Comentário
Completo de Matthew Henry sobre a Bíblia
(Matthew Henry’s Complete Commentary on the Bible)
Génesis 3
Versículos 1-5
A
subtileza do Tentador. A importunidade (insistência) do Tentador
Temos
aqui um relato da tentação com
que (com a qual) Satanás atacou os nossos primeiros pais, para os persuadir ao
pecado e que se revelou ser fatal para eles. Observe aqui:
I. O tentador, e que era o diabo, sob (na) a forma e semelhança de uma
serpente.
1. É certo que foi o diabo que enganou Eva. O diabo é Satanás, a
antiga serpente (Ap 12:9), um espírito maligno, por criação um anjo de luz e um
criado (servente, servidor; subordinado) próximo do trono de Deus, porém pelo
pecado tornou-se um apóstata desta sua primeira condição, e um rebelde, contra
a coroa e a dignidade de Deus. Multidões de anjos caíram. Porém este que atacou
os nossos primeiros pais era certamente o príncipe dos demónios, o líder da
rebelião: ele era Satanás e um pecador, um traidor e um tentador, alguém
enraivecido (enfurecido) contra Cristo e a Sua glória, e invejoso do homem e da
sua felicidade. Ele sabia que não poderia destruir o homem, a não ser
corrompendo-o (pervertendo-o moralmente; seduzindo-o). Balaão não pôde
amaldiçoar Israel, mas pôde tentar Israel, Ap 2:14. O jogo, portanto, que
Satanás tinha de jogar, era atrair os nossos primeiros pais para o pecado, e
assim, separá-los do seu Deus. Portanto, o diabo foi, desde o princípio, um
assassino, e o grande enganador (pessoa que lança a discórdia, que semeia a
discórdia, que faz o mal). Toda a raça humana (a humanidade; género humano, a
espécie humana) tinha aqui, por assim dizer, um único pescoço, que foi golpeado
(atingido, arpoado) por Satanás. Aquele ser maligno
(Aquele Demónio) é o (nosso) adversário e inimigo.
2. Foi (era) o diabo na semelhança de uma
serpente. Se era somente a forma visível e a aparência de uma serpente (como
alguns interpretam que eram as serpentes mencionadas em Ex 7:12), ou se era uma
serpente viva e verdadeira (real; existente de facto), acionada (impulsionada)
e possuída pelo diabo, não se sabe (não é claro, não é evidente): com a
permissão de Deus, poderia ser qualquer uma das duas coisas. O diabo decidiu
agir numa serpente: (1) Porque a serpente é uma criatura enganadora (ilusória,
especiosa; capciosa; de aspecto exterior agradável, mas falso), com pele
manchada e colorida, e sempre erecta. Talvez fosse uma serpente voadora, que
parecia vir das alturas (de cima, do céu) como um mensageiro do mundo superior,
como um serafim, porquanto as serpentes ardentes eram voadoras, Is 14:29.
Muitas das tentações perigosas vêm até nós (chegam-nos, aparecem-nos) com
agradáveis cores garridas (sob aparências alegres e coloridas) que são apenas
superficiais, e parecem vir do alto porquanto Satanás pode parecer (dar a impressão
de ser; afigurar-se, dar a impressão de) um de anjo de luz. E: (2) Porque é uma
criatura subtil isto está (isso é) aqui mencionado. Muitos exemplos são dados
da subtileza da serpente, não só para fazer o mal mas também para se proteger
enquanto ele é feito. Nós somos aconselhados a sermos prudentes como as
serpentes. Porém esta serpente como acionada pelo diabo, era, sem dúvida, mais subtil que qualquer outra, porquanto o
diabo, embora tenha perdido a santidade, retém a sagacidade de um anjo, e é
sábio (sagaz, prudente) para fazer o mal. Ele conhecia (sabia) de mais
vantagens ao fazer o uso (fazendo uso) da serpente do que nós nos damos conta. Observe que não há nada com
que o diabo mais se sirva a si mesmo e ao(s) seu(s) próprio(s) interesse(s) do
que a subtileza não santificada. Nós não saberemos dizer aquilo que Eva pensou
desta serpente que falava com ela, porém, eu creio que ela própria não sabia o
que pensar disso. A princípio, talvez, ela supôs que pudesse ser um anjo bom,
e, mais tarde, ela pôde suspeitar de que houvesse algo errado. É notável que
muitos dos gentios idólatras realmente adorassem o diabo sob a forma e
aparência de uma serpente, confessando, desta forma, a sua adesão a este
espírito apóstata, e vestindo as suas cores (e tomando o seu partido).
