas também para a alma que outrora o animava, para que apareçam e sejam reunidos, quer no Céu, quer no Inferno. Para o sepulcro, a chamada será: “Ressuscitem, mortos, e venham para o julgamento”; para o Céu, será: “Espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12:23), “desçam ao mundo de onde vocês originalmente vieram e assumam os vossos corpos recém-formados”; para o Inferno, será: “Saiam e apareçam, espíritos malditos, prisioneiros das trevas, e sejam unidos novamente aos corpos nos quais vocês pecavam antigamente, para que neles vocês sofram agora.” Assim esta convocação se espalhará por todos os cantos do Universo; e o Céu, a Terra e o Inferno, e todos os seus habitantes ouvirão e obedecerão. Os demónios, como também os pecadores de nossa raça, tremerão ao ouvirem; pois agora eles sabem que não podem mais pleitear como outrora fizeram: “Não nos atormentem antes do tempo”, pois o tempo chegou, e eles têm de se juntar aos prisioneiros no recinto do tribunal. E agora, quando todos os que estiverem nos sepulcros ouvirem esta voz despertadora,

III. Eles “sairão.” Acho que vejo, que ouço a Terra agitando-se, capelas mortuárias chacalhando-se, tumbas rebentando-se, sepulcros abrindo-se com violência. Agora as nações debaixo da Terra começam a se agitar. Há um ruído e uma agitação entre os ossos secos. O pó está totalmente vivo e em movimento, e o globo parte-se e sacode-se como num terramoto, enquanto este exército imenso abre o seu caminho e prorrompe-se em vida. Os restos mortais dos corpos humanos estão espalhados por toda parte, e passaram por muitas e surpreendentes transformações. Um membro num lugar, e outro noutro; aqui, a cabeça, e ali, o tronco, e o oceano encrespando-se entre eles. Multidões afundaram-se no sepulcro das águas, foram tragadas pelos habitantes das profundezas e transformadas numa parte da carne deles. Multidões foram comidas por animais e pássaros de rapina e incorporadas neles; e uns foram devorados por membros da raça humana no furor de uma fome desesperada ou de selvagem apetite canibal, e assimilados numa parte deles. Multidões moldaram-se em pó. E este foi soprado pelos ventos, carregado pelas águas, petrificado em pedras ou queimado em tijolos para formar habitações para a sua posteridade. Ou este pó cresceu em grãos, árvores, plantas e outros legumes que são o sustento de homens e animais, e são transformados em carne e sangue. Mas através de todas estas várias transformações e mudanças, nem uma partícula que era essencial a determinado corpo humano foi perdida ou incorporada noutro corpo humano, para se tornar parte essencial dele. E quanto às partículas que não eram essenciais, elas não são necessárias à identidade do corpo ou da pessoa; e, portanto, não precisamos pensar que ressuscitarão. O Deus omnisciente sabe coletar, distinguir e compor todas essas sementes espalhadas e misturadas do nosso corpo mortal. E agora, ao som da trombeta, todas serão coletadas de onde quer que tenham sido espalhadas; todas serão apropriadamente ordenadas e unidas, por mais que estejam embaralhadas; átomo a seu átomo, osso a seu osso.

Acho que agora vocês podem ver o ar escurecido com fragmentos de corpos voando de região a região para se encontrar e unir às suas partes adequadas.

Então, meus irmãos, o seu pó e o meu serão reanimados e organizados; “e depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus” (Jb 19:26).

