… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Génesis 3 - VERSÍCULOS 6-8 - A Queda do Homem.

Comentário Completo de Matthew Henry sobre a Bíblia
(Matthew Henry’s Complete Commentary on the Bible)

Génesis 3

Versículos 6-8

A Queda do Homem.

Aqui vemos a conclusão da conversa de Eva com o tentador. Satanás, finalmente, consegue o seu objetivo, e a fortaleza é tomada pelas suas fraudes (artimanhas, astúcias, estratagemas, ardis; embustes). Deus testou a obediência dos nossos primeiros pais com a proibição da árvore do conhecimento, e Satanás, por assim dizer, discute com Deus, e usando a mesma árvore empenha-se (empreende, experimenta, tenta, ocupa-se com, encarrega-se de, toma a seu cargo, incumbe-se de) em seduzi-los (desencaminhá-los; corrompê-los ou enganá-los por sedução; desonrá-los; afastá-los do bom caminho) para uma transgressão, e aqui vemos como o diabo prevaleceu (triunfou, predominou, levou a melhor, foi ou saiu vitorioso), tendo Deus permitido isto, para fins sábios e santos.

I. Aqui temos as persuasões (induzimentos, aliciações, móbiles, estímulos; causas; provocações; atrações) que os levaram a transgredir (a lei). A mulher, tendo sido enganada pelas manobras ardilosas do tentador, foi a líder na transgressão, 1Tm 2:14. Ela foi a primeira a fracassar e foi o resultado da sua consideração, ou melhor, da sua desconsideração. 1. Ela não viu (nenhum) mal nesta árvore, não mais do que em nenhuma das restantes. Estava escrito que todas as outras árvores frutíferas que haviam sido plantadas no jardim do Éden eram agradáveis à vista e boas para comida, Gn 2:9. Agora, aos seus olhos, esta era como todo o resto. Parecia ser tão boa para comida como qualquer uma delas, e ela não viu nada na aparência dos seus frutos que ameaçasse de morte ou do perigo. Era tão agradável à vista como qualquer uma delas, e, portanto, “que mal poderia fazer-lhes? Por que deveria esta ser-lhes proibida, e não qualquer uma das restantes?” Observe que quando se julga não haver maior mal no fruto proibido do que em qualquer outro fruto, o pecado jaz à porta, e Satanás leva a melhor (vence). Ou melhor, talvez esta árvore lhe parecesse a ela ser melhor para comida, mais agradável à vista, e mais nutritiva (alimentícia) para o corpo, do que qualquer uma das outras (das restantes), e para os seus olhos era mais agradável do que qualquer outra. Nós somos, com muita frequência, atraídos para armadilhas por intermédio de um desejo desordenado de ter os nossos sentidos satisfeitos. Ou, se nada nela (a árvore) fosse mais convidativo do que nas outras, ainda assim ela era mais cobiçada, porque ela era (foi, estava) proibida. Pensasse ela (Eva) isto ou não, nós descobrimos (encontramos, achamos) que em nós (isto é, na nossa carne, na nossa natureza corrompida) reside um estranho espírito de contradição. Nitimur in vetitumNós desejamos aquilo que é proibido. 2. Ela imaginava que havia mais poder (virtude; mérito, valor; qualidade) nesta árvore do que em qualquer uma das outras, que ela era uma árvore que não só não deve ser temida (de quem não se tem medo), mas desejável para dar entendimento, e dessa maneira destacando-se (sobressaindo, distinguindo-se, era superior) a todo o resto das árvores. Alguns pensam que ela viu a serpente comendo daquela árvore, e que esta lhe disse que, fazendo isto, tinha obtido as faculdades da fala e da razão, donde, ela (Eva) teria deduzido (inferido, concluído, pressuposto) o poder que a árvore tinha de tornar alguém sábio, e foi persuadida a pensar: “Se ela fez de uma criatura bruta (um ser) racional, por que não pode tornar divina uma criatura racional?” Observe aqui como o desejo de um conhecimento desnecessário, sob uma noção equivocada (enganada, no erro; mal compreendida, errónea; falsa; deslocada, fora de propósito) de sabedoria, prova ser danoso (nocivo, prejudicial; pernicioso) e destrutivo a muitas pessoas. Os nossos primeiros pais, que sabiam muito (bastante), não sabiam istoque eles sabiam o suficiente (Os nossos primeiros pais – que sabiam tantas coisas – não sabiam que, de facto, já sabiam o suficiente). Cristo é uma árvore que se deve desejar para se ser sábio (Cristo é uma árvore desejável para nos dar entendimento), Cl 2:3; 1Co 1:30. Vamos, pela fé, alimentarmo-nos dEle, a fim de que possamos ser sábios para a salvação (Pela fé devemos alimentar-nos dEle, para que possamos tornar-nos sábios para a salvação). No paraíso celestial, a árvore do conhecimento não será uma árvore proibida porquanto lá nós compreendemos claramente (estaremos ao corrente de, estaremos a par de, conheceremos, saberemos) tanto quanto somos conhecidos. Por esse motivo, desejemos ardentemente estar lá, e, neste meio tempo, não devemos nós mesmos exercitar-nos com coisas excessivamente elevadas ou excessivamente profundas para nós, nem ambicionar (desejar, cobiçar, querer) ser mais sábios do que aquilo que está escrito.