II. A pessoa tentada
foi a mulher, agora sozinha, e a alguma distância do seu marido, mas perto da
árvore proibida. Esta era a subtileza do diabo: 1. Atacar o vaso mais fraco com
as suas tentações. Embora perfeita na sua espécie, ainda assim podemos supor
que a mulher fosse inferior a Adão em conhecimento, força, e presença de
espírito. Alguns pensam que Eva recebeu o mandamento, não diretamente de Deus,
mas de segunda mão, pelo seu marido, e, portanto, pôde ser mais facilmente
persuadida a não confiar nele. 2. A sua (do diabo) astúcia era (consistia em)
conversar com a mulher quando ela estava (estivesse) sozinha. Se a mulher
tivesse ficado perto (próximo) do seu marido, ao lado do qual tinha sido
recentemente tirada, ela não teria estado tão exposta. Existem muitas
tentações, às quais a solidão dá grande proveito (vantagem), porém, a comunhão
dos santos contribui muito para a sua força e a segurança. 3. Ele (o diabo) tirou proveito de
(aproveitou-se de) a encontrar perto da árvore proibida, e
provavelmente dela ficar olhando (a olhar) fixamente para os seus frutos,
apenas para satisfazer a sua curiosidade. Aqueles que não devem comer o fruto
proibido não devem aproximar-se da árvore proibida. Evita-o; não passas por ele, Pv 4:15. 4. Satanás tentou Eva para que ela pudesse tentar Adão,
da mesma maneira, ele tentou Job por intermédio da sua esposa, e a Cristo, por
meio de Pedro. A sua (do diabo) estratégia (plano de ação; linha de conduta; sagacidade,
diplomacia; prudência; esperteza) consiste em
trazer (mandar, fazer) as tentações por mãos insuspeitas (inesperadas, não supostas,
ignoradas, das quais jamais suspeitaríamos), e daquelas
que têm mais interesse em nós, e que mais nos influenciam.
III. A tentação propriamente dita, e a maneira
artificial como ela foi conduzida. Com muita frequência, lemos, nas Escrituras,
sobre o perigo que corremos pelas tentações de Satanás, os seus ardis (2Co 2:11), as
suas profundezas (Ap 2:24), as astutas ciladas,
Ef 6:11. Os maiores exemplos que temos delas estão nas tentações que ele fez
aos dois Adões. Aqui, e em Mateus 4:1-11. Nesta o inimigo foi vitorioso, mas
quando quis enfrentar o Senhor Jesus, ele lutou em vão (ele saiu frustrado).
Aquilo que o inimigo disse àqueles que
ele não podia controlar, mesmo por alguma corrupção que neles houvesse, isso ele
diz-nos a nós, pelos nossos próprios
corações enganadores e pelos seus raciocínios carnais. Isto torna os seus
ataques contra nós menos discerníveis (perceptíveis, distinguíveis, visíveis),
mas não menos perigosos. Aquilo que diabo visava
(desejava) era persuadir (convencer, induzir) Eva a colher (a arrancar, a
comer) o fruto proibido. E, para fazer isto, ele usou o mesmo método que ainda
utiliza. Ele questionou se isto seria ou não um pecado, Gn 3:1. Ele negou que houvesse (havia) qualquer perigo nisto, Gn 3:4. Ele
sugeriu que haveria muitas vantagens ao fazê-lo, Gn 3:5. E estes são os seus
argumentos comuns.
1.
