… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

PRIMEIRO SERMÃO de Joseph Butler


 O Bispo Anglicano Joseph Butler,
 um autor de referência no seu tempo


PRIMEIRO SERMÃO
de 
Joseph Butler

Transcrito de "Os Sermões sobre a Natureza Humana", de Joseph Butler

Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.” (Rm 12:4-5 ARC, Pt)

As Epístolas do Novo Testamento fazem todas referência especial à condição e aos costumes do mundo cristão à época em que foram escritas. Por conseguinte, somente podem ser apreendidas plenamente, se aquela condição e aqueles costumes forem compreendidos e levados em conta; ainda mais, desde que os conheçamos, importa ainda determinar se tiveram continuidade ou se vieram a modificar -se; exortações, preceitos e exemplos, referidos àquelas circunstâncias e que hoje desapareceram ou se alteraram, não podem em nosso tempo ser recomendados naquela maneira e com a força que tinham para os cristãos primitivos. Assim, o texto que temos agora diante de nós, em sua intenção e propósito originais, refere-se ao governo decente daquelas extraordinárias dádivas que se encontravam na Igreja mas que atualmente desapareceram de todo.

Exatamente como a alusão de que "somos um só corpo em Cri sto", embora o que o apóstolo tivesse em vista seja igualmente verdadeiro para os cristãos em todas as circunstâncias e esta consideração ainda constitua motivo adicional, independente e acima de considerações morais, para desempenho de todos os deveres e obrigações de um cristão; ainda assim é manifesto que essa alusão devia aparecer com muito maior força àqueles que, pelas muitas dificuldades que iriam atravessar por causa de sua religião, eram instados a guardar sempre a relação que mantinham com o seu Salvador, que experimentavam o mesmo, àqueles que, em face das idolatrias que todos nutriam em seu derredor e dos seus maus tratos, eram ensinados a considerar -se como não pertencentes ao mundo em que viviam mas como uma sociedade distinta, com leis, fins e princípios de ação completamente contrários aos que o mundo professava naquele tempo, Por isso, as relações entre os cristãos eram por eles mesmos consideradas mais próximas que aquelas provenientes da afinidade ou do sangue; e eles quase literalmente julgavam a si próprios como membros uns dos outros.

Com efeito, possivelmente, não poderá ser negado que, como criatura de Deus , sendo a virtude a lei natural, sob a qual nascemos, achando-se a isto claramente adaptada à inteira constituição do homem, sejam obrigações prioritárias a piedade e a virtude ao invés da consideração de que Deus mandou seu filho ao mundo para salvá-lo, bem como dos motivos que provêm das relações particulares dos cristãos, como membros uns dos outros sob Cristo nosso chefe. Contudo, ainda que tudo isso seja admissível, como o é por escritores inspirados, ainda assim torna-se claro que os cristãos no tempo da revelação, e imediatamente após, não podiam deixar de insistir preferentemente sobre considerações dessa última espécie.

Essas observações mostram a referência particular original do texto; e a força peculiar com que a coisa visada pela alusão nele contida deve ter sido percebida pelo mundo cristão primitivo. Do mesmo modo, eles proporcionam uma razão para considerá-la agora de uma forma mais geral.

A relação que as diversas partes ou membros de uma pessoa natural guardam uma em face da outra e do corpo como um todo é aqui comparada com a relação que cada pessoa, na sociedade, mantém com outras pessoas particulares e com toda a sociedade, sendo a última ilustrada pela primeira. E se há uma semelhança entre essas duas relações, a consequência é óbvia: que a última nos mostra que somos também obrigados a fazer o bem para os outros, do mesmo modo como a anterior nos sugere que todos os membros do corpo natural são instados a ser instrumentos do bem para todo outro e para o corpo inteiro. Mas como são ali escassos os elementos e materiais para uma comparação entre a sociedade e o simples corpo material, sendo este, sem o pensamento, uma coisa morta e inativa, a comparação deixa assim de aplicar -se em toda a dimensão. E desde que o apóstolo fala aos diversos membros como tendo distintas atribuições, que implicam o pensamento, isto não pode dar -se em presença de completa liberdade, a não ser que em lugar de o corpo e seus membros coloquemos a inteira natureza do homem e toda a variedade dos princípios internos que a ela pertencem. E então a comparação será entre a natureza do homem dizendo respeito a si mesmo, e tendendo para o próprio bem, preservação e felicidade; e a natureza do homem dizendo respeito à sociedade e tendendo a promover o bem público e a felicidade daquela sociedade. Esses fins, com efeito, são perfeitamente coincidentes; a aspirar tanto ao bem público como ao privado acha-se tão distante de ser inconsistente que se promovem mutuamente. Mesmo assim, no discurso que subsequentemente se segue, elas terão que ser consideradas como inteiramente distintas; ao contrário, a natureza do homem como tendendo para um ou para outro, não poderá ser comparada. Não se podem fazer comparações sem considerar as coisas comparadas como distintas e diferentes.