E que tremendo desenvolvimento terá a natureza frágil do homem! O corpo será substancialmente o mesmo; mas muito diferente em qualidade, em força, em agilidade, em capacidade ao prazer ou dor, em beleza ou deformidade, em glória ou terror, de acordo com o carácter moral da pessoa a que pertence. A matéria, como sabemos, é capaz de alterações e de refinamentos prodigiosos; e lá aparecerá na mais alta perfeição. O corpo dos santos será formado glorioso, incorruptível, sem as sementes da doença e da morte. O corpo glorificado de Cristo, que indubitavelmente foi elevado à mais sublime perfeição de que a matéria é capaz, será o padrão segundo o qual o nosso corpo será formado. “[Ele] transformará o nosso corpo abatido”, declara o apóstolo Paulo, “para ser conforme o Seu corpo glorioso, segundo o Seu eficaz poder de sujeitar também a Si todas as coisas” (Fp 3:21). “Carne e sangue”, no seu atual estado de brutalidade e fragilidade, “não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1Co 15:50-53). E que tamanha mudança, quanta melhoria deste atual estado! “Semeia-se o corpo em corrupção, ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor” (1Co 15:42-43). Então o corpo poderá suportar o “peso eterno de glória mui excelente”; já não será mais um obstáculo ou dificuldade para a alma, mas um instrumento adequado e assistente em todos os exaltados serviços e prazeres do estado divino.

O corpo dos ímpios também será aperfeiçoado, mas a sua melhoria será terrível e vingativa. A sua capacidade será totalmente aumentada, mas talvez para ser capaz de maior miséria; ele será fortalecido, mas talvez para suportar a mais pesada carga de tormento. A suas sensações serão mais prontas e fortes, mas talvez para sentir a mais intensa dor.

Na ressurreição ele tornar-se-á imortal para que não possa ser consumido pelo fogo eterno, ou escapar do castigo pela decomposição ou aniquilação. Em suma, o aumento de força, a ampliação de capacidade e a imortalidade serão a sua maldição eterna; e eles de boa vontade trocariam isso pela duração passageira de uma flor marcescível ou elas débeis sensações de uma criança. O único poder no qual eles se alegrariam é na auto-aniquilação.

Quando o corpo estiver completamente formado e apropriado para ser habitado, a alma que outrora o animava é recolhida do Céu ou do Inferno, reentra e toma posse das antigas mansões. Ela é unida em vínculos que nunca mais se desfarão; e o tabernáculo moldado orna-se agora habitação perpétua.

Com que alegria o espírito dos justos dará as boas-vindas ao seu antigo companheiro do longo sono no pó, e felicitará a ressurreição lodosa! Quanto se regozijará ao reentrar na sua antiga habitação, agora tão inteiramente restaurada e altamente aperfeiçoada! Para o espírito encontrar o corpo que outrora era o seu empecilho, outrora frágil e mortal, no qual estava encarcerado e enfraquecido, outrora a sua tentação, maculado com as sementes do pecado, agora seu assistente e sócio nos assuntos do Céu, agora vigoroso, incorruptível e imortal, agora livre de todas as misturas corruptas e brilhando em toda a beleza da santidade perfeita! Nesse corpo, ele outrora servia a Deus com esforços honestos, embora fracos, em conflito com o pecado e a tentação, e passou por todas as provas e adversidades conjuntas da mortalidade e da vida cristã. Mas agora, espírito e corpo estão unidos para propósitos mais elevados e felizes. Os pulmões que outrora se sacudiam com suspiros penitenciais e gemidos, agora bradam de alegria e louvam ao seu Deus e Salvador. O coração outrora partido de tristeza, agora é refeito para sempre e transbordará com prazeres imortais. Esses mesmos olhos de onde escorreram lágrimas e que viram muitas visões trágicas, “verão o Rei na sua formosura” (Is 33:17), verão o Salvador, o qual, embora não vissem, amavam, e todas as glórias do Céu; e “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima” (Ap 7:17). Todos os sentidos, que outrora eram avenidas da dor, agora são passagens do mais exaltado prazer. Em resumo, cada órgão, cada membro será empregado nos mais nobres serviços e prazeres, em lugar da faina sórdida e laboriosa e dos sofrimentos dolorosos do presente estado. Bendita mudança! Alegrem-se, filhos de Deus, na perspectiva de todas essas coisas.

