PRIMEIRO SERMÃO
de
Joseph Butler
Joseph Butler
Transcrito de "Os
Sermões sobre a Natureza Humana", de Joseph Butler
“Porque
assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma
operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas
individualmente somos membros uns dos outros.” (Rm 12:4-5 ARC, Pt)
As Epístolas do Novo Testamento
fazem todas referência especial à condição e aos costumes do mundo cristão à
época em que foram escritas. Por conseguinte, somente podem ser apreendidas
plenamente, se aquela condição e aqueles costumes forem compreendidos e levados
em conta; ainda mais, desde que os conheçamos, importa ainda determinar se
tiveram continuidade ou se vieram a modificar -se; exortações, preceitos e
exemplos, referidos àquelas circunstâncias e que hoje desapareceram ou se
alteraram, não podem em nosso tempo ser recomendados naquela maneira e com a
força que tinham para os cristãos primitivos. Assim, o texto que temos agora
diante de nós, em sua intenção e propósito originais, refere-se ao governo
decente daquelas extraordinárias dádivas que se encontravam na Igreja mas que
atualmente desapareceram de todo.
Exatamente como a alusão de que
"somos um só corpo em Cri sto", embora o que o apóstolo tivesse em
vista seja igualmente verdadeiro para os cristãos em todas as circunstâncias e
esta consideração ainda constitua motivo adicional, independente e acima de
considerações morais, para desempenho de todos os deveres e obrigações de um
cristão; ainda assim é manifesto que essa alusão devia aparecer com muito maior
força àqueles que, pelas muitas dificuldades que iriam atravessar por causa de
sua religião, eram instados a guardar sempre a relação que mantinham com o seu
Salvador, que experimentavam o mesmo, àqueles que, em face das idolatrias que
todos nutriam em seu derredor e dos seus maus tratos, eram ensinados a
considerar -se como não pertencentes ao mundo em que viviam mas como uma
sociedade distinta, com leis, fins e princípios de ação completamente
contrários aos que o mundo professava naquele tempo, Por isso, as relações
entre os cristãos eram por eles mesmos consideradas mais próximas que aquelas
provenientes da afinidade ou do sangue; e eles quase literalmente julgavam a si
próprios como membros uns dos outros.
Com efeito, possivelmente, não
poderá ser negado que, como criatura de Deus , sendo a virtude a lei natural,
sob a qual nascemos, achando-se a isto claramente adaptada à inteira
constituição do homem, sejam obrigações prioritárias a piedade e a virtude ao
invés da consideração de que Deus mandou seu filho ao mundo para salvá-lo, bem
como dos motivos que provêm das relações particulares dos cristãos, como
membros uns dos outros sob Cristo nosso chefe. Contudo, ainda que tudo isso
seja admissível, como o é por escritores inspirados, ainda assim torna-se claro
que os cristãos no tempo da revelação, e imediatamente após, não podiam deixar
de insistir preferentemente sobre considerações dessa última espécie.
Essas observações mostram a
referência particular original do texto; e a força peculiar com que a coisa
visada pela alusão nele contida deve ter sido percebida pelo mundo cristão
primitivo. Do mesmo modo, eles proporcionam uma razão para considerá-la agora
de uma forma mais geral.
A relação que as diversas
partes ou membros de uma pessoa natural guardam uma em face da outra e do corpo
como um todo é aqui comparada com a relação que cada pessoa, na sociedade,
mantém com outras pessoas particulares e com toda a sociedade, sendo a última
ilustrada pela primeira. E se há uma semelhança entre essas duas relações, a consequência
é óbvia: que a última nos mostra que somos também obrigados a fazer o bem para
os outros, do mesmo modo como a anterior nos sugere que todos os membros do
corpo natural são instados a ser instrumentos do bem para todo outro e para o
corpo inteiro. Mas como são ali escassos os elementos e materiais para uma
comparação entre a sociedade e o simples corpo material, sendo este, sem o
pensamento, uma coisa morta e inativa, a comparação deixa assim de aplicar -se
em toda a dimensão. E desde que o apóstolo fala aos diversos membros como tendo
distintas atribuições, que implicam o pensamento, isto não pode dar -se em
presença de completa liberdade, a não ser que em lugar de o corpo e seus
membros coloquemos a inteira natureza do homem e toda a variedade dos
princípios internos que a ela pertencem. E então a comparação será entre a
natureza do homem dizendo respeito a si mesmo, e tendendo para o próprio bem,
preservação e felicidade; e a natureza do homem dizendo respeito à sociedade e
tendendo a promover o bem público e a felicidade daquela sociedade. Esses fins,
com efeito, são perfeitamente coincidentes; a aspirar tanto ao bem público como
ao privado acha-se tão distante de ser inconsistente que se promovem
mutuamente. Mesmo assim, no discurso que subsequentemente se segue, elas terão
que ser consideradas como inteiramente distintas; ao contrário, a natureza do
homem como tendendo para um ou para outro, não poderá ser comparada. Não se
podem fazer comparações sem considerar as coisas comparadas como distintas e
diferentes.