Deste exame e comparação da natureza do homem, como dizendo respeito a si mesmo e como dizendo respeito à sociedade, aparecerá plenamente que aflora de modo real a mesma espécie de indicações da natureza humana, de que fomos feitos para a sociedade e para o bem de nossos semelhantes; como também que devemos ser zelosos de nossa própria vida, saúde e bem privados. e que as objeções que existem para essas afirmações servem tanto para uma quanto para outra. As sim:

Primeiro, existe no homem um princípio natural de benevolência*, que em certa medida representa para a sociedade o que o amor -próprio significa para o indivíduo. E se existe na humanidade alguma disposição para a amizade; se existe algo como a compaixão, que é o amor momentâneo; se existe algo como as afeições paternal e filial; se há alguma afeição na natureza humana, cujos objetos e fim sejam o bem do outro, isto será a própria benevolência ou o amor do outro. Quer seja breve, quer esteja em grau reduzido, quer se encontre infelizmente reprimido, isto prova a afirmação e revela para que fomos designados, da mesma forma que se estivesse realmente em maior grau e extensão. Devo contudo lembrar que, embora benevolência e amor -próprio sejam diferentes; embora a primeira tenda mais diretamente para o bem público e o outro para o privado, são de fato tão perfeitamente coincidentes que as maiores satisfações que possamos ter dependem de que tenhamos benevolência no grau devido, e que o amor -próprio seja um guia seguro para o nosso adequado comportamento em relação à sociedade. Pode-se aduzir que sua mútua coincidência, de tal sorte que dificilmente podemos promover uma sem a outra, seja igualmente uma prova de que fomos feitos para ambos.

Segundo, aparecerá, além disto, da observação das diversas paixões e afeições , que são distintas** tanto da benevolência quanto do amor -próprio que elas contribuem e guiam-nos em geral para o bem público do mesmo modo que para o privado. Poderia parecer uma reflexão muito detalhada e particular, podendo levar -nos muito longe, distinguir e comparar as diversas paixões e apetites distintos da benevolência, cujo uso e intenção originais consistem na segurança e no bem da sociedade as paixões distintas do amor -próprio cuja intenção e desígnio originais são a segurança e o bem do indivíduo.*** É suficiente para a presente argumentação que o desejo da estima dos outros, o desprezo e a estima deles, o amor da sociedade como distinto da afeição voltada para o seu bem, a indignação contra o vício bem-sucedido, que são afeições ou paixões públicas, dizendo respeito imediatamente aos outros, levam-nos naturalmente a regular nosso comportamento de tal maneira que esteja a serviço de nossos semelhantes. Se algumas ou todas elas podem ser consideradas de igual modo como afeições privadas, como tendendo para o bem privado, isto não as priva de ser igualmente afeições públicas. Pode-se aduzir que pessoas sem nenhuma convicção de que a vida seja desejável certamente a preservariam tão somente em decorrência do apetite da fome; assim agindo apenas com vistas (supostamente) à reputação, sem qualquer consideração pelo bem dos outros, o homem muitas vezes contribui para o bem público. Em ambos os exemplos os homens são claramente instrumentos, em mãos de um outro, em mãos da Providência, para alcançar os fins, a preservação do bem individual e da sociedade, que eles mesmos não têm em vista ou a intenção de alcançar. Em resumo, o homem tem vários apetites, paixões e afeições particulares, todas completamente distintas do amor -próprio e da benevolência: todas têm a tendência a promover o bem público e o privado, podendo ser considerados tanto em relação aos outros e a nós mesmos como iguais e comuns. Mas algumas delas parecem dizer mais de imediato respeito aos outros, ou tendem para o bem público; outras mais imediatamente para o bem próprio e privado, e assim como as primeiras não são benevolência, os subsequentes não são amor-próprio. Nenhuma das espécies é exemplo de nosso amor pelos outros ou dos outros por nós mas somente exemplos dos cuidados e do amor de nosso Mestre tanto aos indivíduos como às espécies e prova de que Ele tencionava fazer -nos instrumentos do bem uns dos outros do mesmo modo como deveríamos sê-lo para nós mesmos.