II. Os passos da transgressão não são passos ascendentes, mas passos descendentes, e que conduzem ao abismo – passos que levam ao inferno. 1. Ela viu. Ela poderia ter desviado os olhos para não contemplar futilidades (vaidade), porém, ela entra em (cai em) tentação, ao olhar com prazer para o fruto proibido. Observe que muito (uma grande quantidade de) pecado tem início (entra; chega) pelos olhos. Nestas janelas Satanás lança (atira) os seus dardos ardentes que perfuram e envenenam o coração. O(s) olho(s) afeta(m) o coração com culpa e tristeza. Portanto, façamos, como o santo Job, um concerto (uma aliança) com os nossos olhos, para não olharmos para nada (em) que corramos o risco de o cobiçarmos em seguida (depois, posteriormente), Pv 23:31; Mt 5:28. Que o temor de Deus seja sempre para nós como um véu para (os nossos) olhos, Gn 20:16. 2. Ela tomou (do seu fruto). Foi um ato voluntário. O diabo não o tomou e o colocou na boca dela, quer ela o desejasse quer não, mas ela própria (mesma) o tomou. Satanás pode tentar, porém não pode forçar, ele pode persuadir-nos a lançarmo-nos para baixo, mas ele não pode lançar-nos para baixo, Mt 4:6. O facto de Eva tomar o fruto constituía um roubo, constituía um roubo, como quando Acan tomou do anátema, tomando (apropriando-se d) aquilo a que não tinha direito. Certamente ela tomou-o com mão trémula. 3. Ela comeu-o. Talvez ela não tivesse a intenção, quando o olhou, de o tomar, nem, quando o tomou, de o comer, mas este foi o resultado. Observe que o caminho do pecado é descendente. Um homem não é capaz de se fazer parar (de se deter), quando desejar (o deseje). O começo (princípio, início) do pecado é como o jorrar (irromper, brotar) da água, à qual é difícil dizer: “Até aqui virás, e não mais adiante.” Por consequência (por isso, por esse motivo; assim), é nossa sabedoria reprimir (subjugar, sufocar, esmagar; esconder, ocultar; conter, refrear; estancar) as primeiras emoções do pecado, e pô-lo de parte (cessar, parar; interromper; desistir; deixar de; deixar de usar) antes de nos envolvermos (intrometer-se, intervir, imiscuir-se, interferir; mexer; ocupar-se) com ele. Principiis obsta (locução latina que significa “obsta no princípio”) Ataca o mal logo no princípio (Devemos deter o mal no início). 4. E Ela deu, também, a seu marido. É provável que ele não estivesse com ela quando ela foi tentada (certamente, se ele tivesse estado com ela, teria interferido para evitar o pecado). Mas o marido veio para junto dela quando ela já o tinha comido, e foi convencido, por ela, a comer da mesma maneira. Pois é mais fácil aprender o que é mau, do que ensinar o que é bom. Ela deu-lho a ele, persuadindo-o com os mesmos argumentos que a serpente tinha usado com ela, acrescentando este, que ela mesma tinha comido, e tinha-o achado até agora, contrariamente a ser mortal, que ele era extremamente agradável e benigno (deleitoso; que causa deleite; deleitável; saboroso). As águas roubadas são doces. Ela deu-lho a ele (ao marido), sob o pretexto da gentileza. Ela não poderia comer estes deliciosos acepipes (guloseimas) sozinha. Mas, de facto, esta foi a maior crueldade que ela lhe poderia ter feito a ele. Ou, talvez ela o (o fruto proibido) tivesse dado a ele para que, se ele se mostrasse ser (se revelasse) nocivo (prejudicial; pernicioso, danoso; ofensivo; que magoa), ele pudesse compartilhar com ela a miséria (indigência; angústia, tormento, aflição, atribulação, suplício) (ele pudesse compartilhar da sua desgraça), o que, de facto parece (ser algo) estranhamente cruel, e, além disso, é possível, sem dificuldade, supor-se que uma atitude como esta viesse ao pensamento e se acolhesse no coração de alguém que tinha comido o fruto proibido. Observe que aqueles que têm feito (ocasionam) (o) mal a si mesmos, normalmente desejam atrair outros para que façam o mesmo (a mesma coisa). Assim como foi com o diabo, assim também foi Eva, mal pecara começara logo a tentar (mal era uma pecadora e logo era uma tentadora). 