… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 19 de junho de 2016

Génesis 3 - VERSÍCULOS 1-5 - A subtileza do Tentador. A importunidade (insistência) do Tentador



Comentário Completo de Matthew Henry sobre a Bíblia
(Matthew Henry’s Complete Commentary on the Bible)

Génesis 3

Versículos 1-5

A subtileza do Tentador. A importunidade (insistência) do Tentador


Temos aqui um relato da tentação com que (com a qual) Satanás atacou os nossos primeiros pais, para os persuadir ao pecado e que se revelou ser fatal para eles. Observe aqui:



I. O tentador, e que era o diabo, sob (na) a forma e semelhança de uma serpente.



1. É certo que foi o diabo que enganou Eva. O diabo é Satanás, a antiga serpente (Ap 12:9), um espírito maligno, por criação um anjo de luz e um criado (servente, servidor; subordinado) próximo do trono de Deus, porém pelo pecado tornou-se um apóstata desta sua primeira condição, e um rebelde, contra a coroa e a dignidade de Deus. Multidões de anjos caíram. Porém este que atacou os nossos primeiros pais era certamente o príncipe dos demónios, o líder da rebelião: ele era Satanás e um pecador, um traidor e um tentador, alguém enraivecido (enfurecido) contra Cristo e a Sua glória, e invejoso do homem e da sua felicidade. Ele sabia que não poderia destruir o homem, a não ser corrompendo-o (pervertendo-o moralmente; seduzindo-o). Balaão não pôde amaldiçoar Israel, mas pôde tentar Israel, Ap 2:14. O jogo, portanto, que Satanás tinha de jogar, era atrair os nossos primeiros pais para o pecado, e assim, separá-los do seu Deus. Portanto, o diabo foi, desde o princípio, um assassino, e o grande enganador (pessoa que lança a discórdia, que semeia a discórdia, que faz o mal). Toda a raça humana (a humanidade; género humano, a espécie humana) tinha aqui, por assim dizer, um único pescoço, que foi golpeado (atingido, arpoado) por Satanás. Aquele ser maligno (Aquele Demónio) é o (nosso) adversário e inimigo.



2. Foi (era) o diabo na semelhança de uma serpente. Se era somente a forma visível e a aparência de uma serpente (como alguns interpretam que eram as serpentes mencionadas em Ex 7:12), ou se era uma serpente viva e verdadeira (real; existente de facto), acionada (impulsionada) e possuída pelo diabo, não se sabe (não é claro, não é evidente): com a permissão de Deus, poderia ser qualquer uma das duas coisas. O diabo decidiu agir numa serpente: (1) Porque a serpente é uma criatura enganadora (ilusória, especiosa; capciosa; de aspecto exterior agradável, mas falso), com pele manchada e colorida, e sempre erecta. Talvez fosse uma serpente voadora, que parecia vir das alturas (de cima, do céu) como um mensageiro do mundo superior, como um serafim, porquanto as serpentes ardentes eram voadoras, Is 14:29. Muitas das tentações perigosas vêm até nós (chegam-nos, aparecem-nos) com agradáveis cores garridas (sob aparências alegres e coloridas) que são apenas superficiais, e parecem vir do alto porquanto Satanás pode parecer (dar a impressão de ser; afigurar-se, dar a impressão de) um de anjo de luz. E: (2) Porque é uma criatura subtil isto está (isso é) aqui mencionado. Muitos exemplos são dados da subtileza da serpente, não só para fazer o mal mas também para se proteger enquanto ele é feito. Nós somos aconselhados a sermos prudentes como as serpentes. Porém esta serpente como acionada pelo diabo, era, sem dúvida, mais subtil que qualquer outra, porquanto o diabo, embora tenha perdido a santidade, retém a sagacidade de um anjo, e é sábio (sagaz, prudente) para fazer o mal. Ele conhecia (sabia) de mais vantagens ao fazer o uso (fazendo uso) da serpente do que nós nos damos conta. Observe que não há nada com que o diabo mais se sirva a si mesmo e ao(s) seu(s) próprio(s) interesse(s) do que a subtileza não santificada. Nós não saberemos dizer aquilo que Eva pensou desta serpente que falava com ela, porém, eu creio que ela própria não sabia o que pensar disso. A princípio, talvez, ela supôs que pudesse ser um anjo bom, e, mais tarde, ela pôde suspeitar de que houvesse algo errado. É notável que muitos dos gentios idólatras realmente adorassem o diabo sob a forma e aparência de uma serpente, confessando, desta forma, a sua adesão a este espírito apóstata, e vestindo as suas cores (e tomando o seu partido).