Terceiro, há um princípio de reflexão nos homens pelo qual eles distinguem entre si, aprovam ou desaprovam suas próprias ações. Nós somos certamente constituídos como uma espécie de criaturas aptas a refletir sobre nossa própria natureza. O pensamento pode ter um ponto de vista acerca do que se passa connosco mesmo, as propensões, aversões , paixões, afeições, como dizendo respeito a determinados objetos e em determinados graus: e as diversas ações consequentes que delas decorrem. Neste exame, aprova uma e desaprova outra e, em relação a uma terceira, não é afetada por nenhuma dessas formas, sendo-lhe inteiramente indiferente. Este princípio no homem, pelo qual ele aprova ou desaprova seu coração, temperamento e ações é a consciência, isto no sentido estrito do termo, embora algumas vezes seja usado em sentido mais amplo. E que esta faculdade tende a impedir os homens de fazer o mal aos outros, guiando-os para o bem, é tão manifesto que se torna desnecessário insistir. Assim, o pai tem a afeição do amor por seus filhos: isto leva-o a cuidar deles, educá-los , a fazer provisões para eles, a afeição natural leva-o a isto, mas a reflexão de que isto é uma atitude adequada, de que lhe é próprio, que é correto e recomendável fazê-lo, isto faz com que a afeição se torne um princípio muito mais harmonioso e leva-o a dedicar mais trabalho e a vencer as dificuldades em proveito de seus filhos, do que experimentaria em relação aos filhos a partir apenas da afeição ou se a encarasse e ao curso da ação como indiferente ou criminosa. Deveras é impossível fazer o bem e não aprová-lo, razão pela qual frequentemente não são consideradas distintas estas duas coisas , embora na verdade o sejam: porque os homens muitas vezes aprovam as ações dos outros, que não imitarão, do mesmo modo que farão o que não aprovam. Não poderá ser de forma alguma negado que existe o princípio da reflexão ou da consciência na natureza humana. Suponhamos um homem que socorra uma pessoa inocente em grande apuro; suponhamos o mesmo homem, mais tarde, no auge da raiva, causando um grande mal a uma pessoa que não deu causa justificável para a ofensa; para agravar a injúria, agregue-se a circunstância de uma velha amizade e de obrigações em relação à pessoa ofendida.

Deixai o homem que supostamente praticou estas duas diferentes ações refletir sobre elas, de modo frio, posteriormente, sem considerar as consequências advindas para si próprio.

Afirmar que um homem comum seria afetado da mesma forma por essas diferentes ações, que não faria distinção entre elas, aprovando-as ou desaprovando-as da mesma forma, corresponderia à falsidade tão evidente que não precisa ser contestado. Por conseguinte, existe este princípio da reflexão ou da consciência na humanidade. Não adiante comparar a relação que tem para com o bem privado com aquela que tem em face do bem público, já que claramente tende igualmente para o último como para o primeiro e é pensamento comum que tende principalmente para o último. Esta faculdade é mencionada agora meramente como uma outra parte da forma interior do homem, revelando-nos em certa medida para que fomos feitos e como naturalmente e sem dúvida tem alguma influência.

O lugar especial que a natureza lhe designou, que autoridade tem e como é grande a autoridade que deve ter, será considerado adiante. Dessa comparação da benevolência e do amor -próprio, de nossas afeições públicas e privadas, dos cursos da vida a que conduzem, e do princípio da reflexão e da consciência como dizendo respeito a cada uma delas, torna manifesto que fomos feitos para a sociedade e a fim de promover a sua felicidade, do mesmo modo como para cuidar de nossa própria vida, saúde e bens privados.

