… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

«Ai de vós, hipócritas!» (Mateus 23:13) por Francis Quarles



«Ai de vós, hipócritas!» (Mateus 23:13)
Francis Quarles

Não há uma coisa mais apropriada para fazer dela uma capa que a religião; não há nada tão na moda, nada tão proveitoso; é uma libré com a qual o prudente pode servir a dois senhores, a Deus e ao mundo, e ganhar no serviço de ambos. Eu sirvo aos dois, e com isso a mim mesmo, prevaricando aos dois. Perante o homem, não há ninguém que sirva ao seu Deus com uma devoção mais severa; pelo que, entre os melhores dos homens, procuro e alcanço os meus objectivos, e me sirvo a mim mesmo. Em privado, sirvo ao mundo; não com uma devoção tão estrita, mas com mais deleite; quando cumpro os desejos dos seus servos, procuro os meus próprios objectivos e me sirvo a mim mesmo.

A casa da oração, quem a frequenta mais que eu? Em todos os deveres cristãos, quem se acha mais à vista que eu? Jejuo com os que jejuam e como com os que comem. Ponho luto com os que o observam. Não há mão mais aberta à causa que a minha, e nas nossas famílias não há ninguém que ore mais tempo e mais alto. Assim, quando a opinião de uma vida santa tem proclamado a bondade da minha consciência, a minha tenda é frequentada pelos paroquianos, a minha mercadoria tem bom preço, as minhas palavras merecem crédito, as minhas acções não carecem de louvor.

Sou avaro, mas interpreta-se que sou providente; sou ruim e mesquinho, isto é, temperado; melancólico, interpretam-me como piedoso; se amo o folguedo, entende-se que é gozo espiritual; se sou rico, são as bênçãos de uma vida piedosa; se sou pobre, supõe-se que é o fruto de uma consciência estreita na convivência; se se falar bem de mim, mereço-o pela minha santa conduta; se mal, é malícia de invejosos.

Assim navego com todos os ventos, e consigo os meus fins em todas condições. Esta capa no Verão mantém-me fresco, quente no Inverno, e esconde o costado de todos os meus secretos desejos carnais. Debaixo desta capa ando em público no meio do aplauso geral, e em privado peco sem temer a ofensa; actuo astutamente sem que se me descubra. Procuro céu e terra para fazer um partidário; e uma vez sigo-o eu a ele, outra vez me segue ele a mim. No jejum proclamo Genebra; numa festa, Roma.

Se sou pobre, faço ver que tenho abundância, para salvaguardar o meu crédito; se sou rico, dissimulo-o, e apresento pobreza para que não me lancem cargas. As opiniões mais cismáticas são as que acho mais proveitosas, pois delas aprendo a divulgar e a manter novas doutrinas; elas sustentam-me com a ceia três dias por semana. Faço uso de alguma mentira, às vezes, como um novo estratagema para defender o evangelho; e execro a opressão com os juízos de Deus executados sobre os maus. A caridade tenho-a por um dever extraordinário; portanto, não a executo de ordinário. O que reprovo na frente do público, para meu próprio proveito, faço-o secretamente em casa, para meu próprio prazer. Mas, alto, vejo um escrito no meu coração que faz desfalecer a minha alma. As palavras do mesmo são: «Ai de vós, hipócritas!» (Mateus 23:13).

Francis Quarles (1592-1644) in "Hypocrite's Soliloquy"
Tradução de Carlos António da Rocha

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