Deste exame e comparação da
natureza do homem, como dizendo respeito a si mesmo e como dizendo respeito à
sociedade, aparecerá plenamente que aflora de modo real a mesma espécie de
indicações da natureza humana, de que fomos feitos para a sociedade e para o
bem de nossos semelhantes; como também que devemos ser zelosos de nossa própria
vida, saúde e bem privados. e que as objeções que existem para essas afirmações
servem tanto para uma quanto para outra. As sim:
Primeiro, existe no homem um princípio natural de
benevolência*, que em certa medida representa para a sociedade o que o amor
-próprio significa para o indivíduo. E se existe na humanidade alguma
disposição para a amizade; se existe algo como a compaixão, que é o amor
momentâneo; se existe algo como as afeições paternal e filial; se há alguma
afeição na natureza humana, cujos objetos e fim sejam o bem do outro, isto será
a própria benevolência ou o amor do outro. Quer seja breve, quer esteja em grau
reduzido, quer se encontre infelizmente reprimido, isto prova a afirmação e
revela para que fomos designados, da mesma forma que se estivesse realmente em
maior grau e extensão. Devo contudo lembrar que, embora benevolência e amor
-próprio sejam diferentes; embora a primeira tenda mais diretamente para o bem
público e o outro para o privado, são de fato tão perfeitamente coincidentes
que as maiores satisfações que possamos ter dependem de que tenhamos
benevolência no grau devido, e que o amor -próprio seja um guia seguro para o
nosso adequado comportamento em relação à sociedade. Pode-se aduzir que sua
mútua coincidência, de tal sorte que dificilmente podemos promover uma sem a
outra, seja igualmente uma prova de que fomos feitos para ambos.
Segundo, aparecerá, além disto, da observação das diversas
paixões e afeições , que são distintas** tanto da benevolência quanto do amor
-próprio que elas contribuem e guiam-nos em geral para o bem público do mesmo
modo que para o privado. Poderia parecer uma reflexão muito detalhada e
particular, podendo levar -nos muito longe, distinguir e comparar as diversas
paixões e apetites distintos da benevolência, cujo uso e intenção originais
consistem na segurança e no bem da sociedade as paixões distintas do amor
-próprio cuja intenção e desígnio originais são a segurança e o bem do
indivíduo.*** É suficiente para a presente argumentação que o desejo da estima
dos outros, o desprezo e a estima deles, o amor da sociedade como distinto da
afeição voltada para o seu bem, a indignação contra o vício bem-sucedido, que
são afeições ou paixões públicas, dizendo respeito imediatamente aos outros,
levam-nos naturalmente a regular nosso comportamento de tal maneira que esteja
a serviço de nossos semelhantes. Se algumas ou todas elas podem ser
consideradas de igual modo como afeições privadas, como tendendo para o bem
privado, isto não as priva de ser igualmente afeições públicas. Pode-se aduzir
que pessoas sem nenhuma convicção de que a vida seja desejável certamente a
preservariam tão somente em decorrência do apetite da fome; assim agindo apenas
com vistas (supostamente) à reputação, sem qualquer consideração pelo bem dos
outros, o homem muitas vezes contribui para o bem público. Em ambos os exemplos
os homens são claramente instrumentos, em mãos de um outro, em mãos da
Providência, para alcançar os fins, a preservação do bem individual e da
sociedade, que eles mesmos não têm em vista ou a intenção de alcançar. Em
resumo, o homem tem vários apetites, paixões e afeições particulares, todas
completamente distintas do amor -próprio e da benevolência: todas têm a
tendência a promover o bem público e o privado, podendo ser considerados tanto
em relação aos outros e a nós mesmos como iguais e comuns. Mas algumas delas
parecem dizer mais de imediato respeito aos outros, ou tendem para o bem
público; outras mais imediatamente para o bem próprio e privado, e assim como
as primeiras não são benevolência, os subsequentes não são amor-próprio.