Mas como refletirei no terrível caso do ímpio naquele tremendo dia! Enquanto o corpo irrompe do sepulcro, espetáculo miserável de horror e deformidade, vejam os milhões de espíritos sombrios que outrora animavam o seu respetivo corpo, subirem como colunas de fumaça do Inferno! Com que relutância e angústia cada espírito reentra na sua antiga habitação! Que reunião terrível! Que saudações chocantes! “E tenho de ser encadeada novamente a ti (talvez diga a alma culpada), corpo amaldiçoado e poluído, sistema de deformidade e terror! Em ti, eu outrora pequei, através de ti, eu fui outrora enlaçada, humilhada e arruinada. Para satisfazer as tuas concupiscências e apetites vis, negligenciei os meus próprios interesses imortais, degradei a minha dignidade nativa e fiz-me miserável para sempre. E agora tu encontraste-me para me atormentar para sempre? Gostaria que tu ainda estivesses dormindo no pó e nunca fosses restaurado novamente! Deixa-me, antes, ser condenada a animar um sapo ou uma serpente que esse corpo odioso outrora contaminado com o pecado e instrumento dos meus prazeres culpados, agora fortalecido e imortalizado para me atormentar com dores pungentes e imortais. Outrora tu realmente deste-me sensações de prazer, mas agora tu te transformaste numa máquina de tortura. Nunca mais verei por teus olhos a luz alegre do dia, e os belos prospectos da natureza, mas as trevas espessas do Inferno, os espíritos horrendos e horríveis, o Céu a uma distância intransponível e todas as visões repugnantes de aflição nas regiões infernais. Nunca mais os teus ouvidos me encantarão com a harmonia de sons, mas aterrorizar-me-ão e afligir-me-ão com o eco dos gemidos eternos e o trovão da vingança omnipotente! Nunca mais a satisfação dos teus apetites me proporcionará prazer, mas os teus apetites, eternamente famintos e insatisfeitos, atormentar-me-ão com os desejos ávidos e inoportunos. Nunca mais a tua língua será empregada no júbilo, escárnio e canção, mas na queixa, no gemido, na blasfémia e no urro para sempre. Os teus pés que outrora andavam nos caminhos floridos e encantados do pecado, agora têm de andar na terra ardente e escura do Inferno. Oh meu companheiro miserável! Eu separei-me de ti com dor e relutância nos estertores da morte, mas agora encontro-me com maior terror e agonia. Volta à tua cama no pó; vai dormir e apodrecer, e nunca mais me deixes ver o teu semblante chocante.” Petição vã! A alma relutante tem de entrar na sua prisão, de onde nunca mais será mandada embora. E se entregássemos a imaginação a tão distantes raias, suporíamos o corpo a recriminar com esta linguagem: “Vem, alma culpada, entra na tua antiga mansão. Se é horrível e chocante, é por tua causa. Não estava a estrutura animal, a natureza brutal, sujeita ao teu governo, que és um princípio racional? Em vez de seres humilhada por mim, cabia-te a ti não somente teres retido a dignidade da tua natureza, mas também teres exaltado a minha, mediante ocupações mais nobres e satisfações dignas de um corpo terreno unido a um espírito imortal. Tu podias ter contido os meus membros de serem os instrumentos do pecado, e feito deles os instrumentos da justiça. Os meus joelhos ter-se-iam dobrado diante do trono da graça, mas tu não proporcionaste essa postura. Os meus olhos teriam lido e meus ouvidos escutado a Palavra da vida; mas tu não os colocaste a esse serviço ou não cuidaste disso. E agora é senão justamente pelo corpo que tu te prostituíste ao pecado que deveria ser o instrumento do teu castigo. Com efeito, desejaria recair na terra insensata como eu estava e continuar naquela insensibilidade para sempre — mas não ouviste agora mesmo a trombeta despertadora? Não foi até mesmo capaz de sacudir as fundações da tua prisão infernal? Foi essa chamada que me despertou e me chamou para encontrar-te, a qual não pude resistir. Portanto, vem, alma miserável, toma posse desta estrutura e preparemo-nos para o fogo eterno. Quem dera que fosse possível morrer! Se nos pudéssemos separar de novo e nunca mais nos unir! Desejo vão; o peso das montanhas, as dores cruciantes do Inferno, as chamas do fogo inextinguível, nunca podem dissolver estas cadeias que agora nos prendem!”

