Um guia seguro para o céu
DADOS BIOGRÁFICOS
Joseph Alleine
nasceu e foi batizado em Devizes, Wiltshire, a 8 de abril de 1634, em uma
família puritana. Naquela época a Inglaterra enfrentava os sofrimentos causados
pelos agitados acontecimentos que logo resultaram na Guerra Civil, e antes que
Alleine completasse dez anos, a Praça do Mercado, onde ficava sua casa, ressoou
com o estrondo dos canhões e o ribombar dos mosquetes, quando os monarquistas
puseram os puritanos em retirada na batalha de Roundway (julho de 1643). Dois
anos mais tarde os papéis se inverteram e o próprio Cromwell providenciou para
que a bandeira azul do Parlamento fosse hasteada no alto do velho castelo, o
qual se erguia em frente à casa onde Alleine passou sua infância. O círculo
familiar também não ficou isento de problemas. Seu pai, embora bem conceituado
como comerciante de tecidos, sofreu alguns dos infortúnios económicos
decorrentes da guerra; e para maior tristeza deles, Edward, o irmão mais velho
de Joseph, já ativo no ministério, morreu em 1645.
No mesmo ano Alleine "apresentava-se para a
carreira cristã", implorando a seu pai que lhe permitisse preparar-se para
"suceder a seu irmão no ministério". Assim, em abril de 1649, nós o
encontramos a caminho de Oxford para sentar-se aos pés de teólogos como John
Owen e Thomas Goodwin. Em novembro de 1651 transferiu-se do Lincoln para o
Corpus Christi College — este último, um Seminário mais radicalmente puritano,
sob a presidência do piedoso Dr. Edward Staunton. Ali recebeu o grau de
Bacharel em Artes a 6 de julho de 1653, tornando-se professor assistente e, subsequentemente,
capelão do Seminário. Sem dúvida alguma, foi devido à influência de Alleine que
Henry Jessey pôde escrever em 1660, "Penso que não havia no mundo outro
colégio como Corpus Christi, onde um grande número de pessoas demonstrava o
poder da piedade e a pureza da adoração a Deus. Era tal qual um Éden, mas agora
não passa de um deserto estéril".
Os anos que Alleine passou em Oxford foram
caracterizados pela piedade e diligência nos estudos. Seu bom temperamento granjeou-lhe
muitos amigos, mas se as visitas deles interrompiam o seu tempo de estudo,
"ele não se dava ao luxo de recebê-las", dizendo: "É preferível
que se admirem da minha rudeza a que eu perca o meu tempo; pois somente alguns
sentirão a minha indelicadeza, mas muitos sentirão minha' perda de tempo".
Na qualidade de capelão, empenhou-se em evangelizar as aldeias rurais ao redor
de Oxford e, de quinze em quinze dias, também pregava para os encarcerados.
Assim foi o seu treinamento para o futuro
ministério. Antes dos 21 anos ele já havia aprendido a ser "infinita e
insaciavelmente ávido pela conversão das almas perdidas, e por essa causa
derramava sua alma em oração e pregação.
Não admira, pois, que um notável teólogo puritano,
George Newton (1602-1681), ministro de Saint Mary Magdalen, Taunton, tenha
convidado Alleine para ser seu assistente, em 1655. Taunton, uma cidade
produtora de artefatos de lã, com uma população de aproximadamente 20 mil
pessoas, era um baluarte puritano no ocidente da Inglaterra. O espírito da
cidade havia se manifestado claramente 10 anos antes, quando, com heróica
firmeza, havia resistido desesperada aos cercos monarquistas — embora metade
das ruas houvesse sido queimada por uma carga de morteiros e muitos habitantes
haviam morrido de fome! Foi ali, em meio às montanhas, campinas e pomares de
Somerset, que Alleine havia de passar o seu curto e inesquecível ministério.