Nenhuma das espécies é exemplo de nosso amor pelos outros ou dos outros por nós
mas somente exemplos dos cuidados e do amor de nosso Mestre tanto aos
indivíduos como às espécies e prova de que Ele tencionava fazer -nos
instrumentos do bem uns dos outros do mesmo modo como deveríamos sê-lo para nós
mesmos.
Terceiro, há um princípio de reflexão nos homens pelo qual
eles distinguem entre si, aprovam ou desaprovam suas próprias ações. Nós somos
certamente constituídos como uma espécie de criaturas aptas a refletir sobre
nossa própria natureza. O pensamento pode ter um ponto de vista acerca do que
se passa connosco mesmo, as propensões, aversões , paixões, afeições, como
dizendo respeito a determinados objetos e em determinados graus: e as diversas
ações consequentes que delas decorrem. Neste exame, aprova uma e desaprova
outra e, em relação a uma terceira, não é afetada por nenhuma dessas formas,
sendo-lhe inteiramente indiferente. Este princípio no homem, pelo qual ele
aprova ou desaprova seu coração, temperamento e ações é a consciência, isto no
sentido estrito do termo, embora algumas vezes seja usado em sentido mais
amplo. E que esta faculdade tende a impedir os homens de fazer o mal aos
outros, guiando-os para o bem, é tão manifesto que se torna desnecessário
insistir. Assim, o pai tem a afeição do amor por seus filhos: isto leva-o a
cuidar deles, educá-los , a fazer provisões para eles, a afeição natural leva-o
a isto, mas a reflexão de que isto é uma atitude adequada, de que lhe é
próprio, que é correto e recomendável fazê-lo, isto faz com que a afeição se
torne um princípio muito mais harmonioso e leva-o a dedicar mais trabalho e a
vencer as dificuldades em proveito de seus filhos, do que experimentaria em
relação aos filhos a partir apenas da afeição ou se a encarasse e ao curso da
ação como indiferente ou criminosa. Deveras é impossível fazer o bem e não
aprová-lo, razão pela qual frequentemente não são consideradas distintas estas
duas coisas , embora na verdade o sejam: porque os homens muitas vezes aprovam
as ações dos outros, que não imitarão, do mesmo modo que farão o que não
aprovam. Não poderá ser de forma alguma negado que existe o princípio da
reflexão ou da consciência na natureza humana. Suponhamos um homem que socorra
uma pessoa inocente em grande apuro; suponhamos o mesmo homem, mais tarde, no
auge da raiva, causando um grande mal a uma pessoa que não deu causa
justificável para a ofensa; para agravar a injúria, agregue-se a circunstância
de uma velha amizade e de obrigações em relação à pessoa ofendida.
Deixai o homem que supostamente
praticou estas duas diferentes ações refletir sobre elas, de modo frio,
posteriormente, sem considerar as consequências advindas para si próprio.
Afirmar que um homem comum
seria afetado da mesma forma por essas diferentes ações, que não faria
distinção entre elas, aprovando-as ou desaprovando-as da mesma forma, corresponderia
à falsidade tão evidente que não precisa ser contestado. Por conseguinte,
existe este princípio da reflexão ou da consciência na humanidade. Não adiante
comparar a relação que tem para com o bem privado com aquela que tem em face do
bem público, já que claramente tende igualmente para o último como para o primeiro
e é pensamento comum que tende principalmente para o último. Esta faculdade é
mencionada agora meramente como uma outra parte da forma interior do homem,
revelando-nos em certa medida para que fomos feitos e como naturalmente e sem
dúvida tem alguma influência.
O lugar especial que a natureza
lhe designou, que autoridade tem e como é grande a autoridade que deve ter,
será considerado adiante. Dessa comparação da benevolência e do amor -próprio,
de nossas afeições públicas e privadas, dos cursos da vida a que conduzem, e do
princípio da reflexão e da consciência como dizendo respeito a cada uma delas,
torna manifesto que fomos feitos para a sociedade e a fim de promover a sua
felicidade, do mesmo modo como para cuidar de nossa própria vida, saúde e bens
privados.