II. A pessoa tentada foi a mulher, agora sozinha, e a alguma distância do seu marido, mas perto da árvore proibida. Esta era a subtileza do diabo: 1. Atacar o vaso mais fraco com as suas tentações. Embora perfeita na sua espécie, ainda assim podemos supor que a mulher fosse inferior a Adão em conhecimento, força, e presença de espírito. Alguns pensam que Eva recebeu o mandamento, não diretamente de Deus, mas de segunda mão, pelo seu marido, e, portanto, pôde ser mais facilmente persuadida a não confiar nele. 2. A sua (do diabo) astúcia era (consistia em) conversar com a mulher quando ela estava (estivesse) sozinha. Se a mulher tivesse ficado perto (próximo) do seu marido, ao lado do qual tinha sido recentemente tirada, ela não teria estado tão exposta. Existem muitas tentações, às quais a solidão dá grande proveito (vantagem), porém, a comunhão dos santos contribui muito para a sua força e a segurança. 3. Ele (o diabo) tirou proveito de (aproveitou-se de) a encontrar perto da árvore proibida, e provavelmente dela ficar olhando (a olhar) fixamente para os seus frutos, apenas para satisfazer a sua curiosidade. Aqueles que não devem comer o fruto proibido não devem aproximar-se da árvore proibida. Evita-o; não passas por ele, Pv 4:15. 4. Satanás tentou Eva para que ela pudesse tentar Adão, da mesma maneira, ele tentou Job por intermédio da sua esposa, e a Cristo, por meio de Pedro. A sua (do diabo) estratégia (plano de ação; linha de conduta; sagacidade, diplomacia; prudência; esperteza) consiste em trazer (mandar, fazer) as tentações por mãos insuspeitas (inesperadas, não supostas, ignoradas, das quais jamais suspeitaríamos), e daquelas que têm mais interesse em nós, e que mais nos influenciam.



III. A tentação propriamente dita, e a maneira artificial como ela foi conduzida. Com muita frequência, lemos, nas Escrituras, sobre o perigo que corremos pelas tentações de Satanás, os seus ardis (2Co 2:11), as suas profundezas (Ap 2:24), as astutas ciladas, Ef 6:11. Os maiores exemplos que temos delas estão nas tentações que ele fez aos dois Adões. Aqui, e em Mateus 4:1-11. Nesta o inimigo foi vitorioso, mas quando quis enfrentar o Senhor Jesus, ele lutou em vão (ele saiu frustrado). Aquilo que o inimigo disse àqueles que ele não podia controlar, mesmo por alguma corrupção que neles houvesse, isso ele diz-nos a nós, pelos nossos próprios corações enganadores e pelos seus raciocínios carnais. Isto torna os seus ataques contra nós menos discerníveis (perceptíveis, distinguíveis, visíveis), mas não menos perigosos. Aquilo que diabo visava (desejava) era persuadir (convencer, induzir) Eva a colher (a arrancar, a comer) o fruto proibido. E, para fazer isto, ele usou o mesmo método que ainda utiliza. Ele questionou se isto seria ou não um pecado, Gn 3:1. Ele negou que houvesse (havia) qualquer perigo nisto, Gn 3:4. Ele sugeriu que haveria muitas vantagens ao fazê-lo, Gn 3:5. E estes são os seus argumentos comuns.