Logo depois de começar seu trabalho em Taunton,
Alleine casou-se a 4 de outubro de 1655 com sua prima Theodosia Alleine, mulher
de singular espiritualidade, que deixou um comovente relato sobre o ministério
de seu marido. A única "falha" que achava nele era a de não passar
mais tempo com ela, ao que ele respondia: "Oh, minha querida, sei que a tua
alma está salva; mas quantas há que estão perecendo e das quais eu tenho que
cuidar? Oh, se eu pudesse fazer mais por elas!" A vida inteira de Alleine
foi uma ilustração de suas palavras: "Mostre-me um crente que considere
seu tempo mais precioso do que ouro". Quando a semana começava, ele dizia:
"Temos uma nova semana à nossa frente, vamos usá-la para Deus!" E a
cada manhã: "Vamos viver bem este dia!" "Enquanto teve
saúde", escreve sua esposa, "ele se levantava constantemente às
quatro horas da manhã ou antes, e aos domingos, mais cedo ainda, se acordasse;
ficava muito magoado se ouvisse algum ferreiro, ou sapateiro, ou negociante
fazendo seus trabalhos antes que ele tivesse cumprido seus deveres para com
Deus. Então dizia-me: "Oh, como esse barulho me envergonha! Meu Senhor não
merece mais do que o deles?". Das quatro às oitos da manhã passava em
oração, em santa contemplação, e cantando salmos — o que muito lhe agradava —
fazendo suas devoções diárias sozinho, como também com a família".
Este devotado casal trabalhava esforçadamente pelas
almas perdidas. Theodosia mantinha uma escola para crianças em sua casa,
enquanto seu marido passava cinco tardes por semana reiterando os urgentes
apelos aos não-convertidos que ele lançava domingo após domingo, sob a
majestosa torre de Mary Magdalen. Ele mantinha uma lista com os nomes dos
habitantes de cada rua e cuidava para que cada um fosse visitado e catequizado.
O resultado desse trabalho foi uma numerosa colheita de almas. "Suas
súplicas e exortações", diz George Newton, "eram, muitas vezes, tão
afáveis, tão cheias de zelo santo, vida e vigor, que conquistavam completamente
seus ouvintes; ele os comovia e, às vezes, amolecia os mais duros
corações". É claro, que mesmo numa época em que a pregação poderosa e a
evangelização bem sucedida eram relativamente comuns, o ministério de Alleine
era notável aos olhos de seus irmãos. "Poucas épocas produziram pregadores
mais eminentes que o Joseph Alleine" — declarou o puritano apostólico,
Oliver Heywood. E Baxter, referindo-se a Alleine, fala de sua "grande
habilidade ministerial na exposição pública e na aplicação das Escrituras — tão
comovente, tão convincente, tão poderosa".
~
Um período de bênção chegava ao seu fim quando
Alleine iniciou o seu ministério. Três anos mais tarde Crommwell morria. Dois
anos depois os sinos de Taunton tocaram alegremente para dar as boas-vindas a
Charles II e à restauração da monarquia (1660). Mas a felicidade nos corações
dos puritanos durou pouco, pois o tempo em que "a nação gozou de um estado
de religiosidade" acabou em 1662, quando, com o infame Ato da
Uniformidade, dois mil dos melhores ministros que a Inglaterra já teve, foram
destituídos de seus púlpitos. Entre os oitenta e cinco ministros que sofreram
dessa maneira em Somerset, encontramos, come era de esperar, os nomes de George
Newton e Joseph Alleine. Mas, embora afastado do púlpito, Alleine recusou-se a
ficar calado; de fato, conta-nos sua esposa que "deixando de lado outros
estudos por achar que seu tempo era curto" ele intensificou a sua
atividade de pregação. "Eu sei que ele chegou a pregar catorze vezes numa
semana, em muitas ocasiões dez vezes, e regularmente seis ou sete vezes em uma
semana, durante aquele período".
Finalmente, após sobreviver a muitas ameaças,
Alleine recebeu uma intimação em 26 de maio de 1663. Na noite seguinte ele
marcou um encontro com seus fiéis "por volta de uma ou duas horas da
manhã, ao qual compareceram, de boa vontade, centenas de jovens e adultos;
então pregou e orou com eles durante três horas, aproximadamente". Poucas
horas depois ele foi jogado na prisão em Ilchester. Após um ano foi libertado,
mas apenas para enfrentar os rigores do Ato das Cinco Milhas e o Conventicle
Act.