E deste comentário geral pode
ser dado, da natureza humana, esboço diferente daquele que é apresentado com
frequência. A humanidade por sua natureza é tão estritamente una, há tanta
correspondência entre as sensações internas de um homem como de outro, que a
desonra é tão aviltada quanto a dor física e ser objeto da estima e do amor é
considerado tão desejável quanto a posse de bens concretos. Em muitos casos
particulares, as pessoas são levadas a fazer o bem uns aos outros como aquele
fim para o qual tende sua afeição e é manifesto que encontrem real satisfação e
prazer nesse encaminhamento do comportamento. De modo semelhante, existe o
princípio natural da atração do homem em relação aos outros, de sorte que tendo
trilhado os mesmos espaços da terra, respirado sob o mesmo clima, tendo apenas
nascido nos mesmos distritos ou divisões artificiais, tornam isto ocasião de
travar relações e estabelecer familiaridade muitos anos depois, pois qualquer
coisa serve ao desígnio. Estas relações meramente nominais foram buscadas e
inventadas não pelos governos, mas pelo povo humilde, que encontrou forças
suficientes para manter unida a humanidade em pequenas fraternidades e
comunidades; são laços deveras fracos e podem proporcionar motivo bastante para
serem ridicularizados se forem considerados absurdamente como o princípio real
daquela união; mas na verdade são apenas ocasiões, se considerarmos que alguma
coisa pode provir de alguma outra. Nossa natureza nos conduz de acordo com suas
próprias inclinações e tendências e a ocasião poderia nada significar não fosse
essa disposição anterior e tendência da natureza. Os homens são tanto uma só
pessoa que sentem de uma maneira peculiar por cada um outro, vergonha, perigo
iminente, ressentimento, honra, prosperidade, tristeza; um ou outro, ou todos
eles, da natureza social em geral, da benevolência, por ocasião da relação
natural do conhecimento, proteção, dependência, cada um deles sendo distinta
argamassa da sociedade. E, por conseguinte, não ter restrições, não considerar
os outros em nosso comportamento, corresponde ao absurdo de considerarmo-nos
como criaturas singulares e independentes, como nada tendo em nossa natureza
que diga respeito aos nossos semelhantes, na ação e na prática. E tão absurdo
quanto considerar a mão, ou outro qualquer membro, como não dizendo respeito,
por sua natureza, ao corpo inteiro.
Mas, admitindo-se tudo isto, pode-se perguntar: "O
homem não tem disposições e princípios interiores que o levam a fazer o mal aos
outros, do mesmo modo como o bem? De onde vêm adicionalmente as muitas mi
sérias praticadas contra os outros de que os homens são autores e instrumentos?
Estas inquirições, por mais que digam respeito às questões anteriores, podem
ser respondidas perguntando: Não tem o homem também disposições e princípio interiores que o levam a fazer o mal a si mesmo,
do mesmo modo que o bem? De onde vêm adicionalmente as muitas misérias,
doenças, penas e mortes praticadas contra si mesmo, de que os homens são
autores e instrumentos?
Pode-se pensar que seja mais
fácil responder a uma dessas questões que à outra, mas a resposta a ambas é a
mesma; que a humanidade tem paixões incontroladas a que cederá a qualquer
preço, tanto para a injúria aos outros como para contrapor -se a interesse
privado conhecido. Mas assim como não existe algo que se possa chamar de
aversão a si mesmo, tampouco existe algo como má vontade de um homem em relação
a outro, excetuando-se o caso da emulação e do ressentimento. Considerando que
há certamente benevolência ou boa vontade, nada há como o amor pela injustiça,
a opressão, a traição, a ingratidão; o que há é a presença excessiva de desejos
ansiosos em relação a tais e quais bens exteriores, os quais, de acordo com uma
observação muito antiga, o mais dissoluto preferiria obter por meios inocentes,
se fossem acessíveis e eficazes em relação a seus fins. Até mesmo a emulação e
o ressentimento, se forem consideradas essas paixões realmente em sua própria
natureza, nada encontrarão nelas para confirmar essa objeção: os princípios e
paixões na mente do homem, que são dis tintos tanto do amor-próprio como da
benevolência, primeiro e mais diretamente levam ao comportamento adequado, em
relação aos outros e a si mesmo, e só secundária e acidentalmente para o que é
mau. Assim, embora os homens, para escapar da vergonha de um ato vil, sejam às
vezes culpados de coisas piores, ainda assim é fácil ver que a tendência
original da vergonha é prevenir ações vergonhosas e se levam os homens a
esconder algumas ações no momento em que as praticam,. é somente em
consequência de tê-lo feito, isto é, de que a paixão não haja atendido a seu primeiro
fim.