1. Ele questionou se seria ou não um pecado comer desta árvore, e se o seu fruto era realmente proibido. Observe:

(1) Ele disse à mulher, É assim que Deus disse: Não comereis? As primeiras palavras indicavam alguma coisa dita anteriormente, introduzindo estas, e com as quais estão conectadas, talvez alguma conversa que Eva tinha tido consigo mesma, da qual Satanás se aproveitou e na qual enxertou esta pergunta. Na cadeia de pensamentos, uma coisa, de maneira estranha, leva a outra, e talvez, a alguma coisa má, por fim. Observe aqui: [1] Ele não descobre (revela), a princípio, o seu desígnio, mas coloca (põe; lança, atira) uma pergunta que parecia inocente: Eu ouvi uma novidade (notícia, nova), diga-me se isso é verdade: Deus proibiu-o de comer desta árvore?” Assim começou ele a conversa, e atraiu-a para conversar (parlamentar, conferenciar, negociar, discutir). Aqueles que desejam (querem; estão inclinados a; escolhem) estar seguros têm a necessidade de suspeitar, e de se acautelarem (recuarem, de se desviarem, de se afastarem-se) ao falar com o tentador. [2] Ele (o diabo) cita falazmente, (enganosamente) o mandamento (O diabo cita o mandamento dum modo falaz), como ele se fosse uma proibição, não somente daquela árvore, mas de todas. Deus tinha dito: De toda árvore do jardim comerás livremente, exceto de uma. Ele, (o inimigo) ao agravar a exceção, desejava invalidar a permissão: É assim, que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? A lei divina não pode ser desacreditada (censurada, repreendida, exprobrada, acusada), a menos que seja, antes disto, apresentada erradamente (desvirtuada, deturpada, falseada). [3] Ele parece falar-lhe sarcasticamente (mordazmente; insultuosamente) censurando a mulher pela sua timidez em aproximar-se daquela árvore; é como se ele tivesse dito: “Você é tão escrupulosa, e cautelosa, e tão meticulosa por Deus ter dito: Não comereis.” Assim como o diabo é um mentiroso assim também é um zombador (escarnecedor; trocista), desde o princípio: e os escarnecedores dos últimos dias são seus filhos. [4] Aquilo que ele (o diabo) visa, desde o início, era tirar (remover) o senso de obrigação que ela tinha para com o mandamento. “Certamente você está enganada, não pode ser verdade que Deus lhe proibisse esta árvore. Ele não faria uma coisa tão pouco razoável (sem razão; desarrazoada; exorbitante, excessiva; imoderada; despropositada).” Observe aqui que a subtileza de Satanás é manchar a reputação da lei divina como algo incerto ou pouco razoável, e assim atrair as pessoas para o pecado. E que, portanto, é nossa sabedoria manter (conservar) uma crença firme e um elevado (grande) respeito pelo mandamento de Deus. Deus disse: “Não mentirás, não tomarás o Meu nome em vão, não te embriagarás,” etc.? “Sim, eu tenho a certeza de que Ele disse isto, e disse-o bem. E, pela Sua graça, eu agirei de acordo com a Sua ordem (vou cumpri-la; vou conformar-me a ela; vou aceitar e executar a Sua ordem; vou ficar fiel a ela, vou persistir nela) por mais que o tentador que sugira o contrário.”