Mas para que fim ressuscitam estas multidões adormecidas? Para que propósito saem? O meu texto vai dizê-lo a vós.

IV. “Os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (Jo 5: 28-29). As multidões são chamadas dos sepulcros para comparecer diante do tribunal, e tiradas da prisão por guardas angelicais para sofrer o último julgamento. E como neste julgamento imparcial se comprovará que são indivíduos de carácter muito diferentes, o justo Juiz da terra pronunciará o destino diferente de cada um adequadamente.

Vejam uma multidão gloriosa, “a qual ninguém [pode] contar” (Ap 7:9), publicamente absolvida, pronunciada bendita e recebida no “Reino que [lhe] está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25-34). Agora esses indivíduos entram num estado que merece o nome de vida. Eles estão totalmente vivos, totalmente ativos, são totalmente gloriosos, totalmente felizes. Eles “resplandecerão como o resplendor do firmamento, [...] como as estrelas, sempre e eternamente” (Dn 12:3). Todas as suas faculdades transbordam de felicidade. Eles misturam-se com a gloriosa companhia dos anjos; vêem o Salvador, a quem, não vendo, amavam; habitam em intimidade eterna com o Pai dos espíritos; servem-se de delícias sempre novas e crescentes nos sublimes serviços do santuário divino. Jamais temerão nem sentirão o menor toque de tristeza, dor ou qualquer tipo de miséria, mas serão tão felizes quanto a sua natureza pode admitir por uma duração imortal. Que nova criação gloriosa temos aqui! Que criaturas ilustres formadas do pó! E nós unir-nos-emos a esta companhia feliz? Alguém de nós, criaturas fracas, agonizantes e pecadoras, compartilhará dessa glória e felicidade? Esta é uma interessante investigação, e devo fazê-los pensar nisso com ansiedade trémula; presentemente vou responder a seu tempo. A visão seria aprazível, se a nossa caridade tivesse a esperança de que este será o bem-aventurado fim de todos os filhos dos homens. Mas, ai de nós! Multidões, e temos razão para temer que o maior número possível sairá, não para a ressurreição da vida, mas para a ressurreição da condenação! Que terror há no som! Se pecadores audaciosos no nosso mundo fazem pouco caso disso e oram por isso em cada ocasião insignificante, os seus irmãos no Inferno que sentem o tremendo significado dessa situação não são tão robustos, mas tremem e gemem, e já não gracejam mais.

Vamos conscientizar-nos do miserável destino desta classe do género humano. Vejam-nos irromperem para a vida advindos dos calabouços subterrâneos, formas horrorosas de deformidade e terror, expressivas do desígnio vingativo para o qual os seus corpos são restaurados, e das paixões tumultuosas e malignas que lhes saqueiam a alma. O horror pulsa por cada veia e cega-lhes selvagem e furiosamente os olhos. Cada junta treme e cada semblante parece abatido e sombrio.

Agora eles vêem aquele tremendo dia do qual foram avisados em vão, e estremecem diante dos terrores dos quais fizeram pouco caso. Eles de imediato sabem o grande assunto do dia, e o propósito terrível para o qual foram levantados do estado de dormência em que estavam no sepulcro: para serem julgados, condenados, sentenciados e arrastados para a execução. A consciência antecipou o julgamento num estado separado; e no mesmo instante em que a alma é unida ao corpo, imediatamente a consciência sobe para seu trono no peito, e começa a acusar, condenar, sentenciar, censurar e atormentar.