E deste comentário geral pode ser dado, da natureza humana, esboço diferente daquele que é apresentado com frequência. A humanidade por sua natureza é tão estritamente una, há tanta correspondência entre as sensações internas de um homem como de outro, que a desonra é tão aviltada quanto a dor física e ser objeto da estima e do amor é considerado tão desejável quanto a posse de bens concretos. Em muitos casos particulares, as pessoas são levadas a fazer o bem uns aos outros como aquele fim para o qual tende sua afeição e é manifesto que encontrem real satisfação e prazer nesse encaminhamento do comportamento. De modo semelhante, existe o princípio natural da atração do homem em relação aos outros, de sorte que tendo trilhado os mesmos espaços da terra, respirado sob o mesmo clima, tendo apenas nascido nos mesmos distritos ou divisões artificiais, tornam isto ocasião de travar relações e estabelecer familiaridade muitos anos depois, pois qualquer coisa serve ao desígnio. Estas relações meramente nominais foram buscadas e inventadas não pelos governos, mas pelo povo humilde, que encontrou forças suficientes para manter unida a humanidade em pequenas fraternidades e comunidades; são laços deveras fracos e podem proporcionar motivo bastante para serem ridicularizados se forem considerados absurdamente como o princípio real daquela união; mas na verdade são apenas ocasiões, se considerarmos que alguma coisa pode provir de alguma outra. Nossa natureza nos conduz de acordo com suas próprias inclinações e tendências e a ocasião poderia nada significar não fosse essa disposição anterior e tendência da natureza. Os homens são tanto uma só pessoa que sentem de uma maneira peculiar por cada um outro, vergonha, perigo iminente, ressentimento, honra, prosperidade, tristeza; um ou outro, ou todos eles, da natureza social em geral, da benevolência, por ocasião da relação natural do conhecimento, proteção, dependência, cada um deles sendo distinta argamassa da sociedade. E, por conseguinte, não ter restrições, não considerar os outros em nosso comportamento, corresponde ao absurdo de considerarmo-nos como criaturas singulares e independentes, como nada tendo em nossa natureza que diga respeito aos nossos semelhantes, na ação e na prática. E tão absurdo quanto considerar a mão, ou outro qualquer membro, como não dizendo respeito, por sua natureza, ao corpo inteiro.

Mas, admitindo-se tudo isto, pode-se perguntar: "O homem não tem disposições e princípios interiores que o levam a fazer o mal aos outros, do mesmo modo como o bem? De onde vêm adicionalmente as muitas mi sérias praticadas contra os outros de que os homens são autores e instrumentos? Estas inquirições, por mais que digam respeito às questões anteriores, podem ser respondidas perguntando: Não tem o homem também disposições e princípio interiores que o levam a fazer o mal a si mesmo, do mesmo modo que o bem? De onde vêm adicionalmente as muitas misérias, doenças, penas e mortes praticadas contra si mesmo, de que os homens são autores e instrumentos?

Pode-se pensar que seja mais fácil responder a uma dessas questões que à outra, mas a resposta a ambas é a mesma; que a humanidade tem paixões incontroladas a que cederá a qualquer preço, tanto para a injúria aos outros como para contrapor -se a interesse privado conhecido. Mas assim como não existe algo que se possa chamar de aversão a si mesmo, tampouco existe algo como má vontade de um homem em relação a outro, excetuando-se o caso da emulação e do ressentimento. Considerando que há certamente benevolência ou boa vontade, nada há como o amor pela injustiça, a opressão, a traição, a ingratidão; o que há é a presença excessiva de desejos ansiosos em relação a tais e quais bens exteriores, os quais, de acordo com uma observação muito antiga, o mais dissoluto preferiria obter por meios inocentes, se fossem acessíveis e eficazes em relação a seus fins. Até mesmo a emulação e o ressentimento, se forem consideradas essas paixões realmente em sua própria natureza, nada encontrarão nelas para confirmar essa objeção: os princípios e paixões na mente do homem, que são dis tintos tanto do amor-próprio como da benevolência, primeiro e mais diretamente levam ao comportamento adequado, em relação aos outros e a si mesmo, e só secundária e acidentalmente para o que é mau. Assim, embora os homens, para escapar da vergonha de um ato vil, sejam às vezes culpados de coisas piores, ainda assim é fácil ver que a tendência original da vergonha é prevenir ações vergonhosas e se levam os homens a esconder algumas ações no momento em que as praticam,. é somente em consequência de tê-lo feito, isto é, de que a paixão não haja atendido a seu primeiro fim.