Se for dito que há no mundo
pessoas que se acham, em grande maioria, sem afeições naturais por seus
semelhantes, há do mesmo modo espécies de pessoas sem afeições naturais e
comuns para consigo próprias. Mas a natureza do homem não é para ser julgada
por alguns deles mas pelo que aparece no mundo comum, no conjunto da
humanidade.
Temo que pareceria muito
estranho, se para confirmar a verdade desse juízo da natureza humana e
compreender a justeza das comparações anteriores fosse aduzido que, do que
aparece, o homem de fato muitas vezes contradiz a parte de sua natureza que diz
respeito a si próprio, e que o leva a seu bem privado e à sua felicidade, como
contradiz aquela parte que diz respeito à sociedade e tende para o bem público,
porquanto existem tão poucas pessoas que alcançam a maior satisfação e
contentamento que se possa obter neste mundo quanto existem pessoas que fazem
aos outros o maior bem que esteja a seu alcance e, por outro lado, há tão
poucas pessoas das quais se poder ia dizer que realmente e de modo fervoroso
aspiram a um ideal como a outro. Proceda-se a um exame da humanidade: o mundo
em geral, os bons e os maus, todos sem exceção estão de acordo em que, deixando
de lado a religião, a felicidade da vida presente consistiria
inteiramente na riqueza, honra,
satisfações sensuais, tanto assim que raramente se ouve uma reflexão acerca da
prudência, da vida ou da conduta, a não ser baseada nessa suposição. Mas muito
pelo contrário, há pessoas que na maior afluência da fortuna não estão mais
felizes do que se tivessem apenas o suficiente; cujas preocupações e os
dissabores da ambição, na maior parte dos casos, excedem as satisfações
auferidas como também os miseráveis intervalos de intemperança e excesso e as
muitas mortes prematuras ocasionadas por uma vida dissoluta; estas coisas são
vistas e entendidas por todos, reconhecidas por toda gente; mas não são
consideradas objeções, ainda que expressamente o contradigam, contra este
princípio universal de que a felicidade da vida presente consiste numa ou
noutra. De onde provêm todos estes absurdos e contradições? Não é óbvio o termo
médio? Pode algo ser mais manifesto que a felicidade da vida consiste na posse
e gozo apenas numa certa medida: de que persegui-la além dessa medida é tido
sempre como mais inconveniente do que vantajoso para o próprio homem e muitas
vezes com extrema miséria e infelicidade? De onde provêm, repito, todos estes
absurdos e contradições? Resultam realmente da consideração, feita pelos
homens, de como tornar as coisas mais fáceis para si mesmos, mais livres de
preocupações para desfrutar o principal da felicidade realizável neste mundo?
Ora, é manifesto que em ambos os casos não têm serenidade e equilíbrio
suficientes para considerar em que consiste a sua principal felicidade na
presente vida, ou então, se o consideram, não agem em conformidade com os
resultados dessa consideração, isto é, com equilíbrio em relação a si próprios
ou colocando o sereno amor-próprio acima da paixão e do apetite.
Assim, do que aparece não há
base para afirmar que aqueles princípios na natureza humana, que mais
diretamente guiam-na para promover o bem de seus semelhantes, são em maior grau
e mais geralmente violados do que aqueles que mais diretamente orientam-nos nas
promoção do bem privado e da felicidade pessoal.
