Joseph Alleine
2
A Natureza da Conversão
Não tenho coragem de deixá-los com os olhos
semi-cerrados, à semelhança daquele que viu "os homens como se fossem
árvores ambulantes." A Palavra é proveitosa tanto para ensinar como para
redarguir. E, portanto, havendo conduzido vocês através das rochas e declives
de erros tão perigosos, gostaria de guiá-los, finalmente, ao porto da verdade.
A conversão então, em resumo, consiste na mudança
completa do coração e da vida. Vou descrevê-la rapidamente em sua natureza e em
suas causas.
1. O autor da conversão é o Espírito de Deus e,
portanto, ela é chamada "a santificação do Espírito" (II
Tessalonicenses 2:13) e a "renovação do Espírito Santo" (Tito 3:5).
Isto não exclui as outras pessoas da Trindade, pois o apóstolo nos ensina que
devemos bendizer o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que "nos gerou de
novo para uma viva esperança". (I Pedro 1:3). E Cristo é mencionado como
aquele que dá "a Israel o arrependimento" (Atos 5:31); e é chamado de
"Pai da eternidade" (Isaías 9:6) e nós somos Sua semente e "os
filhos que Deus (Lhe) deu" (Hebreus 2:13). Contudo, esta obra é atribuída
principalmente ao Espírito Santo, e por isso é dito que somos "nascidos do
Espírito" (João 3:5-6).
Portanto, a conversão é algo que supera o poder
humano. Somos "nascidos, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da
vontade do varão, mas de Deus" (João 1:13). Vocês jamais devem pensar que
podem converter-se a si mesmos. Se tiverem de ser convertidos para a salvação,
abandonem qualquer esperança de fazê-lo segundo a sua própria força. É uma
ressurreição dos mortos (Efésios 2:1), uma nova criação (Gaiatas 6:15; Efésios
2:10), uma obra de absoluta omnipotência (Efésios 1:19). Isto tudo não está
fora do alcance humano? Se não têm nada mais do que aquilo que receberam na
ocasião do primeiro "nascimento — uma boa natureza, um temperamento
humilde e casto etc. — estão longe da verdadeira conversão. Trata-se de uma
obra sobrenatural.
2. A causa eficaz da conversão é tanto interna
quanto externa.
(1). A causa interna é somente a livre graça.
"Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua
misericórdia, nos salvou... " e "... (pela) renovação do Espírito
Santo" (Tito 3:5). "Segundo a sua vontade, ele nos gerou..."
(Tiago 1:18). "Somos escolhidos e chamados para a santificação, e não por
causa dela." (Efésios 1:4).
Deus não encontra nada no homem para comover o Seu
coração, mas encontra o suficiente para nausear o Seu estômago; Ele encontra o
bastante para provocar a Sua repugnância, mas não encontra nada para despertar
o Seu amor. Olhe para si mesmo, crente! Considere a respeito da sua natureza
imunda, do seu lixo imundo, do lodaçal que você amava (II Pedro 2). Contemple o
seu lodo e a sua corrupção. As suas próprias roupas não o abominam? (Job 9:31).
Como, então, a santidade e a pureza poderiam amá-lo? Assombrai-vos, ó céus,
diante disso; move-te, ó Terra ! Quem não precisa clamar "graça!
graça!"? (Zacarias 4:7). Ouçam e envergonhem-se, ó filhos do Altíssimo. Ó
homens ingratos, a livre graça já não está mais em vossos lábios, em vossas
mentes; já não é mais adorada, admirada e recomendada por indivíduos como
vocês! Pensar-se-ia que vocês não deveriam fazer outra coisa senão louvar e
admirar a Deus onde quer que estivessem. Como podem esquecer-se de tal graça ou
desprezá-la com uma menção ligeira e formal? O que mais senão a livre graça
poderia levar Deus a amá-los, a menos que a inimizade pudesse fazê-lo, a menos
que a deformidade pudesse fazê-lo? Com que sentimento Pedro levanta as suas
mãos e diz: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que,
segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo" (I Pedro 1:3). Com
que sentimento Paulo magnífica a livre misericórdia de Deus: "Mas Deus,
que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor que nos amou,... nos
vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:4-5).
(2). A causa externa é o mérito e a intercessão do
bendito Jesus. Ele obteve dons para os rebeldes (Salmo 68:18) e é através dEle
que Deus opera em nós aquilo que é agradável aos Seus olhos (Hebreus 13:21).
Por meio dEle todas as bênçãos espirituais nos são outorgadas nos lugares
celestiais (Efésios 1:3). Ele intercede pelos eleitos que ainda não creram
(João 17:20). Cada convertido é fruto da Sua agonia. Jamais nasceu uma criança
no mundo com fardo semelhante àquele que Cristo suportou por nós. Todas as
dores que Ele sofreu na cruz foram as dores do nosso nascimento espiritual. Ele
foi feito santificação para nós (I Coríntios 1:30). Ele santificou-Se a Si
mesmo, isto é, separou-Se como um sacrifício, para que nós pudéssemos ser
santifiçados (João 17:19). Somos santificados através da oferta do Seu corpo de
uma vez por todas (Hebreus 10:10).
Nada mais, então, a não ser o mérito e a intercessão
de Cristo, pode prevalecer diante de Deus para outorgar-nos a graça da
conversão. Se você é uma nova criatura, já sabe a que deve isso: às agonias e
orações de Cristo. O potrinho não busca o bebedouro, nem a criança o seio
materno, com mais naturalidade do que o crente o Senhor Jesus Cristo. E aonde
mais você deve ir? Se há no mundo alguém que possa fazer por seu coração aquilo
que Cristo pode, então que o faça. Acaso Satanás o reivindica? O mundo o atrai?
O pecado lhe faz a corte? Com que direito? Porventura foram crucificados por
você? Ó cristão, ame e sirva o Senhor enquanto você é um ser vivente.
3. O instrumento da conversão é pessoal e real.
(1). O instrumento pessoal é o ministro.
"...porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo" (I Coríntios
4:15). Os ministros de Cristo são aqueles que são enviados para abrirem os
olhos dos homens e os converterem a Deus (Atos 26:18). Oh mundo ingrato! Você
mal sabe o que está fazendo, quando persegue os mensageiros do Senhor. Estes
são os que, submetidos a Cristo, têm a tarefa de salvá-lo. A quem você censurou
ou de quem blasfemou? (Isaías 37:23). Oh mundo tolo e insensato! Os ministros
são os servos do Deus Altíssimo que lhe mostram o caminho da salvação (Atos
16:17), e você lhes agradece dessa maneira? (Deuteronómio 37:6). Oh filhos da
ingratidão, de quem escarnecem? Os ministros são os instrumentos que Deus usa
para converter e salvar os pecadores; será que vocês vituperam os seus médicos
ou lançam os seus pilotos ao mar? "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o
que fazem".
(2). O instrumento real é a palavra. Somos gerados
pela Palavra da verdade. É ela que ilumina os olhos, converte a alma (Salmo
19:7-8), que nos torna sábios para a salvação (II Timóteo 3:15). Ela é a
semente incorruptível, pela qual somos nascidos de novo (I Pedro 1:23). Se
somos lavados, é pela Palavra (Efésios 5:26). Se somos santificados, é através
da verdade (João 17:17). Isto gera fé, e nos regenera (Romanos 10:17; Tiago
1:18).