O pecador é condenado, condenado em seu próprio tribunal, antes de chegar ao recinto do tribunal do Juiz. O primeiro ato de consciência no seu novo estado de existência é a convicção de que ele está condenado, uma criatura irrevogavelmente condenada. Ele entra no tribunal, sabendo de antemão o que lhe sucederá. Quando ele se dá conta de que é mandado para a esquerda do Juiz, quando ouve a sentença terrível trovejada contra ele: “Aparta-te de mim, maldito”, era somente o que ele esperava. Agora ele pode lisonjear-se com esperanças vãs, e fechar os olhos contra a luz da condenação, mas então não pode mais esperar pelo melhor; ele tem de conhecer o pior do seu caso. A formalidade do julgamento judicial é necessária para a condenação do mundo, mas não para ele; a própria consciência já lhe determinou a condição. Entretanto, para convencer os outros da justiça do seu destino, ele é arrastado e escoltado do sepulcro ao tribunal por demónios ferozes e implacáveis, hoje seus tentadores, amanhã seus atormentadores. Com que horror ele vê o trono ardente e a face carrancuda do Juiz, o Jesus a quem no passado ele desconsiderou, a despeito de todo o seu amor agonizante e da salvação que Ele ofereceu! Quanto ele deseja que pedras e montanhas o cubram para o esconder dos olhos bravos de Jesus! — mas debalde. Ele deve comparecer. É-lhe ordenado ir para a esquerda, entre os criminosos trémulos; e agora o julgamento começa. Todas as más ações e todas as omissões de dever são agora apresentadas contra ele. Todas as misericórdias que ele rejeitou, todos os castigos que menosprezou, todos os meios de graça que negligenciou ou não valorizou, toda a palavra pecadora e até toda a palavra ociosa, mesmo os pensamentos e disposições mais secretos, tudo é exposto e levado a julgamento contra ele. E quando o Juiz lhe pergunta: “Não é assim, pecador? Estas acusações não são verdadeiras?”, a consciência obriga-o a confessar e a clamar: “Culpado! Culpado!” E agora sendo o trémulo criminoso claramente réu convicto e deixado sem argumento e sem desculpa, o Juiz supremo, na majestade severa e justiça inexorável, troveja a sentença terrível: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25:41). Destino tremendo!

Cada palavra é aumentada com terror e lança um raio pelo coração. “Aparta-te: fora da minha presença: não posso suportar tão repugnante visão. Certa vez eu convidei-te para vires a mim a fim de que tivesses vida, mas tu não consideraste o convite; e agora tu nunca mais ouvirás a voz convidativa. Aparta-te de mim, a única fonte de felicidade, o único bem adequado para a mente imortal.” “Mas, Senhor” (podemos supor que o criminoso diga), “se eu tenho de apartar-me, abençoa-me antes que eu vá.” “Não”, diz o Juiz irado, ‘aparta-te amaldiçoado; aparta-te com a minha maldição eterna e pesada sobre ti; a maldição daquele poder que te fez; uma maldição terrivelmente eficaz, que lança pelos ares tudo o que atinge como clarões de raio consumidor e irresistível.” “Mas se tenho de apartar-me debaixo da Tua maldição” (talvez o criminoso diga), “que este seja todo o meu castigo; deixa-me apartar-me para um recanto agradável, ou pelo menos tolerável, onde eu possa encontrar algo para mitigar a maldição.” “Não, aparta-te para o fogo; lá, queima-te em todas as torturas excruciantes daquele elemento ultrajante.” “Mas, Senhor, se tenho de fazer a minha cama no fogo, que seja uma chama passageira que logo se extinga e ponha um fim ao meu tormento.” “Não, aparta-te para o fogo eterno; lá, queima-te sem consumir e sê atormentado sem fim.” “Mas, Senhor, concede-me”, grita o pobre miserável, “pelo menos a mitigação de companhia amigável, divertida e agradável; ou, caso isto não seja possível, conceda-me este pequeno pedido, que quase nem é pedido: ser sentenciado a algum canto solitário do Inferno, onde serei castigado só pela minha própria consciência e pela tua mão imediata. Mas, livra-me desses demónios maliciosos e atormentadores; bane-me para algum quarto na cova infernal longe da sociedade deles.” “Não, aparta-te para o fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos: tu tens de tomar parte no miserável bando para sempre; tu te uniste a eles no pecado, e agora tens de compartilhar do castigo deles; tu te submeteste a eles como od teus tentadores, e agora tens de te submeter a eles como os teus atormentadores.”