O resumo do que precede é
certamente isto. A natureza do homem considerada em sua capacidade particular e
com respeito unicamente ao presente mundo, é adaptada e o conduz a alcançar a
maior felicidade que pode alcançar para si neste mundo. A natureza do homem
considerada em sua capacidade social ou pública o conduz ao correto
comportamento na sociedade, naquela direção da vida que chamamos virtude. Os
homens obedecem à sua natureza, em ambas as capacidades e aspectos, apenas numa
certa medida e não inteiramente. Suas ações não se dirigem inteiramente na
direção em que tais capacidades e aspectos os guiam. Com freqüência violam sua
natureza em ambas, isto é, tanto negligenciam seus deveres para com os
semelhantes, para os quais sua natureza os conduz, e são injuriosos, ao que sua
natureza tem aversão; quanto também há manifesta negligência do homem para com
a sua felicidade ou interesse real no presente mundo, quando aquele interesse
se contrapõe àquela presente gratificação, razão pela qual de modo negligente e
desprezível, mesmo conscientemente, são autores e instrumentos de sua própria
miséria e ruína. E assim são tão injustos consigo mesmos como para com os
outros e na maior parte o são igualmente, para ambos, pelas mesmas ações.
NOTAS
* Suponhamos que um homem
instruído esteja escrevendo um livro sério sobre a natureza humana e que,
depois de tê-la examinado em seus diversos aspectos, haja formado uma opinião
acerca do que estava considerando; entre outras coisas, o objeto considerado
teria que ser explicado; o
aparecimento, nos homens, da benevolência ou boa vontade em relação aos outros,
no estado de natureza como nos outros (Hobbes. A Natureza Humana.
Cap. 9, parágrafo 7). Recioso
de ser enganado pelas aparências exteriores, recolhe-se ao seu próprio interior
para ver exatamente de que procede, na mente do homem, essa aparência; e,
depois de profunda reflexão, declara que o princípio na mente é tão somente o
amor do poder e o prazer decorrente de seu exercício. Todos não pensariam haver
aqui a troca de uma palavra ou outra? Que o filósofo contemplava e considerava
outras ações humanas , algum outro compor tamento do homem para com o homem? E
poderia alguém achar -se plenamente satisfeito com o fato de ser realmente o
sentimento mencionado aquilo que comummente denominamos benevolência ou boa
vontade, apenas para ser levado a compreender que esse sábio teve uma hipótese
geral para a qual o surgimento da boa vontade de modo algum poderia conformar
-se? Com frequência o que tem essa aparência é simplesmente ambição; o fato de
que o deleite na superioridade muitas vezes (digamos , sempre) misture-se à
benevolência, somente torna mais plausível, dos dois, chamá-lo ambição do que
desejo ardente; mas na realidade aquela paixão não dá conta do aparecimento
integral da boa vontade melhor do que faz este apetite. Não é frequente o homem
que aparenta desejar a um outro determinado bem, que sabe não poder alcançar
para s i mesmo, regozijando-se com isto mesmo que alcançado por uma terceira pessoa?
E pode o amor do poder de alguma forma explicar tal desejo ou tal deleite? Não
é frequente verem-se homens distinguindo duas ou mais pessoas, preferindo uma à
outra, ao fazer o bem em casos nos quais o amor do poder não explica a
distinção e a preferência? Por este princípio, não se pode por outro lado,
distinguir entre objetos nem muito menos como se torna um grande exemplo e
exercício de poder fazer o bem a um ao invés de ao outro. Suponha ainda a boa
vontade na mente do homem como nada mais que deleite no exercício do poder. Os
homens poderiam ser contidos por considerações distantes e acidentais; mas
desde que estivessem removidas tais restrições teriam a disposição para o mal e
deleite em praticá-lo, como exercício e prova de poder; e esta disposição e
deleite adviriam do mesmo princípio, na mente, como a disposição para a
caridade e o deleite em praticá-la. Assim, a crueldade, como distinta da inveja
e do ressentimento, seria na mente do homem exatamente a mesma coisa que a boa
vontade; que um tenda para a felicidade de nossos semelhantes e outros para o
seu infortúnio é, parece, meramente uma circunstância acidental que a mente não
tem a mínima possibilidade de considerar. Tais são os absurdos em que podem
incidir os homens de capacidade quanto têm ocasião de negar sua natureza e
renunciar perversamente àquela imagem de Deus cunhada originalmente, cujos
traços, embora tênues, são plenamente discerníveis na mente do homem.