Ele questionou se seria ou não um pecado comer desta árvore, e se o seu fruto
era realmente proibido. Observe:
(1) Ele disse à mulher, É assim que Deus disse: Não comereis? As
primeiras palavras indicavam alguma coisa dita anteriormente, introduzindo
estas, e com as quais estão conectadas, talvez alguma conversa que Eva tinha
tido consigo mesma, da qual Satanás se aproveitou e na qual enxertou esta
pergunta. Na cadeia de pensamentos, uma coisa, de maneira estranha, leva a
outra, e talvez, a alguma coisa má, por fim. Observe aqui: [1] Ele não descobre (revela),
a princípio, o seu desígnio, mas coloca (põe; lança, atira) uma pergunta que
parecia inocente: Eu ouvi uma novidade (notícia, nova), diga-me se isso é
verdade: Deus proibiu-o de comer desta árvore?” Assim começou ele a conversa, e
atraiu-a para conversar (parlamentar, conferenciar, negociar, discutir).
Aqueles que desejam (querem; estão inclinados a; escolhem) estar seguros têm a
necessidade de suspeitar, e de se acautelarem (recuarem, de se desviarem, de se
afastarem-se) ao falar com o tentador. [2] Ele (o diabo) cita falazmente,
(enganosamente) o mandamento (O diabo cita o mandamento dum modo falaz), como
ele se fosse uma proibição, não somente daquela árvore, mas de todas. Deus
tinha dito: De toda árvore do jardim
comerás livremente, exceto de uma. Ele, (o inimigo) ao agravar a exceção,
desejava invalidar a permissão: É assim, que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? A
lei divina não pode ser desacreditada (censurada, repreendida, exprobrada,
acusada), a menos que seja, antes disto, apresentada erradamente (desvirtuada,
deturpada, falseada). [3] Ele parece falar-lhe sarcasticamente
(mordazmente; insultuosamente) censurando a mulher pela sua timidez em aproximar-se
daquela árvore; é como se ele tivesse dito: “Você é tão escrupulosa, e
cautelosa, e tão meticulosa por Deus ter dito: Não comereis.” Assim como o
diabo é um mentiroso assim também é um zombador (escarnecedor; trocista), desde
o princípio: e os escarnecedores dos últimos dias são seus filhos. [4] Aquilo
que ele (o diabo) visa, desde o início, era tirar (remover) o senso de
obrigação que ela tinha para com o mandamento. “Certamente você está enganada,
não pode ser verdade que Deus lhe proibisse esta árvore. Ele não faria uma
coisa tão pouco razoável (sem razão; desarrazoada; exorbitante, excessiva;
imoderada; despropositada).” Observe aqui que a subtileza de Satanás é manchar
a reputação da lei divina como algo incerto ou pouco razoável, e assim atrair
as pessoas para o pecado. E que, portanto, é nossa sabedoria manter (conservar)
uma crença firme e um elevado (grande) respeito pelo mandamento de Deus. Deus
disse: “Não mentirás, não tomarás o Meu nome em vão, não te embriagarás,” etc.?
“Sim, eu tenho a certeza de que Ele disse isto, e disse-o bem. E, pela Sua
graça, eu agirei de acordo com a Sua ordem (vou cumpri-la; vou conformar-me a
ela; vou aceitar e executar a Sua ordem; vou ficar fiel a ela, vou persistir
nela) por mais que o tentador que sugira o contrário.”