Embora já com a saúde precária, continuou a pregar
ocultamente até 10 de julho de 1666. Naquela tarde, quando pregava sobre o
Salmo 147:20 numa reunião em uma casa particular, foram arrombadas as portas e
ele foi preso novamente. Uma vez mais foi libertado e com a mesma energia
espiritual considerou o que ainda poderia fazer para promover o evangelho de
Cristo. "Temos mais um dia", diria à sua esposa ao se levantar pela
manhã, "mais um dia para Deus; vamos vivê-lo bem, trabalhar bastante por
nossas almas, armazenar muito tesouro no céu, pois só nos restam alguns dias
para viver". Sua esposa nos conta que, com verdadeiro espírito puritano,
considerou a possibilidade do trabalho missionário no País de Gales ou mesmo na
China. Jamais o evangelho de Jesus Cristo ardeu mais fervorosamente em qualquer
outro coração inglês! Mas o trabalho de Alleine estava terminado, pois a sua
constituição física jamais se recuperou dos maus tratos sofridos nas prisões e
seu corpo definhava-se rapidamente. No dia 17 de novembro de 1668, aos 34 anos,
Deus o levou, poupando-o dos males futuros, e o idoso George Newton permaneceu
junto ao seu corpo, quando foi enterrado na Capela de onde ressoava o
"alerta" de seus chamados aos não-convertidos.
Este livro incorpora a substância da mensagem de
Alleine, e, portanto, apresenta um verdadeiro modelo do evangelismo puritano. A
fraseologia pode mudar de época para época, e os dons de homem para homem, mas
não hesitamos em dizer que aqui estão princípios que precisam estar presentes
em qualquer apresentação verdadeira do evangelho. Muitos dos grandes
evangelistas tiveram suas convicções moldadas pelas páginas deste livro. George
Whitefield, enquanto estudante em Oxford, nos conta em seu diário que o
"Alerta" de Alleine o beneficiou sobremaneira. Charles Haddon
Spurgeon registra que, quando ele era criança, sua mãe sempre lia uma parte do
"Alerta" de Alleine para seus filhos quando se sentavam ao redor da
lareira nos domingos à noite, e que, quando ele foi levado à convicção do
pecado, foi àquele livro que recorreu. "Lembro-me", escreve ele,
"de que quando eu acordava pela manhã, a primeira coisa que pegava era o
"Alerta", de Alleine, ou o "Chamado aos Não-Convertidos",
de Baxter. Oh, que livros aqueles, que livros! Eu não os lia apenas, eu os
devorava..." Com o seu coração inflamado assim pela teologia puritana,
Spurgeon preparava-se para seguir os passos de Alleine e Whitefield.
Inúmeras edições deste livro têm sido publicadas
desde a primeira edição em 1671. Dr. Calamy escreveu sobre ele em 1702:
"Multidões terão motivos para serem eternamente gratas a ele. Nenhum livro
na língua inglesa (com exceção da Bíblia) pode igualar-se a ele no que se refere
ao número de exemplares distribuídos; já foram vendidos vinte mil exemplares
sob o título de "O Chamado" ou o "Alerta", e cinquenta mil
sob o título de "Um Guia Seguro para o Céu", trinta mil dos quais
foram vendidos numa só edição". Como uma notável ilustração da influência
espiritual desta obra podemos citar o seguinte exemplo: no final do século
XVIII, o ministro de uma congregação no norte da Escócia — homem mais conhecido
pela sabedoria do que pelo fervor evangélico — foi solicitado por uma entidade
para traduzir o "Alerta" para a língua gaélica. O livro foi, então,
passado às suas mãos. Achando o material apropriado para pregações, começou a
utilizá-lo em seus sermões, apresentando-o capítulo após capítulo. Conta-se que
o resultado "foi um grande despertamento que perdurou por muito tempo no
distrito de Nether Lorn".
Com a oração de que o conteúdo deste livro seja
novamente divulgado por todo o nosso país e noutros países além dos mares, nós
o recomendamos à bênção de Deus, cuja Palavra é "viva e eficaz, e mais
penetrante do que espada alguma de dois gumes". "Porque toda a carne
é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva e
caiu a sua flor; mas a palavra do Senhor permanece para sempre; e esta é a
palavra que entre vós foi evangelizada" (I Pedro 1:24-25).
1.° de agosto de 1959
Iain Murray
Joseph Alleine in “Um guia seguro para o céu”,
PES, PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS, Rua 24 de Maio, 116 — 3.° andar — sala
16-17 Caixa Postal 1287 — 01051 — São Paulo, SP, Brasil

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