Se uma pessoa duvida seriamente
de que uma coisa possa ser considerada como boa vontade num homem, em relação a
outro (para o caso não interessa o seu grau de extensão mas a afeição ela
mesma), deixe observar que se o homem está assim constituído, ou de outro modo,
é mera questão de fato ou de história natural não verificável imediatamente
pela razão. Por conseguinte, deve ser avaliado e determinado do mesmo modo como
o fazemos em relação a outros fatos e questões de história natural: apelando
para os sentidos externos ou para as percepções interiores, respectivamente,
como a matéria cuja consideração é cognoscível por um ou por outro; recolhendo
argumentos de fatos e ações conhecidas; recorrendo a um grande número de ações
da mesma espécie, em diferentes circunstâncias, dizendo respeito a diferentes
objetos. Isto provará com segurança de que princípios não procedem e, com
grande probabilidade, de que princípios procedem. E, finalmente, recorrendo ao
testemunho da humanidade. A existência da benevolência, num certo grau, entre
os homens, pode ser provada de modo acabado e pleno por qualquer daquelas vias,
como possivelmente poderia ser provada a suposição de que existe essa afeição
em nossa natureza. Poderia alguém achar conveniente afirmar que o ressentimento
na mente do homem nada mais é que interesse racional pela nossa própria segurança.
Sua falsidade e a verdadeira natureza daquela paixão poderiam ser mostrados por
nenhum outro caminho além daqueles nos quais são mostrados, de que algo como a
boa vontade, num certo grau, existe no homem e entre os homens. É suficiente
que suas sementes hajam sido implantadas em nossa natureza por Deus. É admitido
que reste muito a fazer por nosso próprio coração e temperamento, para
cultivar, melhorar, trazê-lo à tona e exercitá-lo de maneira firme e uniforme.
Este é o nosso trabalho; isto é a virtude da religião.
** Todas as pessoas fazem
distinção entre o amor próprio e as diversas paixões, apetites e afeições
particulares e todavia são de novo confundidas . O fato de que sejam
completamente diferentes será visto por quem quer que distinga entre as
próprias paixões e os apetites, o esforço para alcançar os meios de sua
gratificação. Considerai o apetite da fome e o desejo de estima: ambos
apresentam ocasião tanto para o prazer como para o sofrimento, o frio amor
-próprio, do mesmo modo que as próprias paixões e apetites, podem colocar -nos
em condições de usar o método apropriado de obtenção daquele prazer, evitando
aquele sofrimento; mas os sentimentos em si mesmos, o sofrimento pela fome e
pela vergonha, e o deleite pela estima, não constituem mais amor -próprio do
que qualquer coisa no mundo. Ainda que um homem tenha aversão a si mesmo,
sentiria sofrimento pela fome como sofreria pela gota; e é inteiramente
possível supor a existência de criaturas dotadas de amor -próprio no mais alto
grau que sejam insensíveis e indiferentes (como o são os homens em certas
circunstâncias) ao desprezo e à estima daqueles de que sua felicidade não
depende a qualquer respeito. E como o amor-próprio e as diversas paixões e
apetites particulares são em si mesmos completamente diferentes, assim o fato
que algumas ações procedem de um e algumas das outras será manifesto a quem
quer que observe os seguintes exemplos, muito plausíveis. Um homem atira-se à
ruína certa pela gratificação de um desejo presente; ninguém chamará de
amor-próprio o princípio dessa ação. Suponha um outro homem que se lança a
trabalho laborioso diante da promessa de grande recompensa, sem qualquer
conhecimento do que pudesse ser tal recompensa; o curso dessa ação não pode ser
atribuído a qualquer paixão em particular.
A primeira dessas ações pode
ser imputada, com certeza, a alguma paixão ou afeição particulares; a segunda
certamente à afeição ou princípio geral do amor -próprio. O fato de que alguma
busca por uma ação particular, em relação à qual não podemos determinar em que
medida é devida a um ou a outro, procede disto, isto é, de que os dois
princípios estão com frequência misturados e um acrescido ao outro.
*** Se se deseja ver esta
distinção e comparação tomadas num exemplo particular, o apetite e a paixão ora
mencionados servem para isto. A fome deve ser considerada como um apetite
privado; porque o fim para o qual nos foi dado é a preservação do indivíduo.