Oh santos, como vocês devem amar a Palavra, pois
foi através dela que se converteram! Vocês que têm sentido o seu poder
renovador, devem dar-lhe muito valor enquanto viverem; ser sempre agradecidos
pela existência dela. Devem atá-la ao pescoço, escrevê-la sobre as mãos,
guardá-la no coração. Ao andarem, permitam que ela os conduza; ao dormirem,
permitam que ela os guarde; ao acordarem, permitam que ela lhes fale
(Provérbios 6:21-22). Digam com o salmista: "Nunca me esquecerei dos teus
preceitos, pois por eles me tens vivificado." (Salmo 119:93). Vocês, que não
são convertidos, leiam a Palavra com diligência; reúnam-se onde ela é
poderosamente pregada; orem pela vinda do Espírito na Palavra. Levantem-se de
seus joelhos para ouvirem o sermão, e, após o sermão, voltem aos seus joelhos.
O sermão não prosperará se não for banhado com orações e lágrimas e coberto
pela meditação.
4. A causa final ou o fim da conversão é a salvação
do homem e a glória de Deus. Somos escolhidos para a salvação, através da
santificação (II Tessalonicenses 2:13), chamados para que sejamos glorificados
(Romanos 8:30), mas, especialmente, para que Deus seja glorificado (Isaías
60:21), para que anunciemos os Seus louvores (II Pedro 2:9), e frutifiquemos em
boas obras (Colossenses 1:10).
Oh cristão, não se esqueça da finalidade do seu
chamamento! Deixe a sua luz brilhar, a sua lâmpada queimar, permita que os seus
frutos sejam bons, abundantes e sazonados (Salmo 1:3). Que os seus intentos
coincidam com os de Deus, para que Ele seja engrandecido em você (Filipenses
1:20).
5. O assunto da conversão é o pecador eleito, e
isso em todas as suas partes e poderes, membros e mente. Aos que Deus
predestinou, a esses, e somente esses, também chamou (Romanos 8:30). Ninguém
vem a Cristo por chamamento próprio nem vai a Ele porque crê; somente o Seu rebanho,
aqueles que o Pai Lhe deu (João 6:37,44). O chamamento eficaz coincide com a
eleição eterna (II Pedro 1:10).
Você está começando pelo lado errado se argumentar,
em primeiro lugar, a respeito da sua eleição. Prove sua conversão, e daí jamais
duvide da sua eleição. Se você ainda não pode prová-la, inicie uma volta atual
e completa. Quaisquer que sejam os propósitos de Deus, os quais são secretos,
estou certo de que as Suas promessas são fiéis. Com que desespero os rebeldes
argumentam: "Se eu sou eleito, serei salvo; não importa o que eu faça.
Caso contrário, estarei perdido, faça o que fizer". Pecador perverso, você
começa onde deveria terminar. A Palavra não está diante de você? O que diz ela?
"Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos
pecados..." "... se mortificardes as obras do corpo, vivereis".
"Crê... e serás salvo..." (Atos 3:19; Romanos 8:13; Atos 16:31). O
que pode ser mais claro? Não fique discutindo sobre a eleição, mas disponha a
arrepender-se e a crer. Clame a Deus pela graça da conversão. As coisas
reveladas pertencem-lhe; ocupe-se com elas. Como já bem disse alguém: aqueles
que não se alimentam da carne da Palavra ficarão sufocados com os ossos.
Quaisquer que sejam os propósitos de Deus, estou certo de que as Suas promessas
são verdadeiras. Quaisquer que sejam os decretos do Céu, estou certo de que se
eu me arrepender e crer, serei salvo; e se não me arrepender, serei condenado.
Isto não é um chão seguro para você? Ou você ainda quer se perder?
Mais particularmente, esta mudança de conversão
estende-se ao homem na sua totalidade. Uma pessoa carnal pode ter alguns
fragmentos de boa moralidade, mas jamais será completamente boa. A conversão
não é o simples reparo de um velho edifício; mas ela o derruba por completo e
edifica uma nova estrutura. Não se trata de um remendo de santidade; mas, no
caso do verdadeiro convertido, a santidade é tecida em todas as suas
capacidades, princípios e práticas. O cristão autêntico é, por assim dizer, uma
nova estrutura, desde os alicerces até o telhado. Ele é um novo homem, uma nova
criatura; todas as coisas se tornaram novas (II Coríntios 5:17). A conversão é
uma obra profunda, é uma obra no coração. Ela produz um novo homem num novo
mundo. Ela se estende ao homem inteiro: à mente, aos membros e a todos os
aspectos da sua vida.
(1). A mente
A conversão modifica a balança do julgamento de
forma que Deus e a Sua glória excedem o peso de todos os interesses carnais e
mundanos. Ela abre os olhos da mente, derruba as escalas da sua ignorância
nativa e conduz os homens das trevas para a luz. O homem que antes não via
perigo em sua condição, conclui agora que está perdido e acabado para sempre
(Atos 2:37), a menos que seja renovado pelo poder da graça. Ele que
anteriormente pensava que havia pouco prejuízo no pecado, agora o vê como o
pior dos males. Ele vê a irracionalidade, a injustiça, a deformidade e a
imundícia do pecado; de modo que fica aterrorizado diante dele, sente aversão e
horror dele, foge dele, e, até mesmo, abomina-se a si mesmo por causa dele
(Romanos 7:15; Job 42:6; Ezequiel 36:31). Aquele que podia ver um pouco de
pecado em si mesmo e não via necessidade de confissão, agora vê a podridão de
seu coração, a desesperada e profunda poluição de toda a sua natureza. Ele
grita: "Impuro! Impuro! Senhor, purifica-me com hissope, lava-me
completamente, cria em mim, ó Deus, um coração puro." Ele se vê
completamente imundo, corrompido tanto na raiz como nos galhos (Salmo 14:3;
Mateus 7:17-18). Ele escreve "impuro" sobre todas as suas partes,
poderes e feitos (Isaías 64:6; Romanos 7:18). Descobre os cantos imundos que
jamais notou e vê a blasfémia, o roubo, o assassinato e o adultério que há em
seu coração, os quais ele antes ignorava. Até então, não via atração nem
formosura em Cristo, nenhuma beleza para que pudesse desejá-lO; mas agora
encontrou o "tesouro escondido", e venderá tudo para adquirir este
campo. Cristo é a "pérola" que ele procura.
Agora, de acordo com esta nova luz, o homem possui
outra mente, outro julgamento, diferente daquilo que ele possuía anteriormente.
Agora, Deus está inteiramente com ele; não há ninguém, no Céu nem na Terra como
Ele; na verdade, ele O prefere a tudo que há neste mundo. Sua graça é a sua
vida, a luz do Seu rosto é mais do que o trigo, o vinho e o azeite (os bens que
ele anteriormente buscara e sobre os quais pusera o seu coração. Salmo 4:6-7).
Um hipócrita pode submeter-se a um consenso geral de que Deus é o bem supremo;
de fato, pelo menos alguns dos mais sábios pagãos têm descoberto isso. Mas nenhum
hipócrita vai tão longe, a ponto de olhar para Deus como o mais desejável e
conveniente bem para ele, a cujo bem se pode sujeitar. Esta é a linguagem do
convertido: "A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; a quem tenho eu
no Céu senão a Ti? E na Terra não há quem eu deseje além de Ti"
(Lamentações 3:24; Salmo 73:25-26).
A conversão modifica a inclinação da vontade tanto
quanto aos meios como quanto ao fim. As intenções da vontade são alteradas.