Sendo a sentença pronunciada, é imediatamente executada. “Estes irão para o castigo eterno.” Os demónios arrastam-nos para o Inferno, e empurram-nos com força para baixo. Lá, eles são confinados em cadeias de trevas, e num lago que queima com fogo e enxofre, para sempre, para sempre! Nessa palavra terrível acha-se a ênfase do tormento; é um Inferno no Inferno. Se pudessem ser libertados da dor, embora fosse por aniquilação depois de terem lamentado por dez bilhões de eras em dor extrema, haveria uma mitigação, um pouco de encorajamento. Mas, ai! Quando se tiverem passado o equivalente a milhões de eras como as estrelas do Céu, ou as areias da beira-mar, ou os átomos de pó deste enorme globo de terra, o castigo deles estará longe de um fim como no momento em que a sentença foi pronunciada. Para sempre! Esta palavra não se exaure; e quando é anexada ao mais alto grau de miséria, o terror do som é totalmente insuportável. Vejam, senhores, o que depende do tempo, esse intervalo de tempo que desfrutamos nesta vida passageira. A eternidade! A terrível e importantíssima eternidade depende disso.

Enquanto isso, a consciência rasga o coração do pecador com as reflexões mais atormentadoras. “Que oportunidade justa eu tive de salvação, tivesse eu me aproveitado dela! Eu fui avisado das consequências de uma vida de pecado e descuido; disseram-me da necessidade de fé, de arrependimento e de santidade universal de coração e vida. Gozei de espaço suficiente para arrependimento e todos os meios necessários de salvação, mas, tolo que fui, negligenciei tudo, abusei de tudo; recusei-me a separar-me dos pecados; recusei-me a engajar-me seriamente na religião e buscar a Deus com zelo; e agora estou perdido para sempre, sem esperança. Por um desses meses, uma dessas semanas ou tanto quanto um desses dias ou horas que desperdicei; com que seriedade, com que solicitude eu me aproveitaria disso! Mas todas as minhas oportunidades passaram, para lá da recuperação, e nem um momento me será dado para este propósito, nunca mais. Que tolo fui em vender a minha alma por tais ninharias! Dar tão pouca importância ao Inferno, e entrar no Inferno por mera negligência e descuido! Pecadores impenitentes e negligentes, ainda que hoje vocês possam silenciar ou abafar os brados da vossa consciência, contudo o tempo, ou, antes, a terrível eternidade vindoura, quando eles falarão apesar de você, quando eles falarão à vontade, e serão sentidos pelo coração mais endurecido e sem remorso. Portanto, considerem hoje estas advertências enquanto são meios da vossa restauração.

Vocês e eu, meus irmãos, estamos preocupados com o advento solene do dia que tenho descrito. Você e eu seremos transformados num momento, num abrir e fechar de olhos, ou enquanto estivermos criando bolor no sepulcro, ouviremos a voz do Filho de Deus e sairemos, ou para a ressurreição da vida, ou para a ressurreição da condenação. E qual, meus irmãos, será o nosso destino? E hoje, quem é para a vida e quem é para a condenação entre vocês? Estas características têm a intenção de fazer a distinção entre vocês, e minha oração é que vocês as apliquem para esse propósito.