(2) Em resposta a esta pergunta, a mulher dá-lhe uma explicação clara e completa da lei à qual estavam sujeitos, Gn 3:2, 3. Observe aqui: [1] A fraqueza dela foi encetar uma conversa com a serpente. Ela (a mulher) poderia (deveria) ter percebido, pela pergunta, que ela (a serpente) não tinha boas intenções, e por isto deveria ter retrocedido bruscamente (recuado sobressaltada) com um Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo. Porém, a sua curiosidade, e talvez a sua surpresa por ouvir uma serpente a falar, levaram-na a continuar a conversar com ela. Observe que é perigoso lidar com uma tentação que deveria ser, logo ao princípio, rejeitada com desdém e repulsa. A guarnição (as tropas) que parece conversar (conferenciar, parlamentar, negociar) com o inimigo, não está longe de ter de se render. Aqueles que desejam ser (estar) afastados (abster-se de; protegidos) do mal, devem manter-se fora do caminho do mal. Veja Pv 14:7; 19:27. [2] Era sábio da parte dela tomar conhecimento da (fazer caso da) liberdade que Deus lhes tinha concedido, em resposta à insinuação dissimulada da serpente, como se Deus os tivesse colocado no paraíso somente para os atormentar com a visão de frutos apetitosos, porém proibidos. “Sim”, diz ela, “nós podemos comer dos frutos destas árvores, graças ao nosso Criador, nós temos abundância e variedade suficientes que nos são permitidas.” Observe que para evitar uma situação de desconforto com as restrições da religião, é bom que com muita frequência examinemos as suas liberdades e os seus confortos. [3] Foi um exemplo da sua decisão o facto dela ter aderido ao mandamento, e de fielmente o repetir, com uma certeza inquestionável: “Deus disse, eu tenho certeza de que Ele o disse, vós não comereis do fruto desta árvore.” E o facto dela ter acrescentado, Nem nele tocareis, parece ter sido com uma boa intenção (como pensam alguns), e não implicitamente (tacitamente) para mostrar (reflectir; espelhar; exprimir, insinuar) que o mandamento era demasiado rígido (estrito, severo; austero; terminante; estreito; preciso, exacto) (Não toques, não proves, não manuseies), mas como se estivesse colocando uma cerca em torno da árvore: “ Nós não devemos comer, portanto não iremos tocar. É completamente proibido, e a declaração da proibição é sagrada para nós.” [4] Ela parece hesitar (vacilar, começar a perder terreno; titubear, mostrar-se irresoluta) um pouco sobre a ameaça, e não foi tão cuidadosa (exacta, meticulosa, minuciosa; enfática) e fiel na repetição dela quanto foi em relação ao preceito. Deus disse: No dia em que dela comeres, certamente morrerás. Mas o que ela diz é somente: Para que não morrais. Observe que a fé vacilante e as decisões hesitantes (indecisas, irresolutas, titubeantes; pouco firmes; vacilantes) oferecem grandes vantagens ao tentador.


2. Ele (Satanás) nega que houvesse qualquer perigo nisto, insistindo que, embora isto pudesse ser uma transgressão de um preceito, ainda assim ela não estaria sujeita a um castigo (punição, penalidade): Certamente não morrereis, Gn 3:4. “Vós não morreis agonizantes”, assim é o significado, numa contradição direta com o que Deus tinha dito. Ou: (1) “Não é certo (garantido) que vós morrereis”, segundo alguns. “Não é tão garantido (certo, seguro; sem qualquer dúvida; indubitável) como vós fostes levados a crer que é.” Desta maneira, Satanás se esforça para abalar aquilo que ele não pode destruir (derrubar; deitar abaixo, deitar por terra; transtornar; arruinar; derrotar, vencer), e procura invalidar a força das ameaças divinas, questionando a veracidade delas. E, uma vez quando se suponha que seja possível que exista (existir) alguma falsidade ou falácia, em qualquer palavra de Deus, então uma porta é completamente aberta à infidelidade. Satanás, em primeiro lugar, ensina os homens a duvidar, e, depois, a negar. Ele torna-os primeiramente céticos, e depois, gradualmente torna-os ateus. Ou: (2) Segundo outros, o inimigo estava dizendo: “É certo que não morrereis.” Ele tenta comprovar a sua contradição com a mesma expressão de garantia que Deus tinha usado ao ratificar a ameaça. Ele começou a questionar o preceito Gn 3:1, mas, achando que a mulher aceitou (perfilhou, concordou com) a sua ideia, deixou este ataque de lado, e fez o segundo ataque, desta vez sobre a ameaça, exatamente onde percebeu que ela vacilava, porquanto ele é rápido a descobrir todas as vantagens, e a atacar onde a muralha está mais fraca: Certamente não morrereis. Isto era uma mentira, uma mentira completa, porquanto, [1] Ela era contrária à palavra de Deus, que nós temos a certeza que é verdadeira. Veja 1Jo 2:21, 27. Era uma mentira que tentava desmentir o próprio Deus. [2] Ela era contrária ao seu próprio entendimento. Quando ele (Satanás) lhes disse que não havia perigo na desobediência e na rebelião, estava dizendo algo que ele sabia, por dolorosa experiência, que era falso. Ele tinha infringido a lei da sua criação, e tinha descoberto, às suas custas (para seu próprio prejuízo), que não podia prosperar daquela maneira. E, ainda assim, ele diz, aos nossos primeiros pais, que eles não morrerão. Ele (Satanás) dissimulou (escondeu, ocultou, guardou segredo, calou, ocultou) a sua própria desgraça, para poder atraí-los a algo semelhante: desta maneira, ele ainda engana os pecadores, para a sua própria ruína (destruição; perdição, desgraça). Ele diz-lhes que, embora eles pequem, eles não morrerão. E ele (Satanás) ainda deseja ter mais credibilidade do que Deus, que lhes diz: O salário do pecado é a morte. Observe que a esperança da impunidade é um grande apoio para toda a iniquidade, e impenitência. Terei paz, ainda que ande conforme ao bom parecer do meu coração, Dt 29:19.