Se for dito que há no mundo pessoas que se acham, em grande maioria, sem afeições naturais por seus semelhantes, há do mesmo modo espécies de pessoas sem afeições naturais e comuns para consigo próprias. Mas a natureza do homem não é para ser julgada por alguns deles mas pelo que aparece no mundo comum, no conjunto da humanidade.

Temo que pareceria muito estranho, se para confirmar a verdade desse juízo da natureza humana e compreender a justeza das comparações anteriores fosse aduzido que, do que aparece, o homem de fato muitas vezes contradiz a parte de sua natureza que diz respeito a si próprio, e que o leva a seu bem privado e à sua felicidade, como contradiz aquela parte que diz respeito à sociedade e tende para o bem público, porquanto existem tão poucas pessoas que alcançam a maior satisfação e contentamento que se possa obter neste mundo quanto existem pessoas que fazem aos outros o maior bem que esteja a seu alcance e, por outro lado, há tão poucas pessoas das quais se poder ia dizer que realmente e de modo fervoroso aspiram a um ideal como a outro. Proceda-se a um exame da humanidade: o mundo em geral, os bons e os maus, todos sem exceção estão de acordo em que, deixando de lado a religião, a felicidade da vida presente consistiria
inteiramente na riqueza, honra, satisfações sensuais, tanto assim que raramente se ouve uma reflexão acerca da prudência, da vida ou da conduta, a não ser baseada nessa suposição. Mas muito pelo contrário, há pessoas que na maior afluência da fortuna não estão mais felizes do que se tivessem apenas o suficiente; cujas preocupações e os dissabores da ambição, na maior parte dos casos, excedem as satisfações auferidas como também os miseráveis intervalos de intemperança e excesso e as muitas mortes prematuras ocasionadas por uma vida dissoluta; estas coisas são vistas e entendidas por todos, reconhecidas por toda gente; mas não são consideradas objeções, ainda que expressamente o contradigam, contra este princípio universal de que a felicidade da vida presente consiste numa ou noutra. De onde provêm todos estes absurdos e contradições? Não é óbvio o termo médio? Pode algo ser mais manifesto que a felicidade da vida consiste na posse e gozo apenas numa certa medida: de que persegui-la além dessa medida é tido sempre como mais inconveniente do que vantajoso para o próprio homem e muitas vezes com extrema miséria e infelicidade? De onde provêm, repito, todos estes absurdos e contradições? Resultam realmente da consideração, feita pelos homens, de como tornar as coisas mais fáceis para si mesmos, mais livres de preocupações para desfrutar o principal da felicidade realizável neste mundo? Ora, é manifesto que em ambos os casos não têm serenidade e equilíbrio suficientes para considerar em que consiste a sua principal felicidade na presente vida, ou então, se o consideram, não agem em conformidade com os resultados dessa consideração, isto é, com equilíbrio em relação a si próprios ou colocando o sereno amor-próprio acima da paixão e do apetite.

Assim, do que aparece não há base para afirmar que aqueles princípios na natureza humana, que mais diretamente guiam-na para promover o bem de seus semelhantes, são em maior grau e mais geralmente violados do que aqueles que mais diretamente orientam-nos nas promoção do bem privado e da felicidade pessoal.