Agora o homem tem novos alvos e projetos. Agora ele almeja a Deus acima de
tudo, e não deseja nem planeja coisa alguma neste mundo, senão que Cristo seja
engrandecido nele. Considera-se mais feliz assim do que com tudo o que a Terra
pudesse lhe oferecer, desejando apenas ser útil a Cristo e glorificá-lO. O alvo
a que ele aspira é este: que o nome de Jesus possa ser engrandecido no mundo.
Leitor, você lê isto sem se perguntar se é assim
que ocorre com você? Faça uma pausa e examine-se a si mesmo.
A escolha também é modificada. Escolhe Deus como a
sua bem-aventurança; e Cristo e a santidade como meios para conduzí-lo a Deus.
Escolhe Jesus como seu Senhor. Ele não é meramente forçado pela tempestade em
direção a Cristo nem se apossa de Cristo por simples necessidade, mas ele o faz
espontaneamente. A sua escolha não é feita sob terror, como no caso de uma
consciência aterrorizada ou de um pecador moribundo que aparentemente faria
qualquer coisa por Cristo, no entanto só O aceita para não ir para o Inferno.
Resolve, deliberadamente, que Cristo é a melhor escolha e prefere-O a todos os
bens deste mundo, ainda que pudesse desfrutá-los enquanto vivesse (Filipenses
1:23). Outrossim, abraça a santidade como a sua vereda; não se submete a ela
por necessidade, mas porque tem prazer nela e a ama. "... pois escolhi os
teus preceitos" (Salmo 119:173). Toma os testemunhos de Deus — não como um
jugo, mas como uma herança; sim, uma herança eterna. Ele considera-os não como
uma escravidão, mas como uma felicidade; não são as suas travas, mas são os
seus tónicos. (I João 5:3; Salmo 119:14, 16, 47). Ele não apenas suporta, mas
toma o jugo de Cristo. Ele não aceita a santidade como o estômago aceita o
remédio amargo (que o homem prefere tomar para escapar à morte), mas como homem
faminto aceita a comida gostosa. Não há tempo que passe tão docemente para ele,
quando só, como o tempo que gasta nos exercícios da santidade. São o seu
alimento e elemento, o desejo dos seus olhos e a alegria de seu coração.
Pergunte à sua consciência se você é esse homem. Oh
que homem feliz é você, se for este o caso! Mas, certifique-se de ser
meticuloso e imparcial nesse auto-exame.
A conversão muda a inclinação dos sentimentos.
Estes correm num novo canal. O Jordão agora tem o seu curso recuado, e as águas
correm ao contrário do curso natural. Cristo é a esperança do cristão. Ele é o
seu prémio. Aqui está o seu olho; aqui está o seu coração — e feliz está por
lançar tudo ao mar, tal como faz o mercador na tempestade, quando está prestes
a perecer, para que possa preservar a sua pedra preciosa.
A sua principal ambição não é o ouro, mas a graça.
Ele anseia por ela, procura-a como à prata e busca-a como a um tesouro
escondido. Prefere a graça à grandeza. Prefere ser o mais santo dos homens
sobre a Terra a ser o mais culto, ou o mais famoso, ou o mais próspero.
Enquanto era carnal, dizia: "Oh, se eu pudesse ser considerado em grande
estima, estar rolando em riquezas e nadando em prazeres; se minhas dívidas
fossem pagas, nada faltando a mim e à minha família — então eu seria um homem
feliz!" Mas agora a linguagem é outra: "Oh," diz o convertido,
"se eu pudesse subjugar os meus pecados, se tivesse a graça numa tal
medida e a comunhão com Deus — ainda que fosse pobre e desprezado, não me
importaria, mas me consideraria um homem abençoado". Leitor, é esta a
linguagem da sua alma?
As suas alegrias foram mudadas. Regozija-se no
caminho dos testemunhos de Deus, tanto quanto em todas as riquezas. Deleita-se
na lei do Senhor, na qual antes ele tinha pouco interesse. Não tem satisfação
que supere os pensamentos de Cristo, o gozo da Sua companhia e a prosperidade
do Seu povo.
As suas preocupações foram modificadas. Antigamente
estava à mercê do mundo e qualquer fragmento de tempo livre era suficiente para
a sua alma. Agora, seu clamor é: "que é necessário que eu faça para me
salvar?" (Atos 16:30). A sua grande preocupação é ter certeza da salvação
da sua alma. Oh, como ele bendiria alguém que pudesse tirar-lhe todas as
dúvidas a esse respeito!
Os seus temores já não são tanto sofrer como pecar.
Outrora, ele não temia nada senão a perda da sua posição ou da sua reputação;
nada lhe parecia tão terrível quanto a dor, ou a pobreza, ou a desgraça. Agora,
isto nada representa para ele em comparação com a desonra ou a insatisfação de
Deus. Com que cuidado ele anda, para não cair numa cilada! Olha para todos os
lados; tem o seu olhar sobre o seu coração e está constantemente vigiando para
não cometer pecados. Pensar em perder o favor de Deus quebranta o seu coração;
isto aterroriza-o como a sua maior desgraça. Nenhum pensamento o machuca tanto
como o da possibilidade de ficar separado de Cristo.
O seu amor tem um novo curso. "Meu amor foi
crucificado", diz Inácio, referindo-se a Cristo. "Tal é o meu
amado", exclama a esposa (Cantares de Salomão 5:16). Quão frequentemente
Agostinho derrama o seu amor sobre Cristo! Não consegue encontrar palavras
suficientemente doces. "Permite que eu Te veja, ó Luz dos meus olhos. Vem,
ó Alegria do meu espírito; permite que eu Te contemple, ó Regozijo do meu
coração. Permite que eu Te ame, ó Vida da minha alma. Aparece para mim, ó meu
grande prazer, meu doce Conforto, ó meu Deus, minha vida, e toda a glória da
minha alma. Permite que eu Te encontre, ó Desejo do meu coração; permite que eu
Te toque, ó Amor da minha alma. Permite que eu Te abrace, ó Noivo Celestial.
Permite que eu Te possua".
As suas tristezas têm, agora, uma nova saída (II
Coríntios 7:9-10). A visão dos seus pecados, a visão de Cristo crucificado —
coisas que dificilmente o comoviam — quão profundamente tocam o seu coração
agora!
Ferve o seu ódio e queima a sua ira contra o
pecado. Não tem paciência consigo mesmo. Acusa-se a si mesmo de tolo, de animal
e considera qualquer qualificação boa demais para si próprio, toda vez que a
sua indignação se levanta contra o pecado (Salmo 73:22; Provérbios 30:2).
Outrora, poderia espojar-se no pecado com muito prazer; mas agora abomina o
pensamento de voltar a ele tanto quanto abomina o pensamento de ajuntar o
vómito mais nojento.
Comungue com seu próprio coração, atente para o
curso geral de seus sentimentos e verifique se eles são direcionados a Deus, em
Cristo, acima de todas as outras preocupações. Na verdade, mudanças súbitas e
fortes de sentimentos são próprias dos hipócritas, especialmente daqueles que
têm temperamento colérico. Por outro lado, os santificados não sofrem,
geralmente, uma agitação consciente dos sentimentos, tendo o temperamento mais
calmo, frio o sóbrio. A coisa principal é descobrir se o raciocínio e a vontade
estão firmemente determinados a favor de Deus, acima de todas as outras coisas
— quer reais ou aparentes. Se de fato é assim, e se os sentimentos seguem
sinceramente a sua escolha e conduta, embora não tão forte e profundamente como
seria desejável, então não há dúvida de que a mudança é salvadora.