http://www.studylight.org/commentaries/mhm/view.cgi?bk=0&ch=1
(2)
Em resposta a esta pergunta, a mulher dá-lhe uma explicação clara e completa da
lei à qual estavam sujeitos, Gn 3:2, 3. Observe
aqui: [1] A fraqueza dela foi encetar uma conversa com a serpente. Ela (a
mulher) poderia (deveria) ter percebido, pela pergunta, que ela (a serpente)
não tinha boas intenções, e por isto deveria ter retrocedido bruscamente
(recuado sobressaltada) com um Para trás
de mim, Satanás, que me serves de escândalo. Porém, a sua curiosidade, e
talvez a sua surpresa por ouvir uma serpente a falar, levaram-na a continuar a
conversar com ela. Observe que é perigoso lidar com uma tentação que deveria
ser, logo ao princípio, rejeitada com desdém e repulsa. A guarnição (as tropas)
que parece conversar (conferenciar, parlamentar, negociar) com o inimigo, não
está longe de ter de se render. Aqueles que desejam ser (estar) afastados
(abster-se de; protegidos) do mal, devem manter-se fora do caminho do mal. Veja
Pv 14:7; 19:27. [2] Era sábio da parte dela tomar conhecimento da (fazer caso
da) liberdade que Deus lhes tinha concedido, em resposta à insinuação dissimulada
da serpente, como se Deus os tivesse colocado no paraíso somente para os
atormentar com a visão de frutos apetitosos, porém proibidos. “Sim”, diz ela, “nós
podemos comer dos frutos destas árvores, graças ao nosso Criador, nós temos
abundância e variedade suficientes que nos são permitidas.” Observe que para
evitar uma situação de desconforto com as restrições da religião, é bom que com
muita frequência examinemos as suas liberdades e os seus confortos. [3] Foi um
exemplo da sua decisão o facto dela ter aderido ao mandamento, e de fielmente o
repetir, com uma certeza inquestionável: “Deus
disse, eu tenho certeza de que Ele o disse, vós não comereis do fruto desta
árvore.” E o facto dela ter acrescentado, Nem
nele tocareis, parece ter sido com uma boa intenção (como pensam alguns), e
não implicitamente (tacitamente) para mostrar (reflectir; espelhar; exprimir,
insinuar) que o mandamento era demasiado rígido (estrito, severo; austero;
terminante; estreito; preciso, exacto) (Não
toques, não proves, não manuseies), mas como se
estivesse colocando uma cerca em torno da árvore: “ Nós não devemos comer,
portanto não iremos tocar. É completamente proibido, e a declaração da
proibição é sagrada para nós.” [4] Ela parece hesitar (vacilar, começar a
perder terreno; titubear, mostrar-se irresoluta) um pouco sobre a ameaça, e não
foi tão cuidadosa (exacta, meticulosa, minuciosa; enfática) e fiel na repetição
dela quanto foi em relação ao preceito. Deus disse: No dia em que dela comeres, certamente morrerás. Mas o que ela diz
é somente: Para que não morrais.
Observe que a fé vacilante e as decisões hesitantes (indecisas, irresolutas,
titubeantes; pouco firmes; vacilantes) oferecem grandes vantagens ao tentador.
2.
Ele (Satanás) nega que houvesse qualquer perigo nisto, insistindo que, embora
isto pudesse ser uma transgressão de um preceito, ainda assim ela não estaria
sujeita a um castigo (punição, penalidade): Certamente
não morrereis, Gn 3:4. “Vós não morreis
agonizantes”, assim é o significado, numa contradição direta com o que Deus
tinha dito. Ou: (1) “Não é certo (garantido) que vós morrereis”, segundo
alguns. “Não é tão garantido (certo, seguro; sem qualquer dúvida; indubitável)
como vós fostes levados a crer que é.” Desta maneira, Satanás se esforça para
abalar aquilo que ele não pode destruir (derrubar; deitar abaixo, deitar por
terra; transtornar; arruinar; derrotar, vencer), e procura invalidar a força
das ameaças divinas, questionando a veracidade delas. E, uma vez quando se
suponha que seja possível que exista (existir) alguma falsidade ou falácia, em
qualquer palavra de Deus, então uma porta é completamente aberta à infidelidade.
Satanás, em primeiro lugar, ensina os homens a duvidar, e, depois, a negar. Ele
torna-os primeiramente céticos, e depois, gradualmente torna-os ateus. Ou: (2)
Segundo outros, o inimigo estava dizendo: “É certo que
não morrereis.” Ele tenta comprovar a sua contradição com a mesma
expressão de garantia que Deus tinha usado ao ratificar a ameaça. Ele começou a
questionar o preceito Gn 3:1, mas, achando que a mulher aceitou (perfilhou,
concordou com) a sua ideia, deixou este ataque de lado, e fez o segundo ataque,
desta vez sobre a ameaça, exatamente onde percebeu que ela vacilava, porquanto
ele é rápido a descobrir todas as vantagens, e a atacar onde a muralha está
mais fraca: Certamente não morrereis.