O resumo do que precede é certamente isto. A natureza do homem considerada em sua capacidade particular e com respeito unicamente ao presente mundo, é adaptada e o conduz a alcançar a maior felicidade que pode alcançar para si neste mundo. A natureza do homem considerada em sua capacidade social ou pública o conduz ao correto comportamento na sociedade, naquela direção da vida que chamamos virtude. Os homens obedecem à sua natureza, em ambas as capacidades e aspectos, apenas numa certa medida e não inteiramente. Suas ações não se dirigem inteiramente na direção em que tais capacidades e aspectos os guiam. Com freqüência violam sua natureza em ambas, isto é, tanto negligenciam seus deveres para com os semelhantes, para os quais sua natureza os conduz, e são injuriosos, ao que sua natureza tem aversão; quanto também há manifesta negligência do homem para com a sua felicidade ou interesse real no presente mundo, quando aquele interesse se contrapõe àquela presente gratificação, razão pela qual de modo negligente e desprezível, mesmo conscientemente, são autores e instrumentos de sua própria miséria e ruína. E assim são tão injustos consigo mesmos como para com os outros e na maior parte o são igualmente, para ambos, pelas mesmas ações.

NOTAS

* Suponhamos que um homem instruído esteja escrevendo um livro sério sobre a natureza humana e que, depois de tê-la examinado em seus diversos aspectos, haja formado uma opinião acerca do que estava considerando; entre outras coisas, o objeto considerado
teria que ser explicado; o aparecimento, nos homens, da benevolência ou boa vontade em relação aos outros, no estado de natureza como nos outros (Hobbes. A Natureza Humana.

Cap. 9, parágrafo 7). Recioso de ser enganado pelas aparências exteriores, recolhe-se ao seu próprio interior para ver exatamente de que procede, na mente do homem, essa aparência; e, depois de profunda reflexão, declara que o princípio na mente é tão somente o amor do poder e o prazer decorrente de seu exercício. Todos não pensariam haver aqui a troca de uma palavra ou outra? Que o filósofo contemplava e considerava outras ações humanas , algum outro compor tamento do homem para com o homem? E poderia alguém achar -se plenamente satisfeito com o fato de ser realmente o sentimento mencionado aquilo que comummente denominamos benevolência ou boa vontade, apenas para ser levado a compreender que esse sábio teve uma hipótese geral para a qual o surgimento da boa vontade de modo algum poderia conformar -se? Com frequência o que tem essa aparência é simplesmente ambição; o fato de que o deleite na superioridade muitas vezes (digamos , sempre) misture-se à benevolência, somente torna mais plausível, dos dois, chamá-lo ambição do que desejo ardente; mas na realidade aquela paixão não dá conta do aparecimento integral da boa vontade melhor do que faz este apetite. Não é frequente o homem que aparenta desejar a um outro determinado bem, que sabe não poder alcançar para s i mesmo, regozijando-se com isto mesmo que alcançado por uma terceira pessoa? E pode o amor do poder de alguma forma explicar tal desejo ou tal deleite? Não é frequente verem-se homens distinguindo duas ou mais pessoas, preferindo uma à outra, ao fazer o bem em casos nos quais o amor do poder não explica a distinção e a preferência? Por este princípio, não se pode por outro lado, distinguir entre objetos nem muito menos como se torna um grande exemplo e exercício de poder fazer o bem a um ao invés de ao outro. Suponha ainda a boa vontade na mente do homem como nada mais que deleite no exercício do poder. Os homens poderiam ser contidos por considerações distantes e acidentais; mas desde que estivessem removidas tais restrições teriam a disposição para o mal e deleite em praticá-lo, como exercício e prova de poder; e esta disposição e deleite adviriam do mesmo princípio, na mente, como a disposição para a caridade e o deleite em praticá-la. Assim, a crueldade, como distinta da inveja e do ressentimento, seria na mente do homem exatamente a mesma coisa que a boa vontade; que um tenda para a felicidade de nossos semelhantes e outros para o seu infortúnio é, parece, meramente uma circunstância acidental que a mente não tem a mínima possibilidade de considerar. Tais são os absurdos em que podem incidir os homens de capacidade quanto têm ocasião de negar sua natureza e renunciar perversamente àquela imagem de Deus cunhada originalmente, cujos traços, embora tênues, são plenamente discerníveis na mente do homem.