(2) Os membros
Estes, que antes eram instrumentos do pecado, agora
tornaram-se instrumentos santificados no templo vivo de Cristo. Aquele que
antes desonrava o seu corpo, agora possui o seu vaso em santificação e honra,
em temperança, em castidade, em sobriedade, e o dedica ao Senhor.
O olho, que antes era irrequieto, dissoluto,
arrogante, cobiçoso, é agora empregado, como o de Maria, em chorar pelos seus
pecados, em contemplar a Deus através de Suas obras, em ler a Sua Palavra ou em
procurar motivos de misericórdia e oportunidades para o Seu serviço.
O ouvido, que antes estava aberto à voz de Satanás,
e que só se deleitava com coisas imundas ou conversas vãs e com a risada dos
tolos, encontra-se agora conjugado com a casa de Cristo e aberto aos Seus
discípulos. Ele diz: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve". Ele
espera por Suas palavras como pela chuva e tem mais prazer nelas do que no
alimento (Job 23:12), mais do que no mel e do que no licor dos favos (Salmo
19:10).
A cabeça, que estava cheia de desígnios mundanos,
está agora cheia de outros assuntos e aplica-se ao estudo da vontade de Deus; e
o homem usa a sua cabeça não tanto para obter lucro, mas para cumprir o seu
dever. Os pensamentos e preocupações que enchem a sua cabeça são,
principalmente, como poderá agradar a Deus e fugir do pecado.
O seu coração, que era um poço de imundícia,
tornou-se agora um altar de incenso onde o fogo do amor divino é mantido sempre
aceso, do qual o sacrifício diário de oração e louvor, do doce aroma de desejos
santos, exaltações e intercessões se elevam continuamente.
A boca tornou-se "uma fonte de vida; a sua
língua é como prata escolhida e seus lábios alimentam a muitos. O sal temperou
o seu discurso e tirou a corrupção (Colossenses 4:6) e limpou o homem das
conversas imundas, frívolas, jactanciosas, injuriosas, mentirosas,
blasfemadoras, caluniadoras que outrora saíam como relâmpagos do Inferno que
havia em seu coração (Tiago 3:6). A garganta, que era um sepulcro aberto, agora
exala o doce hálito da oração e do discurso santo e o homem fala uma outra
língua, na linguagem da Canaã celestial, e jamais se sente tão bem como quando
fala de Deus, de Cristo e dos assuntos referentes ao outro mundo. A sua boca
produz sabedoria; a sua língua se tornou a trombeta prateada de louvor ao seu
Criador, é a sua glória, o melhor membro que ele tem.
Nessas coisas, contudo, você encontrará o hipócrita
tristemente deficiente. Ele fala, talvez, como um anjo, mas tem um olhar
cobiçoso ou o lucro da injustiça em sua mão. A sua mão é branca, mas o seu
coração está cheio de imundícia (Mateus 23:27), cheio de cobiças não dominadas,
um forno cheio de concupisência, uma fábrica de orgulho — a sede da malícia.
Talvez, como a estátua de Nabucodonosor, ele tenha uma cabeça de ouro — uma
grande quantidade de conhecimento — mas ela tem pés de barro; as suas afeições
são mundanas, ocupa-se de coisas terrenas, o seu caminho e andar são sensuais e
carnais. A obra nele não é salvadora.
(3). A vida e a prática
O novo homem segue um novo curso (Efésios 2:2-3). A
sua conversação é celestial (Filipenses 3:20). Mal Cristo o chama, através dz
Sua graça eficaz, imediatamente ele se torna um seguidor. Após dar-lhe um novo
coração e escrever a Sua lei em sua mente, daí em diante o homem anda nos Seus
estatutos e guarda os Seus mandamentos.
Embora o pecado possa habitar nele — um hóspede
verdadeiramente enfadonho e indesejável — já não tem domínio sobre ele. Tem
agora os frutos da santidade e ainda que cometa muitos erros, a lei e a vida de
Jesus são os seus padrões e nutrem nele um sincero respeito por todos os
mandamentos de Deus. Ele se sensibiliza ante os mínimos pecados e os menores
deveres. As suas próprias enfermidades — as quais ele não pode evitar, mesmo se
quisesse — são o peso da sua alma e são como ciscos nos olhos de alguém, que
apesar de pequenos o perturbam bastante. (Ó leitor, será que você lê isso e
nunca se detêm para examinar-se a si mesmo?) O verdadeiro convertido não
apresenta um comportamento na igreja e outro em casa. Não é um santo quando
está de joelhos e um impostor no seu trabalho. Ele não vai dar o dízimo da
hortelã e do cominho e negligenciar a misericórdia e o julgamento ou os
aspectos mais importantes da lei. Ele não aspira a piedade, negligenciando a
moralidade. Mas deixa todos os pecados e guarda todos os estatutos de Deus;
embora não o faça com perfeição (a não ser naquilo que se refere ao desejo e ao
esforço), contudo, o faz com sinceridade, não se permitindo infringir nenhum
deles. Agora ele se deleita na Palavra, dedica-se à oração, abre a sua mão e a
sua alma aos famintos. Rompe com o pecado praticando a justiça, e afasta as
suas iniquidades demonstrando misericórdia para com os pobres (Daniel 4:27).
Tem uma boa consciência, desejando em tudo viver honestamente (Hebreus 13:18),
evitando ofender a Deus e aos homens.
Aqui, novamente, você encontrará as deficiências de
muitos que se consideram bons cristãos. São parciais na lei (Malaquias 2:9) e
cumprem os deveres insignificantes e fáceis da religião, mas não fazem o
trabalho completo. São como um bolo meio assado e meio cru. Talvez os ache
corretos nas suas palavras, pontuais em seus feitos, mas não se exercitam na
santidade; não se examinam a si mesmos e não governam os seus corações. Talvez
você os veja regularmente na igreja; mas acompanhe-os ao convívio
familiar e ali vai constatar pouco mais que uma mente mundana; ou, se cumprirem
os deveres familiares, acompanhe-os aos seus quartos e lá verificará que suas
almas são mal cuidadas. Talvez tenham a aparência de religiosos, mas não
reprimem as suas línguas, e, portanto, toda a sua religião é vã (Tiago 1:26).
Talvez pratiquem a oração íntima e a familiar, mas siga-os até o balcão de suas
lojas e vai encontrar neles o hábito de mentir ou alguma maneira elegante de
enganar. Portanto, o hipócrita não é uma pessoa obediente.
6. As coisas que deixamos ao sermos convertidos
são: pecado, Satanás, o mundo e nossa justiça própria.
(1). Deixamos o pecado. Quando alguém se converte,
passa a viver em eterna inimizade com o pecado; sim, com todo o pecado, mas,
acima de tudo, os com seus próprios pecados e, especialmente, com seus pecados
mais íntimos. O pecado passa a ser objeto da sua indignação. O seu pecado
aumenta as suas tristezas. É o pecado que o transpassa e o fere; ele o sente
como um espinho a penetrar-lhe o lado, como uma ferroada no olho. Ele geme e
luta com o pecado e clama — não de modo formal, mas sinceramente:
"Miserável homem que eu sou!" Nenhum outro peso o torna tão
impaciente como o peso do seu pecado. Se Deus lhe concedesse o direito de
escolher, escolheria qualquer outra aflição para se ver livre do pecado;
sente-o como uma pedra cortante no sapato, picando e ferindo o seu pé à medida
que anda.