5. Ele comeu, derrotado (dominado, vencido, subjugado) pela importunação da esposa. É desnecessário interrogar: “Qual teria sido a consequência se só Eva tivesse transgredido?” A sabedoria de Deus, temos a certeza, teria solucionado esta dificuldade (complicação), conforme (de acordo com) a justiça. Mas, ai! Não era este o caso. Adão também comeu. “E que grande mal (dano; ofensa, agravo; prejuízo) é aceitar o raciocínio corrupto e carnal de uma mente fútil (vã, frívola; vaidosa, presunçosa). Que dano!” Ora, este acto envolveu a descrença na Palavra de Deus, juntamente com a confiança na palavra do diabo, o descontentamento com o seu estado atual (a sua situação actual), o orgulho nos seus próprios méritos e a ambição pela honra que não vem de Deus, a inveja da perfeição de Deus, e a indulgência para com os apetites do corpo. Ao negligenciar a árvore da vida da qual tinha permissão para comer, e ao comer (comendo) da árvore da ciência, que lhe era proibida, ele (Adão) mostrou claramente um desprezo pelos favores que Deus lhe tinha concedido, e uma preferência por aquilo que Deus não considerou aconselhável para ele. Ele desejava (queria) ser não só o autor da sua fortuna mas também o seu próprio senhor, queria ter o que desejasse e fazer o que desejasse (quisesse, lhe agradasse; lhe fosse agradável a ele; lhe causasse satisfação a ele; o satisfizesse; o contentasse; lhe apetecesse, lhe aprazesse): o seu pecado era (foi), numa palavra, desobediência (Rm 5:19), desobediência a um mandamento claro, fácil e expresso, que provavelmente ele sabia que era um mandamento de teste. Ele pecou contra o grande conhecimento, contra as muitas graças, contra a luz e o amor, a luz mais clara e o maior amor contra os quais jamais algum pecador havia pecado. Ele não tinha uma natureza corrupta dentro dele que o traísse, mas tinha uma vontade livre, não era escravizado, e estava na plenitude da sua força (vigor, energia; virilidade; fortaleza, poder), não estando nem enfraquecido nem debilitado. Ele (Adão) desviou-se (mudou de direção) rapidamente. Alguns pensam que ele caiu no mesmo dia em que foi criado (feito). Mas eu não vejo como conciliar isto com (o fato de) Deus pronunciando (ter dito) que tudo era muito bom, no final do dia. Outros supõem que ele caiu no sábado: no melhor dia, a pior obra. Seja como for, é certo que ele conservou a sua integridade apenas por muito pouco tempo: estando (criado) em honra, não permaneceu nela. Mas o grande agravamento (circunstância agravante) do seu pecado foi que, por (causa d)ele, toda a sua posteridade foi envolvida no pecado e na ruína. Havendo-lhe Deus dito que a sua raça repovoaria (encheria novamente, voltaria a encher) a terra, certamente ele não poderia deixar de saber que era uma pessoa pública, e que esta desobediência seria fatal para toda a sua descendência. E, neste caso, a atitude de Adão foi certamente não só a maior traição mas também a maior crueldade que jamais houve. Como a natureza humana estava inteiramente alojada (vivia, estava instalada, hospedada; guardada, depositada, implantada) nos nossos primevos (primeiros, primitivos) pais, ela não poderia ser transmitida a partir deles sem uma mancha (desonra, proscrição; morte civil; suspensão dos direitos civis.) de culpa, uma mácula (nódoa; mancha) de desonra e uma doença hereditária de corrupção e pecado. E podemos nós dizer, então, que o pecado de Adão tinha meramente um mal pequeno nele? (Então, será que alguém poderia dizer que o pecado de Adão provocou somente um pequeno mal?)