Se uma pessoa duvida seriamente de que uma coisa possa ser considerada como boa vontade num homem, em relação a outro (para o caso não interessa o seu grau de extensão mas a afeição ela mesma), deixe observar que se o homem está assim constituído, ou de outro modo, é mera questão de fato ou de história natural não verificável imediatamente pela razão. Por conseguinte, deve ser avaliado e determinado do mesmo modo como o fazemos em relação a outros fatos e questões de história natural: apelando para os sentidos externos ou para as percepções interiores, respectivamente, como a matéria cuja consideração é cognoscível por um ou por outro; recolhendo argumentos de fatos e ações conhecidas; recorrendo a um grande número de ações da mesma espécie, em diferentes circunstâncias, dizendo respeito a diferentes objetos. Isto provará com segurança de que princípios não procedem e, com grande probabilidade, de que princípios procedem. E, finalmente, recorrendo ao testemunho da humanidade. A existência da benevolência, num certo grau, entre os homens, pode ser provada de modo acabado e pleno por qualquer daquelas vias, como possivelmente poderia ser provada a suposição de que existe essa afeição em nossa natureza. Poderia alguém achar conveniente afirmar que o ressentimento na mente do homem nada mais é que interesse racional pela nossa própria segurança. Sua falsidade e a verdadeira natureza daquela paixão poderiam ser mostrados por nenhum outro caminho além daqueles nos quais são mostrados, de que algo como a boa vontade, num certo grau, existe no homem e entre os homens. É suficiente que suas sementes hajam sido implantadas em nossa natureza por Deus. É admitido que reste muito a fazer por nosso próprio coração e temperamento, para cultivar, melhorar, trazê-lo à tona e exercitá-lo de maneira firme e uniforme. Este é o nosso trabalho; isto é a virtude da religião.

** Todas as pessoas fazem distinção entre o amor próprio e as diversas paixões, apetites e afeições particulares e todavia são de novo confundidas . O fato de que sejam completamente diferentes será visto por quem quer que distinga entre as próprias paixões e os apetites, o esforço para alcançar os meios de sua gratificação. Considerai o apetite da fome e o desejo de estima: ambos apresentam ocasião tanto para o prazer como para o sofrimento, o frio amor -próprio, do mesmo modo que as próprias paixões e apetites, podem colocar -nos em condições de usar o método apropriado de obtenção daquele prazer, evitando aquele sofrimento; mas os sentimentos em si mesmos, o sofrimento pela fome e pela vergonha, e o deleite pela estima, não constituem mais amor -próprio do que qualquer coisa no mundo. Ainda que um homem tenha aversão a si mesmo, sentiria sofrimento pela fome como sofreria pela gota; e é inteiramente possível supor a existência de criaturas dotadas de amor -próprio no mais alto grau que sejam insensíveis e indiferentes (como o são os homens em certas circunstâncias) ao desprezo e à estima daqueles de que sua felicidade não depende a qualquer respeito. E como o amor-próprio e as diversas paixões e apetites particulares são em si mesmos completamente diferentes, assim o fato que algumas ações procedem de um e algumas das outras será manifesto a quem quer que observe os seguintes exemplos, muito plausíveis. Um homem atira-se à ruína certa pela gratificação de um desejo presente; ninguém chamará de amor-próprio o princípio dessa ação. Suponha um outro homem que se lança a trabalho laborioso diante da promessa de grande recompensa, sem qualquer conhecimento do que pudesse ser tal recompensa; o curso dessa ação não pode ser atribuído a qualquer paixão em particular.

A primeira dessas ações pode ser imputada, com certeza, a alguma paixão ou afeição particulares; a segunda certamente à afeição ou princípio geral do amor -próprio. O fato de que alguma busca por uma ação particular, em relação à qual não podemos determinar em que medida é devida a um ou a outro, procede disto, isto é, de que os dois princípios estão com frequência misturados e um acrescido ao outro.

*** Se se deseja ver esta distinção e comparação tomadas num exemplo particular, o apetite e a paixão ora mencionados servem para isto. A fome deve ser considerada como um apetite privado; porque o fim para o qual nos foi dado é a preservação do indivíduo.