Antes da sua conversão, o cristão tinha pensamentos
levianos a respeito do pecado. Ele o acariciava em seu seio, como Urias
acariciava a sua cordeirinha; ele o nutria e o mesmo crescia juntamente
consigo, comendo como se fosse de sua própria carne, e bebendo do seu próprio
copo. Ele o abrigava em seu seio, como a um filho. Mas quando Deus abriu os
seus olhos através da conversão, atirou o pecado para longe, com repugnância,
da mesma forma que faria com um sapo asqueroso, que, na escuridão, houvesse
apertado em seu peito, imaginando que fosse um belo e inofensivo pássaro.
Quando um homem é convertido torna-se profundamente convencido não só do
perigo, mas também da corrupção do pecado; e quão fervoroso ele se torna para
com Deus, a fim de ser purificado! Ele sente aversão por si mesmo por causa de
seus pecados. Corre para Cristo e lança-se na fonte aberta por Ele para o
pecado e a impureza. Se ele cair, que agitação haverá ali para que fique limpo
novamente! Ele não terá descanso enquanto não se refugiar na Palavra,
lavando-se, esfregando-se, enxaguando-se na fonte infinita e esforçando-se para
purificar-se de toda a imundícia da carne e do espírito.
O verdadeiro convertido está sinceramente engajado
contra o pecado. Luta com ele, combate contra ele; é, também, frequentemente
derrotado, mas, enquanto houver vida em seu corpo, jamais abandonará a causa
nem deporá as armas. Não vai reconciliar-se com o pecado, não vai dar-lhe
abrigo. Pode esquecer-se de seus outros inimigos, pode apiedar-se deles e orar
por eles; mas com o pecado é implacável, está empenhado em exterminá-lo. Ele
persegue-o como se o fizesse em favor de uma vida preciosa; não terá
misericórdia do seu olho nem poupará a sua mão, ainda que seja a mão direita ou
o olho direito. Pode ser um pecado proveitoso, muito agradável à sua natureza
ou importante para sustentar a estima dos seus amigos mundanos; ainda assim,
preferirá lançar o seu lucro na sarjeta, ver o seu crédito ruir ou a flor do
seu prazer murchar na sua mão, a permitir-se caminhar qualquer trilha conhecida
de pecado. Não será indulgente, não será tolerante. Ele se lança contra o
pecado onde quer que o encontre, e o desaprova com esta mal acolhida saudação.
"Ó meu inimigo, eu o achei?!"
Leitor, você tem posto a sua consciência em ação
enquanto está analisando estas linhas? Tem ponderado estas coisas em seu
coração? Tem examinado o livro intimamente, para ver se estas coisas são assim?
Caso contrário, leia-o novamente e faça a sua consciência falar se de fato é ou
não é assim com você.
Você tem crucificado sua carne com suas paixões e
concupiscências? Você não apenas tem confessado, mas também se tem afastado dos
seus pecados — todo pecado em seus ardentes desejos — e a prática regular de
cada pecado deliberado e obstinado de sua vida? Se não tiver feito isso, você
ainda não é convertido. À medida que lê, acaso a consciência não se lança na sua
face e lhe diz que você vive de forma mentirosa em seu proveito próprio? Que
você esta usando o engano no seu chamado? Que há, de certa maneira, um capricho
secreto no qual você está vivendo? Então, deixe de enganar-se a si mesmo.
"Você vive no fel da amargura e na prisão do pecado".
Porventura a sua língua desenfreada, o seu vício de
apetite, as suas más companhias, a sua negligência na oração, na leitura e no
ouvir da Palavra de Deus não testemunham agora contra você dizendo: "Somos
as suas obras e o seguiremos"? Ou, se não lhe acertei em cheio, o
conselheiro interior não lhe diz que há tais e tais maneiras que você sabe
serem más e que, contudo, por causa de algum aspecto carnal, acaba tolerando em
si mesmo? Se este for o seu caso, então não está regenerado até hoje, e tem de
ser transformado ou condenado.
(2). Nós nos afastamos de Satanás. A conversão
amarra o homem forte, estraga a sua armadura, lança fora os seus bens, faz com
que os homens se voltem do poder de Satanás para Deus. Antes, tão logo que o
diabo levantasse o seu dedo para chamá-los à sua companhia pecaminosa, jogos
pecaminosos e prazeres imundos eles o seguiam imediatamente "como um boi
vai para o matadouro ou como um louco vai para o castigo das prisões, como o
pássaro que se apressa para o laço e não sabe que está ali contra a sua
vida" (Provérbios 7:22-23). Logo que Satanás os mandasse mentir,
imediatamente eles estariam com a língua pronta para proferir mentiras; tão
logo o Inimigo oferecesse um objeto lascivo, já seriam aguilhoados pela
lascívia. Se o diabo lhes dissesse: "Deixem esses deveres
familiares", esteja certo de que tais deveres raramente seriam cumpridos
em suas casas. Se ele lhes dissesse: "Larguem dessa rigidez, dessa
precisão", eles ficariam bastante longe delas. Se ele lhes dissesse:
"Não há necessidade dessas devoções domésticas", dia a dia iriam
deixando de fazê-las. Mas após sua conversão o cristão serve a um outro Mestre
e toma um rumo bem diferente; ele anda segundo os mandamentos de Cristo.
Satanás pode, de vez em quando, apanhá-lo na sua armadilha, mas ele já não será
mais um cativo voluntário. Está vigilante contra os laços e engodos do Inimigo,
e procura cientificar-se dos seus ardis. Torna-se bastante desconfiado das suas
tramas e muito zeloso daquilo que lhe acontece, caso Satanás tenha algum
propósito a seu respeito. Luta contra os principados e poderes; trata com o
mensageiro de Satanás do mesmo modo que os homens tratam com o mensageiro da
morte. Mantém os seus olhos sobre o Inimigo e está atento aos seus deveres para
que o mesmo não leve vantagem.
(3). Nós nos afastamos do mundo. Antes de ter uma
fé verdadeira, o homem é dominado pelo mundo. Inclina-se a Mamon ou idolatra a
sua reputação; ou ama os prazeres mais do que a Deus. Aqui está a raiz da
miséria do homem na queda. Ele volve-se à criatura e dá-lhe a estima, a
confiança e afeição que são devidas somente a Deus.
Ó homem miserável, que monstro deformado o pecado
fez de você! Deus o fez "um pouco menor do que os anjos"; o pecado o
fez um pouco melhor que os demónios, um monstro que tem a cabeça e o coração no
lugar dos pés, e estes, esperneando contra o Céu — tudo fora de lugar. O mundo,
que foi formado para servir você, está prestes a dominá-lo — a meretriz
enganosa o enfeitiçou com os seus encantos e o fez inclinar-se diante dela e
servi-la.
Mas a graça que converte põe tudo em ordem
novamente e coloca Deus no trono, e o mundo aos Seus pés; Cristo está no
coração e o mundo sob os pés. "... o mundo está crucificado para mim e eu
para o mundo". (Gálatas 6:14). Antes dessa mudança, todo clamor era:
"quem nos mostrará algum bem (mundano)?", mas, agora, ele ora:
"Senhor, exalta sobre mim a luz do Teu rosto", e quem quiser fique
com o trigo e o vinho (Salmo 4:6-7). Anteriormente o prazer e o contentamento
de seu coração estavam no mundo; então, a sua canção era: "Alma, tens em
depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga". Mas,
agora, tudo isto já perdeu a sua importância e já não tem graça para que o
deseje; e ele se afina com o doce salmista de Israel: "O senhor é a porção
da minha herança; as linhas caem-me em lugares deliciosos; sim, coube-me uma
formosa herança". Nada mais pode deixá-lo contente. Escreveu
"vaidade" e "tormento" sobre todos os prazeres mundanos; e
"perda" e "imundícia" sobre todas as virtudes humanas. Está
em busca, agora, da vida e da imortalidade. Anseia por graça e glória, e tem
uma coroa incorruptível em vista. Seu coração está empenhado em buscar ao
Senhor. Busca primeiro o reino de Deus e a Sua justiça, e a religião não se
trata mais de um assunto casual para ele, mas é a sua principal preocupação.
Outrora o mundo tinha domínio sobre ele. Ele faria mais para obter lucro do que
para obter santidade — mais para agradar ao seu amigo ou à sua carne, do que a
Deus que o fez; e Deus precisava esperar enquanto o mundo era servido em
primeiro lugar. Mas agora, tudo precisa esperar; ele odeia pai, mãe, a vida e
tudo o mais em comparação a Cristo.
Bem, leitor, pare um pouco e olhe para dentro de si
mesmo. Isso não o preocupa? Você finge ser de Cristo, mas o mundo o domina?
Você não sente gozo e contentamento mais reais no mundo do que nEle? Você não
se sente mais à vontade quando o mundo está na sua mente e quando está rodeado
de prazeres carnais do que quando a sós, em seu quarto, para orar e meditar,
ou, assistindo ao culto e adorando ao Senhor? Não há evidência mais segura do
estado de falta de conversão, do que ter as coisas do mundo em primeiro plano,
no que se refere aos nossos interesses, amor e estima.
Para o verdadeiro convertido, Cristo tem a
supremacia. Quão querido é o Seu nome para ele! Quão preciosa é a Sua graça! O
nome de Jesus está gravado em seu coração. Para ele, a honra é simples
aparência; o riso é apenas loucura; e Mamon caiu por Terra como Dagom diante da
arca, com as mãos e a cabeça quebradas na soleira, quando Cristo é revelado de
maneira salvadora. Aqui está a pérola de grande preço para o verdadeiro
convertido; aqui está o seu tesouro; aqui está a sua esperança. Esta é a sua
glória: "Meu amado é meu, e eu sou dele". Oh, é mais doce para ele
ser capaz de dizer: "Cristo é meu", do que se ele pudesse dizer:
"O reino é meu; as índias são minhas".
(4). Nós afastamo-nos da nossa justiça própria.
Antes da conversão o homem procura cobrir-se com folhas de figueira e
santificar-se com os seus próprios deveres. Está apto a confiar em si mesmo, a
estabelecer a sua justiça própria e a contabilizar os seus borós (no Brasil,
mesmo que dinheiro; Boró=Expressão usada no Brasil para se referir ao dinheiro
todo em moeda) como ouro, mas não está apto a se submeter à justiça de Deus.
Mas a conversão muda a sua mente; agora ele considera sua justiça própria como
trapos de imundícia. Ele a lança fora como uma pessoa faria com os trapos
repugnantes de um mendigo asqueroso. É, agora, levado à pobreza de espírito;
condena-se e reclama de si mesmo; considera todos os seus bens
"desgraçados, e miseráveis, e pobres, e cegos, e nus". Vê um mundo de
iniquidade nas suas coisas santas, e a sua justiça — antes idolatrada — chama
de imundícia e prejuízo; e nem por milhares de mundos se acharia vestido nela.
Agora começa a dar um alto valor à justiça de Cristo. Vê a necessidade de
Cristo em cada dever, para justificar a sua pessoa e santificar os seus atos;
não pode viver sem Ele; não pode orar sem Ele. Cristo precisa de ir com ele,
caso contrário, não pode chegar à presença de Deus; inclina-se para Cristo e,
portanto, encurva-se na casa do seu Deus. Esconde-se em Cristo, como a raiz de
uma árvore se espalha na Terra para ter estabilidade e nutrir-se. Outrora as
novas de Cristo eram uma coisa sem graça e sem sabor; mas, agora, quão doce é
Cristo. Agostinho não podia apreciar o seu tão admirado Cícero, porque não
podia encontrar nos escritos dele o nome de Cristo. Quão enfaticamente ele exclama:
"Ó suavíssimo, amantíssimo, bondosíssimo, queridíssimo, preciosíssimo,
desejadíssimo, adorabilíssimo, justíssimo!" (Meditat c.37), tudo de um só
fôlego, quando fala de e para Cristo. Em suma, o convertido brada juntamente
com o mártir: "Ninguém, senão Cristo".
7. Aquele a quem voltamos na conversão é Deus Pai,
Filho e Espírito Santo, o qual o verdadeiro convertido considera sua bênção
eterna e toda-suficiente. Um homem nunca está realmente santificado enquanto o
seu coração não estiver verdadeiramente colocado sobre Deus, acima de todas as
coisas, como a sua porção e o seu bem principal. Estas são as aspirações
naturais do coração do crente: "O Senhor é a minha porção". "A
minha alma se gloriará no Senhor". "... dele vem a minha esperança.
Só ele é a minha rocha e a minha salvação... e a minha glória; a rocha da minha
fortaleza, e o meu refúgio estão em Deus". (Salmo 119:57; Salmo 34:2;
Salmo 62:5-6).
Você gostaria de ter certeza se é um convertido, ou
não? Então permita que a sua alma e tudo que há em você prestem atenção.
Você tem recebido Deus como a sua felicidade? Onde
está o desejo do seu coração? Qual é a fonte da sua maior satisfação? Venha,
então, e com Abraão levante os seus olhos para o leste, para o oeste, para o
norte, para o sul, e olhe à sua volta; o que há no Céu ou na Terra que gostaria
de receber para fazê-lo feliz? Se Deus lhe desse o direito de escolha, como fez
com Salomão, ou se Ele lhe dissesse como Assuero disse a Ester: "Qual é o
seu pedido e qual é o seu requerimento, e se fará" — o que você pediria?
Vá aos jardins do prazer, e colha todas as flores perfumadas que lá houver;
isso iria satisfazê-lo? Vá aos tesouros de Mamon; suponha que possa carregar
tudo o que quiser. Vá às torres, aos troféus de honra. Que você acha de ser um homem
de renome, e ter nome como os dos grandes homens da Terra? Será que qualquer
uma dessas coisas ou todas elas o satisfariam e fariam com que você se
considerasse feliz? Caso positivo, você certamente é carnal e não é convertido.
Caso negativo, vá adiante; penetre nas excelências divinas, na abundância das
Suas misericórdias, no esconderijo do Seu poder; nas profundezas insondáveis da
toda a Sua suficiência. Isto lhe convém e agrada mais? Você diz: "É bom
estar aqui. Vou instalar-me, vou viver
e morrer aqui".? Você prefere isso mais do que o mundo todo? Então, está
tudo bem entre você e Deus: como você é feliz, ó homem — feliz como jamais o
foi. Se Deus pode fazê-lo feliz, você deve ser feliz, pois tem o Senhor como
seu Deus. Você diz a Cristo como Ele diz a nós: "Teu Pai será o meu Pai,
Teu Deus o meu Deus".? Aqui está o ponto-chave da questão. Um falso
convertido jamais descansa em Deus; mas a graça que converte faz a obra e,
assim, cura a miséria fatal da queda, afastando o coração do seu ídolo e voltando-o
para Deus. Agora diz a alma: "Senhor, para onde irei? Tu tens as palavras
de vida eterna" Aqui se centraliza e aqui se fixa. Trata-se da sua entrada
no Céu; ele põe o seu interesse em Deus. Ao descobrir isto, diz: "Volta,
minha alma, ao teu repouso, pois o Senhor te fez bem" (Salmo 116:7). E
está até pronto a cantar o hino de Simeão: "Agora, Senhor, despede em paz
o teu servo..."; e a dizer com Jacob, quando o seu velho coração reviveu
diante das agradáveis notícias: "Basta..." (Génesis 45:28). Ao ver que
pode refugiar-se no Deus do concerto, isto significa toda a sua salvação e todo
o seu desejo (II Samuel 23:5).
É este o seu caso? É isto que você tem
experimentado? Se for assim, então você é "bendito do Senhor". Deus
tem operado em você; Ele tem-Se apoderado do seu coração pelo poder da graça
regeneradora; senão você jamais poderia ter feito isso.
De modo particular, na conversão fazemos o
seguinte:
(1). Voltamos para Cristo, o único Mediador entre
Deus e os homens (I Timóteo 2:5). A sua tarefa é levar-nos a Deus (I Pedro
3:18). Ele é o caminho para o Pai (João 14:6); a única tábua de salvação, pela
qual podemos escapar; a única porta pela qual podemos entrar (João 10:9). A
conversão leva a alma a Cristo, para que O aceite como o único meio de vida, como
o único caminho, como o único nome dado debaixo dos céus. Ela não procura
salvação em nenhum outro, senão nEle; lança-se somente sobre Cristo.
"Vou me aventurar", diz o pecador
convicto; "E se eu perecer, perecerei; se eu morrer, morrerei. Mas, Senhor,
não permitas que eu pereça sob os olhares da Tua misericórdia. Impede que eu Te
abandone ou que eu desista de seguir-Te. Eis-me aqui, se me matares, não sairei
da Tua porta".
Portanto, a pobre alma aventura-se em Cristo e
resolutamente entrega-se a Ele. Antes da conversão o homem desprezava a Cristo;
dava maior importância aos seus bens, amigos, negócios do que a Cristo; agora
Cristo é-lhe tão necessário quanto a comida, quanto o pão diário; é a vida do
seu coração, o esteio do sua vida. O seu grande desejo é que Cristo seja
engrandecido nele. Outrora seu coração exclamava, como se diz à esposa:
"Que é o teu amado mais do que o outro amado... ?" (Cantares de
Salomão 5:9). Ele encontrava maior graça nos seus alegres companheiros, nos
seus jogos ilícitos, nos prazeres terrenos do que em Cristo. Religião era uma
fantasia, e a manifestação de grande gozo, um sonho inútil; mas, agora, para
ele o viver é Cristo. Despreza tudo o que considerava precioso, pela excelência
do conhecimento de Cristo.
Tudo o que diz respeito a Cristo é aceito pelo
verdadeiro convertido. Ama não apenas o salário, mas o serviço de Cristo
também; não apenas os benefícios, mas o fardo de Cristo também. Está disposto
não apenas a esmagar o trigo, mas a submeter-se ao jugo também. Aceita os
mandamentos de Cristo — sim, também a cruz de Cristo.
O falso convertido não aceita Cristo inteiramente.
Deseja a salvação que está em Cristo, mas não deseja a santificação. Quer os
privilégios, mas não se apropria da pessoa de Cristo. Divide os ofícios dos
benefícios de Cristo. É um erro no alicerce. Todo aquele que ama a vida,
acautele-se acerca disso. Trata-se de um erro grave, do qual você tem sido
frequentemente avisado, contudo, nenhum outro ocorre com tanta frequência.
Jesus é um nome doce, mas os homens não amam o Senhor Jesus sinceramente. Não O
consideram como aquele que foi oferecido por Deus "para ser Príncipe e
Salvador" (Atos 5:31). Separam aquilo que Deus uniu: o Rei e o Sacerdote.
Não aceitarão a salvação provinda de Cristo como Ele intenta; eles a dividem
neste ponto. Todos os homens aspiram ser salvos do sofrimento, mas não desejam
ser salvos do pecado. Gostariam de ter as suas vidas salvas, mas querem
continuar com as suas luxúrias. De fato, muitos divergem nesse ponto. Ficariam
contentes se alguns dos seus pecados fossem eliminados, mas não conseguem
deixar o colo de Dalila nem divorciar-se da amada Herodias. Não podem ser
cruéis com o olho direito ou com a mão direita. Oh leitor, seja muitíssimo
cauteloso nesse ponto; a sua alma depende disso. O verdadeiro convertido aceita
Cristo completamente, aceita-O em tudo, sem exceções, sem limitações e sem
reservas. Está disposto a ter Cristo sob quaisquer condições, quer o domínio de
Cristo, bem como a libertação por Cristo. Diz, juntamente com Paulo:
"Senhor, que queres que eu faça?" Qualquer coisa, Senhor. Dessa forma
envia o formulário para Cristo, para que Ele estabeleça as Suas próprias
condições.
(2). Voltamos para as leis, asa ordenanças e os
caminhos de Cristo.
O coração que outrora era contra tudo isso, e não
podia suportar a rigidez desses lagos, a severidade desses caminhos, agora
apaixona-se por eles e os escolhe como normas e guias eternos.
Com referência às leis e caminhos de Cristo, tenho
observado que Deus opera quatro coisas em cada verdadeiro convertido, pelas
quais vocês podem conhecer o seu estado, se forem fiéis às suas próprias almas.
Portanto, vigiem os seus corações, à medida que prosseguem.
(i). O juízo é levado a aprovar essas leis e
caminhos e a aceitá-los como os mais justos e racionais. A mente é levada a
apreciar os caminhos de Deus, e os corruptos preconceitos que outrora eram
contrários a eles —considerando-os irracionais e intoleráveis— são agora
removidos. O entendimento reconhece-os como santos, justos e bons (Romanos
7:12). Vejam como David exaltava as excelências das leis de Deus. Como ele
falava pormenorizadamente dos seus louvores, tanto quanto das suas qualidades
inerentes, bem como dos seus admiráveis efeitos! (Salmo 19:8-10 etc).
Há um duplo juízo do entendimento: o absoluto e o
comparativo. O juízo absoluto é quando o homem considera um determinado caminho
como o melhor, em geral; mas não para ele, ou pelo menos não sob as suas atuais
circunstâncias. Ora, o juízo de um homem piedoso é em favor dos caminhos de
Deus, e não se trata apenas de um juízo absoluto, mas comparativo. Considera-os
não apenas os melhores, de modo geral, mas são os melhores para ele, em
particular. Não considera as leis da religião apenas toleráveis; considera-as
desejáveis; sim, mais desejáveis do que o ouro, do que o ouro puro — sim, do
que muito ouro puro.