Quanto aos que, entre todas as suas enfermidades deploradas, estão honestamente esforçando-se em fazer o bem e aflitos de coração por não poderem fazer mais, vocês também têm de morrer — têm de morrer e alimentar os vermes no pó. Mas vocês ressuscitarão gloriosamente aperfeiçoados, ressuscitarão para uma vida imortal, e em todos os terrores e consternação desse último dia vocês estarão seguros, serenos e tranquilos. O Juiz Todo-poderoso será vosso amigo, e isso basta. Que este pensamento desarme o rei dos terrores, e vos dê coragem para olharem para baixo no sepulcro e para frente ao grande dia que surge. Que imortalidade feliz abre os vossos prospectos gloriosos além da visão que está diante de vocês! Depois de mais algumas lutas neste estado de guerra, e de descanso por pouco tempo na cama da morte, vocês chegarão às regiões da bem-aventurança eterna e ali assumirão a vossa residência para sempre.

Mas não há aqui alguns que estão cônscios de que estas características favoráveis não lhes pertencem? Que sabeis que o bom procedimento não é a ocupação da vossa vida, mas que são obreiros da iniquidade? Eu digo-vos claramente e com toda a autoridade que a Palavra de Deus me confere, que se continuarem assim, vocês ressuscitarão para a condenação. Esse será indubitavelmente o vosso destino, a menos que vocês sejam grandemente transformados e restaurados no coração e na vida. E isto não os encorajará a esforços vigorosos? Vocês são a prova contra a energia de tal consideração? Acordem, pecadores descuidados, da vossa segurança, e preparem-se para a morte e o julgamento! Esta vida efémera é todo o tempo que vocês têm de preparação, e vocês não o levarão a sério? O vosso tudo, o vosso todo eterno é colocado no único lance de vida, e você tem de suportar a casualidade dos dados. Vocês não podem fazer senão um experimento, e se falhar, pela vossa indolência ou má administração, vocês estarão irrecuperavelmente perdidos para sempre. Portanto, pela autoridade terrível do grande Deus, pelos terrores da morte e pelo grande dia que surge, pelas alegrias do Céu e pelos tormentos do Inferno, e pelo valor da vossa alma imortal, eu peço, eu rogo, eu suplico que vocês despertem da vossa segurança e aproveitem os momentos preciosos da vida. O mundo está morrendo à vossa volta. E vocês podem ficar descansando à vontade em tal mundo, enquanto estão despreparados para a eternidade? Acordem agora para a justiça, para a chamada gentil do Evangelho, antes que a última trombeta vos dê um outro tipo de alarme.

“A Ressurreição Geral”, de Samuel Davies (1723-1761), In “Great Sermons ofthe World”, Hendrickson Publishers, Peabody, Massachussetts, E. U. A, 1.ª Edição, 1997.

Samuel Davies, o “Apóstolo da Virgínia”, nasceu em Summit Ridge, perto de New Castle, no Delaware, na antiga colónia inglesa da Nova Inglatera, hoje E. U. A., no dia 3 de novembro de 1723, foi um eloquente pregador, admirado nos dois lados do Atlântico, tanto na Velha como na Nova Inglaterra.

Davies escrevia os seus sermões com grande cuidado, mas, quando os entregava, era livre e eloquente. Em certa ocasião, fazendo um comentário sobre a sua própria pregação, afirmou: “Talvez uma vez em cada três ou quatro meses eu prego na medida certa que desejo, ou seja, prego como na presença de Deus e é como se houvesse um passo que separasse o púlpito do tribunal supremo. Eu assim o sinto. Eu encharco-me em lágrimas ou estremeço de horror quando denuncio os terrores do Senhor. Eu inflamo-me, elevo-me em êxtase santo quando o amor de Jesus é o meu tema:

“Tenho pregado como se tivesse a certeza de que nunca mais pregaria de novo;
E como homem moribundo a homens moribundos.”

Além disso, Samuel Davies foi um escritor prolífico, até poeta, sendo que alguns dos seus poemas foram usados no culto divino como hinos de louvor a Deus.

Finalmente, em Princeton, Nova Jersey, na Nova Inglaterra, no dia 4 de fevereiro de 1761, Samuel Davies terminou a sua carreira terrestre.

1 comentário:

Lavínia A. Leal Silveira disse...

Tema por demais sugestivo para a atualidade. Profundo!!!