O desejo de estima é uma paixão pública; porque o fim para o qual nos foi dado é o de regular nosso comportamento em relação à sociedade. A relação que um tem para com o bem privado é tão remota quanto a outra tem para o bem público; e o apetite não é amor-próprio do mesmo modo que a paixão não é benevolência. O objeto e o fim do primeiro são apenas a comida; o objeto e o fim do segundo são apenas a estima, mas esta não pode ser gratificada sem contribuir para o bem da sociedade; da mesma forma que não pode ser gratificada sem contribuir para a preservação do indivíduo.

**** A emulação é simplesmente o desejo e a esperança de igualdade ou superioridade sobre os outros, com os quais comparamos a nós mesmos. Não parece haver mais pesar nesta paixão natural do que a carência que está implicada no desejo. Contudo, pode ser tão forte que ocasione grandes pesares. Desejar a obtenção dessa igualdade ou superioridade, pelos meios particulares, aptos a reduzir os outros ao nosso próprio nível, ou abaixo dele, é, penso eu, o caráter distintivo da inveja. De onde é fácil ver que o fim real da emulação, como paixão natural, e o que tem de ilícito a inveja, correspondem exatamente ao mesmo desígnio, precisamente aquela igualdade ou superioridade; e, consequentemente, causar dano não é o fim da inveja, mas simplesmente o meio a que recorre para alcançar esse fim.

Transcrito de “Os Sermões sobre a Natureza Humana", de Joseph Butler. 
Tradução de Antonio Paim.
Revisão de Anna Maria Moog Rodrigues.

Joseph Butler (18 de Maio de 1692 - 16 de Junho de 1752).
Um destacado opositor do deísmo no século XVIII, que recebeu bastante crédito na sua defesa da posição teísta.
Nasceu num lar presbiteriano em Wantage, Berkshire, na Inglaterra, e foi destinado para o ministério presbiteriano, mas preferiu não compartilhar a sua sorte com os não-conformistas, e entrou para o ministério da Igreja da Inglaterra (Anglicana). Depois de estudar em Oxford, foi ordenado em 1718. Foi pregador da Capela Rolls, em Londres (1719-26), pároco de Haughton-le-Skerne (1721-25), pároco de Stanhope (1725-40), capelão do Presidente da Câmara dos Pares (1733-36), clérigo particular da rainha Carolina (1736-37), bispo de Bristol (1738-50), cónego da Catedral de "St. Paul" (1740-50), clérigo particular do rei George II (1746-50) e bispo de Durham, a mais rica sé da Inglaterra, (1750-52).
Recusou o arcebispado de Cantuária em 1747. Pela lista acimareferida, fica claro que ele era um pluralista, isto é, detinha mais de um cargo eclesiástico ao mesmo tempo. Além disso, recebia vários estipêndios da igreja. Contudo, não era ganancioso, pelo contrário era conhecido pela sua generosidade. Era um homem acanhado e sensível, e nunca se casou.
 Fica claro, também, que Butler desfrutava de altas posições na Inglaterra, tanto na Igreja como no Estado.
Butler viveu durante a "era de ouro do deísmo inglês", e procurava solapar a base dos oponentes deístas. O seu grande esforço literário composto com tal finalidade foi “The Analogy of Religion Natural and Revealed to the Constitution and Course of Nature” ("A Analogia das Religiões Natural e Revelada à Constituição e ao Decurso da Natureza" - 1736). Ele adotou a posição de que a ordem na natureza tem o seu paralelo na ordem da revelação, concluindo que Deus era o autor das duas. Argumentava que a ordem e a beleza da natureza revelam uma inteligência criadora que tinha em vista algum desígnio consciente. Este livro era tão influente que fez mais do que qualquer outra obra para derrotar o deísmo, e por muitas gerações, foi um texto sobre a apologética adotado nas faculdades e nos seminários.
Butler também era intensamente prático, conforme demonstram os seus “Fifteen Sermons Preached at the Rolls Chapel ("Quinze Sermões Pregados na Capela Rolls" - 1726). Nestes sermões procurava justificar aos homens práticos o exercício de virtudes comuns (a benevolência, a compaixão e outras tantas). A natureza prática também dominou os seus “Six Sermons” ("Seis Sermões"), um dos quais era uma defesa das missões no estrangeiro, e outro, um apelo a favor dos hospitais de Londres. A maioria dos seus outros escritos foi destruída depois da sua morte, de conformidade com as suas instruções.

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