III. As últimas consequências da transgressão. Vergonha e medo dominaram os criminosos, ipso facto - pelo próprio facto (por isso mesmo) estes dois (sentimentos) vieram ao mundo juntamente com o pecado, e ainda o acompanham.

1. A vergonha, invisível (não vista, despercebida, inobservada, oculta), dominou-os (apoderou-se deles), Gn3: 7, onde observe:

(1) As fortes convicções que sentiram, no seu próprio íntimo (peito; seio; coração, alma; arc. pensamento, desejo, afeição): Então foram abertos os olhos de ambos. Isto não se refere aos olhos do corpo. Estes estavam abertos antes, como está claro, porque o pecado entrou neles (chegou a eles). Os olhos de Jónatas se lhe aclararam por ter comido o fruto proibido (1Sm 14:27), isto é, ele revigorou-se e reviveu, por intermédio dele, porém, com os olhos deles não foi (aconteceu) assim. Nem tão-pouco isto se refere a algum progresso conseguido por este meio no conhecimento verdadeiro, apenas os olhos das suas consciências foram abertos, os seus corações feriram-nos pelo que eles haviam feito. Agora, quando já era demasiado tarde, eles viram a tolice (loucura, acto, ideia disparatada ou ridícula) que é comer o fruto proibido. Eles viram a felicidade da qual tinham caído e a infelicidade (miséria, indigência; angústia, tormento, aflição, atribulação, suplício) em que tinham caído. Eles viram um Deus amoroso provocado, a Sua graça e os Seus favores perdidos, a Sua imagem e semelhança perdidas. O domínio (autoridade, soberania) que (eles tinham) sobre as criaturas havia acabado (ido, desaparecido). Eles viram as suas naturezas corrompidas e depravadas, e sentiram uma desordem (tumulto, confusão; doença, indisposição, distúrbio) nos seus próprios espíritos da qual nunca antes tinham estado cônscios (conscientes, cientes, sabedores, a par) (da qual nunca antes tinham tido consciência). Eles viram uma lei nos seus membros em luta contra (antagónica, oposta, contrária; hostil; incomparável; combatendo contra, guerreando contra) a lei das suas mentes, e cativando-os não só (fascinando-os, encantando-os, atraindo-os) para (com o fim de, a fim de, em direcção a) o pecado mas também para a ira (cólera, indignação;) (deixando-os cativos não só do pecado mas também da ira). Eles viram, como Balaão, quando os seus olhos se abriram (Nm 22:31), o Anjo do Senhor, que estava no caminho, e a Sua espada desembainhada na mão e, talvez, eles vissem a serpente que os tinha enganado insultando-os. O versículo diz-nos que eles viram que estavam nus, isto é: [1] Que eles estavam despidos (despojados), privados de todas as honras e alegrias da sua condição no paraíso, e expostos a todas as infelicidades (misérias, indigências; angústias, tormentos, aflições, atribulações, suplícios) que poderiam, com razão (com justiça; justamente), ser esperadas de um Deus irado. Eles estavam desarmados. A sua defesa tinha-os abandonado (ido deles, tinha passado deles, tinha desaparecido deles.). [2] Que estavam envergonhados, envergonhados para sempre, diante de Deus e dos anjos. Eles viram-se (viam-se) despidos de todos os seus ornamentos e insígnias de honra, reduzidos (degradados, aviltados.) na sua dignidade e desgraçados no mais alto grau (ao máximo), expostos ao desprezo e à censura do céu, e da terra, e das suas próprias consciências. Veja aqui, em primeiro lugar, Que desonra e inquietação é o pecado. Ele traz danos onde quer que seja aceito, coloca os homens contra si mesmos, perturba a sua paz e destrói todos os seus consolos (confortos, comodidades, bem-estar). Mais cedo ou mais tarde, ele trará vergonha, ou a vergonha do verdadeiro arrependimento, que termina em glória, ou aquela vergonha e desprezo eterno para o qual os ímpios ressuscitarão no grande dia. O pecado é uma reprovação (vergonha, descrédito; mancha, desgraça, opróbrio; vexame; censura, acusação, exprobração, reprimenda) a qualquer pessoa. Em segundo lugar, Que enganador é Satanás. Ele disse aos nossos primeiros pais, quando os tentou, que os seus olhos seriam abertos. E realmente o foram, mas não como eles o entenderam. Eles foram abertos para sua vergonha e tristeza, e não para sua honra e benefício (proveito). Portanto, mesmo que oele (o diabo) fale de uma forma polida (agradável), não creia nele. A desculpa dos mentirosos mais maldosos e prejudiciais frequentemente é a seguinte: que eles apenas se expressam de uma maneira ambígua (usam frases equívocas), porém Deus não os perdoará (desculpará).
 