O seu juízo está plenamente persuadido que é melhor
ser santo, que é melhor ser rígido, que este é o melhor caminho, e, para ele, é
a mais sábia, a mais racional e a mais desejável escolha. Veja o conceito do
homem de Deus: "Sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos; amo os teus
mandamentos mais do que o ouro, e ainda mais do que o ouro fino. Por isso tenho
em tudo como retos todos os teus preceitos, e aborreço toda a falsa vereda"
(Salmo 119:127-128). Observe que ele aprova tudo o que Deus ordena e desaprova
tudo o que Ele proíbe. "Justo és, ó Senhor, e retos são os teus juízos. Os
teus testemunhos que ordenaste são retos e muito fiéis. A tua palavra é a
verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre"
(Salmo 119:137-138, 160). Vejam quão pronta e completamente ele aceita os
juízos de Deus; declara a sua aprovação e aceitação desses juízos e de cada
coisa neles contida.
(ii). O desenho do coração é conhecer a mente
completa de Cristo. Não quer que nenhum pecado fique encoberto nem quer ser
ignorante de nenhum dever requerido dele. A aspiração natural e honesta de um
coração santificado é: "Senhor, se há algum caminho mau em mim, revela-o.
O que eu não sei, ensina-me; e se tenho cometido iniquidade, não cometerei
mais". O falso convertido é deliberadamente ignorante, não ama o caminho
da luz. Quer continuar com tais e tais pecados, e, portanto, detesta reconhecer
que está cometendo pecado e não permitirá que a luz o penetre. Agora o coração
bondoso deseja conhecer toda a largura e amplidão das leis do seu Criador.
Recebe com total aceitação a Palavra que o convence de qualquer dever que antes
desconhecia ou desprezava, cujo dever revela pecados que outrora permaneciam
escondidos.
(iii). A livre e resoluta escolha da vontade é
pelos caminhos de Cristo, antes de todos os prazeres do pecado e de toda a
prosperidade do mundo. A sua aceitação não é oriunda de uma situação
angustiante, nem se trata apenas de uma resolução súbita e apressada, mas o
cristão está resolvido e faz a escolha voluntária deliberadamente. Na verdade,
a carne irá rebelar-se; contudo, a parte predominante da sua vontade decide-se
pelas leis e pelo governo de Cristo, de modo que o cristão adere a elas — não
como um peso ou carga, mas como uma bem-aventurança. Enquanto o não-santificado
anda nos caminhos de Cristo como se estivesse preso em cadeias e grilhões, o
verdadeiro convertido fá-lo de coração aberto e considera as leis de Cristo a
sua liberdade. O seu prazer está nas belezas da santidade e tem esta
característica inseparável. Se pudesse escolher, preferiria uma vida rígida e
santa a uma vida próspera e florescente, porém mundana. "... e foram com
ele (Saúl) do exército aqueles cujos corações Deus tocara". (I Samuel
10:26). Quando Deus toca os corações dos Seus escolhidos, eles seguem a Cristo
imediatamente e, embora atraídos por Deus, seguem-nO voluntariamente e
desejosos de se devotarem ao Seu serviço, buscando-O de todo o coração. O temor
tem o seu valor, mas ele não é a principal fonte propulsora de um coração
santificado. Cristo não controla os Seus súditos pela força, mas é Rei de um
povo voluntário que, através da Sua graça, se dedica espontaneamente ao Seu
serviço. Eles O servem por livre escolha — não como escravos, mas como um filho
ou uma esposa; escolha essa, proveniente de uma fonte de amor e de uma mente
fiel.
Em suma, as leis de Cristo são o amor, gozo e
objeto de estudo contínuo do cristão.
(iv). A inclinação do seu caminho está direcionada
no sentido de guardar os estatutos de Deus. A sua preocupação diária é andar
com Deus. Busca grandes coisas, tem projetos nobres, embora falhe em
realizá-los. O seu alvo não é nada menos do que a perfeição; ele a deseja, ele
esforça-se para obtê-la; não descansará em nenhum degrau da graça enquanto não
se livrar, por completo, do pecado e estar aperfeiçoado na santidade
(Filipenses 3:11-14).
É aqui que a podridão do hipócrita pode ser
descoberta. Ele deseja a santidade, como já disse alguém muito bem, apenas como
uma ponte para o Céu e procura sinceramente descobrir qual é o mínimo
necessário para servir ao seu propósito; e se ele puder conseguir esse mínimo
necessário, ficará satisfeito. Mas o verdadeiro convertido deseja a santidade
por causa da santidade, e não simplesmente por causa do Céu. Não ficaria
satisfeito apenas com aquilo que poderia apenas salvá-lo do Inferno, mas deseja
o ponto mais alto. Contudo, os desejos não são suficientes. Qual é o seu
caminho e a sua trajetória? O intento e o objetivo da sua vida foram alterados?
A santidade é o seu objetivo e a religião o seu empreendimento? Se não é assim,
então você não alcançou a verdadeira conversão.
E será que isto que temos descrito se constitui na
conversão que é absolutamente necessária para a salvação? Então esteja
informado de que estreita é a porta e apertado o caminho que conduzem à vida —
de que são poucos os que a encontram — de que há necessidade de poder divino
para converter um pecador a Jesus Cristo.
Por conseguinte, ó leitor, novamente o exorto a
examinar-se a si mesmo. O que diz a sua consciência? Ela começa a acusá-lo? Ela
o aferroa à medida que você prossegue? Aquilo que temos descrito corresponde ao
seu juízo, à sua escolha e ao seu caminho? Se for assim, então está tudo bem.
Ou porventura o seu coração o condena e lhe fala de um certo pecado no qual
está vivendo em desacordo com a sua consciência? Acaso não lhe fala que há tal
e tal caminho secreto da iniquidade no qual você deseja prosseguir, tal e tal
dever do qual você ainda não se conscientizou?
A sua consciência não o leva para o seu quarto a
fim de lhe dizer quão raramente a oração e a leitura da Palavra de Deus são ali
realizadas? Ela não o leva à sua família, para lhe mostrar a exortação de Deus,
e, às almas dos seus filhos, as quais você tem negligenciado? A sua consciência
não o conduz até à sua loja, até ao seu comércio para lhe falar de uma
determinada iniquidade que existe ali? Ela não o leva até ao botequim da
esquina ou ao clube privado, a fim de culpá-lo pelas amizades dissolutas que
você mantém ali, como também, o tempo e os talentos preciosos gastos ali? Ela
não o leva ao seu aposento secreto para ali proferir a sua condenação?
Ó consciência, cumpra com o seu dever! Em nome do
Deus vivo, eu lhe ordeno: cumpra a sua missão. Agarre este pecador, caia sobre
ele, prenda-o, apreenda-o, abra-lhe os olhos. O quê?! Você vai lisonjeá-lo e
confortá-lo enquanto ele permanece vivendo no pecado? Acorde, ó consciência! O
que pretende, ó dormente?! O quê?! Você não tem qualquer censura nos seus
lábios? O quê?!
Irá esta alma morrer na sua descuidada negligência
de Deus e da eternidade e você mantém-se completamente sossegada? O quê?! Ele
vai continuar nos seus pecados e ainda terá paz? Oh, levante-se e faça o seu trabalho.
Deixe o pregador que há em você falar. Grite e não poupe o pecador; levante a
sua voz como uma trombeta. Não deixe que o sangue dele seja requerido de suas
mãos.
Joseph Alleine in “Um
guia seguro para o céu”, PES, PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS, Rua 24 de
Maio, 116 — 3.° andar — sala 16-17 Caixa Postal 1287 — 01051 — São Paulo, SP,
Brasil

Sem comentários:
Enviar um comentário