Isto era uma mentira, uma mentira completa, porquanto, [1] Ela era contrária à
palavra de Deus, que nós temos a certeza que é verdadeira. Veja 1Jo 2:21, 27.
Era uma mentira que tentava desmentir o próprio Deus. [2] Ela era contrária ao
seu próprio entendimento. Quando ele (Satanás) lhes disse que não havia perigo
na desobediência e na rebelião, estava dizendo algo que ele sabia, por dolorosa
experiência, que era falso. Ele tinha infringido a lei da sua criação, e tinha
descoberto, às suas custas (para seu próprio prejuízo), que não podia prosperar
daquela maneira. E, ainda assim, ele diz, aos nossos primeiros pais, que eles
não morrerão. Ele (Satanás) dissimulou (escondeu, ocultou, guardou segredo,
calou, ocultou) a sua própria desgraça, para poder atraí-los a algo semelhante:
desta maneira, ele ainda engana os pecadores, para a sua própria ruína
(destruição; perdição, desgraça). Ele diz-lhes que, embora eles pequem, eles não
morrerão. E ele (Satanás) ainda deseja ter mais credibilidade do que Deus, que
lhes diz: O salário do pecado é a morte.
Observe que a esperança da impunidade é um grande apoio para toda a iniquidade,
e impenitência. Terei paz, ainda que ande
conforme ao bom parecer do meu coração, Dt 29:19.
3. Ele (Satanás)
promete-lhes vantagens com isto, Gn 3:5. Aqui ele (Satanás) continua com o seu
ataque, e foi um golpe na raiz, um golpe fatal na árvore da qual nós somos
ramos. Ele não apenas se responsabilizava dizendo que eles não perderiam com
isto, comprometendo-se assim a salvá-los do mal, mas (se eles fossem de tal
maneira tolos para se aventurarem com base numa suposta segurança de alguém que
se tinha, ele mesmo, tornado um falido), queria ele responsabilizar-se por
eles, que eles sairão ganhadores, de uma maneira indescritível. Ele não poderia
tê-los persuadido a correr o risco de se arruinarem, se ele não lhes tivesse
sugerido uma grande probabilidade de se melhorarem a si
mesmos (de se aprimorarem, se se aperfeiçoarem).
(1)
Ele (Satanás) insinua-lhes os grandes progressos (melhoras, melhorias,
aperfeiçoamentos, melhoramentos) que eles fariam por
comer deste fruto (se comessem este fruto). E adapta a tentação ao
estado puro em que eles agora se encontram, propondo-lhes, não prazeres ou
satisfações carnais, mas deleites e satisfações intelectuais. Estas foram as
iscas (atrações, engodos) que o inimigo colocou no seu anzol (armadilha, laço).