(2) A triste mudança que eles fizeram, para paliar (aliviar, mitigar, suavizar; procurar atenuar, desculpar, escusar; minimizar, paliar; encobrir, disfarçar, dissimular) estas convicções (condenações, provas de culpabilidade; persuasões) e para eles se armarem (protegerem) contra elas: coseram, ou entrelaçaram folhas de figueira e para cobrir pelo menos parte da sua vergonha (pudor; causa de vergonha, causa de desgraça) um do outro, eles fizeram para si aventais. Veja aqui qual é geralmente a tolice (loucura; ato, ideia disparatada ou ridícula) daqueles que pecaram. [1] Que eles estão mais preocupados (desejosos, ansiosos; apreensivos; solícitos, cuidadosos) em salvar a sua credibilidade em frente dos homens do que em obter o perdão de Deus. Eles são vacilantes (indecisos; tímidos, acanhados, relutantes) em confessar o seu pecado, e muito desejosos de o ocultar (esconder, dissimular) tanto quanto pode ser (possível). Eu pequei, mas ainda assim, honre-me. Pequei; honra-me, porém. [2] Que as desculpas que o homem apresenta, para encobrir (cobrir, ocultar, guardar no íntimo) e atenuar (desculpar) os seus pecados, são vãs e frívolas. Como os aventais de folhas de figueira, eles não melhoram a questão, mas somente a pioram. A vergonha, oculta desta maneira, tornar-se ainda mais vergonhosa. Ainda assim, todos nós somos inclinados a encobrir as nossas transgressões, como Adão, Jb 31:33.