3. Ele (Satanás) promete-lhes vantagens com isto, Gn 3:5. Aqui ele (Satanás) continua com o seu ataque, e foi um golpe na raiz, um golpe fatal na árvore da qual nós somos ramos. Ele não apenas se responsabilizava dizendo que eles não perderiam com isto, comprometendo-se assim a salvá-los do mal, mas (se eles fossem de tal maneira tolos para se aventurarem com base numa suposta segurança de alguém que se tinha, ele mesmo, tornado um falido), queria ele responsabilizar-se por eles, que eles sairão ganhadores, de uma maneira indescritível. Ele não poderia tê-los persuadido a correr o risco de se arruinarem, se ele não lhes tivesse sugerido uma grande probabilidade de se melhorarem a si mesmos (de se aprimorarem, se se aperfeiçoarem).



(1) Ele (Satanás) insinua-lhes os grandes progressos (melhoras, melhorias, aperfeiçoamentos, melhoramentos) que eles fariam por comer deste fruto (se comessem este fruto). E adapta a tentação ao estado puro em que eles agora se encontram, propondo-lhes, não prazeres ou satisfações carnais, mas deleites e satisfações intelectuais. Estas foram as iscas (atrações, engodos) que o inimigo colocou no seu anzol (armadilha, laço). [1] “Os vossos olhos abrir-se-ão. Vós tereis muito mais poder e prazer de contemplação do que tendes agora. Vós tereis um domínio mais amplo nos vossos pontos de vista intelectuais, e compreendereis mais (melhor) as coisas do que compreendeis agora.” Ele (Satanás) fala como se agora eles fossem míopes e tivessem uma visão turva, em comparação com o que teriam depois. [2] “Vós sereis como deuses, como Elohim, deuses poderosos, não somente omniscientes, mas também omnipotentes”, ou, “Vós sereis como o próprio Deus, iguais a Ele, rivais dEle. Vós sereis soberanos, e não mais súbditos, sereis auto-suficientes, e não mais dependentes.” Uma sugestão completamente absurda! Como se fosse possível às criaturas de ontem ser como o seu Criador que era desde a eternidade (que as criaturas que surgiram ontem fossem como o seu Criador, que existia desde a eternidade.) [3] “Vós conhecereis o bem e o mal, isto é, tudo o que é desejável para ser conhecido (tudo o que se saiba que é desejável).” Para apoiar esta parte da tentação, ele utiliza, com más intenções, o nome atribuído a esta árvore: ela pretendia ensinar o conhecimento prático do bem e do mal, isto é, do dever e da desobediência. E ela provaria o conhecimento experimental do bem e do mal, isto é, da felicidade e da miséria (indigência; angústia, tormento, aflição, atribulação, suplício; desgraça). Neste sentido, o nome da árvore era um aviso para que eles não comessem dela. Mas ele distorce o seu significado, e perverte-o, para a destruição deles, como se esta árvore lhes pudesse dar um conhecimento nocional (fictício) e especulativo das naturezas, das espécies, e das origens do bem e do mal. E: [4] Tudo isto ocorreria imediatamente: “No dia em que dele comerdes, sentireis uma mudança repentina e imediata para melhor.” Agora, em todas estas insinuações, ele (Satanás) pretende gerar neles, Em primeiro lugar, Descontentamento com a sua condição atual, como se ela não fosse tão boa como poderia ser, e como deveria ser. Observe que nenhuma condição, por si só, trará contentamento, a menos que a mente seja levada a ele. Adão não estava tranquilo, não, nem mesmo no paraíso. Nem os anjos na sua condição inicial, Jd 1:6. Em segundo lugar, a ambição da primazia (promoção), como se eles fossem adequados para serem deuses. Satanás tinha-se arruinado por desejar ser como (semelhante a) o Altíssimo (Is 14:14), e por isto procurou infectar (contagiar, contaminar, influenciar) os nossos primeiros pais com o mesmo desejo, para poder arruiná-los também.