O desejo de estima é uma paixão
pública; porque o fim para o qual nos foi dado é o de regular nosso
comportamento em relação à sociedade. A relação que um tem para com o bem
privado é tão remota quanto a outra tem para o bem público; e o apetite não é
amor-próprio do mesmo modo que a paixão não é benevolência. O objeto e o fim do
primeiro são apenas a comida; o objeto e o fim do segundo são apenas a estima,
mas esta não pode ser gratificada sem contribuir para o bem da sociedade; da
mesma forma que não pode ser gratificada sem contribuir para a preservação do
indivíduo.
**** A emulação é simplesmente
o desejo e a esperança de igualdade ou superioridade sobre os outros, com os
quais comparamos a nós mesmos. Não parece haver mais pesar nesta paixão natural
do que a carência que está implicada no desejo. Contudo, pode ser tão forte que
ocasione grandes pesares. Desejar a obtenção dessa igualdade ou superioridade,
pelos meios particulares, aptos a reduzir os outros ao nosso próprio nível, ou
abaixo dele, é, penso eu, o caráter distintivo da inveja. De onde é fácil ver
que o fim real da emulação, como paixão natural, e o que tem de ilícito a
inveja, correspondem exatamente ao mesmo desígnio, precisamente aquela
igualdade ou superioridade; e, consequentemente, causar dano não é o fim da
inveja, mas simplesmente o meio a que recorre para alcançar esse fim.
Transcrito de “Os Sermões
sobre a Natureza Humana", de Joseph Butler.
Tradução de Antonio Paim.
Revisão de Anna Maria Moog Rodrigues.
Joseph
Butler (18 de Maio de 1692 - 16 de Junho de 1752).
Um
destacado opositor do deísmo no século XVIII, que recebeu bastante crédito na
sua defesa da posição teísta.
Nasceu num lar presbiteriano em
Wantage, Berkshire, na Inglaterra, e foi destinado para o ministério
presbiteriano, mas preferiu não compartilhar a sua sorte com os
não-conformistas, e entrou para o ministério da Igreja da Inglaterra
(Anglicana). Depois de estudar em Oxford, foi ordenado em 1718. Foi pregador da
Capela Rolls, em Londres (1719-26), pároco de Haughton-le-Skerne (1721-25),
pároco de Stanhope (1725-40), capelão do Presidente da Câmara dos Pares
(1733-36), clérigo particular da rainha Carolina (1736-37), bispo de Bristol
(1738-50), cónego da Catedral de "St. Paul" (1740-50), clérigo
particular do rei George II (1746-50) e bispo de Durham, a mais rica sé da
Inglaterra, (1750-52).
Recusou o arcebispado de
Cantuária em 1747. Pela lista acimareferida, fica claro que ele era um
pluralista, isto é, detinha mais de um cargo eclesiástico ao mesmo tempo. Além
disso, recebia vários estipêndios da igreja. Contudo, não era ganancioso, pelo
contrário era conhecido pela sua generosidade. Era um homem acanhado e
sensível, e nunca se casou.
Fica claro, também, que Butler
desfrutava de altas posições na Inglaterra, tanto na Igreja como no Estado.
Butler viveu durante a "era
de ouro do deísmo inglês", e procurava solapar a base dos oponentes
deístas. O seu grande esforço literário composto com tal finalidade foi “The
Analogy of Religion Natural and Revealed to the Constitution and Course
of Nature” ("A Analogia das Religiões Natural e Revelada à Constituição e
ao Decurso da Natureza" - 1736). Ele adotou a posição de que a ordem na
natureza tem o seu paralelo na ordem da revelação, concluindo que Deus era o
autor das duas. Argumentava que a ordem e a beleza da natureza revelam uma
inteligência criadora que tinha em vista algum desígnio consciente. Este livro
era tão influente que fez mais do que qualquer outra obra para derrotar o
deísmo, e por muitas gerações, foi um texto sobre a apologética adotado nas
faculdades e nos seminários.
Butler também era intensamente
prático, conforme demonstram os seus “Fifteen Sermons Preached at the Rolls
Chapel ("Quinze Sermões Pregados na Capela Rolls" - 1726). Nestes
sermões procurava justificar aos homens práticos o exercício de virtudes comuns
(a benevolência, a compaixão e outras tantas). A natureza prática também
dominou os seus “Six Sermons” ("Seis Sermões"), um dos quais era uma
defesa das missões no estrangeiro, e outro, um apelo a favor dos hospitais de
Londres. A maioria dos seus outros escritos foi destruída depois da sua morte,
de conformidade com as suas instruções.

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