O medo dominou-os imediatamente depois de comeram o fruto proibido, Gn 3:8. Observe aqui: (1) Qual foi a causa e o motivo (causa próxima, razão, a justificação) do seu medo: Eles ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia. Foi a aproximação do Juiz que os amedrontou. E, ainda assim, Ele Se apresentou de uma maneira que só atemorizou as consciências culpadas. Supõe-se que Ele tenha vindo sob forma humana, e Aquele que agora julgou o mundo (a humanidade, o género ou raça humana, os homens) era o mesmo que irá julgar o mundo (a humanidade, o género ou raça humana, os homens) no último dia. Ele manifestava-Se a eles agora (aparentemente) sem nenhuma diferença em relação à maneira como O tinham visto, quando Ele os colocou no paraíso porquanto Ele vinha para os convencer, e não para os humilhar, nem para os assombrar (confundir, espantar) ou para os aterrorizar. Ele veio para o (entrou no) jardim, não descendo imediatamente do céu, à vista deles (diante dos seus olhos), como depois, no monte Sinai (fazendo das trevas o Seu pavilhão, ou do fogo ardente o Seu carro), mas Ele entrou no jardim, como alguém que ainda desejava ter familiaridade com eles. Ele (Deus) veio andando, não correndo, não cavalgando sobre as asas do vento, mas andando deliberadamente, como alguém que é tardio em irar-se ensinando-nos que quando formos provocados, não devemos ser impetuosos (violentos; zangados; irritados) nem apressados, mas falar e agir de maneira ponderada (circunspecta), e não precipitadamente. Ele veio na viração do dia, não à noite, quando todos os temores (receios, medos; terrores; perigos) são duplamente assustadores, nem no calor do dia, porquanto Ele não veio no calor da sua ira. Não há indignação nEle, Is 27:4. Nem tão-pouco Ele (o Senhor) veio repentinamente sobre eles, mas eles ouviram a Sua voz a alguma distância, avisando-os da Sua chegada, e provavelmente era uma voz mansa e delicada, como aquela com a qual Ele veio fazer perguntas a Elias. Alguns pensam que eles O ouviram falando Consigo mesmo, a respeito do pecado de Adão, e do julgamento que agora lhes devia ser feito, talvez como foi feito a respeito de Israel, Os 11:8, 9. Como te deixaria? Ou, talvez (antes, de preferência, mais exactamente, mais propriamente, mais verdadeiramente; certamente, sem dúvida), O tenham ouvido chamando por eles, e vindo na direção deles. (2) Qual foi o resultado (efeito, consequência; significado) e a evidência do medo deles: Escondeu-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus. Que triste mudança! Antes de terem pecado, se ouvissem a voz do Senhor Deus vindo na direção deles, eles teriam corrido para O encontrar, e com alegria humilde teriam acolhido com prazer as Suas graciosas visitas. Porém, agora que a situação era outra, Deus tinha-Se tornado um terror para eles, e então não é de admirar que eles se tivessem tornado um terror para si mesmos, e estivessem cheios de confusão. As Suas próprias consciências os acusavam, e apresentavam o seu pecado diante deles, nas suas verdadeiras cores (no seu próprio aspecto, na sua própria aparência). As suas folhas de figueira não lhes serviram de nada. Deus tinha vindo contra eles como um inimigo, e toda a criação estava em guerra contra eles e como eles não sabiam de algum mediador entre eles e um Deus irado, portanto nada restava, senão uma certa expectação horrível de juízo [uma espera temerosa (terrível, assustadora) pelo julgamento, que era garantido]. No seu temor (sobressalto; pavor; susto, medo súbito), eles esconderam-se entre os arbustos (o mato, as árvores). Tendo pecado, fugiram para eles. Sabendo-se culpados, eles não suportaram um julgamento, mas esconderam-se, e fugiram da justiça.


Veja aqui: [1] A falsidade do tentador, e as fraudes e falácias das suas tentações. Ele tinha-lhes prometido que estariam a salvo, mas agora eles não se julgavam mais a salvo. Ele tinha-lhes dito que eles não morreriam, e agora eles eram forçados a fugir para se salvarem. Ele tinha-lhes prometido que eles teriam aprimoramento (aperfeiçoamento), mas eles viam-se tão inferiores como nunca se tinham sentido até agora. Ele tinha-lhes prometido que eles teriam conhecimento, mas eles viam-se confusos, e mal sabiam onde se poderiam esconder. Ele tinha-lhes prometido que eles seriam como deuses, grandiosos, e corajosos, e ousados, mas eles tornaram-se como criminosos descobertos, trémulos, pálidos e ansiosos por escapar. Eles não quiseram ser súbditos, e por isso tornaram-se prisioneiros. [2] A tolice (loucura) dos pecadores, a pensar (em pensar, pensando) que é possível ou desejável esconderem-se de Deus: Podem eles esconder-se do Pai das luzes? Sl 139:7-13 ss.; Jr 23:24. Eles retirar-se-ão da fonte da vida, sendo que somente ela pode dar ajuda e felicidade? Jn 2:8. [3] O medo que acompanha o pecado. Todo aquele medo assombroso das aparições de Deus, as acusações da consciência, as aproximações dos problemas, os ataques de criaturas inferiores, e as sentenças de morte, que são comuns entre os homens, são o resultado do pecado. Adão e Eva, que eram parceiros no pecado, compartilhavam a vergonha e o medo que o acompanhavam. E embora estivessem de mãos dadas (as mãos tão recentemente unidas em casamento), eles não conseguiam animar-se nem fortalecer-se um ao outro: eles tinham-se tornado infelizes consoladores um para o outro!
  
http://www.studylight.org/commentaries/mhm/view.cgi?bk=0&ch=1



Tradução de Carlos António da Rocha

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