«Ai de vós, hipócritas!» (Mateus 23:13)
Francis Quarles
Não há uma coisa mais apropriada para fazer dela
uma capa que a religião; não há nada tão na moda, nada tão proveitoso; é uma
libré com a qual o prudente pode servir a dois senhores, a Deus e ao mundo, e
ganhar no serviço de ambos. Eu sirvo aos dois, e com isso a mim mesmo,
prevaricando aos dois. Perante o homem, não há ninguém que sirva ao seu Deus
com uma devoção mais severa; pelo que, entre os melhores dos homens, procuro e
alcanço os meus objectivos, e me sirvo a mim mesmo. Em privado, sirvo ao mundo;
não com uma devoção tão estrita, mas com mais deleite; quando cumpro os desejos
dos seus servos, procuro os meus próprios objectivos e me sirvo a mim mesmo.
A casa da oração, quem a frequenta mais que eu? Em
todos os deveres cristãos, quem se acha mais à vista que eu? Jejuo com os que
jejuam e como com os que comem. Ponho luto com os que o observam. Não há mão
mais aberta à causa que a minha, e nas nossas famílias não há ninguém que ore
mais tempo e mais alto. Assim, quando a opinião de uma vida santa tem
proclamado a bondade da minha consciência, a minha tenda é frequentada pelos
paroquianos, a minha mercadoria tem bom preço, as minhas palavras merecem crédito,
as minhas acções não carecem de louvor.
Sou avaro, mas interpreta-se que sou providente;
sou ruim e mesquinho, isto é, temperado; melancólico, interpretam-me como
piedoso; se amo o folguedo, entende-se que é gozo espiritual; se sou rico, são
as bênçãos de uma vida piedosa; se sou pobre, supõe-se que é o fruto de uma
consciência estreita na convivência; se se falar bem de mim, mereço-o pela
minha santa conduta; se mal, é malícia de invejosos.
Assim navego com todos os ventos, e consigo os meus
fins em todas condições. Esta capa no Verão mantém-me fresco, quente no
Inverno, e esconde o costado de todos os meus secretos desejos carnais. Debaixo
desta capa ando em público no meio do aplauso geral, e em privado peco sem
temer a ofensa; actuo astutamente sem que se me descubra. Procuro céu e terra
para fazer um partidário; e uma vez sigo-o eu a ele, outra vez me segue ele a
mim. No jejum proclamo Genebra; numa festa, Roma.
Se sou pobre, faço ver que tenho abundância, para
salvaguardar o meu crédito; se sou rico, dissimulo-o, e apresento pobreza para
que não me lancem cargas. As opiniões mais cismáticas são as que acho mais
proveitosas, pois delas aprendo a divulgar e a manter novas doutrinas; elas
sustentam-me com a ceia três dias por semana. Faço uso de alguma mentira, às
vezes, como um novo estratagema para defender o evangelho; e execro a opressão
com os juízos de Deus executados sobre os maus. A caridade tenho-a por um dever
extraordinário; portanto, não a executo de ordinário. O que reprovo na frente
do público, para meu próprio proveito, faço-o secretamente em casa, para meu
próprio prazer. Mas, alto, vejo um escrito no meu coração que faz desfalecer a
minha alma. As palavras do mesmo são: «Ai de vós, hipócritas!» (Mateus 23:13).
Francis
Quarles (1592-1644) in "Hypocrite's Soliloquy"
Tradução de Carlos António da Rocha
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