[1] “Os vossos olhos abrir-se-ão. Vós tereis muito mais poder e prazer de
contemplação do que tendes agora. Vós tereis um domínio mais amplo nos vossos pontos de vista intelectuais, e compreendereis mais
(melhor) as coisas do que compreendeis agora.” Ele (Satanás) fala como se agora
eles fossem míopes e tivessem uma visão turva, em comparação com o que teriam
depois. [2] “Vós sereis como deuses, como Elohim,
deuses poderosos, não somente omniscientes, mas também omnipotentes”, ou, “Vós
sereis como o próprio Deus, iguais a Ele, rivais dEle. Vós sereis soberanos, e
não mais súbditos, sereis auto-suficientes, e não mais dependentes.” Uma
sugestão completamente absurda! Como se fosse possível às
criaturas de ontem ser como o seu Criador que era desde a eternidade (que
as criaturas que surgiram ontem fossem como o seu Criador, que existia desde a
eternidade.) [3] “Vós conhecereis o bem e
o mal, isto é, tudo o que é desejável para ser
conhecido (tudo o que se saiba que é desejável).” Para apoiar esta parte
da tentação, ele utiliza, com más intenções, o nome atribuído a esta árvore:
ela pretendia ensinar o conhecimento prático do bem e do mal, isto é, do dever
e da desobediência. E ela provaria o conhecimento experimental do bem e do mal,
isto é, da felicidade e da miséria (indigência; angústia, tormento, aflição,
atribulação, suplício; desgraça). Neste sentido, o nome da árvore era um aviso
para que eles não comessem dela. Mas ele distorce o seu significado, e
perverte-o, para a destruição deles, como se esta árvore lhes pudesse dar um
conhecimento nocional (fictício) e especulativo das naturezas, das espécies, e
das origens do bem e do mal. E: [4] Tudo isto ocorreria imediatamente: “No dia em que dele comerdes,
sentireis uma mudança repentina e imediata para melhor.” Agora, em todas estas
insinuações, ele (Satanás) pretende gerar neles, Em primeiro lugar, Descontentamento com a sua condição atual, como
se ela não fosse tão boa como poderia ser, e como deveria ser. Observe que
nenhuma condição, por si só, trará contentamento, a menos que a mente seja
levada a ele. Adão não estava tranquilo, não, nem mesmo no paraíso. Nem os
anjos na sua condição inicial, Jd 1:6. Em segundo lugar, a ambição da primazia
(promoção), como se eles fossem adequados para serem deuses. Satanás tinha-se
arruinado por desejar ser como (semelhante a) o Altíssimo (Is 14:14), e por
isto procurou infectar (contagiar, contaminar, influenciar) os nossos primeiros
pais com o mesmo desejo, para poder arruiná-los também.
2)
Ele (Satanás) insinua-lhes que Deus não tinha bons desígnios para eles, ao
proibir-lhes este fruto: “Porque Deus sabe o
quanto isto vos melhoraria, e, portanto, com inveja e má vontade contra vós,
Ele proibiu-o.” Como se Ele (o Senhor) não permitisse que eles comessem daquela
árvore porque, então, conheceriam a sua própria força, e não continuariam
(permaneceriam) numa condição (num estado) inferior, mas seriam capazes de Lhe fazer
frente (lutar, enfrentar com êxito) a Ele (o Todo-Poderoso). Ou, como se Ele
lhes concedesse de má vontade, (lhes desse de má vontade) a honra e a
felicidade às quais seriam promovidos se comessem daquela árvore. Agora: [1]
Esta era uma grande afronta para com Deus, e a maior indignidade que Lhe
poderia ser feita a Ele, e muito mais uma censura ao seu poder, como se Ele
temesse as Suas criaturas, e muito mais ainda uma vergonha (descrédito; vexame;
censura, acusação, reprimenda) à Sua bondade, como se Ele odiasse a obra das
Suas próprias mãos, e não desejasse (quisesse) que aqueles que Ele criou fossem
felizes. Será que o melhor dos homens achará
(julgará, pensará; suporá; imaginará, conceberá; será de opinião) estranho ser
descrito erroneamente, e ter coisas más ditas a seu respeito, quando o próprio Deus é assim (quando isto acontece
com o próprio Deus)? Assim como Satanás acusa os irmãos diante de Deus, assim
também ele acusa Deus diante dos irmãos, por conseguinte, ele semeia a
discórdia, e é o pai daqueles que fazem a mesma coisa. [2] Esta era uma
armadilha para os nossos pais, e das mais perigosas, porque isso tencionava
afastar os seus afetos de Deus, e, assim, remover (retirar; afastar; tirar) a
lealdade (fidelidade; obediência, submissão) para com Ele. Desta maneira o
diabo ainda atrai as pessoas para os seus próprios interesses, sugerindo-lhes
maus pensamentos acerca de Deus, e falsas esperanças de benefícios e vantagens
por intermédio do pecado. Portanto, em oposição a ele, sempre devemos pensar
bem a respeito de Deus, como o bem supremo, e pensar mal do pecado, como o pior
dos males: Resistamos, desta maneira, ao diabo, e ele fugirá de nós.
Tradução de Carlos
António da Rocha
****
Esta tradução é de
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já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca
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