2) Ele (Satanás) insinua-lhes que Deus não tinha bons desígnios para eles, ao proibir-lhes este fruto: “Porque Deus sabe o quanto isto vos melhoraria, e, portanto, com inveja e má vontade contra vós, Ele proibiu-o.” Como se Ele (o Senhor) não permitisse que eles comessem daquela árvore porque, então, conheceriam a sua própria força, e não continuariam (permaneceriam) numa condição (num estado) inferior, mas seriam capazes de Lhe fazer frente (lutar, enfrentar com êxito) a Ele (o Todo-Poderoso). Ou, como se Ele lhes concedesse de má vontade, (lhes desse de má vontade) a honra e a felicidade às quais seriam promovidos se comessem daquela árvore. Agora: [1] Esta era uma grande afronta para com Deus, e a maior indignidade que Lhe poderia ser feita a Ele, e muito mais uma censura ao seu poder, como se Ele temesse as Suas criaturas, e muito mais ainda uma vergonha (descrédito; vexame; censura, acusação, reprimenda) à Sua bondade, como se Ele odiasse a obra das Suas próprias mãos, e não desejasse (quisesse) que aqueles que Ele criou fossem felizes. Será que o melhor dos homens achará (julgará, pensará; suporá; imaginará, conceberá; será de opinião) estranho ser descrito erroneamente, e ter coisas más ditas a seu respeito, quando o próprio Deus é assim (quando isto acontece com o próprio Deus)? Assim como Satanás acusa os irmãos diante de Deus, assim também ele acusa Deus diante dos irmãos, por conseguinte, ele semeia a discórdia, e é o pai daqueles que fazem a mesma coisa. [2] Esta era uma armadilha para os nossos pais, e das mais perigosas, porque isso tencionava afastar os seus afetos de Deus, e, assim, remover (retirar; afastar; tirar) a lealdade (fidelidade; obediência, submissão) para com Ele. Desta maneira o diabo ainda atrai as pessoas para os seus próprios interesses, sugerindo-lhes maus pensamentos acerca de Deus, e falsas esperanças de benefícios e vantagens por intermédio do pecado. Portanto, em oposição a ele, sempre devemos pensar bem a respeito de Deus, como o bem supremo, e pensar mal do pecado, como o pior dos males: Resistamos, desta maneira, ao diabo, e ele fugirá de nós.
   
http://www.studylight.org/commentaries/mhm/view.cgi?bk=0&ch=1



Tradução de Carlos António da Rocha

****

Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: